Entrou para a história dos festivais a ovação e os quase vinte minutos de aplausos recebidos em Cannes, no ano passado, pelo filme norueguês Valor sentimental, realizado por Joachim Trier. Mesmo assim, o filme perdeu a Palma de Ouro, recebida por Jafar Panahi, cineasta iraniano, por outro filme que merece ser incluído entre os melhores dos últimos tempos, Foi apenas um acidente, realizado por um diretor perseguido, preso e agora exilado. Mas o júri concedeu ao escandinavo o seu Prêmio Especial, uma forma de distinguir também outra obra excepcional. Claramente bergmaniano, Trier deve ter visto A flauta mágica, que Ingmar Bergman realizou em 1975, baseado no libreto escrito por Emanuel Schikaneder para a ópera de Wolfgang Amadeus Mozart. O filme de Bergman, realizado com recursos da TV sueca, transformou-se em um êxito internacional e foi exibido em Porto Alegre durante várias semanas pelo cinema Avenida e depois fez carreira em salas especiais, inclusive no lendário Bristol. Recentemente o filme apareceu entre os melhores de todos os tempos em lista organizada pelo New York Times a partir de consulta a pessoas ligadas de uma ou outra forma ao cinema. O próprio Bergman declarou que a ópera, pela qual era fascinado desde a infância, marcou sua obra como cineasta. Na ópera e no filme há uma sequência em que Papageno, cansado da solidão, decide pelo suicídio, algo que Trier não deixa de lembrar em seu filme. A presença importante de uma criança durante a ação de Valor sentimental, inclusive pela referência de um desejo incestuoso –outro tema bergmaniano- transferido para uma personagem substituta, aproxima ainda mais o filme do universo bergmaniano. Para os interessados vale informar que o filme de Bergman está disponível no Youtube.
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