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15 amos sem brizola

- Publicada em 21h28min, 24/06/2019. Atualizada em 21h28min, 24/06/2019.

1989, o ano em que o Rio Grande brizolou

Carlos Bastos
No trajeto entre o aeroporto e o Palácio Piratini, e depois na visitação no salão Negrinho do Pastoreio, Porto Alegre e o Rio Grande do Sul prestaram uma homenagem impressionante ao líder trabalhista Leonel de Moura Brizola. A manifestação do povo gaúcho trouxe à minha lembrança as eleições presidenciais de 1989. No primeiro turno, com mais de 20 candidatos concorrendo, é verdade que 10 deles de pequenos partidos, Brizola recebeu 3.263.119 votos, que representavam 62% dos votos válidos.
No trajeto entre o aeroporto e o Palácio Piratini, e depois na visitação no salão Negrinho do Pastoreio, Porto Alegre e o Rio Grande do Sul prestaram uma homenagem impressionante ao líder trabalhista Leonel de Moura Brizola. A manifestação do povo gaúcho trouxe à minha lembrança as eleições presidenciais de 1989. No primeiro turno, com mais de 20 candidatos concorrendo, é verdade que 10 deles de pequenos partidos, Brizola recebeu 3.263.119 votos, que representavam 62% dos votos válidos.
Ele não foi ao segundo turno, porque ficou como terceiro lugar, perdendo por 0,5% dos votos, para Lula que iria para o confronto direto com Fernando Collor. Mas o resultado do pleito em plagas gaúchas marcou profundamente Leonel Brizola. Ele ficou comovido com a verdadeira consagração que foi a homenagem que seus conterrâneos lhe tributaram, sufragando seu nome na urna de forma maciça. Afastado da disputa do segundo turno, antes mesmo de se pronunciar em favor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, Leonel Brizola passou por Porto Alegre em viagem ao Uruguai, onde iria se recuperar dos desgastes da campanha em sua fazenda de Durazno. Recebido por um grupo de lideranças pedetistas no aeroporto Salgado Filho, recordo com grande clareza sua expressão quase de júbilo pela votação recebida dos gaúchos.
Apesar da frustração de não ter alcançado o embate com Collor, alijado que foi do segundo turno, Brizola se aproximou deste colunista, e comentou: "E o Rio Grande, hein, Bastos? Que coisa". E seus olhos ficaram marejados. Aquela foi a manifestação do povo gaúcho ao político que tinha sido seu governador trinta anos antes. Foi a forma dos gaúchos homenagearem o comandante da Legalidade. E Brizola estava também muito tocado pela maneira com que foi recebido em todo o Estado durante a campanha. E o que mais marcou no líder trabalhista foram faixas que apareciam em diversas regiões do Rio Grande, empunhadas por jovens, que desconheciam como tinha sido seu governo: "Brizola, meus pais falaram bem de ti".
No registro da morte de Brizola, encerrei o comentário sobre sua trajetória política, sustentando que as elites sempre tiveram resistências a ele. Em sua edição de ontem a Folha de São Paulo publicou matéria com o historiador Thomas Skidmore, afirmando "que Leonel Brizola foi o político mais carismático do Brasil no século 20 e também o que mais assustou a elite". Mais que Lula? "Bem mais", declarou o brasilianista norte-americano. Além de ter sido "a mais militante figura de esquerda" do País, Brizola, para Skidmore, foi um dos primeiros e um dos melhores políticos brasileiros a saber usar a TV. "Quando encarava a câmera, ele projetava a sua personalidade. Foi de longe o melhor orador e o mais carismático político da esquerda. Lula não assustava ninguém. Brizola metia medo nas pessoas", disse o autor de "Brasil: De Getúlio a Castelo" e professor aposentado da Universidade Brown.
Era para amainar esse temor, diz Skidmore, que o governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul costumava se referir a si mesmo como "o engenheiro". "Para que todos soubessem que ele era um bom engenheiro, integrante da classe média". O historiador aproxima Brizola de seu inimigo e oposto político no campo ideológico, o governador do extinto Estado da Guanabara Carlos Lacerda (1914-1977). Para Skidmore, ambos foram mestres na arte da intriga política, excelentes oradores, ficaram "à margem" da presidência da República, mas polarizaram a política brasileira nos anos 1950 e 1960. O papel de polarizador se manifestou principalmente nos anos anteriores ao golpe militar de 1964, afirma o historiador.
Lembrando a "Cadeia da Legalidade", destinada a garantir a posse na presidência do petebista João Goulart, após a renúncia de Jânio Quadros e a tentativa dos ministros militares de vetar a posse de Jango, Skidmore diz que "foi Brizola quem organizou a defesa e anunciou que, se os generais mandassem tropas, afundaria navios em Porto Alegre".
 
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