Os compromissos que vêm sendo assumidos mundialmente por diferentes segmentos da sociedade para mitigar ao máximo as consequências da crise climática, decorrência do aumento de emissões de gases de efeito estufa, do desmatamento, da poluição do solo e da água e da queima de combustíveis fósseis, tornaram-se mantras para a maior parte das empresas, seja qual for seu tamanho ou área de atuação. Em alguns países, a incorporação destes conceitos já está em estágio muito avançado. O Brasil dá seus primeiros passos nesta direção, mas medidas do poder público e, principalmente, do setor privado, têm contribuído para consolidação do processo, que é considerado sem volta.
A Serra Gaúcha, reconhecida por seu potencial no segmento automotivo de transporte de cargas e passageiros, sinaliza com fatos já concretos que está inserida nesta mudança de patamar. Empresas de diferentes portes instaladas em Caxias do Sul lideram movimentos para o uso de combustíveis alternativos em seus produtos e serviços, impactando diretamente a cadeia de fornecimento e demais grupos empresariais. A região tem sido escolhida para novos projetos por oferecer um ecossistema compatível com as necessidades e demandas de mercado.
A Marcopolo iniciou o projeto de sua linha de ônibus 100% elétricos em 2019 e, desde então, investe no desenvolvimento do Attivi Integral, com chassi e carroceria produzida internamente e uso de tecnologia nacional e importada. No ano passado, entregou em torno de 30 unidades do modelo para a realização de testes no sistema do transporte público urbano das principais capitais, como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Manaus, além de cidades, como Angra dos Reis e São José dos Campos.
De acordo com Luciano Resner, diretor de engenharia, há um movimento significativo nas prefeituras para encaminhar licitações em 2024. "O movimento é crescente e também há mobilização para dotar as cidades da infraestrutura necessária para atender a frota de elétricos", assinala. A demanda pelo elétrico também fez a Marcopolo tomar decisões estratégicas. No início de dezembro, anunciou investimento de R$ 50 milhões para agregar linha de montagem específica na fábrica de São Mateus (ES). "Quando se decidiu pelo elétrico, já tínhamos uma visão de mercado interessante, tendo por base os exemplos da China e Europa", cita.
No final do ano passado, o modelo Attivi recebeu aprovação da São Paulo Transporte S/A (SPTrans) para ser utilizado pelas operadoras de ônibus da capital. Com a decisão, a expectativa da fabricante é comercializar 400 unidades para a cidade de São Paulo em 2024. A fase de demonstrações do modelo para as operadoras de ônibus da capital paulista já está em andamento.
O executivo argumenta que o ônibus elétrico traz uma série de vantagens operacionais e de sustentabilidade no transporte coletivo urbano. Usa como exemplo o relato de gestores da cidade de São José dos Campos, onde há um ano, em parceria com a fabricante chinesa de chassi BYD, estão em testes 11 articulados. "O prefeito reporta aumento no número de passageiros, atraídos pelo conforto oferecido, e ganhos operacionais acima de 30% em razão da energia ser mais barata que o diesel", afirma.
Resner admite que o veículo elétrico se adequa mais às grandes cidades. Em municípios menores e áreas rurais, destaca que outras tecnologias sustentáveis, como o biometano, produzido a partir do lixo e resíduos de proteína animal, e o etanol, são mais apropriadas. O veículo movido a biometano já está homologado e circulando em algumas cidades, bastando ajustar a infraestrutura de abastecimento. O executivo acrescenta que o etanol é uma opção muito interessante, pois gera carbono negativo no ciclo que se inicia no plantio e termina no uso do veículo. "A produção e o crescimento da cana tiram mais CO2 do meio ambiente do que aquele gerado no escapamento do veículo", detalha.
Para 2024, projeta avanços no sistema híbrido e, para dentro de dois anos, no hidrogênio verde. No ano passado, a Marcopolo expôs na Busworld Europa o ônibus rodoviário Audace 1050 Fuel Cell produzido na sua fábrica da China. O veículo será comercializado no mercado europeu a partir deste ano e incorpora a última tendência em termos de tecnologia de propulsão, com célula de combustível de hidrogênio e autonomia entre 500 e 800 quilômetros, com reabastecimento em cerca de cinco minutos.
No primeiro trimestre deste ano terão início, na operação da Austrália, testes em parceria com a irlandesa Rye Bus. No Brasil, em conjunto com a Universidade de São Paulo, a Marcopolo testa um ônibus movido a hidrogênio verde produzido partir do etanol. "São diversas as alternativas em análise, buscando aumentar a autonomia do veículo para uso em linhas rodoviárias. Logicamente, que será preciso investir em uma rede de postos de abastecimento bem distribuída", assinala.
O executivo destaca que, na América Latina, os principais mercados consumidores são Chile e Colômbia, que eram abastecidos por marcas chinesas. "Agora, com uma solução regional, estamos ganhando participação", destaca. Ele avalia que o Brasil entrou de vez na rota dos veículos alternativos, inclusive com incentivos do governo para mobilidade sustentável.
Para fazer frente ao novo cenário, existem movimentos robustos para a estruturação de uma cadeia de fornecedores, visando à nacionalização de boa parte dos componentes. O Attivi já tem 60% de conteúdo local. Em relação à bateria, produzida pela China, a estratégia passa pela importação de células chinesas para a montagem local. "Com volumes maiores, a caminhada será mais rápida nesta cadeia", projeta.
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