O avanço da tecnologia está transformando
o mercado de trabalho do transporte e da logística e aumentando a necessidade de profissionais preparados para lidar com novas ferramentas e formas de trabalho. Telemetria, sistemas de gestão de transporte e de frotas, dashboards, roteirização inteligente, análise de dados, automação e soluções integradas à inteligência artificial já fazem parte da rotina das empresas. Nesse cenário, mais do que dominar tecnologias, os trabalhadores precisam desenvolver a capacidade de aprender continuamente.
Thiago Pianezzer, especialista em liderança e cultura organizacional. Mentor de Cultura e Desempenho do Setcergs
ACERVO PESSOAL/JC
De acordo com
Thiago Pianezzer, especialista em liderança e cultura organizacional e mentor de cultura e desempenho do
Sindicato das Empresas de Transportes de Carga e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs), o transporte continua enfrentando um desafio importante na mão de obra operacional, especialmente entre motoristas. Pianezzer salienta que não basta encontrar alguém que saiba conduzir um caminhão. O profissional também precisa compreender que representa a empresa em cada contato estabelecido durante a operação. Educação, respeito, comunicação, responsabilidade e postura profissional passam a fazer parte do trabalho.
A transformação do setor, entretanto, não se limita à atividade dos motoristas. Tecnologia, análise de dados, gestão de frotas, telemetria, planejamento, comunicação, marketing, experiência do cliente e gestão de pessoas passaram a ocupar espaço maior nas empresas.
“Transporte e logística deixaram de ser vistos apenas como caminhão, estrada e operação”, afirma Pianezzer. Para ele, existe um ecossistema cada vez mais amplo por trás da atividade, que demanda profissionais diversos e especializados.
A dificuldade de contratação está relacionada também à capacidade das empresas de atrair trabalhadores para esse novo ambiente. Na avaliação do especialista, o setor precisa fortalecer sua imagem como marca empregadora e mostrar às novas gerações que existem oportunidades de carreira, inovação, tecnologia e desenvolvimento profissional.
“Não basta perguntar por que as pessoas não querem trabalhar no transporte. As empresas também precisam perguntar: o que estamos fazendo para que bons profissionais queiram construir suas carreiras conosco?”, questiona.
Pianezzer observa que
a competência técnica continua fundamental, mas deixou de ser suficiente. Ele divide o
perfil profissional em três dimensões. As
hard skills correspondem às competências técnicas necessárias para o exercício de uma função. As
soft skills envolvem aspectos socioemocionais e relacionais, como comunicação, cooperação, respeito, trabalho em equipe e inteligência emocional. Já as
deep skills estão relacionadas a características mais profundas da forma como a pessoa se posiciona diante da vida e do trabalho, como entusiasmo, proatividade, autoconfiança, integridade, generosidade e responsabilidade.
É nesse contexto que o conceito de profissional 5.0 ganha relevância. Para Pianezzer, uma das principais características desse trabalhador é estar preparado para “aprender, desaprender e reaprender”. As tecnologias, os sistemas, os veículos e as formas de trabalhar estão em transformação constante. Depois das diferentes etapas das revoluções industriais, marcadas pela mecanização, eletrificação, informática e automação, a discussão sobre a era 5.0 acrescenta a necessidade de recolocar o ser humano no centro da transformação tecnológica.
“O futuro é tecnológico, mas o diferencial é humano”, resume o especialista. Essa perspectiva também envolve a capacidade de autogestão. Em um ambiente cercado por telas, notificações e distrações, o trabalhador precisa administrar melhor sua atenção e seu tempo. Organização, uso de agenda, checklists e preparação antecipada das atividades são práticas que podem contribuir para o desempenho profissional.
A tecnologia, segundo Pianezzer, tende mais a transformar funções do que simplesmente eliminar postos de trabalho. Atividades repetitivas podem ser automatizadas, enquanto análise, tomada de decisão, relacionamento, criatividade e outras capacidades humanas ganham relevância. A telemetria é um exemplo. Ao fornecer dados sobre condução, veículo, consumo, desempenho e segurança, a ferramenta pode ser utilizada não apenas para controle, mas também para prevenção, desenvolvimento e melhoria contínua.
Nesse processo, os dados precisam ser interpretados e transformados em ações. Pianezzer relaciona essa lógica ao conceito de Kaizen, associado à melhoria contínua. A tecnologia fornece informações, mas são as pessoas que precisam compreender os dados e transformá-los em melhorias na operação.
A mudança exige também uma nova relação com a formação profissional. A educação tradicional continua importante, mas precisa ser complementada por cursos, capacitações, treinamentos, certificações, eventos, leitura e contato permanente com novas ferramentas. “A aprendizagem deixou de ser uma etapa da carreira para se tornar parte da carreira”, afirma.
Para as empresas, a educação continuada deve estar relacionada às necessidades reais da operação. É preciso identificar quais competências não estão sendo encontradas no mercado e quais precisam ser desenvolvidas pelos trabalhadores. Dessa forma, a capacitação pode contribuir tanto para a empregabilidade quanto para os resultados das organizações.