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Porto Alegre, terça-feira, 02 de abril de 2019.
Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista Especial

Edição impressa de 01/04/2019. Alterada em 01/04 às 11h57min

Governos não devem interferir na economia, avalia presidente do IEE

'Conseguimos alcançar melhores resultados por meio do livre mercado', acredita Giovana

'Conseguimos alcançar melhores resultados por meio do livre mercado', acredita Giovana


/LUIZA PRADO/JC
Bruna Suptitz
O Instituto de Estudos Empresariais (IEE) tem por tradição não se posicionar partidariamente, mas a presidente da entidade, Giovana Stefani, avalia como positiva a ascensão do movimento liberal no Brasil e na América do Sul, por representar a oportunidade de discutir soluções para a economia e para políticas públicas a partir do viés liberal. "Muito se falou na teoria, e, hoje, temos, felizmente, representantes do movimento liberal não só no meio empresarial, mas também no meio político", avalia.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Giovana defende a redução do Estado - com, por exemplo, o fim dos subsídios setoriais - por entender que a intervenção prejudica as relações econômicas. "Toda vez que se auxilia um setor em detrimento de outro, a economia sofre como um todo." E aponta que a reforma da Previdência é uma oportunidade para o Brasil.
Primeira mulher presidente do IEE, Giovana entende como "um processo natural" que mais mulheres estejam hoje no mercado de trabalho. A sua representação na entidade, neste sentido, é importante "por encorajar outras mulheres a participarem desse tipo de iniciativa, mostrar o quanto podemos contribuir". O IEE promove, desde 1988, o Fórum da Liberdade, evento que se inicia na próxima segunda-feira em Porto Alegre.
Jornal do Comércio - Como o debate político atinge o campo da direita e o campo liberal? Sendo o IEE um instituto com viés liberal, como se posiciona?
Giovana Stefani - O instituto tem um viés liberal e é apartidário. A gente, obviamente, discute questões econômicas e políticas, porém não nos posicionamos politicamente em prol de um ou outro partido. É interessante ver que, nessas últimas eleições, se mostrou um caminho diferente entre esquerda e direita. E se teve uma ascensão do movimento liberal não só no Brasil, mas em alguns outros países da América do Sul, o que, para nós, é realmente importante, porque é uma defesa de ideias que se tem desde a fundação do instituto. Estamos ganhando espaço para discutir uma solução alternativa para a situação em que nos encontramos como sociedade. É importante termos espaço para debater a respeito disso e contribuir, inclusive em termos de políticas públicas, com ideias liberais. Muito se falou na teoria, e, hoje, temos, felizmente, representantes do movimento liberal não só no meio empresarial, mas também no meio político, na equipe econômica do governo federal, na Assembleia Legislativa, na Câmara de Vereadores. São propostas muito alinhadas com os estudos do instituto e com o que defendemos: reduzir o Estado e gastar menos do que se arrecada. Isso é o principal para conseguirmos sair da situação em que nos encontramos. Inclusive, um tema que está em voga é, justamente, a reforma da Previdência. É a oportunidade para mostrarmos que o Brasil tem chance para amadurecer. Como o mercado lá fora nos vê em relação a essa oportunidade para ajeitar a casa, para tomar as medidas necessárias. Essa reforma está muito alinhada com o que defendemos. Obviamente, ela não vai ser a solução dos nossos problemas, mas é o primeiro passo que precisamos dar. Inclusive uma comunicação para os investidores externos que estamos no caminho certo.
JC - Além da reforma da Previdência, identifica algum outro movimento que o governo possa tomar que contribua para essa retomada da economia e do crescimento, da geração de emprego?
Giovana - A reforma trabalhista foi um exemplo disso também. Claro que o texto sofreu diversas alterações. Poderia ter simplificado ainda mais a relação de trabalho. Mas, certamente, já tivemos, inclusive, um reflexo na economia, porque o mercado mudou completamente. É necessária a flexibilização de contratação, e a reforma trouxe isso. Agora, muitos outros campos de atuação que precisam ser tomados, como a própria questão da saúde pública. O modelo do SUS (Sistema Único de Saúde) é completamente insustentável. A questão da própria educação, de maus investimentos que foram feitos, má alocação de verbas. Tivemos, inclusive, fomentos muito grandes, em governos passados, para incentivar o Ensino Superior, enquanto a educação básica é muito precária. A alocação de recursos está invertida. Deveria se direcionar uma verba muito maior para a educação de base, para garantir que aquelas crianças estão realmente recebendo uma educação de qualidade, para quando chegar lá na frente se optar por ir para um caminho técnico ou de Ensino Superior, ou mesmo têm pessoas que optam por nem ir ao Ensino Superior, porém, certamente, vão ter uma educação de base muito melhor para quando se colocarem no mercado de trabalho.
JC - Essa é uma visão que o atual governo já defende, de dar mais suporte à educação de base. Mas isso não acabaria interferindo e prejudicando na qualificação de pessoal para mercado de trabalho, já que o incentivo ao Ensino Superior seria reduzido?
Giovana - Não, pelo contrário. Hoje, tem-se uma fuga de talentos muito grande no Brasil. Não só por oportunidade de trabalho, mas também por questões de segurança pública. É uma realidade do nosso cotidiano, infelizmente. Vejo que falta atrair esses talentos para trabalharem aqui, para que gire a nossa economia com brasileiros preparados para isso. Temos excelentes centros de ensino hoje no País. Mas entendo que, iniciando esse trabalho de educação básica mais qualificada, certamente, as pessoas teriam uma oportunidade melhor também de colocação no mercado de trabalho. Não é 100% da população que precisa ter Ensino Superior, dependendo do cargo que ocupa. E todo mundo tem um papel muito importante de contribuir para a revolução da nossa economia.
JC - O papel do Estado é um debate recorrente, especialmente nas últimas eleições. O que entende que deva ser a função do Estado? 
Giovana - Dentro do pensamento liberal, existem diversas correntes. Mas o primeiro passo passa pela redução do Estado. Hoje, contribui-se fortemente com impostos, e, em contrapartida, o que se recebe do Estado são serviços precários de segurança, justiça, propriedade, liberdades individuais, segurança, saúde, educação. Se esses recursos não fossem direcionados para o Estado e o cidadão tivesse a oportunidade de escolher onde melhor alocar esse imposto, e esse valor ficasse justamente para ele, certamente teríamos uma qualidade de vida muito melhor. Hoje, inclusive, com a maior parte do imposto que se paga direcionada para Brasília, e se distanciando dos municípios, prejudica muito a qualidade de vida dos nossos cidadãos. O processo deveria ser completamente inverso. O percentual maior de imposto deveria ficar no município, onde o cidadão está mais próximo da gestão pública, está vendo onde estão sendo alocados os valores que são pagos, e aí, sim, ser vigilante e cobrar dos seus representantes. Quando os recursos se concentram mais no município, a alocação de verba automaticamente é mais benéfica. Tem-se um retorno muito superior em relação a quando vai a Brasília para depois ser distribuído, e, normalmente, é desfavorável para muitos estados. Sabe-se que os principais arrecadadores acabam sustentando estados que arrecadam menos. O sistema como um todo deveria ser revisto para que esse valor da contribuição fique mais próximo do cidadão.
JC - Esse é um dos temas do Fórum da Liberdade deste ano?
Giovana - A 32ª edição do Fórum da Liberdade tem como tema "Brasil Aberto para Reformas", justamente para provocar a sociedade, porque, muito mais do que a questão das reformas estruturais, nós, como sociedade, precisamos ter uma mudança de mind set (crenças e valores que influenciam a forma de pensar da pessoa), estarmos abertos a rever todos os benefícios que acabamos adquirindo ao longo dos últimos governos, inclusive de alguns setores que foram altamente protegidos. Isso traz uma distorção de mercado muito grande, a intervenção do governo dando benefícios a um setor ou outro. Estamos todos no mesmo barco, então o reflexo dessas medidas acaba sendo levado, inclusive, às camadas mais baixas da população. É preciso rever todas essas medidas, e principalmente a Previdência. Os próximos anos do governo (Jair) Bolsonaro (PSL) estão muito vinculados à aprovação da reforma da Previdência.
JC - Isso mostra a relação de governos com o setor empresarial, defendida por alguns - como na busca por incentivos e isenções - e criticada por outros - que acreditam que o Estado mínimo como forma de desenvolver a economia. Como o IEE se posiciona nessa questão?
Giovana - O que defendemos é que, quanto menos o governo intervir, mais ele auxilia a economia. Toda vez que se auxilia um setor em detrimento de outro, a economia sofre como um todo. Então, quanto menos intervenções tiver, a relação de mercado funciona melhor e conseguimos alcançar melhores resultados por meio do livre mercado. Por exemplo, quando se deu a questão (da importação) do leite em pó, acaba refletindo em todo o resto da cadeia.
JC - Algum reflexo dessas intervenções é visto nos casos de corrupção, as grandes denúncias que envolvem tanto governo quanto grandes empresas. Como reverter essa prática e tirar a imagem negativa da relação que empresas estabelecem com governos?
Giovana - Todo o sistema que se tem hoje - a maior carga tributária se concentrar em Brasília - dá muito poder para os agentes de lá. Então as grandes empresas têm que trabalhar fortemente com o lobby, buscando benefícios para os seus setores. É claro que isso acaba dando vantagem, como vimos no governo Dilma (Rousseff, PT), de grandes empresas que se beneficiaram dessa relação com o governo, que é justamente o oposto do que defendemos no instituto, em detrimento de pequenas e grandes empresas, que, essas sim, deveriam receber um incentivo maior, para poderem operar no mercado. Vemos um direcionamento de todos os esforços da sociedade para a manutenção de grandes grupos econômicos. Então o sistema é completamente inverso e oportuniza grandes escândalos de corrupção, porque ele, como um todo, acaba oportunizando esse tipo de iniciativa.
JC - Há, hoje, um entendimento de representantes do setor empresarial em participar mais ativamente da política. Como imagina que isso pode contribuir?
Giovana - Já estamos colhendo alguns frutos desses representantes. Quem passou pela iniciativa de empreender, quem geriu uma empresa, sabe o que é viver o reflexo de todas aquelas questões que são impostas pelo governo. Um aumento de tributação, um novo imposto, a complexidade que é recolher os tributos no final do mês. O político de carreira não compreende o que é empreender. Esses que, hoje, estão lá representando a classe, certamente, vão conseguir influenciar em algumas pautas pelas experiências que carregam nesse sentido.
JC - Como primeira mulher presidente do IEE, como vê o papel das mulheres no meio empresarial?
Giovana - Todos os associados no instituto são empresários, empreendedores, sucessores na linha direta das empresas. O meu caso não é diferente. Vejo que é um processo natural, mais mulheres estão, hoje, no mercado de trabalho. Na época, por exemplo, das nossas mães, a minha mãe trabalhava, mas muitas amigas dela não. E eu não tenho uma amiga sequer que não trabalhe. É um processo natural as mulheres irem galgando posições de destaque. Por óbvio, hoje, são muito mais homens que participam de entidades representativas, mas tive essa experiência também. Isso mostra que as atuais e próximas gerações estão assumindo esse papel. Em relação a ser mulher à frente de uma empresa ou a primeira presidente do IEE, acho que despertou um interesse de as mulheres também participarem desses grupos de decisões, de liderança, darem a sua cara, a sua voz em prol desses movimentos. Homens e mulheres têm características e perfis diferentes, nenhum melhor que o outro. Pelo contrário, são coisas complementares. Então, é bom que a gente consiga montar uma equipe, como é o caso da diretoria atual, em que somos três mulheres e quatro homens. Entendo que é enriquecedor esse processo, e que bom termos cada vez mais mulheres interessadas e participando.
JC - O IEE tem como função promover estudos, formação de novas lideranças. Como essa contribuição pode ser direcionada para mulheres e o novo perfil de mercado?
Giovana - No IEE, temos um grupo único de trabalho, que não se divide entre homens e mulheres. Esse trabalho é muito importante, não como um movimento feminista, mas por encorajar outras mulheres a participarem desse tipo de iniciativa, mostrar o quanto podemos contribuir, o quanto é importante a força de trabalho das mulheres no mercado. Isso é uma revolução.

Perfil

Giovana Stefani tem 30 anos e é natural de Porto Alegre. Formada em Direito, é empresária e membro da terceira geração do Grupo Stefani - que atua no segmento de movimentação de cargas líquidas e perigosas -, onde trabalha desde 2010. Iniciou na empresa como estagiária, enquanto cursava Direito na UniRitter, e, atualmente, exerce a função de coordenadora de Governança Corporativa, acompanhando também o Family Office e o Departamento Jurídico do grupo. É presidente do Instituto de Estudos Empresariais (IEE) - gestão 2018/2019. Foi vice-presidente na gestão 2017/2018 e diretora de Comunicação na gestão 2015/2016. Pelo IEE, estará à frente da realização da 32ª edição do Fórum da Liberdade. Foi diretora da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande Sul (Federasul) na gestão 2016/2017 e cofundadora e coordenadora do Núcleo do Jovem Empreendedor da Câmara de Indústria e Comércio e Serviços (CICs) de Canoas, gestão 2015/2016.

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Comentários
Oliveira 02/04/2019 20h24min
Bah, nem os economistas de Davos acreditam mais nisso. Nos últimos anos tem apelado para os governos interferirem para evitar a concentração exagerada do capital. Pouquíssimos concentram a maior parte da riqueza gerada pelo mundo.
Luis Antonio Martini Bernardes 02/04/2019 09h10min
Nossa! Que mulher linda! Mas sobre o assunto o Brasil lá no fundinho não deixa de ter ações de país comunista.Em tudo o estado se mete,interfere.Para cortar um árvore podre,fazer uma calçada tem que ter autorização.Só no comunismo isso.A nossa democracia aqui é maquiada.Aliás,tudo é maquiado.
Rodrigo 01/04/2019 11h58min
A Reforma da Previdência é uma intervenção do Estado sobre a economia, assim com a Reforma Trabalhista. A ideia do livre-mercado funciona muito bem no discurso, mas na prática favorece apenas a uma fatia pequeníssima da sociedade. Em uma economia periférica como a brasileira, não se faz capitalismo sem a participação do Estado. Incluindo o elemento da corrupção, intrínseco a essa lógica.
Roger Dutra 01/04/2019 11h55min
Empresários sempre defendendo a boquinha, drenando recursos do Estado com sua utopia liberal.