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Entrevista Especial

- Publicada em 11h00min, 25/04/2021.

Estudantes de Medicina devem atuar contra a Covid, diz Heinze

Senador Heinze quer que os alunos da área da saúde reforcem o time de médicos e enfermeiros que estão na linha de frente do combate à Covid

Senador Heinze quer que os alunos da área da saúde reforcem o time de médicos e enfermeiros que estão na linha de frente do combate à Covid


MARCO QUINTANA/JC
Marcus Meneghetti
Diante da escassez de profissionais qualificados para trabalhar nos leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) dos hospitais, onde são internados os pacientes com Covid-19, o senador gaúcho Luis Carlos Heinze (PP) quer que os alunos da área da saúde reforcem o time de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores que estão na linha de frente.
Diante da escassez de profissionais qualificados para trabalhar nos leitos de UTI (Unidades de Terapia Intensiva) dos hospitais, onde são internados os pacientes com Covid-19, o senador gaúcho Luis Carlos Heinze (PP) quer que os alunos da área da saúde reforcem o time de médicos, enfermeiros e outros trabalhadores que estão na linha de frente.
A ideia é que os alunos da área da saúde - principalmente os que estão cursando o 11º e 12º semestre de medicina - assumam funções em postos de saúde e outras áreas menos urgentes, liberando os profissionais mais experientes para atuarem nas UTIs dos hospitais. Inspirado no programa Brasil Conta Comigo, Heinze pretende apresentar um projeto de lei com a proposta, que pode viabilizar mais 2 mil profissionais durante a pandemia.
Quanto à atuação do governo federal em relação à Covid-19, Heinze enfatiza que o aumento dos leitos para tratar a doença - que subiram de 933 para 3.368, de 2020 a 2021 - ocorreu graças aos recursos da União. Ao comentar os episódios em que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) negou a compra de mais de 100 milhões de doses de vacinas, o senador reclamou da politização do tema.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Heinze comenta ainda os apelos de aliados para que concorra ao governo do Estado em 2022. "O partido trabalha na candidatura, estão conversando com outros partidos. Eu estou preocupado com a pandemia e infraestrutura do Estado", pondera. Apesar de não se colocar como candidato, aproveitou um momento ou outro para alfinetar o governador Eduardo Leite (PSDB).
Jornal do Comércio - Quais os desafios do seu mandato neste ano?
Luis Carlos Heinze - A partir de um trabalho junto com a Confederação Nacional das Santas Casas, tenho focado em dois pontos neste ano: primeiro, conseguir os suprimentos para os leitos de UTI, para os leitos clínicos, os kits de intubação, medicamentos etc; e, segundo, estamos buscando alternativas para o custeio dos hospitais filantrópicos e santas casas do Rio Grande do Sul. Meu foco maior tem sido essas duas coisas, porque, por causa da pandemia, as perdas são grandes.
JC - Poderia começar pelos leitos...
Heinze - Em março de 2020, o Rio Grande do Sul tinha 933 leitos nas UTIs. Em março de 2021, passamos de 3 mil leitos. O que estamos pedindo (ao Ministério da Saúde)? A renovação de todos os leitos e mais 500 novos (o que daria cerca de 3,5 mil leitos de UTI). Os hospitais filantrópicos e santas casas recebem, por cada leito, R$ 1,6 mil por dia do governo federal. Isso dá R$ 44 milhões por mês. Estamos buscando ainda aproximadamente mil leitos que ainda não saíram, mas vão sair: 500 leitos novos para Covid e 500 que ainda precisam de recontratação (para continuarem funcionando). A ampliação dos leitos foi possível por causa da vinda de recursos federais. Vieram de Brasília (ao Rio Grande do Sul) cerca de R$ 2,205 bilhões para distribuir a hospitais e municípios gaúchos. Ele (o governador Eduardo Leite) recebeu R$ 2,205 bilhões... aquilo ajudou a pagar a folha (dos servidores públicos)... desses R$ 2,205 nilhões, ele tinha que aplicar 11% na saúde, que são R$ 230 milhões para os hospitais.
JC - Os hospitais apontam duas dificuldades para o aumento e manutenção dos leitos de UTI: falta de profissionais qualificados para atuar nas unidades e preço abusivo cobrado pelos medicamentos. Como superar isso?
Heinze - Quanto aos medicamentos, apresentamos ao ministro o preço abusivo dos chamados kit intubação, que é um conjunto de medicamentos usados para sedar o paciente que precisa ser intubado. Por exemplo, uma substância chamada Midazolam custava, em março de 2020, R$ 2,80 cada frasco. Agora, chega a se pagar R$ 38,00. É um aumento de 2.000%. Depois que informamos a situação ao ministério, o que o governo fez? No dia 22 de março, chamou os laboratórios e fez uma compra pública para distribuir pelo Brasil. Foram comprados em torno de 1,4 milhão de frascos de cinco ou seis medicamentos, dos quais 238 mil vieram para o Rio Grande do Sul, para que a secretária estadual da Saúde, Arita Bergmann, distribuísse a aproximadamente 100 hospitais que têm UTI. Nessa compra, o Midazolam, por exemplo, foi adquirido por R$ 3,00. Já solicitamos ao ministério que essas compras públicas sejam permanentes. O que a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) está fazendo agora é um controle da produção desses medicamentos no Brasil e também da distribuição.
JC - E a falta dos profissionais para as UTIs?
Heinze - Já nos reunimos com os dirigentes do Conselho Regional de Medicina, sindicatos da área, diretores dos cursos de Medicina das universidades, solicitando os alunos que estão no 11º e 12º semestre. A ideia é usar essa mão de obra nos postos de saúde dos municípios e nos hospitais. Embora formem uma mão de obra qualificadíssima, eles não vão trabalhar nas UTIs. Vão para a retaguarda. Assim, os médicos experientes que estão atendendo no posto de saúde poderão ser remanejados para as UTIs ou para a linha de frente da Covid-19. Hoje, temos mais de 2 mil profissionais (que poderiam trabalhar na linha de frente da Covid, caso alguém assumisse sua função nos postos de saúde etc). Já existe um programa que funciona mais ou menos nessa direção, o Brasil Conta Comigo (que permite que residentes da área da saúde atuem no combate à Covid-19). Queremos adaptá-lo para um projeto de lei.
JC - O senhor estava articulando um projeto, de sua autoria, que permitia o uso de recursos que sobram nos fundos municipais e estaduais da saúde. Como está essa iniciativa?
Heinze - O projeto já foi aprovado no Senado por unanimidade. Ele sofreu uma pequena alteração na Câmara dos Deputados e agora volta para o Senado. Essa matéria autoriza os governos estaduais e municipais a usarem os recursos que sobraram em 2020 nos fundos de saúde. Para usar essa verba, é necessário autorização. No Brasil, isso dá em torno de R$ 23 bilhões, entre prefeituras e estados. No Rio Grande do Sul, deve ter em torno de R$ 1,2 bilhão: R$ 280 milhões no fundo de saúde (estadual) e novecentos e poucos milhões nos fundos municipais. Houve uma emenda ao meu projeto, da senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA), que pediu para incluirmos o Fundo de Assistência Social. Com isso, tem mais R$ 169 milhões no Estado e municípios (que não foram usados em 2020 e poderiam ser usados em 2021).
JC - Como avalia a vacinação no Brasil?
Heinze - Apesar das críticas que são feitas, quando a gente compara com o resto do mundo, estamos em 5º lugar na vacinação, na frente da Alemanha, Turquia, Espanha.
JC - Mas esse é o ranking com os números absolutos, sem levar em consideração o tamanho da população de cada país. No ranking com os números proporcionais, o Brasil estava na 12º posição na semana passada, com 16,4 doses administradas para cada centena de habitantes.
Heinze - Tá bom, proporcional... vi essa semana uma matéria sobre a crise na União Europeia por causa da vacinação. Isso é um problema em todo o mundo, não é só aqui e ali. Então, as críticas que estão sendo feitas... estamos trabalhando no Senado várias alternativas para resolver esse impasse. Além do Butantan, da Fiocruz, dos laboratórios particulares, conversamos sobre a possibilidade de usarmos os laboratórios de medicamentos veterinários para fabricar vacinas contra Covid-19. Esse assunto já vem sendo discutido no Senado (há um projeto do senador Paulo Paim, do PT, que viabiliza a produção de vacinas nesses laboratórios), juntamente com o ministro da Saúde e a Anvisa.
JC - O presidente Bolsonaro não quis comprar a vacina em várias ocasiões. Em uma situação, se recusou a assinar um contrato com a Pfizer, que garantiria 70 milhões de doses. Também teve o episódio em que proibiu o ex-ministro Eduardo Pazuello a comprar 46 milhões de doses da Coronavac. O quanto essas decisões atrasaram a vacinação?
Heinze - Tem muita fofoca política nesse assunto: entenda esse lado e separe as coisas. Quando começou (a pandemia) em 2020 - março, abril, maio -, iniciou a guerra da eleição (presidencial de 2022). Primeiro, foi o (governador de São Paulo, João) Doria (PSDB): "eu vou botar o Butantan (para fazer a vacina); vou fazer primeiro". Depois, teve a saída do (ex-ministro da Saúde Henrique) Mandetta (DEM-MS). Vários fatos ocorrem... Vem Bolsonaro com aquele tratamento precoce (com Cloroquina e outras substâncias sem comprovação de eficácia). Logo, vem os caras que são contra o tratamento. Pelo amor de Deus, se tem qualquer ferramenta, vou usar todas as ferramentas. "Não pode usar isso, porque é do Bolsonaro." Essas posições todas viraram uma questão política. Mais recentemente, no meio da pandemia, o governador Eduardo Leite se lança candidato (à presidência da República). Não é o meu caso, não quero nem saber de eleição. Meu foco é isso aqui: não tem dia que eu não passe 10 horas focado nessa questão (combate à pandemia). Tem 17 governadores contra o presidente, tem campos políticos opostos, não tinha que ter isso. Tem gente que quer conciliar saúde com emprego. Aí vem o Supremo Tribunal Federal (STF) e tira o poder do presidente de fazer decretos, dá o poder aos governadores e prefeitos. Tudo isso, infelizmente, do ano passado para cá, virou também uma questão política em cima das eleições 2022.
JC - Na questão da infraestrutura, o senhor tem mediado soluções para as estradas gaúchas, entre os municípios e o governo federal...
Heinze - Em 2019, tivemos uma reunião com o Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), governo do Estado, deputados federais e estaduais, prefeitos da Serra, Vale dos Calçados, Região das Hortênsias, Vale do Itajaí-, várias regiões. Portão e Bento Gonçalves organizaram o movimento, que inicialmente queria a (extensão da) BR-448, de Esteio em direção a Portão. Só que essa é uma obra de R$ 700 milhões a R$ 800 milhões. Esse dinheiro não existe no orçamento. Então, enquanto isso, colocamos R$ 60 milhões, R$ 70 milhões em obras que também atendem à região.
JC - Um dos exemplos é a ponte do Rio dos Sinos?
Heinze - Conseguimos a duplicação da ponte Rio dos Sinos, também já tem empresa no trecho construindo a duplicação de São Leopoldo em direção a Novo Hamburgo, que serve também a Porto Alegre, Região Metropolitana, Vale do Calçado em direção à Serra Gaúcha. O custo é de R$ 50 milhões, R$ 60 milhões. Essa e outras obras em municípios da Serra, Vale dos Sinos, Vale do Calçado não têm o mesmo efeito da outra obra (extensão da BR-448), mas, com menos recursos, conseguimos fazer grandes obras que servem à Serra, Vale do Caí e Vale do Calçado e à Região Metropolitana.
JC - Tem se discutido o transporte fluvial também...
Heinze - Nos anos 1970, tínhamos um modal fluvial que funcionava: (o transporte entre) Cachoeira do Sul e Porto Alegre era pelo Rio Jacuí; o Rio Taquari também tinha transporte em direção a Porto Alegre; da Capital, ia em direção à Lagoa dos Patos; e, dali, para Rio Grande. Tudo isso funcionava nos anos 1970 e foi abandonado. Hoje, o modal de Cachoeira, Rio Pardo, Porto Alegre está desativado. Estamos buscando quem tem interesse nos portos. Fiz uma reunião em Rio Pardo, trazendo empresários de toda a região que têm interesse na hidrovia. Da mesma forma, estamos trabalhando para recuperar o porto de Estrela e Taquari, em direção também a Porto Alegre. Outra coisa importante: já tem um estudo sobre a Lagoa dos Patos, Porto Alegre, Guaíba (e a navegação) em direção a Rio Grande. Uma questão antiga é que os arrozeiros uruguaios demandam algumas obras de ligação entre o Rio Grande do Sul e o Uruguai, através da conexão entre a Lagoa dos Patos e a Lagoa Mirim. A drenagem do canal sangrador de São Gonçalo, que liga as duas lagoas, já foi orçada há uns três anos. Isso conectaria o Norte e o Nordeste do Uruguai com o Sul do Rio Grande do Sul. Fiz várias reuniões sobre esse tema, os uruguaios têm grande interesse porque querem chegar ao porto do Rio Grande, e nós teremos acesso ao Uruguai.
JC - O senhor pretende concorrer ao governo em 2022?
Heinze - Meu foco é na infraestrutura do Estado, na pandemia. Não estou preocupado com a eleição 2022. O presidente (estadual do PP), Celso (Bernardi), os deputados estaduais, federais, a juventude do partido estão trabalhado nisso.
JC - Muitos apoiadores de sua candidatura em 2018 querem que o senhor concorra agora...
Heinze - O partido trabalha na candidatura. É chato dizer: "Ah, quero a eleição". Nesse momento, estou preocupado com a pandemia, quero ajudar a salvar vidas, e também trabalhar a infraestrutura do Estado. A eleição é secundária.

Perfil

Descendente de alemães, Luis Carlos Heinze nasceu em 14 de setembro de 1950 em Candelária. Em 1973, graduou-se em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Santa Maria. Em 1974 e 1975, foi professor em São Borja. Na cidade da fronteira, constituiu sua família e tornou-se produtor rural. Foi fundador e o primeiro presidente da Associação dos Arrozeiros de São Borja, entre 1988 e 1990. Em 1989, foi secretário municipal de Agricultura. Em 1992, filiou-se ao PDS (hoje, PP), partido pelo qual se elegeu prefeito da cidade naquele ano. Depois disso, conquistou cinco vezes a cadeira de deputado federal: em 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, quando foi o mais votado do Rio Grande do Sul. No pleito de 2018, inicialmente por indicação de seu partido, concorreria ao governo do Estado, porém, devido a coligações partidárias, abriu mão da disputa e buscou uma vaga no Senado Federal, elegendo-se com a maior votação do Rio Grande do Sul.

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