Historicamente, investidores brasileiros têm um perfil menos arrojado do que o verificado em outros países. Esta característica vinha mudando com a entrada massiva de novos clientes na bolsa, interessados em carteiras bem diversificadas e com altos aportes em renda variável. A taxa de juros em queda entre 2019 e 2020, chegando ao menor patamar da história (2%), estimulava a busca por rendimentos mais altos do que os obtidos na poupança e na renda fixa. Agora, com a taxa de juros a 13,75% desde agosto de 2022, esse contingente se volta a ativos menos arriscados, como poupança e renda fixa. O comportamento é natural e pode render bons frutos, desde que estratégias de diversificação não sejam colocadas de lado.
Investidores brasileiros voltam a assumir perfil conservador
Caderneta de poupança continua sendo o produto financeiro mais utilizado pelos brasileiros, com 26% de preferência, indica pesquisa nacional
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O patamar elevado da taxa Selic nos últimos 12 meses e um cenário repleto de dúvidas - tanto internamente quanto no mercado internacional - fez aumentar o volume investido em produtos mais conservadores. O movimento não é surpreendente, principalmente após uma pandemia e a necessária reacomodação da economia global, lembram os especialistas. Mas é preciso refletir sobre os reflexos desse comportamento na alta do custo de financiamento para as empresas e sobre a efetividade dessa estratégia nos retornos de médio e longo prazo.
A caderneta de poupança continua sendo o produto financeiro mais utilizado pelos brasileiros, com 26% de preferência, conforme a 6ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, pesquisa da Anbima em parceria com o Datafolha. Paralelamente, há um movimento de diversificação da carteira. As pessoas estão investindo seu dinheiro também em aplicações, como fundos, títulos privados, moedas digitais e previdência privada.
Ainda segundo o estudo, um número cada vez maior de brasileiros está investindo em produtos financeiros e a perspectiva é que essa trajetória de alta continue. O percentual passou de 31% da população, em 2021, para 36% em 2022 - acréscimo de 8 milhões de brasileiros, totalizando aproximadamente 60 milhões de investidores no País. Em 2023, a tendência é que esse número aumente, com projeção de nova alta de 5 pontos percentuais.
Nos últimos 12 meses, o número de investidores em renda fixa na B3 cresceu 34%, enquanto aqueles que focam em renda variável apresentaram alta mais tímida (23%). De junho de 2022 até agora, a renda fixa atraiu 4 milhões de novos investidores, levando o número total de investidores da modalidade a 15,3 milhões. Só no primeiro trimestre de 2023, o montante aplicado chegou a quase R$ 1,8 trilhão, alta de 42% em relação ao mesmo período do ano passado.
Na renda variável, os números também cresceram. Cerca de 1 milhão de pessoas abriram contas nos últimos 12 meses, levando o número total de investidores a 5,3 milhões. E, pela primeira vez, o número de contas superou a marca de 6 milhões - chegou a 6,1 milhões nos três primeiros meses deste ano, acumulando um total de
R$ 439 bilhões sob custódia.
Somando esse montante com o volume aplicado em renda fixa, o valor sob custódia bate R$ 2,2 trilhões. O número de investidores totalizou 17,6 milhões, já excluindo duplicidades de investidores que estão tanto na renda fixa como na renda variável.
O diretor de Relacionamento com Clientes e Pessoa Física da B3, Felipe Paiva, admite que o cenário macroeconômico é de total incentivo para renda fixa. "Mesmo assim, o estudo demonstra que a diversificação nos mais variados instrumentos financeiros e o aprendizado durante a jornada de investimentos vieram para ficar, sobretudo, nas novas gerações", afirma. Os dados fazem parte da mais recente edição do estudo que analisa a evolução dos investidores pessoas físicas na B3, publicada este mês.
O desempenho do Índice Bovespa (Ibovespa), principal indicador de desempenho das ações negociadas na B3, reflete o reaquecimento do mercado de capitais brasileiro. O Ibovespa entrou em território de "bull market" (ciclo de alta) e vem alcançando as máximas do ano, com trajetória ascendente ultrapassando a marca dos 117 mil pontos.
Os jovens compõem a maioria dos investidores. Das atuais 5,3 milhões de pessoas que investem em renda variável na B3, 49% têm entre 25 e 39 anos. Essa também é a faixa etária em que 45% dos novos investidores entraram no mercado de equities.
A distribuição por gênero vem se mantendo estável nos últimos anos - os homens ainda são maioria (77%) entre os investidores. Mas as mulheres começam a operar ativos de renda variável com valores maiores que eles. O valor mediano do primeiro investimento delas foi de R$ 199 em março, ante R$ 59 dos homens.
A democratização do acesso à bolsa pode ser constatada também nos aportes iniciais das 106 mil pessoas que entraram na B3 em março: a mediana do primeiro investimento foi de R$ 80, mas 41% começaram sua jornada com valores de até R$ 40.
"Esses números desmistificam a ideia de que é preciso muito dinheiro para investir. Hoje, com investimento em torno de R$ 100 mensais, por exemplo, você consegue formar uma carteira sólida e, o mais importante, diversificada", comenta o educador e sócio-fundador da holding Zeneconomics, Luiz Fernando Roxo.
Conheça os principais títulos
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Títulos do Tesouro Direto
São uma forma de captação de recursos que o governo federal utiliza para se financiar. Ou seja, quem compra um título do Tesouro, está emprestando dinheiro à União. Sua rentabilidade é determinada de acordo com o patamar da taxa de juros e dos níveis de inflação atuais.
Os mais populares são:
• Tesouro Selic
• Tesouro Prefixado
• Tesouro Prefixado com Juros Semestrais
• Tesouro IPCA
• Tesouro IPCA com Juros Semestrais
CDB (Certificado de Depósito Bancário) *
Semelhantes aos títulos do Tesouro, mas quem emite são os bancos. Então, ao investir em um CDB, você está emprestando seu dinheiro ao banco e, como recompensa, recebe seu dinheiro de volta acrescido de juros depois do tempo combinado.
LCI* e LCA*
LCI e LCA são captações de recursos destinadas a empreendimentos imobiliários ou do agronegócio, respectivamente, onde os títulos são emitidos por bancos para financiar esses setores.
CRA e CRI
A principal diferença entre esse tipo de investimento em renda fixa e outros é que os títulos de CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) e CRI (Imobiliários) são lastreados em recebíveis, isto é, volume financeiro que uma empresa tem a receber pela venda de seus produtos e serviços. Esses produtos também não estão cobertos pelo FGC, então, há maior risco da empresa emissora não honrar o pagamento.
LC (Letra de Câmbio)
Captação de recursos utilizada por empresas de crédito. Ao adquirir uma LC, o investidor empresta dinheiro à companhia emissora. Essa, por sua vez, paga o empréstimo com uma taxa de rentabilidade no vencimento do título, quando o investidor poderá resgatar o dinheiro investido e os rendimentos do período.
Debêntures
Quando um investidor compra debêntures, ele está, na prática, emprestando dinheiro para a empresa emissora, que estabelece os juros e o prazo de pagamento dessa dívida. Há duas formas principais de encontrar debêntures para investir: no mercado primário, isto é, quando a empresa emite as debêntures ou no mercado secundário, onde o investidor tem as debêntures já lançadas pelas empresas no passado, mas que estão sendo revendidas.
* CDB, LCI e LCA contam com cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), que garante ao investidor o direito a indenização de até R$ 250 mil, em caso de quebra dos bancos ou das empresas emissoras de títulos.
Fonte: B3
Para construir uma carteira saudável, investidor não deve ignorar rendas variáveis
Defensor da formação de uma carteira antifrágil, o educador e sócio-fundador da Zeneconomics, Luiz Fernando Roxo, acredita que a escolha dos investimentos não deve ser feita apenas com base nos ativos que estão dando retorno ou prêmio maior no presente. É preciso um planejamento de médio e longo prazo, com calibragem da carteira de acordo com os movimentos do presente, mas sem perder de vista os ganhos no futuro.
Para Roxo, o mercado de capitais funciona em ciclos e ignorar completamente os benefícios da renda variável não é uma estratégia benéfica nem segura. "É compreensível que a renda fixa, principalmente a pós-fixada, mais conservadora, atraia à primeira vista. Porém, ignora-se que a perspectiva natural é os juros caírem. O investidor deveria, portanto, aportar, ainda que em menor quantidade, em risco", defende Roxo. Grandes quedas não são sinais apenas de que o mercado está instável: "quando todos estão muito pessimistas, pode ter um grande ciclo de alta pela frente e este é o momento de comprar".
Por isso, indica o chamado balanceamento dinâmico da carteira, que consiste na divisão dos investimentos nos extremos. "Hoje, a maior parte do dinheiro (entre 70% e 80%) você vai colocar em ativos conservadores, como Tesouro Selic, CDB, CRI, CRA. Os outros 20% a 30% você vai colocar em produtos com maior risco - em ações, em um portfólio de criptomoedas, eventualmente, e renda variável", indica. Assim o investidor se beneficia sempre dos ciclos e há uma compensação, resume Roxo.
Paralelamente a isso, é importante seguir "rebalanceando a carteira", priorizando novos investimentos no que está remunerando melhor e "sempre buscando comprar barato e vender ativos da bolsa na alta".
Brasileiros estão
mais preocupados
em investir para
a aposentadoria
Petry percebe uma migração para planos de previdência complementar devido às incertezas e receio de riscos
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Uma série de fatores externos explicam a priorização dos investimentos conservadores. Mas um comportamento bastante particular também pesa nessa decisão: os investidores ainda estão com receio de aceitar riscos devido às incertezas vividas durante dois anos de pandemia. "Tem gente que saiu da bolsa para nunca mais voltar. E colocou seu dinheiro em poupança ou em planos de previdência complementar", percebe o economista e sócio da Gestor Um Consultoria, Ben-Hur Petry.
A 6ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, realizada pela Anbima em parceria com o Datafolha, aponta queda no número de pessoas que acreditam que vão precisar do INSS quando chegar nessa fase da vida em relação ao ano anterior. Apenas 51% estimam que terão de contar com esta aposentadoria enquanto fonte principal de renda. Os entrevistados declararam que esperam depender do próprio salário (22%), de aplicações financeiras (12%) e da previdência privada (6%). Entre os "não aposentados", 18% começaram uma reserva para a aposentadoria e outros 58% ainda não, mas pretendem. E 24% não começaram e nem pretendem fazê-lo.
Um novo produto inédito voltado à aposentadoria acompanha essa demanda. O Tesouro RendA foi disponibilizado em janeiro pela B3 e pelo Tesouro Nacional e teve enorme aceitação. O título é um híbrido do Tesouro Direto, que remunera a variação da inflação medida pelo IPCA, mais uma taxa real (prefixada) e foi criado para responder a uma alta demanda do mercado brasileiro por produtos que ajudem no planejamento previdenciário.
O objetivo é oferecer um modelo mais prático de planejamento financeiro. No site do Tesouro Direto é possível realizar uma simulação através de uma calculadora do aporte mensal e o valor a receber ao longo de 20 anos após a aposentadoria.
Cerca de quatro meses após seu lançamento, o RendA fechou o mês de maio com mais de R$ 782 milhões aplicados - um volume impressionante, segundo Paiva. Metade dos investidores do produto têm entre 25 e 39 anos, mas os 42% com idade acima de 39 anos concentram 75% do saldo em custódia.
Petry reforça que é preciso realizar um planejamento cuidadoso e investir em planos de previdência privada ou em RPPS (de regimes próprios de previdência social) responsáveis, que invistam em fundos realmente confiáveis. "Recentemente assistimos a um caso emblemático de RPPS que correm o risco de perder cerca de R$ 60 milhões do patrimônio de participantes dos planos que administram por que investiram em uma gestora irresponsável."
Vantagens da renda fixa
Com critérios de rentabilidade e prazo definidos, os investimentos em renda fixa proporcionam:
• Previsibilidade: no caso dos títulos pré-fixados, e se forem mantidos até a data do vencimento, o investidor sabe com antecedência a quantia que irá receber;
• Garantia do FGC: o Fundo Garantidor de Crédito cobre perdas de algumas aplicações em caso de quebra da instituição financeira, desde que o valor não ultrapasse R$ 250 mil por CPF ou CNP
• Isenção de Imposto de Renda: os ganhos obtidos com algumas categorias de título, como LCI, LCA e CRI, são isentos de tributação. Em alguns casos, a alíquota de imposto é menor quanto maior o tempo de permanência. É o caso do CDB, cujo desconto varia de 22,5% para investimentos por até 180 dias a 15% para aqueles acima de 720 dias.
• Liquidez: em alguns casos, é possível resgatar o investimento no mesmo dia. Mas é bom lembrar que investimentos com prazos curtos podem pagar mais imposto de renda e ter rentabilidade menor.
Fonte: B3
Fundos de índices de renda fixa atrelados ganham atenção
Duas novas formas de aplicação que podem ser atreladas a índices de renda fixa, os fundos de índices com cotas listadas na B3 e recibos de fundos estrangeiros negociados na bolsa - ETFs (Exchange Traded Funds) e BDRs (Brazilian Depositary Receipts) de ETFs - têm chamado atenção dos investidores. Os ETFs são fundos negociados em bolsa que buscam refletir as variações e a rentabilidade de índices de renda fixa cujas carteiras são compostas, majoritariamente, por títulos públicos ou títulos privados. E os BDRs são recibos que permitem que cotas de fundos estrangeiros sejam negociadas na B3.
Hoje, são nove os ETFs de Renda Fixa disponíveis na B3. Entre as vantagens está o fato de terem, em geral, uma taxa de administração menor e o investidor só é cobrado pelos dias em que fica com as cotas em sua carteira, como ocorre nos fundos tradicionais.
Em relação à tributação, os ETFs de renda fixa pagam 15% de imposto de renda sobre o rendimento, a menor alíquota possível, independentemente do prazo do fundo. Isso quer dizer que o investidor tem que pagar 15% de imposto sobre o lucro caso venda sua cota por um preço superior do que aquele que pagou quando comprou. Outro ponto sobre tributação é que os ETFs de renda fixa não contam com o imposto "come-cotas", que desconta semestralmente (em maio e novembro) dos fundos de investimento em renda fixa. Já os BDRs de ETFs de renda fixa norte-americanos são especialmente novos no Brasil.
Esses produtos começaram a ser negociados na B3 em fevereiro de 2022, mas somente a partir de junho passaram a ser acessados por qualquer tipo de investidor e não apenas pelos qualificados (que têm mais de R$ 1 milhão para investir).
No início de 2023, poucos meses depois do início da sua oferta, o volume médio negociado por dia nestas aplicações, que replicam índices de títulos de renda fixa nos Estados Unidos, aumentou 153% apenas em um mês, de acordo com os dados mais recentes informados pela B3. Saltou de R$ 3,7 milhões em janeiro para R$ 9,1 milhões em fevereiro.
Para emissão do BDR de ETF, o administrador dos ETFs no exterior realiza um contrato com uma instituição financeira no Brasil. O aumento na taxa de juros norte-americana alavancou a busca por estes fundos e recibos que replicam índices de títulos públicos e de papéis privados, emitidos por empresas, daquele país. Não é possível apontar com certeza, mas a análise dos investidores de que o Fed (o Banco Central dos Estados Unidos) deve voltar a reduzir os juros está correta, segundo os especialistas. Com isso, os preços desses títulos devem voltar a subir e, com eles, os ETFs.
*Roberta Mello é formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (Pucrs). Atuou como repórter de Economia no Jornal do Comércio de 2013 a 2021, onde conquistou os prêmios B3 de Jornalismo - Categoria Demais Regiões (edição 2018) e Transparência de Jornalismo (2017). Hoje, atua como assessora de imprensa e repórter freelancer.