Embora o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Paulo Fagundes Visentini não acredite na possibilidade de uma Terceira Guerra Mundial, existem semelhanças entre o período pré-Segunda Guerra e o vivido atualmente que não podem ser ignoradas. Em entrevista ao Jornal da Lei, Visentini explica por que acredita que os erros do passado vêm se repetindo.
Jornal da Lei - O que explica o fracasso contundente da Liga das Nações?
Paulo Visentini - A Liga das Nações foi proposta em um momento em que a Europa estava fragmentada e fragilizada. Era preciso que um país neutro, como os Estados Unidos, interviesse, mas o congresso norte-americano não assinou o Tratado de Versalhes e, por isso, o país não fez parte da Liga quando ela foi criada. A Alemanha estava fora, porque levou a culpa da guerra, e a União Soviética tinha um regime que não era aceito pelos demais. Assim, as três principais potências da época estavam fora. Os países vitoriosos, enfraquecidos, passaram a dominar a Liga das Nações de acordo com os interesses deles. O objetivo passou a ser a punição dos derrotados. A Liga nasceu de uma boa ideia, mas, como o próprio proponente não entrou, foi dominada por movimentos conservadores, voltados para o passado.
JL - Qual foi o impacto da Segunda Guerra na ordem diplomática?
JL - Existem vários conflitos localizados atualmente. A diplomacia tem ferramentas para intervir nesses conflitos?
Visentini - Lamentavelmente, o passado se repete. Os EUA, hoje, são como a Inglaterra de 100 anos atrás: o país mais rico, mais armado, mas não o mais dinâmico. Não foi criada uma ordem estável depois da Guerra Fria. Vemos, por exemplo, o fortalecimento do Estado Islâmico, do Boko Haram. Surgem situações semelhantes ao que houve antes da Segunda Guerra. Existem divergências econômicas e geopolíticas, e não há um sistema internacional bem-organizado. Enquanto não houver uma reforma profunda na ONU para que ela deixe de ser uma ONU pós-Segunda Guerra e passe a ser pós-Guerra Fria, vamos conviver com essa instabilidade.
| ANTONIO PAZ/JC |
|
Paulo Gilberto Fagundes Vizentini é professor de relações institucionais da Ufrgs
|
Visentini - O que vejo são potências emergindo enquanto outras estão em declínio. Ninguém quer ceder espaço. As potências emergentes, como a China, conhecem a história europeia e sabem que métodos violentos são um beco sem saída. Atualmente, ninguém quer uma guerra. O que querem é conter os países em ascensão. Alguns tipos de guerra são impensáveis no contexto atual. A nuclear, por exemplo, é excluída mutuamente, pois a Terra só pode ser destruída uma vez. Com os armamentos que temos hoje, fica difícil prever o resultado de uma grande guerra. O perigo, agora, navega entre os conflitos intermediários, como a Ucrânia e a Síria. Se os EUA propusessem um acordo com o Irã, com o objetivo de obter ajuda para combater extremistas islâmicos e afastá-lo da China e da Rússia, isso assustaria os israelenses e os russos, que achariam que o Irã e os EUA, aliados, ganhariam predominância internacional. Atualmente, o Afeganistão segue difícil de ser controlado, a Síria perdeu o controle sobre a maioria das cidades, e o Iraque, politicamente, perdeu muita força. Lá, em 1939, as potências se valiam de aventureiros e fanáticos para manipular e conseguir o que queriam. Tudo terminou muito mal na época e, hoje, os movimentos se alastram. Vemos um quadro muito confuso e desorganizado, que pode vir a ser prejudicial para o mundo.
JL - A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial é pouco lembrada. Como o país se envolveu no conflito? Caso o cenário bélico se repetisse, seria possível que a Nação brasileira interviesse?
Visentini - O Brasil participou como país beligerante, cedeu navios, aviões e soldados. Ajudou na luta contra os submarinos alemães que tinham afundado navios brasileiros e mandou aviões e soldados para lutar na Itália. Sozinho, o Brasil recebeu 70% de toda a ajuda militar norte-americana enviada para a América Latina. Se comparado com Inglaterra, França ou Rússia, o Brasil é um país pequeno. Em termos de América Latina, foi o que mais se envolveu na guerra, e isso deixou a Argentina muito ciumenta, uma vez que o país, na época, tinha uma posição simpática à Alemanha nazista. O Brasil não obteve tanto sucesso como confiava conseguir, mas se envolveu. Aquela declaração de que o Brasil é um "anão diplomático", que foi proferida por um funcionário de terceiro escalão do ministério israelense, certamente rendeu a ele um puxão de orelha. O Brasil tem desenvolvido uma política muito ativa. Acho, no caso de um conflito, que o Brasil poderia desfrutar de meios diplomáticos - o Estado brasileiro nunca está de mal com ninguém, sempre pode servir como intermediário. Essas atitudes têm despertado ciúmes em outros países. Estavam acostumados a tomar decisões somente entre eles e, de repente, surge um novo jogador, que não causa desconforto a ninguém - chega a ser engraçado, o brasileiro é sempre visto com bons olhos. Em termos de possibilidade de participação efetiva em caso de um conflito, o Brasil ainda é fraco. As Forças Armadas têm sido sucateadas durante décadas, e não temos tecnologias de ponta disponíveis. Então, certamente o País pensaria em se envolver, mas acabaria tentando ficar de fora.
JL - O ataque às Torres Gêmeas, em 11 de setembro de 2001, mudou as políticas de segurança internacionais. Depois desse episódio, o terrorismo ganhou força?
Visentini - O terrorismo é uma forma de guerra assimétrica. É um grupo pequeno, que não pode ganhar, pode só incomodar. Durante a Segunda Guerra, os ingleses desenvolveram um tipo de bombardeio barato, que pode transportar poucas bombas, mas voar rápido. Eram chamados de bombardeiros Mosquito. Não podem matar, mas podem tirar o sono, e é assim que o terrorismo age. Se eles atingem 50 pessoas em uma estação de metrô e as pessoas choram pelos mortos, mas reparam a estação e logo estão lá novamente, o atentado é considerado um fracasso. Quando matam duas ou três pessoas, mas o país fica paranoico, temendo um próximo ataque, as autoridades repensam a concessão de vistos, começam a tratar mal os estrangeiros, e o objetivo do terrorista foi atingido. A intenção é criar uma incerteza, alterar o comportamento dos países. Acho que deveríamos ouvir mais aqueles países que lidam com o terrorismo interno. Os norte-americanos nunca estiveram acostumados com isso, nunca tiveram problemas lá dentro e não sabiam exatamente como deveriam agir. Países como a Inglaterra, a Alemanha, a Espanha ou a Itália sabem lidar com isso, sabem que terrorismo se combate com policiamento e serviço de inteligência. Como se usa um porta-aviões contra o terrorismo? Onde ele mora? Existem agentes terroristas em Nova Iorque, na França, em qualquer lugar. Não há como combater com armas. E, quando eles se expõem e saem do esconderijo, isso não ocorre. Chega a ser ridículo. Em um dia, a televisão mostra a dominação de uma cidade, pessoas degolando civis, e, nessas horas, não há intervenção com armas. São poucas pessoas engajadas em provocar um grande estrago para que haja uma reação contra uma massa de gente que não tem nada a ver com isso, mas que tem a mesma cor da pele. O objetivo é manter a luta viva e desgastar as relações entre os países.
JL - Quando uma guerra é admissível?
Visentini - Há quem diga que nunca é; tem gente que diz que pode ser justa uma guerra defensiva, quando há uma ameaça e uma reação. Isso abre um debate que não chega a ser bem jurídico, que perpassa por questões filosóficas. Sempre tivemos guerras por muitos motivos, pela sobrevivência, pela apropriação de recursos. É algo que acompanha a história da humanidade. A distribuição equitativa das riquezas ajuda a terminar com desigualdades que fomentam as guerras. A guerra sempre será um mal necessário para alguém. Ficamos sempre com o registro dos países vitoriosos, e são eles que ditam o que foi certo e o que não foi. Mas se o Vietnã não tivesse lutado e se imposto, não seria, hoje, um país independente. Custou lágrimas, suor e sangue ao país, e a liberdade veio a um preço muito elevado. Agora, a humanidade já alcançou um estágio de desenvolvimento no qual as guerras são menos prováveis.
Juliano Tatsch
Assim, diante de um cenário que se modifica constantemente, a necessidade de uma reforma nas Nações Unidas, abarcando, principalmente, o Conselho de Segurança, é um tema de constante discussão. Para a professora de relações Internacionais da ESPM-Sul Eveline Vieira Brigido, uma reforma profunda é improvável. "Talvez um dia saia, mas será superficial. Mudança na composição dos permanentes com veto não ocorrerá", diz.
Conforme a pesquisadora, durante um tempo, se cogitou criar uma nova categoria de membros, que seriam os permanentes sem poder de veto. A ideia, entretanto, parece ter sido descartada. Eveline aponta o choque de interesses entre os Estados Unidos e a China como uma das razões. "Os EUA só aprovariam a reforma do Conselho se o Japão entrasse como permanente. E a China não aprova reforma que inclua o Japão", observa. Qualquer reforma só ocorrerá se tiver o aval de dois terços da Assembleia Geral, mais os cinco votos dos permanentes.
Outra proposta aventada foi a da criação de uma terceira categoria de membros, os não permanentes que ficariam por mais tempo e com direito à reeleição imediata. Os atuais não permanentes ficam por dois anos, tendo de ficar de fora por um mandato para voltarem.
Para o professor da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila) Júlio Moreira da Silveira, a estrutura do Conselho de Segurança é centrada no resultado da Segunda Guerra. "Para que haja um reequilíbrio de forças e a consequente redefinição dos países no Conselho, seria necessário um conflito da magnitude da Segunda Guerra", observa. Ele ressalta, porém, que a estrutura de colonização ainda é muito presente, com desigualdade de poderes e separação entre primeiro e terceiro mundo, o que dificulta a entrada de países como o Brasil no grupo.
O diretor da Audiplo: Educação e Relações Internacionais Fabiano Mielniczuk aponta três grupos tratando da reforma. "Tem o G-4, formado por Brasil, Índia, Alemanha e Japão, que quer uma vaga permanente. Tem o Grupo do Café, liderado por Argentina e Itália, que não quer a mudança, pois criará disparidades regionais. E tem o grupo da União Africana, que só aceita a reforma aumentando-se duas vagas com direito a veto e com africanos contemplados."
LEIA TAMBÉM: