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Porto Alegre, segunda-feira, 06 de maio de 2019.
Dia do Cartógrafo.

Jornal do Comércio

Política

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entrevista especial

Edição impressa de 06/05/2019. Alterada em 05/05 às 22h00min

Previdência deverá ir a plenário até o fim de junho, projeta Joice

Líder do governo no Congresso espera dar início à reforma tributária após a votação da reforma

Líder do governo no Congresso espera dar início à reforma tributária após a votação da reforma


LUIZA PRADO/JC
Carlos Villela
O projeto da nova Previdência deve ir a plenário até o final do mês de junho, afirma a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP), líder do governo Jair Bolsonaro (PSL) no Congresso Nacional. A parlamentar esteve em Porto Alegre no final de abril para divulgar a reforma da Previdência, que ela espera estar encaminhada antes do recesso parlamentar.
Na visita à capital gaúcha, a deputada se reuniu com o governador Eduardo Leite (PSDB) - que já fechou questão com a aprovação da reforma - e participou de uma edição especial do Tá na Mesa, evento organizado pela Federasul.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, a deputada destaca como ela e o ministro da Economia, Paulo Guedes, tratam como "espinha dorsal" da reforma da Previdência a economia de R$ 1 trilhão em 10 anos. "É o que nós precisamos", aponta.
Por outro lado, reconhece que a articulação política da base ainda não está consolidada e, diante disso, vê com preocupação a possibilidade de redução dessa estimativa de economia. A deputada também sinaliza os próximos passos após a votação da reforma e vê como urgente a reestruturação do sistema tributário no País.
Jornal do Comércio - A senhora tem trajetória como jornalista no campo da política. Agora, como deputada, algo a surpreendeu nesse primeiro trimestre de mandato?
Joice Hasselmann - Nada me surpreendeu. O que realmente me surpreendeu foi o prazer que tenho em trabalhar com isso, a vontade de fazer. É sacrificante? É. Trabalho 20 horas por dia. Isso não é uma expressão, durmo 3 horas por dia, e na outra hora eu faço uma coisinha ou outra, uma ligação para o meu marido que não vejo, só no fim de semana e de vez em quando, quando ele corre atrás de mim pelo Brasil, cada fim de semana estou em um lugar diferente. Não me vejo em outra coisa mais produtiva, que tenha mais resultado, do que isso que estou fazendo. A gente tem que separar esse negócio de nova política e velha política, isso não é verdade e isso vi lá dentro. Política só se faz de um jeito, jeito correto, decente e para o povo. Se não fizer isso você não está fazendo política, está fazendo outra coisa. Bandidagem, malandragem, atuando por si próprio. Aí não é política.
JC - O engajamento em relação à aprovação da reforma da Previdência que lhe levou à liderança do governo no Congresso?
Joice - Acho que também. Quando entrei no Parlamento, entendi muito rápido - 48 horas, demorei dois dias - que não se consegue construir nada sem diálogo. Imediatamente abri uma frente ampla de diálogo, até com a oposição, com gente que critiquei como jornalista duramente. Podemos ter linhas ideológicas diferentes, mas o Brasil é o mesmo, e por isso tem que ter conversa. O pessoal me chama de força da natureza lá dentro, "ah, olha a força da natureza chegando, o furacão chegando". A vontade de trabalhar, essa energia que não acaba nunca. O pessoal pergunta para mim "onde é que desliga?", e falo que não desliga. A capacidade de diálogo com o fato das pessoas me conhecerem, de eu abrir as portas do gabinete para conversar com todo mundo, trabalhar de forma incansável costurou uma fórmula para que eu assumisse a liderança em primeiro mandato.
JC - A oposição foi bastante combativa durante a tramitação do projeto na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ). A senhora percebe receptividade de outras lideranças, inclusive da oposição, para esse diálogo?
Joice - O papel da oposição é fazer oposição, o papel do governo é aprovar as coisas. Então a oposição vai fazer o show dela, é o que ela tem. Vai gritar, vai espernear, mas depois conversa, dá para conversar. Então eu tenho conversado sim com líderes da oposição, de partidos declaradamente contra a Previdência como o PSB e o PDT, tenho amplo diálogo com eles e com todos os outros líderes, todos. PP, PR, PMDB, PSDB, DEM, todos. Eu tenho até um grupo de WhatsApp com os líderes, é um grupo "Líderes com Joice", em que nós conversamos muito, e eu percebo a disposição. Muitos deles se surpreenderam, "não é possível que essa Joice que está aqui dialogando comigo é aquela moça no YouTube que só batia em todo mundo" - mas saiu da linha, vai apanhar também. Eu tinha um motivo, eu estava numa guerra contra um sistema corrupto de poder, então eu estava no ataque. Agora, nós vencemos essa guerra, e nós temos que construir um País. Você não constrói atacando, você constrói colocando um tijolinho em cima do outro. Então esse é meu papel agora, é ser essa mulher forte para construir, pavimentar a ponte do diálogo entre o Congresso e o governo Bolsonaro.
JC - O Executivo sofre com uma crise por causa de conflitos entre grupos, como os olavistas, da ala do ideólogo Olavo de Carvalho, e militares, afinados com o vice-presidente, general Hamilton Mourão, por exemplo. Isso não dificulta a construção da base no Congresso?
Joice - Qualquer rixa prejudica, mas também é natural que aconteça dentro da democracia. Só não tem rixa dentro de uma ditadura, porque senão você manda matar o adversário. Não é o caso, a gente está numa democracia. Se tem rixa dentro de casa. Almoço de domingo, às vezes, vira aquela confusão, um brigando com o outro, depois fazem as pazes. Rixas, disputas, caneladas, alguma informação que desgostou A ou B, isso é natural, é da democracia. Não existe pensamento único. Então, como eu sou uma democrata, eu acho que sim, qualquer rixa prejudica, mas defendo a liberdade de qualquer um se expressar e se posicionar, mesmo que sejam posições antagônicas dentro do próprio governo.
JC - Os parlamentares do PSL estão todos alinhados com a aprovação da reforma?
Joice - Estão sim. Há divergência aqui ou acolá, tem a questão do texto dos militares que pode ser que gere uma pequena divergência, mas todos vão entregar votos para a Previdência.
JC - Há outros partidos que também estão comprando a questão da Previdência? Como está a relação com o DEM, por exemplo?
Joice - O DEM também está bastante engajado, fechado conosco, agora a depender da região do parlamentar há alguns pontos mais sensíveis. Por exemplo, os parlamentares do DEM do Nordeste estão batendo muito na questão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e aposentadoria rural. Então a gente está abrindo discussão, negociação, para que a gente possa mexer em alguns pontos da reforma que incomodam parlamentares lá do Norte e do Nordeste. Mas em geral o DEM está bastante alinhado com a pauta econômica sim, o PSDB também. O PP está chegando, o PR está chegando, o PSD também fechou com a gente no sentido de dizer que "não somos base, mas votamos com o governo na pauta econômica". Então a gente está construindo dois momentos, o momento da aprovação da Previdência e o momento da construção de base, que aí é para tudo. São momentos que ao mesmo tempo que estão caminhando juntos eles têm uma diferenciação, porque tem partidos que não serão base, mas votarão conosco a pauta econômica.
JC - Qual é a sua expectativa para a comissão especial da Previdência?
Joice - A expectativa é que vai ter aquele embate tradicional, oposição e governo, muita discussão. Espero usar o tempo da comissão especial, da qual sou membro, para que nós possamos desmentir tudo que está sendo plantado contra a Previdência, deixar de fato um espaço para responder dúvidas dos parlamentares e dos eleitores, esclarecer o que é a Previdência para todo mundo, e aí ir direto ao voto. Sair da especial direto para o plenário.
JC - Pode demorar mais do que a tramitação na Comissão de Constituição e Justiça?
Joice - Olha, até pode, mas a CCJ se atrasou muito porque demorou para escolher relator, aquela coisa toda. Acho que até o final de junho a gente resolve isso.
JC - Até o final de junho encerrar os trabalhos da comissão especial...
Joice - E daí vai para o plenário. Até o recesso parlamentar isso tem que estar resolvido.
JC - Existem números conflitantes de quanto será economizado em 10 anos com a reforma da Previdência. Com qual número o governo está lidando, e qual é a possível redução que o governo está disposto a fazer caso tenha que flexibilizar alguma coisa na reforma?
Joice - A reforma como um todo, no início dela, tinha uma perspectiva de economia de R$ 1,16 trilhão. Aí começou aquela coisa do pessoal reclamar de BPC, rural, a gente começou a fazer conta e chegou no seguinte número: R$ 1 trilhão é a espinha dorsal. É o que nós precisamos. Dá para passar com menos? Dá, mas não vai ter o efeito que a gente quer. Então essa é a escolha. Querem emagrecer a reforma, fazer uma reforma com R$ 600 bilhões, R$ 700 bi, R$ 800 bi? Vai dar, mas coloca em risco os próximos passos, coloca em risco a capitalização. Então o Paulo Guedes está muito alinhado com essa minha ideia de espinha dorsal. Todo mundo pegou essa expressão porque é isso mesmo, é o que mantém nossa reforma em pé. Pode ser que tenha que ter uma economia um pouco menor, claro que pode ser, mas não é bom para o Brasil. "Ah, mas economizou R$ 1 bi a menos." R$ 1 bi a menos tudo bem. Estou falando de coisa grande, R$ 100 bi, R$ 200 bi. Aí vai tirando bi, bi, bi, bi, bi e fica uma reforma anoréxica. Não quero um arremedo de reforma, porque vai resolver o problema desse governo, mas não resolve o do País. A gente quer resolver o problema para duas décadas. Resolver o problema desse governo é fácil, passa uma reforminha de nada, resolveu. E o resto? E os investimentos? A gente está pensando a longo prazo.
JC - Quais são os próximos passos após a aprovação da Previdência?
Joice - O próximo passo é a continuidade da pauta econômica. A segunda reforma que deve vir é a tributária, e aí vai ser um pacote. Inclusive, ela já está pronta, só esperando passar a Previdência para mandar para a Câmara.
JC - A senhora foi a mulher mais votada da história da Câmara. Qual a responsabilidade de receber 1 milhão de votos?
Joice - Foram 1.078.666. Não esqueço os 78 mil, tanto que fiz 1 milhão de votos a mais do que precisava para me eleger. Primeiro é uma coisa meio desesperadora, porque a responsabilidade é gigantesca. Eu sabia quando me tornei a mulher mais votada da história da Câmara que também seria a mulher mais cobrada da história da Câmara, e também teria a obrigação de pelo menos tentar fazer um dos melhores trabalhos ali dentro. Então, tenho me empenhado desde antes de tomar posse, moro em Brasília desde o segundo dia após a eleição. Me preparando, estudando tudo que é regimento e legislação para que isso fizesse diferença, e tem feito no meu mandato, conhecendo as vísceras da política e colocando todos os conceitos que sempre defendi de legalidade, moralidade, firmeza e transparência. Toda responsabilidade traz um peso, o meu peso é ter mais que 1 milhão de votos.
JC - O PSL já se prepara para as eleições municipais?
Joice - É legítimo que um partido que cresceu da forma que cresceu, sendo uma bancada gigante na Câmara, lance candidatos onde tiver pessoas com capacidade, onde tem figuras que tenham condições de disputar capitais, grandes cidades, tanto nas prefeituras quanto nas câmaras de vereadores, acho absolutamente legítimo.
JC - Como uma deputada com mais de 1 milhão de votos, almeja a prefeitura de São Paulo?
Joice - (risos) Todo mundo está me perguntando isso, apareci nas pesquisas para a prefeitura de São Paulo, sem nunca ter dito que seria candidata. Não falei nada, estava muda e calada sobre esse assunto. Aí nas últimas pesquisas eu estou em terceiro lugar, tecnicamente empatada com o segundo, e atrás apenas do Fernando Haddad (PT), que foi candidato à presidência. É uma loucura, até para mim é assustador. Mas sou candidata a prefeita? Não, não sou candidata a nada por enquanto. Sou candidata a ser a madrinha da reforma, o pessoal está me chamando de musa da reforma e está bom para mim. Não sou tão musa assim, mas está bom. Agora, quem manda é o povo. Da mesma forma que não tinha planos de ser política, o povo exigiu que fosse. Isso vai se repetir em uma candidatura à prefeitura? Não sei. Não gostaria de deixar meu mandato no meio. Agora, se o povo chegar e disser "nós decidimos isso", vou ter que obedecer. Eu sou empregada do povo, fui eleita para isso. E sou muito bem remunerada porque tenho mais de 1 milhão de votos. O povo comprou meu passe caro, então preciso honrar o que esse povo quer.

Perfl

Joice Cristina Hasselmann tem 41 anos e é natural de Ponta Grossa, no Paraná. Formada em Jornalismo pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), foi repórter da rádio CBN de Ponta Grossa, diretora de Jornalismo da BandNews FM de Curitiba e apresentadora da RIC TV Record no Paraná. Também trabalhou na revista Veja e foi âncora do programa Os Pingos nos Is na Jovem Pan. Joice ainda participou ativamente dos protestos a favor do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Polêmica, já processou o ex-governador do Paraná Roberto Requião (MDB), e já foi processada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pela filha do jornalista Luis Nassif. Nas eleições de 2018, ela se tornou a mulher mais votada para a Câmara dos Deputados na história, e a primeira a atingir mais de 1 milhão de votos. Joice tem dois filhos e é casada desde 2016 com o médico Daniel França.
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