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Entrevista Especial

Notícia da edição impressa de 23/03/2020. Alterada em 23/03 às 09h28min

MDB busca 'caminho do meio' nas eleições, afirma Alceu

Alceu Moreira acha que eleitor se lembrará de 2016 e mudará de voto neste ano

Alceu Moreira acha que eleitor se lembrará de 2016 e mudará de voto neste ano


/fotos: LUIZA PRADO/JC
Diego Nuñez
O presidente do MDB no Rio Grande do Sul, deputado federal Alceu Moreira, avalia que, no atual momento, o partido "tenta ser a via sensata em um ambiente tempestuoso". Com essa diretriz, a sigla planeja ocupar o espaço do "canal do meio" nas eleições municipais de 2020.
O presidente do MDB no Rio Grande do Sul, deputado federal Alceu Moreira, avalia que, no atual momento, o partido "tenta ser a via sensata em um ambiente tempestuoso". Com essa diretriz, a sigla planeja ocupar o espaço do "canal do meio" nas eleições municipais de 2020.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o político comenta os planos do partido para as principais cidades do Rio Grande do Sul na eleição deste ano, bem como as chances do MDB em uma disputa com regras eleitorais diferentes e cenário político de incertezas.
O dirigente emedebista analisa, ainda, as eleições de 2016 e 2018, a atuação das bancadas no Rio Grande do Sul e a migração de quadros para outras siglas.
Jornal do Comércio - Como o MDB está se preparando para as eleições de 2020 em todo o Estado?
Alceu Moreira - No Rio Grande do Sul, tivemos uma derrota eleitoral e uma grande vitória política nas últimas eleições. O Estado que se estabeleceu no atual governo é um estado que continua praticando as políticas que o MDB tinha pregado no tempo anterior. Além disso, figuras como (o ex-governador) José Ivo Sartori (2015-2018) e o marco do aniversário de 90 anos do Pedro Simon repõem a imagem do MDB do Rio Grande do Sul, daqueles que construíram a história positiva do partido. Outra questão é que, neste momento em que o exercício da política ainda se dá muito pelos radicalismos, mais do que nunca, o exercício do consenso, da capacidade de construir convergência e equilíbrio é de fundamental importância. Aos poucos, a população e o grande grupo isento desse processo radicalizado vai ficando saturado de ver esses excessos, e ela quer, na verdade, um partido que expresse com clareza qual é o canal do meio, o que é equilíbrio, o que é importante para o País. Em certa medida, esse tema virá expresso no processo eleitoral, na Capital, nos municípios maiores, onde a influência pessoal do candidato e seu grupo é menor do que a força da opinião pública. Vai se poder construir um projeto que respeite e construa a partir de todos.
JC - Como o MDB vai conseguir conciliar o resgate dessa história com o desejo de renovação expresso no eleitorado?
Alceu - A política é um conjunto mecânico de atos contínuos. A descontinuidade acontece quase sempre pela incoerência. O MDB gaúcho tem uma trajetória muito coerente. O nosso passado positivo é o alicerce para o futuro.
JC - Como convencer o eleitor dessa coerência enquanto o MDB foi de vice do PT, em 2014, ao apoio a Jair Bolsonaro em 2018?
Alceu - É bom que se esclareça que o MDB, ao longo de sua história, tem expressão ideológica distinta estado por estado. Continuamos um partido que, pela sua amplitude, acaba não expressando claramente sua identidade igual em todos os lugares. Quando o MDB colocou vice do PT na eleição, a maioria do MDB do Rio Grande do Sul votou contra. Eu mesmo, que sou presidente do diretório estadual, votei contra, fiz campanha contra. Isso foi uma decisão nacional e, na minha visão, se refletiu, logo depois, no impeachment, em um grande equívoco. Não deveríamos ter ido para lá. A agenda construída pelo Sartori, pelo Simon, por nós, do MDB, mantém coerência. Exatamente quando, nesse episódio, poderíamos ter embarcado no projeto nacional, fomos coerentes e não embarcamos.
JC - Quais serão as prefeituras que o MDB vai focar na eleição deste ano? Quais as estratégias do partido?
Alceu - É muito difícil dizer, porque, no menor município do Rio Grande do Sul, para aqueles companheiros do MDB, a vitória é importantíssima. Mas queremos ter candidato a prefeito em todas que forem possíveis das 15 maiores cidades. Em algumas não é possível, circunstâncias eleitorais nos colocam de vice. É assim. Depois, temos mais 30 municípios que são médios com grande influência política, e, de novo, vamos perseguir todas as candidaturas a prefeito possíveis, tanto na eleição quanto na reeleição.
JC - O MDB vai trabalhar para puxar os votos do Aliança pelo Brasil, novo partido idealizado por Bolsonaro e que não vai participar das eleições?
Alceu - Este eleitor, quando faz a opção pelo Aliança, está cumprindo rigorosamente aquilo que ele acredita para o País. Essa realidade só acontece porque o presidente se utilizou do PSL para se eleger, mas o partido não tinha essa expressão ideológica do tamanho da presidência. Logo, ele quis fazer o seguinte: o instrumento com o qual eu cheguei na presidência não representa o pensamento médio dos meus eleitores, e fez o Aliança. Se o Aliança não está instalado adequadamente, ele não perde nenhum capital, não há dano para o presidente na derrota ou na vitória eleitoral. O MDB, na verdade, é um partido de centro. Em alguns lugares, nossos candidatos têm muita proximidade com esse pensamento, em outros, não. É normal que isso aconteça. Não haverá, certamente, nenhum movimento calculado nacional ou do Estado para fazer isso, haverá, sim, estratégia eleitoral município por município para buscar o eleitor que é simpático ao Aliança para poder votar conosco.
JC - O MDB tem sido, muitas vezes, o fiel da balança na Assembleia Legislativa. Como o partido trabalha para ter mais influência nas decisões do governo do Estado?
Alceu - Queria manifestar o grande orgulho que temos da nossa bancada. Eles tiveram comportamento exemplar nesse episódio da reforma administrativa. Agiram sem oportunismo, conversaram com o governo para falar sobre aquilo que acreditaram, pediram modificações. E não fizeram isso só para serem diferentes, mas por serem responsáveis e consequentes. Parecia que tinha espaço apenas para oposição. Não, há um espaço intermediário que é possível melhorar um projeto, e esse espaço foi muito bem exercitado em uma bela articulação e inteligente política feita pela bancada do MDB.
JC - Como o senhor avalia que o fim das coligações nas eleições proporcionais pode afetar o MDB?
Alceu - No início, tinha uma ideia de que os partidos pequenos iam ficar com a sobra e eleger vereadores. Logo depois, o cálculo estabelece sempre pelo número de cadeiras na divisão do total dos votos, e percebeu-se o seguinte: para o pequeno eleger um vereador, há uma extrema dificuldade. Na eleição deste ano, não tenho dúvida, o MDB pode perder algum líder eleito aqui ou ali, mas substituirá todas essas cadeiras com vantagem. Vamos eleger mais vereadores e prefeitos do que temos hoje.
JC - O senhor espera que haja uma pulverização de candidaturas nas majoritárias, que mais partidos coloquem candidatos a prefeito para puxar bancadas para as câmaras?
Alceu - Com certeza. É um exercício normal, que os partidos geralmente fazem, ter um cabeça de chapa para fazer bancada. Acontece que, na grande maioria dos municípios grandes com eleições em dois turnos, partidos como MDB buscam a possibilidade de estar no segundo turno. Estamos trabalhando com essa expectativa.
JC - Em um cenário de várias candidaturas, um candidato que é conhecido logo no início tem mais chances de chegar ao segundo turno?
Alceu - Essas questões políticas nunca são um corpo com dois lados, nunca é bilateral, é sempre multilateral. É certamente uma vantagem, porque o outro, em um período eleitoral que será curto, terá que construir esse espaço de ser conhecido. Em uma eleição como em Porto Alegre, o candidato que chegar com grande grau de conhecimento está muito mais fácil de vencer. Agora, claro, ele terá que fazer uma proposta eleitoral para Porto Alegre que esteja em sintonia com a vontade da maioria. As duas coisas são complementares, não é uma ou outra.
JC - Sebastião Melo (MDB) foi ao segundo turno nas últimas eleições municipais. Será ele o candidato do MDB em Porto Alegre?
Alceu - Se for pela vontade do diretório estadual, sim. Essa é uma decisão do diretório municipal, mas ele é o candidato mais conhecido. Na minha visão, Melo, com relação ao próprio Melo, é melhor candidato que o candidato anterior. Tem uma evolução grande, o comportamento dele no Parlamento estadual dá um grau de maturidade enorme a ele. Melo pode fazer o papel desse contingente de Porto Alegre que aprendeu a fazer política com grau de participação e debate permanente. Com a vitória do (Nelson) Marchezan (Júnior, PSDB), o jeito de fazer não traz a riqueza do debate político, da participação em todos os lugares. Queremos uma Porto Alegre absolutamente participativa. Melo amadureceu para isso.
JC - O senhor quer dizer que o eleitor de Porto Alegre pode olhar para 2016 e fazer outra escolha?
Alceu - Com certeza. Aliás, o quadro eleitoral, da eleição passada para essa, tem uma série de ingredientes que vai dar um outro cenário, absolutamente distinto. Na eleição de 2018, a população disse que não quer sequer discutir o futuro, mas apagar o passado que não era desejado. No fundo, tinha um grupo de pessoas muito descontente, mas calado na sua área de conforto. Bolsonaro já andava nas ruas há seis, sete meses, e o povo já se mobilizava como quem dizia que quer romper esse ciclo. Só que o ciclo foi rompido, agora, o Bolsonaro já está no poder. Está em execução do seu processo, e, agora, as pessoas começam a raciocinar. Hoje, o desejo das pessoas é saber como gastamos com a coisa pública. Temos condição enfaticamente de entregar muito mais do que entregamos. Então queremos um projeto em que as pessoas construam um processo político, mas que façam entrega. O grande prefeito de Porto Alegre tem que pensar que a maior obra que ele pode fazer é tirar de cada homem, mulher e criança porto-alegrenses o que eles têm de melhor. A grande obra é estimular as pessoas a construírem seu espaço de vida, e não acharem que um governante pode tutelar isso e desenhar a vontade das pessoas sem nunca ter dado a oportunidade para que elas se expressassem.
JC - O MDB, que já teve a maior bancada da Câmara Municipal da Capital, assiste a vereadores migrarem a outros partidos. O que aconteceu?
Alceu - Não dá para expressar todos da mesma forma, porque saíram com circunstâncias distintas, três deles estão saindo para ser candidatos a prefeito; e isso mostra o tamanho das lideranças que estavam no MDB. Eles não estão saindo porque têm discordância frontal com o partido, mas porque, nas eleições de prefeito, só tem lugar para um, e, no MDB, eles não teriam espaço para isso.
JC - Qual o senhor acha que será a principal pauta das eleições de 2020 no Estado?
Alceu - Ficam dois temas. Primeiro, o povo vai começar a pensar sobre como fazer o uso do capital com responsabilidade social. Entra o tamanho do Estado. Quer dizer, quando pego dinheiro público, arrecado de quem não deve e pago a quem não merece, coloco uma grande injustiça. Então o uso do capital com responsabilidade social terá que ser feito. A segunda questão, que é marcante, são os candidatos terem condições de expressar a capacidade de entrega. O cidadão ganha R$ 1,1 mil e, com todo o sacrifício, alimenta sua família. E vê o Estado com milhões de reais, seu município com milhões de reais, e a capacidade de entrega é infinitamente menor proporcionalmente ao poder de compra do seu salário. Alguma coisa está errada, e o povo não tolera mais isso. Alguns exemplos são muitos claros. Há 20 anos, tínhamos mimeógrafos, datilografia. Isso não existe mais. O que eu levava dois dias datilografando faço, hoje, com um pedaço da unha do dedo mínimo na tela de um computador ou de um telefone celular. Pois é, mas os prédios públicos continuam com suas torres iluminadas cheias de casacos, cadeiras, carimbos, chefe do chefe do subchefe, e esse organograma tem que ser desconstruído. Queremos pessoas na ponta. O cidadão do serviço público tem que estar na ponta.