Região onde surgiu a primeira vinícola brasileira, chamada Marimon & Filhos, com início do plantio de vinhedos em 1882, a Campanha Gaúcha detém uma Indicação de Procedência desde 2020. A iniciativa é da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha, entidade criada em 2010, já com o objetivo de buscar uma IP. Atualmente, a entidade tem 19 sócios, praticamente o dobro de quando surgiu. Destes, de oito a 10 fazem uso regular da IP para elaboração de vinhos finos tranquilos brancos, rosados e tintos e espumantes naturais.
De acordo com os dados da associação, mais de 11,2 milhões de garrafas já foram comercializadas com o selo da IP. A estimativa é que em torno de 80% da produção total da região é contemplada com o selo. "Nosso desafio é agregar mais empresas a este grupo", afirma a presidente da associação, Rosane Wagner, também proprietária da vinícola Cordilheira de Santana. De acordo com a executiva, a visibilidade e o reconhecimento do produto, assim como a maior comunicação do trabalho, são os principais resultados já obtidos com a IP.
Dentre as especificações técnicas, negociadas no início dos debates em torno da IP, está a exigência de que o plantio de uvas e a elaboração e o engarrafamento dos vinhos ocorram na região delimitada. Além disso, um vinho varietal precisa ter 85% da uva principal. Dentre outras, são permitidas as brancas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Gewurztraminer, Pinot Grigio e Riesling e as tintas Tannat, Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Tempranillo, Cabernet Franc e Petit Verdot.
A uva processada na Campanha, em sua maioria, é de plantios próprios das vinícolas. Outra parte é de viticultores, que podem vender para as empresas, desde que os vinhedos estejam na área delimitada. A Campanha Gaúcha conta 1.560 hectares de vinhedos, com 36 variedades de vitis viníferas cultivadas.
A avaliação dos vinhos para a concessão do selo inclui diversos controles e análises, realizados em laboratório terceirizado, e uma degustação às cegas, reunindo técnicos das vinícolas, estudantes em final do curso de enologia na Unipampa e professores. A atividade ocorre três vezes por ano.
Um dos projetos em estudo é avançar para uma Denominação de Origem. Reuniões de trabalho já ocorreram, mas ainda existem muitas dúvidas para dirimir antes do encaminhamento efetivo. Rosane Wagner destaca que a área da região é muito grande, mais de 44 mil km² distribuídos em 14 municípios, e responsável por 31% da produção de vinhos finos no Brasil.
Pessoalmente, acredita que a alternativa é a criação de denominações por comunidades, considerando que o vinho elaborado de cada uma tem características distintas. "É um trabalho complexo, que vai demandar muito estudo e apoio de entidades. Queremos avançar, mas ainda não sabemos como", registra. Outro desafio da região é o desenvolvimento do enoturismo, considerado importante nicho para o segmento. "Além do vinho, temos exuberantes paisagens para apreciar", registra.
Diferentemente do que ocorreu nas demais indicações de procedência de vinhos, na região da Campanha não houve a necessidade de grandes investimentos para atender aos requisitos. Rosane Wagner destaca que desde o início da atividade, há mais de 40 anos, os vinhedos foram plantados no sistema de espaldeira e as empresas investiram em equipamentos e tecnologias modernas.