Seja na área trabalhista, política, ambiental ou econômica, o Polo Petroquímico de Triunfo foi e ainda será pauta para várias discussões. A unanimidade quanto ao complexo, que completa 30 anos de produção, é a sua grandiosidade, que faz com que uma cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, como Triunfo, contabilize um dos maiores PIBs entre os municípios do Rio Grande do Sul, cerca de R$ 5,3 bilhões, em 2009, segundo dados do IBGE.
Até a data do aniversário é polêmica. Alguns consideram 22 de novembro de 1982, com a partida das unidades operacionais da Companhia Petroquímica do Sul (Copesul). Outros dizem que vale a inauguração oficial, em 4 de fevereiro de 1983, como o início do polo petroquímico gaúcho. Porém, a maioria dos envolvidos aponta o dia 5 de dezembro de 1982, com a especificação do eteno e a condição de fornecimento da matéria-prima, como o nascimento desse importante complexo industrial.
A Copesul, controlada pela Petrobras, surgiu com uma capacidade de produção de até 450 mil toneladas ao ano de eteno (atualmente, sob o comando do grupo Braskem, a unidade de Triunfo pode atingir cerca de três vezes mais esse volume). Os clientes originais desse eteno eram Polisul (Ipiranga, Hoechst e Petroquisa), PPH (Olvebra, Hércules, Petroquisa), Poliolefinas (Unipar, Petroquisa, Nacional Destillers), Petroquímica Triunfo (Petroplastic, Petroaplub, Petroquisa, Atochem Chimie) e Petroflex (Petrobras, Uniopar). Atualmente, o polo é formado pela Braskem, Lanxess, Borealis, Innova, Oxiteno e White Martins.
Apesar de os anos de 1980 representarem o início das operações, a década de 1970 é que concentrou os debates para a construção dessa estrutura. Entre as principais discussões sobre o projeto, estavam a sua localização e o impacto ambiental que implicaria. Em 1973, atendendo ao pedido do então governador Euclides Triches, a Fundação de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (Cientec) iniciou estudo preliminar sobre a viabilidade da implantação de um terceiro complexo petroquímico brasileiro no Estado. O Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE), órgão da Presidência da República, decide pela implantação do polo no Rio Grande do Sul em 1975 e, em setembro de 1977, iniciam as obras de construção da Copesul, com os serviços de terraplenagem.
O coordenador das obras e primeiro diretor-superintendente da Copesul, Percy Louzada de Abreu, lembra que o orçamento para implementar a central petroquímica (que possibilitava a implantação das outras empresas no polo) era, na época, de US$ 836 milhões. O engenheiro civil, nascido em Pelotas, antes de assumir sua função no polo de Triunfo já havia sido superintendente da refinaria Alberto Pasqualini (Refap), em Canoas, e trabalhado na refinaria Landulpho Alves, na Bahia. Querendo retornar ao Estado, ele participou efetivamente da montagem do polo petroquímico.
Abreu, hoje com 82 anos, exerceu a superintendência da Copesul de junho de 1975 até outubro de 1983. Ele lembra que, entre as possíveis localizações para o complexo no Rio Grande do Sul, foram apontadas as áreas da atual fábrica da General Motors (GM), em Gravataí, a que hoje se cogita para a instalação de um novo aeroporto, em Nova Santa Rita, e a terceira em Triunfo. Entre as razões da escolha por esse município, detalha Abreu, estavam as melhores condições para executar as ações de proteção ambiental e para o escoamento de produção (opções ferroviária, hidroviária e rodoviária). No final, o governo do Estado declarou de utilidade pública uma área de cerca de 15 mil hectares, dentro da qual foi feita uma “microlocalização” de 1,8 mil hectares, onde fica o complexo básico hoje.
Justificativas originais da escolha pelo Estado não se confirmaram

Abreu lembra que trabalho do governo apontava as conveniências locais. MARCO QUINTANA/JC
O então presidente da República, Ernesto Geisel, teve dificuldades em decidir pelo Rio Grande do Sul para sediar o terceiro polo petroquímico do País (os outros eram em São Paulo e na Bahia) por não querer passar a imagem de que fez essa opção por ser gaúcho. De acordo com Percy Louzada de Abreu, o dirigente estava apoiado em um trabalho feito pelo próprio governo que apontava a conveniência de o complexo ser no Rio Grande do Sul. “Apesar de que, logo em seguida, o tempo mostrou que as bases fundamentais em fazer o complexo no Estado eram equivocadas”, aponta Abreu.
O ex-superintendente cita, entre as razões levantadas para construir o polo no Rio Grande do Sul, a ideia da integração da indústria do refino de petróleo com a petroquímica básica, a chamada refinaria-petroquímica. “Era um modelo que estava se impondo no mundo, e aqui se apresentava essa possibilidade”, aponta, ao acrescentar que a determinação original era de fazer a estrutura nas proximidades da Refap, e que se pensava, até mesmo, de concretizá-lo dentro do sítio da refinaria. Entretanto, com a preocupação ambiental e pelo fato de a refinaria ter sido cercada pela área urbana, não foi possível seguir nessa direção.
Também se esperava que a Refap pudesse suprir a nafta para o polo. “Não podia, nunca pôde e nunca vai poder”, salienta Abreu. Outro motivo era de que o consumo de petroquímicos no Brasil estava crescendo enormemente naquele momento, cerca de 25% ao ano, e justificava a implantação do terceiro complexo petroquímico em uma outra região do País, com a promoção da descentralização do desenvolvimento industrial. Projetava-se que o polo gaúcho iria entrar em operação para abastecer exclusivamente o mercado interno. Porém, posteriormente, o consumo caiu 15% ao ano, com o choque do petróleo. Com isso, o mercado gaúcho chegou a representar cerca de 8% do mercado brasileiro de petroquímicos, e a capacidade do polo era de 35% da demanda nacional. Por isso, o projeto mudou e assumiu uma característica exportadora.
Estrutura gerou discussão ambiental
A atividade petroquímica, por si só, já seria um tema que oportunizaria um amplo debate sobre a questão ambiental. O polo de Triunfo enfrentou um problema a mais: ser “vizinho” da antiga celulose Borregaard, que se localizava em Guaíba e era alvo de denúncias de célebres ambientalistas, como José Lutzenberger.
Percy Louzada de Abreu ressalta que os ambientalistas se manifestavam contra a criação do complexo. “Os muros de Porto Alegre estavam cheios de frases como, por exemplo, ‘fora polo’”, recorda o engenheiro aposentado. Ele complementa que se dizia que a população seria envenenada pelos efluentes ali gerados. Além disso, indagava-se se não era melhor aplicar os recursos em outros segmentos, como o da educação.
Apesar disso, as obras da Copesul foram desenvolvidas, praticamente, dentro do prazo estipulado. Abreu revela que o complexo não ficou totalmente dentro do cronograma, pois havia uma eleição estadual marcada também para 1982 (primeiras eleições diretas para governador depois do golpe militar). “O pessoal do governo ficou com medo de a estrutura entrar em operação e ter algum problema ambiental antes da disputa”, diz Abreu. Após a vitória do candidato do PDS, Jair Soares, o polo começou a operar.
Abreu relata que o problema no começo foi encontrar mão de obra, que praticamente não existia, para trabalhar no novo complexo. “Havia o pessoal da refinaria, mas não se podia deixar essa indústria descoberta”, relata Abreu. Então, esses colaboradores foram buscados dentro das escolas técnicas da região e formados profissionais como, por exemplo, soldadores. Segundo Abreu, mais de 10 mil homens trabalharam nas obras de construção do polo.
Controle foi disputado por décadas
Nascida sob a proteção do braço forte da Petrobras, mas enfrentando a dificuldade que uma burocracia estatal apresenta, a Copesul foi cobiçada por várias empresas nos últimos anos. Depois do leilão de privatização da central petroqúimica, ocorrido em 1992, que dividiu o controle acionário entre os grupos Ipiranga e Odebrecht, mais quinze anos se passaram até se chegar à fase atual de consolidação do setor petroquímico.
Em 2007, Petrobras, Ultra e Braskem compraram o grupo Ipiranga pela soma de US$ 4 bilhões. Enquanto as duas primeiras companhias focaram-se nos ativos de combustíveis, a última, controlada pela Odebrecht, assumiu a parte petroquímica. Com isso, além de conquistar o controle da central petroquímica de Triunfo, a Braskem ainda ficou com algumas plantas de segunda geração que a Ipiranga possuía no local.
A própria origem da Braskem, em 2002, com a integração dos ativos petroquímicos dos grupos Odebrecht e Mariani (OPP, Trikem e Nitrocarbono) já mudava o cenário da petroquímica nacional. “Era um modelo que não tinha volta, porque era o que estava acontecendo ao redor do mundo”, aponta o diretor da MaxiQuim, Otávio Carvalho. Antes da formação da Braskem, ele recorda que se criticava o fato de a petroquímica brasileira ser uma das poucas no planeta que não era integrada, com a produção de monômeros e polímeros dentro da mesma empresa. “Isso implicava uma série de desvantagens do ponto de vista econômico, então, olhando para trás, foi um caminho natural”, afirma Carvalho.
“O objetivo era bem claro, desde a formação da Braskem, a liderança do mercado petroquímico nacional”, comenta o gerente de Relações Institucionais da Braskem no Rio Grande do Sul, João Ruy Freire. Ao surgir, a Braskem já controlava, isoladamente, a central petroquímica de Camaçari, no Nordeste. No entanto, no Rio Grande do Sul, teve que dividir o controle da Copesul com a Ipiranga. O grupo gaúcho e a Odebrecht eram duas empresas com objetivos diferentes, a primeira mais cautelosa, e a segunda com foco no crescimento.
Antes da formatação do arranjo entre Petrobras, Ultra e Braskem para a compra da Ipiranga, já se sabia do interesse da Odebrecht pelos ativos petroquímicos dessa companhia. Então, era comum observar, na década passada, campanhas do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias do Polo Petroquímico de Triunfo (Sindipolo) contra o que a entidade chamava de concentração da petroquímica nacional.
O presidente do Sindipolo, Carlos Eitor Rodrigues, lembra dos slogans proclamados na época como: “o polo é dos gaúchos, governo Lula não entregue à Odebrecht”. De acordo com o sindicato, a partir da compra do grupo Ipiranga, a Braskem demitiu cerca de 700 trabalhadores diretos. Conforme Rodrigues, o complexo, que já teve mais de quatro mil trabalhadores diretos, atualmente tem apenas cerca de 2,1 mil.
Apesar dessas críticas, o dirigente admite que o período de maior instabilidade já passou. No entanto, ele chama a atenção que muitos trabalhadores antigos do polo, estão se aposentando nos últimos anos, e é preciso qualificar a formação do novo pessoal que vai substituí-los. “Não pode ser apenas um simples cursinho”, sustenta Rodrigues.
Especialidades devem ser o foco para o futuro
A principal incógnita sobre o futuro do polo petroquímico gaúcho é como o complexo enfrentará a acirrada competição internacional. O diretor da consultoria MaxiQuim Otávio Carvalho acredita que um dos caminhos é o de produtos especiais. E, ironicamente, a idade do complexo é um fator que pode contribuir para que essa nova trajetória seja adotada.
Isso porque as estruturas mais antigas do setor, como a central petroquímica gaúcha, utilizam como matéria-prima fundamental a nafta, e as atuais aproveitam mais o gás natural. Carvalho salienta que há produtos químicos, como o da cadeia dos elastômeros (borrachas), que podem ser feitos a partir da nafta, mas não do gás natural. “O que pode propiciar uma linha de artigos de maior valor agregado no polo de Triunfo”, diz o consultor.
O gerente de Relações Institucionais da Braskem no Rio Grande do Sul, João Ruy Freire, também projeta que nos próximos anos é preciso trabalhar na consolidação das cadeias do polo petroquímico. Nesse sentido, ele recorda que a Braskem inaugurou em setembro a sua segunda planta de butadieno. O investimento da companhia na unidade, com capacidade para 103 mil toneladas anuais do insumo, foi de R$ 300 milhões. A matéria-prima é utilizada pela indústria de borrachas sintéticas que, por sua vez, são usadas na fabricação de pneus e artefatos em geral.
“Hoje, é um insumo no mundo petroquímico raro, que deve consolidar a cadeia de elastômeros na região, com fabricantes de borracha e suas decorrências, como as indústrias de pneus”, projeta Freire. Ele ainda enfatiza as possibilidades com os chamados plásticos verdes (fabricados a partir do etanol da cana de açúcar) e da ampliação do uso de matérias-primas renováveis.
Em 2010, a Braskem inaugurou a sua primeira “planta verde” em Triunfo, que absorveu R$ 500 milhões em investimentos, com uma capacidade para produzir anualmente 200 mil toneladas de eteno, que serão transformadas em 200 mil toneladas de polietileno destinadas à produção de sacolas, embalagens e outros itens. A companhia avalia agora a construção de uma unidade de polipropileno verde, e o polo petroquímico gaúcho, novamente, pode ser sede desse empreendimento.