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Porto Alegre, segunda-feira, 23 de dezembro de 2019.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista especial

Edição impressa de 23/12/2019. Alterada em 22/12 às 20h42min

Brasil sofre involução no cenário internacional, diz Nogueira

Economista ainda analisa os rumos da política econômica e vê 'mudança silenciosa não declarada'

Economista ainda analisa os rumos da política econômica e vê 'mudança silenciosa não declarada'


PATRICIA COMUNELLO/ESPECIAL/JC
Patrícia Comunello
O economista Paulo Nogueira Batista Jr. é ácido nas percepções de que o Brasil não honra o tamanho nem a tradição na atuação política diplomática externa, condição que, segundo ele, atingiu o ápice no governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Seja pelos flertes com os Estados Unidos ou pela revisão sobre acordos internacionais, a atuação é vista como um sintoma da agência de segmentos da elite brasileira nacionalista e, ainda, da tentativa de reduzir a importância do País.
O economista Paulo Nogueira Batista Jr. é ácido nas percepções de que o Brasil não honra o tamanho nem a tradição na atuação política diplomática externa, condição que, segundo ele, atingiu o ápice no governo de Jair Bolsonaro (sem partido). Seja pelos flertes com os Estados Unidos ou pela revisão sobre acordos internacionais, a atuação é vista como um sintoma da agência de segmentos da elite brasileira nacionalista e, ainda, da tentativa de reduzir a importância do País.
No seu livro recente, com o provocativo título O Brasil não cabe no quintal de ninguém, Nogueira, que usa toda a experiência de 10 anos entre funções no Fundo Monetário internacional (FMI) e banco do Brics (grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), adverte para o ônus que a "involução" na área externa pode entregar.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o economista, que esteve em eventos na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em Porto Alegre, no começo de dezembro, para falar do livro e de macroeconomia, também analisa os rumos da política econômica e vê "mudança silenciosa não declarada" no receituário ultraliberal do ministro da Economia, Paulo Guedes.
Jornal do Comércio - O que o senhor traz como ideia principal no seu mais recente livro, O Brasil não cabe no quintal de ninguém?
Paulo Nogueira Batista Jr. - O fio condutor do livro é o nacionalismo, não só o econômico, mas também político e cultural. E começa no título com a afirmação da dimensão do Brasil, além do toque polêmico contra aqueles que, a despeito da dimensão do País, se esforçam para reduzi-lo a quintal de alguém, e como se esforçam.
JC - Quem são essas pessoas que se esforçam para fazer do Brasil um quintal?
Nogueira - Para dar nome aos bois, diria que o pessoal que se esforça é grande parte da elite brasileira, da classe média e, destacadamente, o governo atual que levou a um ponto alto o tradicional entreguismo de uma parte da camada de dirigentes brasileira. Quando escolhi esse título, em 2018, não sabia quem seria eleito, nem acreditava que o pleito teria o desfecho que teve, não acreditava mesmo. O título não tem a ver com a conjuntura, mas a conjuntura acabou realçando a mensagem. Muitos me falam que foi oportuno, mas a escolha não foi por causa do que aconteceu em 2019.
JC - O senhor faz uma reflexão do País em um contexto que vem se consolidando ou a uma condição mais recente?
Nogueira - No livro, digo que o Brasil sempre foi dividido em dois polos: o polo nacionalista e o polo internacionalista, para não estigmatizar ninguém. O jornalista Barbosa Lima Sobrinho, que presidiu a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), dizia que, no Brasil, houve sempre dois partidos - o partido de Tiradentes e o de Joaquim Silvério dos Reis. Quando se critica as tendências entreguistas deste ou daquele governo, não se pode perder de vista que existe toda uma corrente de brasileiros que sempre acreditou que o País tinha uma mensagem própria para dar ao mundo. Por que também escolhi esse título? Ao trabalhar 10 anos no Exterior - oito em Washington e dois em Xangai - em um período em que o Brasil estava em uma fase forte, pude vivenciar o papel que o Brasil tem, não apenas em sua região, mas no âmbito global. Ninguém estranha que o Brasil tenha uma política externa de caráter global, pois é uma prática antiga. Nos anos 1970, a linha do Itamaraty era de que o País precisava de uma política externa global, devido ao interesse e aos vínculos em todas as partes do mundo. Alguns exemplos: a maior colônia de origem japonesa fora do Japão fica no Brasil, e há mais libaneses aqui do que no Líbano. No FMI, o Brasil comanda uma das 24 cadeiras da diretoria, com múltiplos países, e, quando estava lá, o número de nações aumentou. Foram incorporados Cabo Verde (África), Timor Leste (Ásia) e Nicarágua (América Central), e a cadeira brasileira passou a atuar mais fortemente em outros temas da agenda do fundo. Isso foi o reflexo na instituição da ascensão geral do Brasil no plano internacional.
JC - Qual é a relevância desse protagonismo brasileiro?
Nogueira - O filósofo Mangabeira Unger chegou a me dizer em uma conversa, em 2018, que um dos grandes erros da política externa do Brasil no período pré-golpe (anterior ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, PT, em 2016) é que havia uma busca exagerada de protagonismo com o Brasil gastando munição em temas que não eram do interesse direto do País. Essa crítica é legítima, mas o que ocorreu de 2007 a 2014 é que o Brasil tinha uma capacidade de formulação que era muito bem recebida pelo mundo. Era um país grande pensando grande, não apenas em seus interesses imediatos. E não era busca de protagonismo arrogante. Ao contrário, buscávamos respeitar todos os países no G-20 (20 países mais desenvolvidos e industrializados) e no FMI.
JC - O senhor teve passagem por organizações internacionais em momentos de maior presença do Brasil no cenário mundial. Como avalia a situação atual?
Nogueira - O que acontece hoje é um movimento de involução. O Brasil se apequenou desde o governo Michel Temer (maio de 2016-2018, MDB), mas já ocorria desde o fim do governo Dilma. A crise econômica instaurada em 2015 já levou a uma perda de presença internacional. Foi uma crise profunda, econômica e política, que roubou a capacidade do governo de atuar como atuava. Com Temer, a mentalidade foi mais estreita, incluindo a perda da capacidade de mediação internacional. Com o governo Bolsonaro, esse quadro só se agravou. O Brasil emite sinais, hoje, que o tornam irreconhecível aos olhos do resto do mundo.
JC - Quais são os sintomas que reforçam essa percepção?
Nogueira - Primeiro, o Brasil era uma voz independente até 2016, e, desde então, passou a ser visto como país que perde autonomia e independência e que tende a se alinhar aos Estados Unidos, particularmente em 2019. Além disso, emite sinais de tendências anticivilizatórias, porque, por exemplo, questiona de maneira tosca consensos internacionais em temas importantes, como o do meio ambiente, dos direitos humanos e da cultura, e passa uma imagem de país agressivo e ressentido, tudo contrário à imagem que o Brasil sempre projetou, de diálogo e abertura ao resto do mundo. Essa imagem favorável talvez fosse até exagerada, mas o fato é que o País era recebido com simpatia no mundo inteiro. Tudo isso está sendo jogado pela janela. Mas, enfim, o governo foi eleito e reflete uma realidade de parte da sociedade brasileira. Certas tendências primitivas, ressentidas e raivosas que estavam ocultas irromperam nos anos recentes e convergiram para a eleição do Bolsonaro. Isso não é episódico, tanto que, um ano depois, ele mantém o apoio, segundo as pesquisas de opinião. O Brasil de hoje realmente causa perplexidade aos brasileiros e aos estrangeiros.
JC - O que o País mais perde como nação com essa guinada na atuação externa?
Nogueira - A voz brasileira não é mais tão ouvida, não comanda interesse, a não ser como posição mais pitoresca. Quando um País é visto como autônomo, com capacidade de desenvolver as próprias ideias, ele é ouvido nas reuniões internacionais. Quando se percebe que o País tenta se alinhar a outro ou outros, essa voz passa a ser descontada. Cansei de ver o desprezo dos EUA para com seus satélites em reuniões do G-20 ou do FMI. Por isso, não me surpreendeu em nada o insucesso do governo Bolsonaro na tentativa de criar uma relação especial com os Estados Unidos com base em gestos de simpatia, declarações de admiração e concessões unilaterais. Conhecendo os norte-americanos, sei que eles encaram isso com desprezo.
JC - Também tivemos a movimentação para entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Qual é o lugar do Brasil e quando isso pode ocorrer?
Nogueira - A OCDE não é um clube confortável, em Paris, onde os governos vão trocar ideias. A organização é um órgão normativo que tem uma série de disciplinas construídas sob a liderança dos EUA e de outros países durante décadas. Entrar para esse clube significa aceitar essas disciplinas que limitam a autonomia dos países na condução de políticas nacionais. Não é por acaso que o Brasil é o único do Brics a pleitear a entrada na OCDE. Os outros não tentam entrar porque não querem perder margem de manobra e autonomia. A nossa situação é lamentável. O governo brasileiro faz concessões para conquistar a boa vontade do governo de Donald Trump para entrar na organização, pagando pedágio para obter algo que não interessa estrategicamente ao Brasil. A vantagem seria simbólica, de entrar no clube dos ricos. Um pouco como a negociação dos portugueses com os índios, com troca de terras por espelhinhos e outros cacarecos. O Brasil era cortejado pela OCDE e, a partir de Temer, passou a insistir em ser aceito. Os EUA passam a embolsar concessões e não atendem ao desejo brasileiro. O Brasil fica em uma fila com data incerta de ingresso. Até temos de agradecer ao Trump, por adiar a entrada que seria bem problemática. Acredito que o governo brasileiro esteja aprendendo um pouco com seus erros. Há sinais disso. Espero não estar sendo otimista demais.
JC - Quais são os sinais?
Nogueira - Um exemplo disso foi a ida do vice-presidente Hamilton Mourão à China e, depois, do próprio Bolsonaro. Na cúpula do Brics, o Brasil emitiu gestos de amizade para os líderes dos outros integrantes do bloco, especialmente a China. Os chineses fizeram ofertas de financiamento de longo prazo. Essa inflexão do governo brasileiro pode ser resultado da percepção de que os americanos não estão oferecendo nada.
JC - Olhando os EUA, maior potência, e China, segunda economia, o mais adequado e prudente é fortalecer a posição junto aos chineses e o Brics?
Nogueira - Nesse conflito entre EUA e China, que vai persistir e não é uma criação do Trump, que apenas exacerbou a disputa, o Brasil não tem de se alinhar a nenhum dos dois. Tem de manter boas relações com os norte-americanos e com os chineses. Há aspectos negativos nesse conflito, mas outros positivos, pois a China vai precisar mais do Brasil e do Brics. Se o Brasil tivesse uma posição estratégica, poderia explorar essa situação de forma inteligente, como fez Getúlio Vargas no conflitou EUA e Alemanha nos anos de 1930 e 1940. Eram duas potências disputando a hegemonia global, e o então presidente Getúlio não se aliou a nenhum dos dois. Só fez acordo com os EUA, após obter concessões concretas, como o apoio para criar a siderurgia nacional. No livro, cito frase de Charles de Gaulle: "As nações não têm amigos, têm interesses".
JC - Como o senhor avalia a condução da política econômica no governo?
Nogueira - O governo começou com uma agenda ultraliberal muito radical que até pareceu irrealista, pois estava toda baseada na ideia de que uma série de reformas chamadas de estruturais, começando pela previdenciária, combinadas com a força do governo recém-eleito, conseguiria gerar um choque de confiança. O setor privado, acreditava-se, lideraria a recuperação em resposta às medidas estruturais. A experiência internacional e brasileira mostra que esse caminho é muito difícil de implementar. Recuperações raramente acontecem assim. Depois de seis e sete meses da economia não mostrando reação, o governo abandonou a abordagem ultrarradical e passou a adotar estímulos para reativar a atividade, como liberação do FGTS, 13º do Bolsa Família, redução da taxa Selic, mais crédito em bancos públicos e liberação de recursos do pré-sal para estados e municípios. Por isso que a economia reagiu no fim do ano e deve crescer um pouco mais de 2% em 2020.
JC - As outras reformas podem ressurgir?
Nogueira - As reformas tributária e administrativa e outras propostas de emendas constitucionais estão progredindo lentamente ou foram adiadas. Mas não dá para dizer que a economia se recupera por causa das reformas. Houve uma mudança silenciosa, não declarada da política econômica. Mesmo que a economia cresça pouco, não dá para descartar que porta-vozes da agenda liberal queiram reivindicar a retomada da atividade.

Perfil

Paulo Nogueira Batista Jr. é economista, nasceu no Rio de Janeiro em 1955. Foi secretário especial de Assuntos Econômicos do Ministério do Planejamento em 1985 e 1986, na gestão de João Sayad, e assessor para assuntos de dívida externa do ministro da Fazenda, Dilson Funaro, em 1986 e 1987. Chefiou o Centro de Estudos Monetários e de Economia Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV) do Rio de 1986 a 1989. É professor e pesquisador da FGV em São Paulo, hoje licenciado. Foi diretor-executivo do Fundo Monetário Internacional (FMI) pelo Brasil e mais 10 países entre 2007 e 2015, em Washington, e vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics, em Xangai, de 2015 a 2017. É autor de Mito e realidade na dívida externa brasileira (1983), Da crise internacional à moratória brasileira (1988), A economia como ela é (2002), O Brasil e a economia internacional: recuperação e defesa da autonomia nacional (2005) e O Brasil não cabe no quintal de ninguém: bastidores da vida de um economista brasileiro no FMI e no Brics (2019).
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