Porto Alegre,

Anuncie no JC
Assine agora

Publicada em 02 de Outubro de 2026 às 12:27

Transição energética amplia demanda por terras raras no Brasil

Terras raras são utilizadas na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias

Terras raras são utilizadas na fabricação de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e outras tecnologias

TÂNIA MEINERZ/JC
Compartilhe:
Marcus Meneghetti
Especial para o JC*

Além da extração, domínio tecnológico sobre o refino é decisivo para ampliar a participação no mercado internacional

Além da extração, domínio tecnológico sobre o refino é decisivo para ampliar a participação no mercado internacional

Magnific/Divulgação/JC
Os analistas são unânimes ao dizer que as terras raras brasileiras - cujas reservas representam 23,3% do estoque mundial - podem garantir ao Brasil um papel estratégico no mercado global. Afinal, a transição energética de combustíveis fósseis para fontes renováveis e a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China devem aumentar a demanda por esses minerais imprescindíveis para a indústria de tecnologia, carros elétricos e energias renováveis.
As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos. Eles são chamados de "raros" pela dificuldade em encontrá-los concentrados em grandes quantidades. Eles são cruciais para a fabricação de computadores, smartphones, turbinas eólicas, painéis fotovoltaicos, veículos elétricos, aviões, submarinos e mísseis.
O professor de geologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) Edinei Koester explica uma das utilidades mais importantes. "O neodímio, que é um dos elementos mais importantes entre as terras raras, é usado para fazer ímãs permanentes. Antigamente os celulares eram chamados de 'tijolões' por serem grandes. É que eles precisavam de um ímã de ferro, que era relativamente grande. Hoje, nossos celulares são menores porque têm um ímã de neodímio, que é muito menor e muito mais potente", exemplifica.
Hoje a produção global de terras raras é controlada pela China - que domina o processo de refino desses elementos. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a indústria chinesa é responsável por 85% da produção global, os Estados Unidos por 5%, a Índia por 1% e o resto do mundo por 9%.
Desde 2025, a Casa Branca busca diversificar os fornecedores de terras raras para a indústria norte-americana, em uma tentativa de reduzir a dependência da China. Afinal, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impor tarifas ao resto do mundo em abril do ano passado, Pequim retaliou restringindo a venda de pelo menos sete elementos a empresas estadunidenses.
Então, a atenção de Trump se voltou para as terras raras do Brasil. O presidente dos Estados Unidos admitiu que o tema foi discutido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), durante a visita do brasileiro a Washington. Além da demanda norte-americana, a transição energética, a fabricação de baterias e a indústria de carros elétricos devem aumentar a demanda por terras raras. A IEA estima que a procura por lítio deve triplicar até 2040, e a procura por níquel, grafite e terras raras deve aumentar em até 90%. Nesse cenário, as reservas brasileiras ganham cada vez mais importância.

Brasil sanciona lei que regulamenta as terras raras

Elementos como neodímio, disprósio e térbio estão presentes em diferentes aplicações da indústria de alta tecnologia

Elementos como neodímio, disprósio e térbio estão presentes em diferentes aplicações da indústria de alta tecnologia

Tânia Rêgo/Agência Brasil/Divulgação/JC
Uma semana antes de viajar para a assembleia da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York - onde havia a expectativa de que  as terras raras brasileiras entrassem na pauta de negociações entre o Brasil e os Estados Unidos - o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras. O texto regula a exploração de minérios no Brasil, de modo a incentivar a industrialização dessas matérias-primas em território nacional.
Após assinar a sanção do projeto no dia 16 de setembro em Brasília, Lula disse a um auditório com representantes do setor de mineração que o País não repetirá o erro histórico de ser um mero exportador do material bruto. A ideia é que a indústria nacional faça o processo de separação e beneficiamento dos minérios.
"Com essa legislação, o Brasil propõe ao mundo uma nova agenda para a mineração do futuro: a transição para uma mineração socialmente justa, ambientalmente sustentável e industrializante para os países em desenvolvimento", declarou Lula.
Ao lado do presidente na cerimônia de sanção da nova lei, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, fez menção à pressão exercida pela Casa Branca para ter acesso privilegiado às terras raras brasileiras. Para Silveira, o texto é a "certidão de nascimento de uma nova era para a mineração no Brasil, com declaração de independência econômica e de coragem política que não se curva diante de ameaças externas".
Durante a assembleia da ONU, Lula mencionou que "a divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos". O acesso às terras raras brasileiras pode entrar na negociação das tarifas impostas pela Casa Branca a produtos do Brasil. Os EUA têm buscado diminuir a dependência das terras raras chinesas e reforçar sua influência na América Latina.
A Política de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras não impede a exportação da matéria-prima bruta nem prevê o controle de exportações. Em vez disso, o texto estabelece pelo menos quatro medidas para estimular a industrialização do setor de mineração, o beneficiamento do minério em território nacional e o investimento em pesquisa no Brasil.
A primeira medida é o Programa Federal de Beneficiamento e Transformação de Minerais Críticos e Estratégicos - que prevê a concessão de créditos fiscais de até R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034. Ou seja, as empresas pode receber até R$ 5 bilhões nesse período.
A segunda diz respeito ao Fundo Garantidor de Atividade Mineral (FGAM), que disponibilizará até R$ 5 bilhões para cobrir riscos cambiais e contratuais de projetos de mineração que preencham certos requisitos. A União poderá destinar até R$ 2 bilhões ao fundo. O restante poderá ser completado pelos Estados, municípios e a iniciativa privada.
A terceira medida prevê que, em troca dos benefícios fiscais, as empresas de mineração se comprometerão a destinar parte da sua receita bruta para duas finalidades: 0,2% para o FGAM e 0,3% para projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica na área do beneficiamento dos minerais. Após seis anos, toda a contribuição - ou seja, 0,5% da receita bruta - será destinada à pesquisa.
Por fim, a nova lei cria o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE), vinculado à presidência da República. O órgão será responsável pela autorização de parcerias internacionais, a regulação do compartilhamento de dados geológicos, a autorização de empresas estrangeiras em projetos sensíveis e a aprovação da venda de mineradoras que detêm o direito de exploração de minerais no Brasil.
O diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, acredita que o texto sancionado pelo presidente foi o resultado do "melhor consenso possível" entre governo, oposição e setor produtivo. Para Cesário, "o projeto oferece uma base positiva para financiamento, industrialização, tecnologia e inserção internacional da indústria da mineração brasileira". Agora, o Ibram espera um "ambiente regulatório estável" para viabilizar os investimentos de longo prazo.
O Brasil é líder no mundo em reserva de nióbio. Está em segundo lugar em terras raras e grafita. É o terceiro em níquel e o sexto na produção global de lítio. Segundo o Ministério de Minas e Energia, o setor de mineração corresponde a 4% do PIB brasileiro. O nióbio e o minério de ferro bruto são os principais produtos desse setor, atualmente.

Entenda as terras raras do Brasil

O que são minerais críticos e estratégicos?

Minerais críticos e estratégicos são um conjunto de elementos que têm alta demanda global e fornecimento vulnerável a gargalos geopolíticos. Normalmente, são utilizados na fabricação de tecnologia, de produtos eletrônicos e na indústria energética. Por exemplo, lítio, cobalto, níquel, grafita, cobre e terras raras.


O que são terras raras?

As terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos. Eles são chamados de “raros” pela dificuldade em encontrá-los concentrados em grandes quantidades. Incluem o lantânio, cério, prasiodímio, neodímio, promécio, samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio, hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, escândio e ítrio.


Por que esses elementos são importantes?

Eles são cruciais para a fabricação de computadores, smartphones, turbinas eólicas, painéis fotovoltaicos, veículos elétricos, aviões, submarinos e mísseis. A aplicação das terras raras nessas tecnologias se deve às suas propriedades únicas, como a geração de ímãs superpotentes, resistência a temperaturas elevadas e alta capacidade de transmissão de dados.


Quais as características das reservas brasileiras?

O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, totalizando algo entre 23,3% e 25% do estoque conhecido no planeta. As reservas brasileiras só perdem para as chinesas, que acumulam 52% do total conhecido no mundo. Entretanto, a China domina 90% do refino das terras raras do mundo.


Quais os estados com maiores concentrações?

Os estados com maior concentração de terras raras são Minas Gerais, Goiás, Bahia e Amazonas. O Rio Grande do Sul também possui reservas na região de Caçapava do Sul. Os elementos de terras raras ocorrem no Brasil, principalmente, nas chamadas argilas iônicas e, em solo gaúcho, nas rochas carbonititas.


Tecnologia é desafio para ampliar exploração

Koester afirma que o País precisa dominar as etapas de extração e beneficiamento dos minerais

Koester afirma que o País precisa dominar as etapas de extração e beneficiamento dos minerais

Fernanda Bigio Davoglio/Especial/JC
O governo federal tem pressa em destravar o potencial das terras raras brasileiras, de modo que estuda diversos modelos para a formação de uma indústria nacional. Três possibilidades estão na mesa: a concessão de incentivos fiscais para empresas privadas; a entrada da Petrobras na exploração de terras raras; e a criação de uma estatal para o setor, a Terrabras.
Segundo o Serviço de Geologia do Brasil (SGB), o Brasil somou 62 projetos privados relacionados às terras raras em 2026. Entretanto, 61 empreendimentos ainda não iniciaram as atividades de mineração, por estarem na fase inicial de planejamento, mapeamento das reservas e estudos geoquímicos.
Hoje a única empresa em operação no território nacional é a Serra Verde Mining Company. A empresa opera na região de Minaçu, em Goiás. Em agosto, a empresa estadunidense USA Rare Earth anunciou a compra da Serra Verde. A previsão é que a Fase I instalada em Goiás produza cerca de 5.000 toneladas de óxidos de terras raras.
Para alavancar o investimento privado nesse setor, o Palácio do Planalto sancionou em setembro a Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras. O texto prevê até R$ 10 bilhões em incentivos fiscais para as empresas que fizerem o beneficiamento do material bruto em solo nacional.
Contudo, outras possibilidades também estão na mesa. Em agosto, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, defendeu a inclusão da Petrobras nas discussões sobre a exploração das terras raras em um evento sobre mineração realizado em Brasília.
A entrada da estatal no setor divide opiniões. A professora de Relações Internacionais Fernanda Brandão avalia que essa pode ser uma oportunidade para a petroleira brasileira aderir à transição energética de energias fósseis para fontes renováveis, em curso no mundo.
"As terras raras são importantes na produção de energia eólica, solar, carros elétricos. Então, a exploração desses recursos abre uma nova janela de expansão e de manutenção da importância da Petrobras. A participação pública (na empresa) é importante, porque garante a presença do Estado brasileiro na produção desses recursos que são estratégicos no mundo todo", analisa Fernanda.
Embora não se oponha à expansão da Petrobras, o professor de geologia da UFRGS Edinei Koester – que coordena um grupo de pesquisadores que estuda as terras raras no Rio Grande do Sul – vê com ceticismo a possibilidade. Na avaliação de Koester, a estatal se tornou uma das maiores petroleiras do mundo devido ao investimento em pesquisa feito ao longo de décadas. Mas a tecnologia exigida pelas terras raras é muito diferente.
"As terras raras e o petróleo são recursos minerais? Sim. Mas são parecidos? Não. Então, não sou contra a exploração de terras raras pela Petrobras. Mas isso exige uma mudança completa na matriz geológica, porque a empresa passaria a trabalhar com um material completamente diferente. Ela não tem a tecnologia para isso", comenta.
Segundo o professor da UFRGS, o ideal seria a criação de uma empresa semelhante à Petrobras, mas dedicada exclusivamente aos minerais de terras raras. Assim como a petroleira – que atuava da extração do petróleo, passando pelo refino, até a venda de combustível nos postos – a estatal de terras raras atuaria na extração e no beneficiamento desse minério. "Chegou a ser proposta a criação da Terrabras", relembra.
O deputado federal Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) apresentou em abril um projeto de lei para criar a empresa de capital aberto Terras Raras Brasileiras S.A. – a Terrabras. Pelo texto, o governo brasileiro seria o acionista majoritário e a empresa ficaria sob o comando do Ministério de Minas e Energia. Em outro projeto, o líder do governo na Câmara dos Deputados, Pedro Uczai (PT-SC), propôs que a Terrabras explorasse pelo menos 50% das reservas brasileiras.
"A empresa pública proposta destina-se a atuar em toda a cadeia produtiva de terras raras, minerais estratégicos e minerais críticos – desde a pesquisa geológica e a exploração mineral até o beneficiamento, o processamento, a industrialização e a comercialização", argumenta Rollemberg na justificativa do projeto.
No entanto, a criação da Terrabras recebeu críticas do setor privado. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) – que representa empresas privadas de mineração – se manifestou na época dizendo que "a fragilidade da mineração brasileira de terras raras não decorre de falta de protagonismo estatal. Decorre da carência de tecnologia de separação e refino em escala industrial, de processos químicos cuja dominância está concentrada em poucos agentes, de financiamento insuficiente, de infraestrutura logística precária, de mão de obra especializada escassa e de insegurança jurídica, que afasta investidores."

Pesquisadores identificam alta concentração de terras raras em Caçapava do Sul

Um grupo de pesquisadores identificou altas concentrações de terras raras em Caçapava do Sul, município localizado na Região da Campanha, no Rio Grande do Sul. A incidência desses elementos - fundamentais para a fabricação de computadores, smartphones, carros elétricos e outras tecnologias - pode trazer uma oportunidade de desenvolvimento econômico para a região.
Em Caçapava do Sul, os elementos de terras raras estão concentrados nas rochas chamadas de carbonatitos, presentes em menos de 1% da crosta terrestre. A concentração é similar às reservas da China e dos Estados Unidos, como as das áreas de Bayan Obo e Mountain Pass.
Um dos elementos de terras raras encontrados nos carbonatitos é o neodímio, utilizado para a fabricação de ímãs superpotentes. Esses ímãs, por sua vez, são essenciais para a fabricação de turbinas eólicas, carros elétricos e smartphones. Os carbonatitos também contêm nióbio e tântalo.
O coordenador da pesquisa que mapeia as terras raras em Caçapava do Sul, o professor de Geologia da Ufrgs Edinei Koester afirma que as terras raras estão concentradas em quantidades economicamente viáveis na região. "A partir de 2013, a gente começou a estudar as rochas chamadas carbonatitos, que foram descobertas no Rio Grande do Sul por volta de 2010. Então, a gente se perguntou se essas rochas tinham concentrações químicas suficientes para explorá-las economicamente? E a resposta foi sim", relata Koester.
A extração desse material envolveria a remoção de uma grande quantidade de rochas. Mas o professor da Ufrgs acredita que o País precisa investir não só na extração, mas também no beneficiamento e refino desse material. Ele resume como funcionaria todo esse processo.
"Em um quilo de rocha, vai ser retirado algo como 0,1 grama de terras raras. Imagina a quantidade de rochas para retirar 10 quilos de terras raras. A extração e trituração das rochas envolve o pessoal da engenharia. Depois são necessários processos químicos para desmanchar a rocha. Finalmente, separa-se um pó, que é o elemento de terra rara que vai ser vendido para a indústria produzir algo", explica.

Terras raras trazem oportunidade de industrialização para o Brasil

Fernanda Brandão destaca importância de parcerias público-privadas

Fernanda Brandão destaca importância de parcerias público-privadas

DIVULGAÇÃO/JC
A professora de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, Fernanda Brandão, acredita que o Brasil deve atrair capital estrangeiro para acelerar a exploração das reservas brasileiras de terras raras. Entretanto, a atração desse investimento deve ser feita de uma maneira que crie uma cadeia industrial no País - permitindo a exportação dos elementos processados, em vez do minério bruto.
O desenvolvimento de uma indústria de beneficiamento e enriquecimento do material bruto é significativamente mais lucrativo. Um quilo do material bruto contendo terras raras vale poucos dólares (dependendo dos elementos e da concentração). Por outro lado, um quilo de um determinado elemento processado pode custar US$ 15.000,00, como é o caso do óxido de lutécio.
Para atrair companhias no mercado global, a especialista em Relações Internacionais vê várias possibilidades: "Parcerias público-privadas, exigência de capital público nas iniciativas (de exploração das terras raras), uma estatal como a Petrobras, operando em parceria com empresas estrangeiras."
Empresas & Negócios - Embora o Brasil tenha mais de 20% das terras raras do planeta, ainda é um setor pouco explorado pelo País. Qual o papel do Brasil no mercado global desse material?
Fernanda Brandão - O Brasil desponta como um ator potencialmente estratégico nesse cenário. O País tem a segunda maior reserva conhecida desses minerais críticos mais raros, as famosas terras raras. Hoje a produção brasileira é muito pequena comparada com o nosso potencial. Mas o mais importante é que não existe uma indústria de processamento desse minério em território nacional. Isso cria uma oportunidade gigante de desenvolvimento de um setor industrial, de uma cadeia produtiva tecnológica.
E&N - Qual o principal desafio para desenvolver uma indústria brasileira no setor de terras raras?
Fernanda - O desenvolvimento econômico passa pelo Brasil deixar de ser um exportador de commodities. Qual é o problema de sermos só produtores de commodities? O valor agregado é muito baixo. O processamento industrial gera um valor muito maior. Hoje o Brasil precisa de capital estrangeiro para desenvolver essa produção (de terras raras), porque não há investimento doméstico suficiente em pesquisa, não há desenvolvimento de tecnologia própria para isso. O País poderia fazer isso exclusivamente através de políticas públicas, investindo massivamente em pesquisa e desenvolvimento nesse setor. O problema é que isso atrasaria mais alguns anos a produção brasileira, a entrada nesse mercado estratégico internacionalmente. Há reservas que vão levar 15 anos para alcançar uma produção massiva. Então, o desafio do Brasil é o seguinte: como aproveitar essa janela de oportunidade sem nos condenarmos a sermos eternos fornecedores de commodities para as grandes potências?
E&N - Como atrair investimento estrangeiro ao Brasil?
Fernanda - Existem várias possibilidades: Parcerias Público-Privadas, exigência de capital público nas iniciativas (de exploração das terras raras), uma estatal como a Petrobras, operando em parceria com empresas estrangeiras. O Chile tem uma série de políticas públicas interessantes, inclusive (a venda de minérios por) um preço mais baixo para as empresas que decidirem instalar sua produção de componentes no território chileno. É uma maneira de impedir que as empresas exportem o minério bruto para produzir esses componentes em outros lugares.
E&N - A Política Nacional de Minerais Críticos, Estratégicos e Terras Raras - sancionada pelo presidente Lula neste mês - pode contribuir na atração de investimentos? O que destacaria no texto?
Fernanda - Eu destaco a criação do Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos, cujo objetivo é observar os investimentos de indústrias estrangeiras, avaliar como está sendo executada a exploração em território nacional. O texto final não teve nenhuma medida restritiva, como uma cota de exportação, um limite no volume exportado ou exigências de que certas fases de processamento sejam feitas em solo nacional. Ao mesmo tempo, incluiu uma série de estímulos fiscais e de crédito, na tentativa de atrair empresas estrangeiras ao Brasil. Nos próximos anos, quando esse setor começar a se desenvolver, vai ficar mais claro se esse quadro regulatório foi suficiente ou se o País vai precisar de novas travas para garantir um maior controle nacional sobre esses recursos estratégicos.
E&N - Após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, impor tarifas à China, os chineses responderam limitando o acesso das empresas estadunidenses às terras raras. A Casa Branca, por sua vez, passou a manifestar interesse nas terras raras brasileiras como uma alternativa para diminuir a dependência da China. Isso chegou até a gerar certa tensão diplomática com o Itamaraty. Os EUA são os principais interessados nas terras raras brasileiras?
Fernanda - Para os Estados Unidos, as terras raras são extremamente estratégicas no desacoplamento da economia chinesa. Hoje a indústria dos EUA depende das terras raras chinesas, porque a China tem praticamente o monopólio desse setor. Mesmo que essa matéria-prima seja extraída em outro País, cerca de 90% das terras raras do mundo são processadas em território chinês. Ao mesmo tempo, a nova doutrina de segurança da Casa Branca reafirma a América Latina como zona de influência dos Estados Unidos, resgatando a chamada Doutrina Monroe, que entendia "a América para os americanos". Então, as reservas brasileiras de terras raras estão no que eles consideram sua zona de influência, além de ter uma proximidade geográfica. O acesso privilegiado a esses recursos pode ser um importante fator na redução da dependência da China.
E&N - Nesse caso, o Brasil deveria atrair empresas dos Estados Unidos?
Fernanda - O governo Trump está empenhado em trazer de volta aos Estados Unidos algumas indústrias que se deslocaram para o sudeste asiático. Então, em que medida as empresas americanas vão estar dispostas a trazer para o Brasil parte do seu processo produtivo? São interesses conflitantes. O desafio para os próximos governos brasileiros vai ser equilibrar a vontade americana de ter acesso a esses recursos com o nosso interesse de desenvolvimento nacional.
E&N - Que outros países têm indústrias interessadas em investir no Brasil?
Fernanda - Empresas da China, dos Estados Unidos, da Austrália e do Canadá têm se apresentado para investir no Brasil. Houve recentemente um anúncio de um empréstimo do BNDES para a Viridis, que é australiana. Também teve a compra da Serra Verde (que hoje é a única empresa que exporta terras raras no Brasil) por uma empresa americana (a USA Rare Earth). É interessante lembrar que, antes da venda, a Serra Verde operava em parceria com uma empresa chinesa.









*Marcus Meneghetti é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). É pós-graduado em Artes da Escrita, pela Universidade Nova de Lisboa (Portugal). Trabalhou como jornalista político por mais de oito anos. Atualmente, dedica-se ao mercado de criptoativos.

Notícias relacionadas