Com área de atuação circunscrita aos estados do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, a Eletrosul planeja estender os investimentos a outras regiões brasileiras e para outros países da América do Sul. Os alvos são empreendimentos de transmissão e de geração de energia, afirma o presidente da companhia, Eurides Mescolotto. Além da capacidade própria, a empresa conta com o apoio da controladora Eletrobrás para prosseguir nesse caminho.
JC Empresas & Negócios - A Eletrosul pretende expandir suas ações além do seu tradicional mercado?
Eurides Mescolotto - Isso depende da holding. Na hora em que a Eletrobrás chamar, nós vamos. Não temos problemas para enfrentar disputas por empreendimentos. Temos capacidade técnica e know-how. Nossa corporação é forte, queremos empreender em outros estados além do Sul. Planejamos expandir também para os países vizinhos.
Empresas & Negócios - Como está se desenvolvendo o projeto de internacionalização da Eletrosul?
Mescolotto - Quem estabelece as relações internacionais é a nossa holding, a Eletrobrás, e ela chama suas subsidiárias para intervir no processo. A Eletrobrás cuida do aspecto gerencial. Mas, como o principal território de atuação da Eletrosul é limítrofe com outros países, a empresa vem sendo sondada para realizar empreendimentos em várias nações. Nós estamos fazendo um projeto de interligação do Brasil (através de uma linha de transmissão de energia) com o Uruguai. A Eletrobrás já tem estudos em outros países como Peru, Venezuela, Bolívia, entre outros. E a Eletrosul poderá ser chamada para colaborar com essas iniciativas.
Empresas & Negócios - Por onde passará a linha que ligará o País ao Uruguai?
Mescolotto - Será feita uma linha com tensão de 525 kV de Nova Santa Rita até Candiota, no Rio Grande do Sul. Depois, será construída uma linha de mesma tensão de Candiota a Melo, no Uruguai. É um projeto fundamental para o Uruguai e deve ser desenvolvido por volta de 2012.
Empresas & Negócios - Por que a Eletrosul optou por participar do consórcio que construirá a usina Jirau (hidrelétrica de 3,3 mil MW, no Rio Madeira, em Rondônia, com investimento de cerca de R$ 9 bilhões)?
Mescolotto - A Eletrobrás decidiu que as suas subsidiárias não ficassem presas à questão regional. Qualquer uma pode ser chamada para participar de um empreendimento, em qualquer lugar do Brasil, dependendo da sua situação, da logística e dos técnicos que possuem. Nós fomos chamados para participar em Jirau pelo próprio governo e pela Eletrobrás. Constituímos um consórcio em que participamos com a Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco), como estatais, e conta ainda com as companhias privadas Suez Energy e Camargo Corrêa. Honra-nos muito termos sido chamados, porque significa que somos uma empresa competente, que pode participar de grandes projetos. Também vamos construir a maior subestação do Norte do País, em Porto Velho (RO). O complexo vai receber a energia proveniente das usinas de Santo Antônio e de Jirau.
Empresas & Negócios - Os projetos de geração em que a Eletrosul está envolvida hoje somam que capacidade de produção de energia?
Mescolotto - Totalizam aproximadamente 4 mil MW (um pouco mais do que a demanda média do Rio Grande do Sul). Nós já estamos trabalhando para construir esses projetos e não há um limite, o País não pode ter limite. Precisaremos gerar no Brasil, até 2030, o dobro do que temos hoje de geração de energia.
Empresas & Negócios - Como está o desenvolvimento da hidrelétrica Passo São João (77 MW) que está sendo construída no rio Ijuí, na região Noroeste do Rio Grande do Sul?
Mescolotto - As obras estão em andamento e dentro do cronograma. Vamos, provavelmente, iniciar a geração em junho de 2010. Deve ser a primeira produção de energia efetiva da Eletrosul depois da privatização da área de geração (1998). Vai ser um momento importante e faremos muita festa no Rio Grande do Sul por isso.
Empresas & Negócios - Como o senhor avalia o desempenho financeiro da empresa neste ano?
Mescolotto - O resultado da companhia neste ano vai ser muito bom. Nós estamos esperando um lucro em torno de 20% superior ao verificado no ano passado (R$ 268,3 milhões). Nós vamos colaborar para que a nossa holding saia do seu prejuízo. Muito provavelmente a Eletrobrás também vai dar lucro no final do ano (no primeiro semestre a Eletrobrás verificou um prejuízo de R$ 1,98 bilhão).
Empresas & Negócios - Como a Eletrosul conseguiu desvincular-se do resultado negativo da Eletrobrás?
Mescolotto - Na verdade, o resultado negativo da Eletrobrás foi por uma série de fatores não recorrentes. Houve a necessidade de uma provisão muito grande em relação à Chesf e a questão do câmbio. Como a Eletrobrás está muito alavancada em moeda estrangeira, quando o câmbio sobe, sobe o lucro, quando desce, cai o lucro. Essas circunstâncias fizeram com que a Eletrobrás desse prejuízo. Mas, isso será revertido até o final do ano.
Empresas & Negócios - Qual a estimativa de investimento da companhia para esse ano?
Mescolotto - O investimento será de cerca de R$ 550 milhões neste ano. Para 2010, a expectativa é chegar a um patamar de cerca de R$ 1 bilhão. Várias obras em andamento devem ser aceleradas no próximo ano.
Empresas & Negócios - A Eletrobrás manifestou a intenção de repotencializar suas subsidiárias. No que consiste esta ação?
Mescolotto - A Eletrobrás pretende levar todas as suas controladas a um nível de excelência. Não é uma construção fácil, pois as subsidiárias nasceram antes do que a holding. Então existem culturas muito diferentes. Nós vamos ter inversões de capital onde for necessário. A Eletrobrás é muito alavancada em moeda, o que não tem sentido. Precisa ficar alavancada em serviço. Vai haver essa mudança, tirar o dinheiro do mercado financeiro para poder colocar em investimentos de transmissão e de geração de energia.
Empresas & Negócios - A Eletrosul deve participar da disputa do leilão eólico de novembro com dois projetos gaúchos, um em Santana do Livramento e outro em São José dos Ausentes. Qual a perspectiva para a disputa?
Mescolotto - Estamos com uma expectativa muito grande de entrar e ganhar o leilão. Teremos que investir nessa tecnologia e apreender. Abre-se uma nova perspectiva que é essencial para o País. Dentro do grupo Eletrobrás, sem dúvida nenhuma, a Eletrosul é a empresa que está mais avançada neste processo. Se der tudo certo, e ganharmos o leilão, começará uma nova etapa para a Eletrosul.
Empresas & Negócios - Como o senhor avalia a concorrência dentro do setor elétrico entre empresas privadas e estatais?
Mescolotto - Nós temos diferenças, pois as estatais ainda apresentam várias amarras. As estatais estão submetidas à Lei 8.666 (regulamentação que estabelece normas gerais sobre licitações e contratos administrativos). Não podemos ter um fornecedor direto, tudo é feito por licitação, que normalmente demora. Outro exemplo são os empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes). Não podemos oferecer garantias. Mas, a situação está mudando e tentamos derrubar isso com o Bndes. É ilógico você ter um empreendimento e não poder oferecê-lo como garantia.