Daniel BorinMuito se fala hoje sobre o chamado “devedor contumaz”, geralmente associado àquele contribuinte, pessoa jurídica, que deixa de recolher tributos de forma deliberada e planejada e utiliza brechas legais, como programas de parcelamento e renegociações sucessivas, para reduzir ou postergar obrigações fiscais. Trata-se de um problema real, que gera concorrência desleal e distorce o ambiente econômico.No entanto, há outro tipo de endividamento recorrente que merece atenção urgente: o da pessoa física, especialmente entre aposentados e trabalhadores que têm acesso fácil ao crédito, mas sem orientação sobre como utilizá-lo de forma responsável.O crédito, por si só, não é algo negativo. Ele movimenta a economia, viabiliza projetos e oferece fôlego financeiro em momentos difíceis. O problema surge quando esse acesso ocorre sem uma educação financeira adequada e limites claros sobre os riscos envolvidos. No crédito consignado, por exemplo, basta um clique para que o dinheiro caia na conta do aposentado.É comum encontrar pessoas com vários empréstimos ativos, todos com parcelas aparentemente pequenas. O que passa despercebido é o impacto acumulado: vencimentos que consomem até 40% da renda mensal, restando pouco ou quase nada para despesas básicas. Outro ponto sensível é a atuação das fintechs. Embora ampliem o acesso ao crédito, muitas operam com taxas de juros significativamente mais altas do que bancos tradicionais, especialmente bancos públicos. O motivo é simples: o risco é maior. No fim, os bons pagadores acabam arcando com o custo da inadimplência alheia.Somado a isso, a maioria dos brasileiros não consegue formar uma reserva de emergência, não por falta de consciência, mas por insuficiência de renda. A educação financeira, ainda assim, continua sendo um pilar essencial para reduzir o superendividamento.Não se trata de demonizar o crédito, mas de exigir responsabilidade na oferta e no uso. Assim como o devedor contumaz empresarial prejudica o mercado ao não cumprir suas obrigações, o endividamento descontrolado da pessoa física compromete famílias inteiras. O enfrentamento passa por informação, transparência e políticas que protejam quem, muitas vezes, não tem escolha e dispõe apenas de acesso fácil a um crédito caro demais.Advogado e sócio da S7 Soluções
Continue sua leitura, escolha seu plano agora!