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entrevista especial

- Publicada em 19h43min, 04/08/2019. Atualizada em 19h43min, 04/08/2019.

Diplomacia não serve para guinadas radicais, opina Silva

"A integração é um processo de longo prazo, mas estragar essa contrução é muito fácil", diz Silva

"A integração é um processo de longo prazo, mas estragar essa contrução é muito fácil", diz Silva


FOTOS: MARCO QUINTANA/JC
Lívia Araújo
A política externa praticada pelo Brasil no primeiro semestre do governo de Jair Bolsonaro (PSL) tem muitas contradições e encontra dificuldade de ser implementada. Essa é a avaliação do professor André Silva, que leciona Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
A política externa praticada pelo Brasil no primeiro semestre do governo de Jair Bolsonaro (PSL) tem muitas contradições e encontra dificuldade de ser implementada. Essa é a avaliação do professor André Silva, que leciona Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
Para Silva, a política de aproximação com os Estados Unidos e o alinhamento a países conservadores de direita "encontra muito problema quando se vai, na prática, fazer diplomacia". Na visão do acadêmico, "o mundo das relações internacionais é muito mais pragmático" e não se baliza por questões ideológicas.
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O professor teme pela descontinuidade da integração latino-americana construída a longo prazo e pelas relações comerciais já estabelecidas. "O Brasil precisa da região, tem uma espécie de influência, que, se não cuidar, os outros países vêm. Vai ter a presença chinesa, americana, europeia, assim por diante", aponta.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Silva também avalia que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), indicado pelo pai à embaixada brasileira em Washington, "não tem serenidade nenhuma para ocupar o posto". Embora possa haver indicações políticas para cargos diplomáticos, segundo o professor, "hoje em dia, o nível de tecnicalidade, de sofisticação, é muito mais alto".
Jornal do Comércio - Como o senhor analisa o primeiro semestre do governo Bolsonaro no âmbito da política externa?
André Silva - Bolsonaro fez uma série de mudanças, de modo geral, carregadas de muita contradição. O que ele propõe vai muito além do que normalmente se faz em um país quando troca o governo. Ele está avançando em uma determinada política que não tem nem sustentação interna no País como também no sistema de relações internacionais. É uma mudança de política externa com dificuldade de ser implementada.
JC - Como isso se expressa?
Silva - Primeiro, com uma reaproximação aos Estados Unidos, identificando-os como o grande centro de poder, tecnologia militar, econômica e, o que é fundamental, negando a multipolaridade. Ou seja, que há outros polos de poder no mundo. A outra é a aproximação dos governos mais à direita no mundo. Essa é uma política basicamente ideológica, que encontra muito problema quando se vai, na prática, fazer diplomacia, que não olha tanto assim para questões ideológicas ou internas dentro dos governos. E há outras questões, por exemplo, na integração regional. Isso vem sendo desmontado, nos últimos dois ou três anos, e segue com muita força, mudando inclusive alguns princípios que tínhamos, de 200 anos, no relacionamento com os países vizinhos.
JC - Por exemplo?
Silva - A ideia de evitar interferência nos assuntos internos dos vizinhos. O caso da Venezuela, por exemplo. Outra questão importante é evitar falar muito duro com os vizinhos. A gente tem sempre uma cordialidade oficial com eles. Existe sempre a possibilidade de os vizinhos se juntarem contra a gente. E a integração é um processo de longo prazo, mas estragar essa construção é muito fácil.
JC - O que significa a tentativa de estabelecer o Prosul, bloco composto por Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Guiana?
Silva - A visão do governo Bolsonaro é essencialmente ideológica, de direita conservadora do mundo e do Brasil. E isso é um problema, porque nega um certo pragmatismo que a gente tem que ter na política externa. Ele identificou que a integração sul-americana é coisa de esquerdista, o que, de fato, não era. E aí houve o desmonte da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), cujas raízes a gente identificaria no governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB, 1995-2002). Em 2007, lançou-se a Unasul (durante o governo Luiz Inácio Lula da Silva, PT, 2003-2010), que era um projeto de 10 anos que foi desmontado, acusado de ser esquerdista, e, no lugar, é lançado o Prosul, cujo objetivo é ser menos institucionalizado. O governo Bolsonaro aposta em instituições mais leves, cujo princípio é: "não vamos colocar dinheiro, não vamos amarrar institucionalmente". Substitui, mas também é para a gente não se integrar.
JC - Qual vinha sendo o perfil do Brasil até o governo Bolsonaro?
Silva - O Brasil é, do ponto de vista das relações internacionais, uma potência intermediária. Normalmente, (esse tipo de país) evita aproximação muito forte de uma grande potência. Para garantir margem de manobra e de ação, ele procura resguardar a região para si; ele quer ser um líder regional, e tem um forte discurso nas instâncias multilaterais, seja na ONU (Organização das Nações Unidas) ou na OMC (Organização Mundial do Comércio), onde ele tem uma forte interação buscando liderar os países menores em relação aos desenvolvidos. O que Bolsonaro faz é praticamente o contrário. Por exemplo, o Brasil precisa da região, tem uma espécie de influência, que, se não cuidar, os outros países vêm. Vai ter a presença chinesa, americana, europeia, assim por diante.
JC - Que consequências, em um prazo de quatro anos, esse tipo de política pode ter, levando em conta também a atuação do Brasil em relação a outros players do mundo?
Silva - Temos um patrimônio diplomático que está sendo consumido, não está florescendo já há um bom tempo, e uma hora não vai ter mais nada. O que vemos é o desengajamento do Brasil nas grandes questões globais e regionais. Não estamos lá para defender nossos interesses. O Brasil vende seus produtos industriais basicamente para o Mercosul e para a América do Sul, e um pouco mais na África e no Oriente Médio. Se a gente abre mão do Mercosul, então esses países poderiam receber recursos industriais de outros países. Cada detalhe em barreiras sanitárias, fitossanitárias, pode fazer diferença. Então, se não tiver muito cuidado nesse jogo que ocorre em vários cenários, o Brasil periga correr também risco de perder mercados já consolidados. Uma outra questão que era só diplomática e política, e que teve uma implicação comercial muito forte, foi o caso da transferência da sede da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Seria fortemente passível de boicote dos países árabes, com reflexos também no Norte da África. Ou seja, o Brasil concretamente perderia mercados, eles iriam boicotar o Brasil em função de uma transferência que é uma sinalização meramente política para Israel e para os EUA. Basicamente isso. Não tinha nenhum ganho.
JC - Depois dessas marcações de posição no início do governo, houve um recuo. Outros tendem a acontecer?
Silva - Imagino que sim. Aquilo que Bolsonaro vendeu como plataforma eleitoral e tentou fazer nos dois primeiros meses, tudo isso teve um refluxo, porque entrou uma série de atenuadores. Por exemplo, o próprio pensamento dos militares. Uma coisa é Bolsonaro dizer "vamos dar um pau na Venezuela". Não é assim tão simples. Se entramos em conflito com um país vizinho, estragamos a integração por mais 50 anos. (Bolsonaro) Causou várias pequenas gafes diplomáticas, como elogiar (Augusto) Pinochet no Chile. É ignorância imaginar que chegar no Chile e elogiar Pinochet ganhará aceitação. Os próprios governantes de lá agora eram anti-Pinochet. Obviamente que, na Venezuela, o governo (Nicolás) Maduro está se esgotando. Mas obviamente que há contradições internas e internacionais muito fortes. O Brasil não pode comprar o discurso de outros países. O Brasil deveria estar na mesa de negociação, ajudando uma transição pacífica, um processo de transição de poder lá dentro. Não. Quem é que vai estar? O Uruguai, talvez. Talvez até a Argentina. Um ou dois países europeus mais neutros. Talvez o Papa. Mas o Brasil está longe. Por quê? Porque tomou posição, fez um fiasco na fronteira, com dois caminhões querendo levar ajuda humanitária.
JC - Recentemente, deu-se um passo mais sólido em relação ao acordo comercial do Mercosul com a União Europeia (UE). Como avalia?
Silva - O acordo com a UE tem um problema. Na verdade, não temos os dados do que foi acordado. Ele ainda está na forma de segredo, o que é muito estranho. Aliás, essa é uma das tendências do governo Bolsonaro. Eles anunciam algo, mas não divulgam seus detalhes. O acordo do Mercosul com a UE está parado há mais 20 anos. Basicamente, emperra na questão de concessões de lado a lado. A UE não abria mão da questão da política agrícola comum. O Brasil também dizia que não abriria mais o seu mercado industrial se não tivesse compensações pelo menos na agricultura. É um jogo muito intrincado. Os europeus fazem a negociação do valor de cotas, quantidade de produto e também tarifas alfandegárias, mas eles jogam muito com questões extracomerciais. Questões fitossanitárias, segurança de produtos, também ambientais, questões trabalhistas, de direitos humanos. Eles anunciaram um acordo que ainda não foi referendado por todas as partes. Minha hipótese é que os europeus avançaram nisso para barrar o governo Bolsonaro na questão do meio ambiente e dos direitos humanos. E aí estaria a grande contradição interna. Não tenho muita ilusão no acordo Mercosul-UE. Tudo que estava amarrado, não se desamarraria em tão pouco tempo. A não ser que uma nova condição tenha sido colocada que a gente não sabe.
JC - Seria difícil o Brasil cumprir condições extraeconômicas de meio ambiente e direitos humanos, levando em conta as recentes declarações do presidente?
Silva - Esse acordo amarrava também que o Brasil continuaria participando do Acordo de Paris e dos regimes internacionais de meio ambiente. São regras, valores, instituições, acordos amplos, e que o Brasil continuaria participando. O Ocidente é isso: é direitos humanos, é direito das mulheres, ambiental. E se está caminhando para a barbárie, jogando tudo isso na lata do lixo. A grande questão é que provavelmente tenha cláusulas para que o Brasil continue no Acordo de Paris. É uma das meias voltas que o governo deu. Anunciou a saída e voltou para o Acordo de Paris. Vamos começar a ter problemas em vários fóruns multilaterais em função dessas posições mais conservadoras que ele (Bolsonaro) adota.
JC - O que opina sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro à embaixada brasileira em Washington?
Silva - Eduardo Bolsonaro não tem serenidade nenhuma para ocupar o posto de embaixador do Brasil nos EUA. Não tem nenhuma qualificação que o credencie para o posto. Não necessariamente esse posto precisa ser ocupado por um diplomata de carreira. Os políticos ocupavam esses cargos há 20, 30, 40 anos. Hoje em dia, o nível de tecnicalidade, de sofisticação, é muito mais alto.
JC - Como o senhor supõe que seria Eduardo Bolsonaro no cargo de embaixador?
Silva - Ele está imaginando que vai conversar com a família (do presidente Donald) Trump toda semana, mas é somente o filho de um presidente de um país latino-americano com interesses limitados dos EUA. Naturalmente, ele delegaria para os outros as responsabilidades dele. Não vai conseguir cumprir, pois é um trabalho muito técnico em relação, por exemplo, ao comércio exterior. Existem tensões e contradições de todos os lados. Então os EUA inventam uma desculpa para não importar laranja. Estoura aqui, porque a laranja vai ficar velha. O embaixador tem que abrir os contatos, buscar desembaraçar o negócio. Isso acontece quase que semanalmente. Ele também tem que estar cuidando muito, por exemplo, do termo imigratório. E mais: um diplomata é mais delicado, não fala com essa simplicidade que eles falam. Isso pode causar uma série de embaraços diplomáticos ao Brasil. Ele poderia, por exemplo, ser nomeado como um representante especial para um assunto específico. Um assessor para negociar a importação de armas, por exemplo.
JC - Como vê a atuação junto ao Brics, que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul?
Silva - É um dos grandes testes para a política externa de Bolsonaro. Houve uma pequena rusga com a China, logo após a eleição, mas o vice-presidente (general Hamilton Mourão, PRTB) foi lá, a coisa foi atenuada. Vamos ter o encontro do Brics aqui. Colocava-se (no Brics) uma agenda que, de certa forma, é mais ampla, mas pode deixar desconfortáveis grupos de apoio interno (a Bolsonaro). Minha hipótese é que os atenuadores estão trabalhando, dizendo que não vale a pena abrir mão do Brics, para tentar ver o que a gente consegue convergir com eles a médio e longo prazos. E isso pode descontentar a base de apoio de Bolsonaro. Para concluir, a grande contradição da política externa de Bolsonaro é que o mundo das relações internacionais é muito mais pragmático, ele não serve para guinadas radicais ideológicas, sejam para esquerda ou para a direita.

Perfil

André Luiz Reis da Silva nasceu em janeiro de 1973, no Rio de Janeiro, e vive em Porto Alegre há 44 anos. É doutor em Ciência Política e mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Possui pós-doutorado em Relações Internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas - Londres). É professor de Relações Internacionais da Ufrgs, lecionando na graduação e na pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais. Há duas décadas, pesquisa a política externa brasileira e, com diversos livros e artigos científicos publicados, é considerado um dos maiores especialistas no Brasil sobre o tema. Além de coordenar o Laboratório de Análise de Política Externa, foi, recentemente, eleito para a Diretoria da Associação Brasileira de Relações Internacionais (Abri).

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