Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Com a palavra Benny Dembitzer

- Publicada em 02 de Setembro de 2022 às 20:26

Nobel da Paz critica 'sistemas fora de controle' e globalização

O economista britânico Benny Dembitzer está no Brasil para ciclo de palestras

O economista britânico Benny Dembitzer está no Brasil para ciclo de palestras


Mariana Tripoli / UniRitter / Divulgação
Bárbara Lima
Em sua passagem por Porto Alegre, na terça-feira passada (29), o Nobel da Paz em 1985 e economista britânico, Benny Dembitzer, esteve no campus zona Sul da UniRitter para uma palestra que debateu o futuro da economia e do meio ambiente. A mesma conferência, intitulada "Recuperando o nosso planeta: cenários futuros e mudanças globais - economia, sociedade e meio ambiente", será ministrada em outras instituições da Ânima Educação.
Em sua passagem por Porto Alegre, na terça-feira passada (29), o Nobel da Paz em 1985 e economista britânico, Benny Dembitzer, esteve no campus zona Sul da UniRitter para uma palestra que debateu o futuro da economia e do meio ambiente. A mesma conferência, intitulada "Recuperando o nosso planeta: cenários futuros e mudanças globais - economia, sociedade e meio ambiente", será ministrada em outras instituições da Ânima Educação.
Dembitzer era diretor europeu da Médicos Internacionais para a Prevenção da Guerra Nuclear (IPPNW) quando ganhou, junto com a equipe, o Prêmio Nobel da Paz em 1985. O economista também dirigiu o Fundo de Pesquisa e Investimento para o Desenvolvimento da África na década de 1970 e foi conselheiro sobre o desenvolvimento industrial da Conferência de Coordenação de Desenvolvimento da África Austral (SADCC). Ao longo dos anos, trabalhou em 35 países na África e na Ásia.
Ao caderno Empresas & Negócios, ele afirmou estar assustado e com medo de uma próxima guerra nuclear, com o acirramento das tensões entre Rússia, China e Estados Unidos, por conta da guerra do país russo contra a Ucrânia. Segundo ele, "criamos um sistema que está fora de controle", o que irá trazer problemas futuros para a economia e meio ambiente.
Empresas & Negócios (E&N) - No ciclo de palestras que o senhor está realizando no Brasil, destacam-se as temáticas economia, meio ambiente e futuro. Como esses assuntos estão relacionados?
Benny Dembitzer - Penso que o principal tópico quando relacionamos esses três assuntos é que não conseguimos mais controlar o sistema econômico que nós mesmos criamos e isso é perigoso para o futuro e para o meio ambiente também. Mesmo que você, enquanto sociedade, peça para se reduzir a fabricação de carros porque poluem, mesmo que todos os trabalhadores parem de produzir carros, criamos máquinas que vão continuar produzindo, independentemente da força humana. Além do problema ambiental, tem o problema do desemprego. Se não mudarmos a linguagem do mercado, não vamos conseguir parar ou resolver esse impasse. O grande desafio é mudar isso. Não é a minha geração que vai conseguir esta mudança. A sua geração precisa de coragem para criar uma nova linguagem.
E&N - A que o senhor atribui esse impasse?
Dembitzer - Se eu falasse que é tudo culpa do capitalismo, seria uma resposta fácil, a qual não acredito. Existem diversos tipos de capitalismo. Sou um capitalista, eu tive um trabalho, eu trabalhei duro, guardei dinheiro todo mês e todo ano e, assim, eu consegui comprar a minha casa. Isso é capitalismo à nível pessoal. Depois, temos um segundo nível, o corporativo. É um capitalismo controlado por seus membros. Então, você tem um capitalismo mais alto, que chamamos de companhia limitada, onde nós investimos para melhorar nosso futuro, para ter melhor eletricidade, por exemplo. E tem um quarto nível de capitalismo, que é o mais problemático, na minha visão.
E&N - Que nível é esse?
Dembitzer - É o capitalismo do quarto nível. Neste grupo, estão as empresas que nenhum governo pode controlar. Por exemplo, a Amazon ou a Apple. Quem vai controlar a Amazon? Para mim, o problema não é o capitalismo simplesmente, porque as regras do capitalismo são muito mais profundas e atravessaram longos séculos. Foram se formando com o tempo. Exemplo: sempre houveram escravos em nossa história, isso é capitalismo? não. Usamos capitalismo para comprar pessoas na África e transportá-las para fazer dinheiro no Brasil e na América do Norte. Mas, antes disso, a escravidão já existia, certo? O capitalismo virou o último elemento de uma longa exploração do poder. Na Idade Média, não existia capitalismo, mas existia poder da Igreja.
E&N - Na sua visão, então, essas empresas precisam de algum tipo de controle?
Dembitzer - Sim, mas quem vai controlar ? Governadores? Eles não têm o poder. As Nações Unidas? Essa instituição foi marginalizada quando o neoliberalismo começou a imperar. Essa foi uma decisão política do presidente Ronald Reagan, nos Estados Unidos, e de Margaret Thatcher, no Reino Unido. Nossa sociedade, incluindo o capitalismo do quarto nível, produzido, em grande parte, pelos grandes negócios universitários, como os da Universidade de Yale e Harvard, todas estão se espalhando como um vírus pela Europa. A lógica é assim: "eu vou construir uma organização melhor que a sua e nós vamos fazer um produto melhor que o seu". É a lógica do crescimento de capital desenfreado. Quem vai controlar isso? Você tem uma resposta? Talvez o Papa tenha.
E&N - Vivemos um período de inflação e aumento no custo de vida. No Reino Unido não tem sido diferente, especialmente após o Brexit. Como o senhor analisa essa situação?
Dembitzer - Sim. A inflação está fora do controle na maioria dos países, por razões que, para mim, são instâncias de poder utilizando o capitalismo. Vocês têm inflação do preço da comida no Brasil. Mas o Brasil é um grande produtor de comida. Então, por que? Por que a comida está mais cara no Brasil? Porque vocês exportam o que vocês são bons em fazer e importam o que outros são bons em fazer. Isso é um erro! Vocês estão ignorando as consequências humanas e ambientais nessa transação. Para mim, a razão que explica termos inflação alta em grande escala é porque estamos colocando o poder na mão de poucas pessoas.
E&N - O que fazer, então?
Dembitzer - Investir em novas soluções, mais limpas e que gerem autonomia para cada país. Veja, na Arábia Saudita, um dos países mais ditadores e violentos do mundo, especialmente quando falamos em violência contra as mulheres, o príncipe Mohammed Bin Salman conversa lado a lado com o presidente dos Estados Unidos, o Biden. Isso é imoral. Vocês, o Brasil, não precisam dialogar com lugares assim, olha quanta energia solar poderia ser produzida aqui, olha quanta energia eólica. Nós permitimos que o monopólio sequestrasse nossas possibilidades. Mas os recursos de cada país são a nossa saída.
E&N - O Brasil é considerado um país emergente. Estamos em ano de eleição. O que nossos futuros governantes precisam fazer para que o quadro econômico melhore?
Dembitzer - Nunca entendi esse termo de economia emergente. Não estamos falando de desenvolvimento, mas sim de crescimento como medida de retorno financeiro. O problema dos países emergentes é que eles foram forçados a adotar uma política econômica de globalização que não conseguem sustentar por conta da disparidade de poder entre eles e os grandes países. Assim, para que mais pessoas tenham uma qualidade de vida melhor, inclusive na economia, precisamos reorientar nossos interesses. Precisamos reivindicar nossos direitos. Temos que nos ajudar individualmente também, pois o sistema está fora de controle.
E&N - O senhor foi Nobel da Paz em 1985 e viveu momentos tensos, tendo, inclusive, participado do Programa Médicos Internacionais para Prevenção à Guerra Nuclear. Hoje, vivemos novamente um momento crítico e de tensão nuclear na Europa com a guerra entre Ucrânia e Rússia. Qual sua avaliação a respeito?
Dembitzer - Você quer saber se tenho medo de uma guerra nuclear? Eu estou com medo, sim! O presidente Putin está usando o poder do Estado para derrubar acordos, isso é só o início. O sistema está fora do controle. Quando, alguns meses atrás, houve aquela discussão sobre os grãos interditados no porto de Odessa, os militares americanos disseram que estariam lá no caso dos russos decidirem atacar.
E&N - Em seu livro "The Famine Next Door : Africa Is Burning. The North Is Watching", você analisa que o Ocidente apenas assiste parado aos problemas da África. Quais são as implicações disso?
Dembitzer - Bem, a consequência que o ocidente está enfrentando é a inserção da China na maioria dos países africanos. O problema é que a China tem o capitalismo mais perigoso, o de Estado. Nessas situações, os mais fracos não têm nenhuma chance. Num local onde os juízes não estão do lado dos trabalhadores em nenhuma situação, o poder fica completamente concentrado em grandes empresas e governos.
 
Conteúdo Publicitário
Leia também
Comentários CORRIGIR TEXTO