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Cinema

- Publicada em 20 de Julho de 2023 às 18:37

A culpa

Ao lado de Florian Zeller, que nasceu na França e tem trabalhado na Inglaterra, Dominik Moll, alemão de nascimento e com nacionalidade francesa, forma uma dupla de novos cineastas que, nos últimos anos, tem enriquecido o cinema com filmes de elevada dramaticidade e perfeição narrativa. O primeiro, com Meu pai e Um filho, dois filmes realizados no Reino Unido, sobretudo com o mais recente, obra impactante e profunda. Quanto a Moll que realizou no ano 2000 Harry chegou para ficar, um trabalho marcante sobre elementos ocultos da natureza humana, agora reaparece com este A noite do dia 12, que venceu como melhor filme o César o ano passado, além de outros prêmios, inclusive o de ator revelação conferido a Bastien Bouiillon, o protagonista, no papel de Yohan Vivès, do filme ora em cartaz. O filme, que pode ser considerado como pertencente a gênero policial, de certa forma renova o gênero, mesmo que devendo algo a Se7en - Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco, ambos de David Fincher. A obra é baseada num livro escrito por Pauline Guéna, adaptado por ela própria em parceria com o diretor e Gilles Marchand. A história narrada é verídica e o livro original foi escrito depois que a escritora passou um ano acompanhado o trabalho da polícia francesa em vários casos.
Ao lado de Florian Zeller, que nasceu na França e tem trabalhado na Inglaterra, Dominik Moll, alemão de nascimento e com nacionalidade francesa, forma uma dupla de novos cineastas que, nos últimos anos, tem enriquecido o cinema com filmes de elevada dramaticidade e perfeição narrativa. O primeiro, com Meu pai e Um filho, dois filmes realizados no Reino Unido, sobretudo com o mais recente, obra impactante e profunda. Quanto a Moll que realizou no ano 2000 Harry chegou para ficar, um trabalho marcante sobre elementos ocultos da natureza humana, agora reaparece com este A noite do dia 12, que venceu como melhor filme o César o ano passado, além de outros prêmios, inclusive o de ator revelação conferido a Bastien Bouiillon, o protagonista, no papel de Yohan Vivès, do filme ora em cartaz. O filme, que pode ser considerado como pertencente a gênero policial, de certa forma renova o gênero, mesmo que devendo algo a Se7en - Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco, ambos de David Fincher. A obra é baseada num livro escrito por Pauline Guéna, adaptado por ela própria em parceria com o diretor e Gilles Marchand. A história narrada é verídica e o livro original foi escrito depois que a escritora passou um ano acompanhado o trabalho da polícia francesa em vários casos.
A narrativa abre com uma festa, a despedida de um chefe de repartição e o início de uma nova etapa na vida de seu substituto. A atmosfera é de alegria e confraternização, logo substituída por imagens noturnas de um cenário vazio. O tema da alegria reaparece quando repentinamente é aberta a porta de uma casa, a fim de que apareça o fim de outra confraternização, agora de algumas amigas. Uma delas se despede e segue solitária num cenário sombrio. Mas o tema da alegria volta, quando ela, usando o celular, deixa um recado para uma de suas amigas. A partir deste momento, o filme é dominado por uma forte dramaticidade, manejada com uma habilidade incomum pelo diretor. O filme, a partir deste ponto, segue um rumo inesperado, pois se afasta do empenho em busca do chamado assassino serial, seguindo os caminhos abertos pela possibilidade de se transformar num relato sobre a agressividade humana, sempre gerada pelas trevas do desconhecimento, algo sugerido pelo cenário da segunda sequência do filme. Nesta sequência, a presença de um gato preto, é um sinal daquilo no qual filme se transformará. A superstição medieval é referida várias vezes durante a narrativa, tornada explícita pela referência à queima das chamadas bruxas, dominadas pelo demônio.
A persistência de reações violentas diante de figuras e fatos associados a forças ameaçadoras é uma forma contemporânea, algo que o filme acentua, na violência contra a mulher e na agressividade gerada pela resistência diante de alterações no comportamento e na chegada de novos valores. Mas não estamos diante de um manifesto ou de um discurso, mas de um relato sobre preconceitos e os cultos da violência. Qualquer um dos suspeitos pode ter sido o culpado do crime, desde o rapper criador de letras dotadas de primitivismo e agressividade até o orgulhoso de sua força física. A frustração se esconde na sociedade e até um dos integrantes dos investigadores chega a agir como um agressor impiedoso. Nesse mundo dominado pela irracionalidade, o principal investigador anda em círculos com sua bicicleta que não levam a algum lugar, numa espécie de ritual de desespero diante de um mistério indecifrável. Poucos filmes abordaram tal tema. Poucos mantiveram a dramaticidade em quase todo o relato. Poucos trataram do tema da violência gerada pelo desconhecimento, o preconceito e a intolerância como este. E a habilidade do cineasta, que parece não apreciar trabalhar com intérpretes conhecidos, é também admirável na criação dos tipos que desfilam diante da câmera durante a investigação. O filme, entre outros méritos, também tem o de oferecer uma verdadeira lição de como criar personagens marcantes sem recorrer a recursos nada cinematográficos. E também é um ensaio sobre dificuldades nos relacionamentos humanos. E sobre a imaturidade de muitos que pretendem resolvê-los, utilizando recursos tão violentos quanto primitivos.