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Publicada em 24 de Maio de 2026 às 14:58

"Precisamos reconstruir a capacidade de pagamento do produtor", diz Domingos Velho Lopes

Lopes foi oficialmente empossado presidente da Farsul neste domingo

Lopes foi oficialmente empossado presidente da Farsul neste domingo

TÂNIA MEINERZ/JC
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Gabriel Margonar
Gabriel Margonar
Empossado oficialmente neste domingo (24) como presidente da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) para a gestão 2026-2029, Domingos Velho Lopes assume o comando da entidade em um dos momentos mais delicados para o agro gaúcho nas últimas décadas. O setor ainda convive com os impactos acumulados de estiagens sucessivas, das enchentes de 2023 e 2024 e do elevado endividamento dos produtores rurais, enquanto busca alternativas para recuperar crédito, competitividade e capacidade de investimento.
Engenheiro agrônomo e produtor rural em Mostardas e Palmares do Sul, Lopes já vinha exercendo a presidência desde janeiro, após suceder Gedeão Silveira Pereira. Em entrevista ao Jornal do Comércio após a cerimônia de posse, realizada na sede da entidade, em Porto Alegre, o dirigente falou, entre outras coisas, sobre os primeiros meses de gestão, os desafios do agro gaúcho, a securitização das dívidas rurais e o acordo entre Mercosul e União Europeia.
Jornal do Comércio - Quais serão as prioridades da sua gestão à frente da Farsul?
Domingos Velho Lopes - Essa gestão tem muito foco em colocar novamente toda a agricultura apta ao crédito. Queremos buscar uma aproximação muito forte com o meio urbano, para mostrar aquilo que fazemos todos os dias nas 35 cadeias produtivas organizadas do Rio Grande do Sul. Também queremos resgatar o orgulho da sociedade gaúcha, especialmente urbana, daquilo que é mais intrínseco na personalidade do Estado, que é o sentimento de ser produtor rural.
JC - Como foram esses primeiros cinco meses no comando da entidade?
Lopes - Muito trabalho, muita união e muita articulação com Brasília e com a CNA, buscando fortalecer uma pauta coletiva junto à nossa confederação. Esse tem sido o grande desafio nesses primeiros meses. Além disso, temos participado de muitos eventos urbanos, especialmente os que envolvem jovens e crianças, para mostrar a verdade sobre o agro gaúcho.
JC - Hoje, qual é o principal desafio do agro no Rio Grande do Sul?
Lopes - Nós temos vários desafios, mas, na minha ótica, existem três principais. O primeiro é recolocar todos esses produtores que estão com dificuldade - desde a agricultura familiar até a empresarial - novamente no crédito. A aproximação com a cidade também é vital. E o terceiro ponto, tão importante quanto os demais, é consolidar a segurança alimentar, porque somos [o agronegócio] responsáveis por alimentar 15% da população brasileira e mundial, e iremos chegar a 25%. Somos segurança alimentar. Além disso, precisamos aproveitar a oportunidade dos biocombustíveis que está logo ali na frente.
JC - O quanto as estiagens e a enchente de 2024 ainda reverberam no setor?
Lopes - Reverberam muito porque dificultaram o crédito. Tivemos quatro secas e duas enchentes, incluindo a gigante de 2024, que retirou produto e liquidez do produtor rural. Precisamos dar condições para que as próximas safras permitam ao produtor ir pagando suas contas em um prazo mais longo. Hoje nosso maior gargalo é justamente a capacidade de pagamento.
JC - E como está a articulação em torno da securitização das dívidas rurais?
Lopes - Muito difícil essa questão. Estava tudo alinhado para a votação do relatório do senador Renan Calheiros na Comissão de Assuntos Econômicos, mas voltou para trás. Brasília é sempre uma caixa de surpresas. Nós temos que estar presentes, com muita seriedade, credibilidade e estratégia, mostrando aquilo que precisamos realizar. Terça-feira está pautado novamente na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, às 10h. Claro que pode ser retirado de pauta, mas não é o que acreditamos neste momento.
JC - Como o senhor avalia o diálogo da Farsul com os governos estadual e federal?
Lopes - O diálogo é permanente. Há momentos melhores e momentos piores. Com o governo do Estado, a federação está muito alinhada, porque os nossos valores são valorizados pelo governo estadual. Já com o governo federal, temos preocupação com a insegurança sobre a propriedade rural e, muitas vezes, com a falta de entendimento de que aquilo que aconteceu no Rio Grande do Sul foi consequência de fatores climáticos. Ainda não há uma renegociação das contas de forma global.
JC - O mercado de trabalho aquecido e o envelhecimento da população já afetam o campo? Falta mão de obra?
Lopes - A falta de pessoas para trabalhar no campo não é falta de gente. Existe uma política assistencialista que compete com o trabalhador de carteira assinada. O que precisamos é equilibrar isso, dar oportunidades e valorizar as pessoas. A meritocracia tem que estar sempre presente. Os profissionais que tiverem desempenho positivo precisam ser valorizados. Isso já é uma característica do meio rural. Não vejo como um grande problema. As relações entre colaboradores e produtores rurais estão muito boas.
JC - Como o senhor vê o acordo entre Mercosul e União Europeia para o agro gaúcho?
Lopes - O protecionismo europeu, com cotas e subsídios em algumas cadeias, faz parte. Mas onde o Brasil entrar de forma organizada, com logística adequada, preço, qualidade e sanidade, nós estabelecemos mercado. Quanto mais mercados, melhor. Sempre defendendo equilíbrio de parte a parte. Vejo uma grande oportunidade, mas precisamos ter todos os cuidados institucionais que o Itamaraty e as entidades do setor vêm tomando.
JC - O senhor assume a Farsul em um ano eleitoral e, principalmente, de forte polarização política. Como a entidade se posiciona neste debate?
Lopes - A Farsul está alinhada com todos os partidos que tenham os nossos valores como metas: direito de propriedade, livre iniciativa, Estado pequeno e meritocracia. Todos os que estiverem alinhados com esse pensamento terão apoio da federação.

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