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Porto Alegre, segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019.
Aniversário da Casa da Moeda do Brasil.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista Especial

Edição impressa de 11/02/2019. Alterada em 11/02 às 20h43min

'O Brasil precisa de uma transformação pela infraestrutura', defende ex-diretor executivo do Bird

'Se os governos não fizerem este dever de casa, os investidores não virão', avisa Rogério Studart

'Se os governos não fizerem este dever de casa, os investidores não virão', avisa Rogério Studart


LUIZA PRADO/JC
Patrícia Comunello
Do governo federal ao estadual, a conversa é déficit e reformas. O economista e ex-diretor executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Mundial (Bird), Rogério Studart provoca os gestores públicos em outra esfera. Studart defende que o Brasil precisa de transformação e uma das formas de acelerar a solução dos gargalos é agir na infraestrutura.
Mas o tema de Studart, que vive nos Estados Unidos desde o começo dos anos 2000, é como atuar e gerar as mudanças. "O Estado tem papel relevante em criar a arquitetura e um ecossistema para permitir que o dinheiro seja bem aplicado e gere as condições para o setor privado fazer o investimento", assinala o economista ao Jornal do Comércio. Studart bate na tecla dos projetos "com solidez técnica e de como serão bancados".
"Se os governos não fizerem este dever de casa, os investidores não virão." O economista diz que os governos precisam buscar jovens "que sonham em mudar o mundo" para encontrar soluções aos problemas das cidades.
Jornal do Comércio - O Brasil busca reformas para resolver déficits e tenta sair de uma das maiores recessões da história. O que explica este contexto e como sair dele?
Rogério Studart - O Brasil vem perdendo a capacidade de crescer há três décadas e, quando consegue crescer, é por questões circunstanciais e políticas, como a de inclusão, que começa antes mesmo do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT, 2003-2010). Lula acelera e gera uma dinâmica própria de economia continental, como se vê nos Estados Unidos. Havia naquele momento a necessidade histórica de o Brasil se tornar uma sociedade de consumo de massa. Com dimensões continentais, o Brasil é um dos mais desiguais do mundo. Já o aspecto circunstancial está ligado ao boom das commodities, que permitiu acumular reservas e crescimento mais rápido que a capacidade produtiva nacional. O problema é que, nestes 30 anos, não se tratou de restrições estruturais, como capital humano, educação, infraestrutura econômica e social. A economia permite crescimento da produtividade e competitividade, mas precisa fazer investimentos, e o Brasil é carente em investimentos transformacionais, entre os quais está a infraestrutura que tem de ser sustentável, com inclusão social e manutenção do meio ambiente.
JC - Quanto o Brasil está atrasado em relação a outros países continentais?
Studart - Estamos muito atrasados porque o investimento em infraestrutura, que foi basicamente público até a década de 1980, caiu muito e aumentou o hiato. Na ótica da infraestrutura, países concorrentes avançaram muito, como a China. Mas muitos ficaram para trás, pois até os Estados Unidos sofrem com problema similar ao nosso, com infraestrutura que envelheceu para o tamanho da economia. Mesmo o Brasil estando atrasado, não significa que não possa usar isso para dar um salto na economia e no crescimento.
JC - Muitos governos querem passar ao setor privado a solução. A dicotomia existe?
Studart - Não existe esta dicotomia. A maioria dos sistemas exitosos em economia de mercado - não dá para comparar com a China, que é outra história -, tem investimento público crescendo e alavancando os recursos privados para complementar. Como em geral as necessidades de aportes públicos são maiores em outras áreas, quanto mais alavancar melhor. Não precisa pensar que é isto ou aquilo, são os dois juntos. O Estado tem papel relevante em criar a arquitetura e um ecossistema para permitir que o dinheiro seja bem aplicado e gere as condições para o setor privado fazer o investimento. Precisa gerar um conjunto de projetos com solidez técnica e de como serão bancados. Isso permitirá tomar dois tipos de decisão: em quais projetos o Estado vai aplicar recursos que são escassos, como saneamento básico em áreas pobres, e como ajudar a criar instrumentos para atrair investidores privados para atender à demanda. Se os governos não fizerem este dever de casa, os investidores não virão.
JC - Quais são as origens dessas dificuldades?
Studart - Já tínhamos a tendência de perda de dinâmica, e a economia deu uma barrigada a partir de 2015. Muitos que pretendiam investir viram entraves jurídicos ou que a demanda não se confirmaria. A Estruturadora Brasileira de Projetos (EBP), por exemplo, criada no governo Lula em 2009, precisa ser reproduzida para um planejamento de longo prazo, com uma visão de desenvolvimento. Todos os estados e municípios brasileiros deveriam criar uma institucionalidade, que pode ser feita em conjunto ou independente, para fazer projetos, e devem buscar universidades e engenheiros que querem mudar o mundo para ajudar, além de financistas. Por que governos e prefeituras não convidam essa galera para desenvolver projetos para resolver problemas?
JC - Porto Alegre criou o Pacto Alegre para acelerar a inovação. Este é o caminho?
Studart - Isso! Porto Alegre pode, por exemplo, pedir para a garotada sair pela cidade buscando situações que precisam ser resolvidas, como semáforos desconectados, que não são inteligentes. Problema também é oportunidade! Se conseguir mapear problemas e oportunidades de infraestrutura e tiver um conjunto de pessoas com conhecimento técnico sólido, a Capital consegue parcerias para buscar soluções no Brasil e no mundo. Se a solução gerar receita e interesse do setor privado, é só chamar os financistas para avaliar e pode buscar linhas de financiamento como no Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Em resumo, são duas coisas a fazer: criar um ecossistema que exige inovação e determinação política e chamar a sociedade a participar. Os recursos para isso não são onerosos. Agora conseguir recursos para financiar os projetos, vai depender de cada local. Se a estrutura for bem feita, monta-se um conjunto de projetos para discutir com potenciais parceiros nacionais e internacionais. Como diretor executivo do Bird, vi muito município e estado fazendo road-show com uma pilha de propostas para fazer, mas que não eram projetos em condições de discutir com o setor privado e financeiro. O governo precisa definir prioridades, saber onde quer aplicar os recursos e depois apresentar projetos que já tenham sido analisados do ponto de vista técnico e financeiro. Sem isso, os financistas nem olham. 
JC - Parcerias-Público Privadas são outra solução?
Studart - Quanto mais levantar recursos no setor privado e onde não tem competência, melhor. A Alemanha faz isso, por exemplo. O problema é que PPP virou muleta. O governo acha que tem uma ideia que é problema e vai discutir a concessão. Se tivesse feito o trabalho antes (com o ecossistema e projetos), a conversa seria outra, incluindo como como buscar recursos no Bird, BID e outros. O governo precisa ter claro o planejamento de investimentos e como fazer a alavancagem dos recursos. Falam que o Brasil tem de fazer mais PPPs, mas o País já é campeão na área, só que precisa muito mais. O que falta é estrutura para fazer mais.
JC - A segurança jurídica, que rebaixa o Brasil em rankings de competitividade, é um entrave?
Studart - É um problema, mas não é só daqui. O meu problema com isso é: se resolver isso acabam as dificuldades? O ambiente deve ser melhorado, mas a solução não resolve tudo. Uma das coisas do ecossistema que deve ser resolvida pelo Estado é ver quais são os problemas que se encontram com os licenciamentos ou mesmo os riscos à sociedade civil. Muitas obras param porque não se antecipou isso, pois não pode ter segurança jurídica apenas para um lado. Segurança jurídica é a relação com todos os atores envolvidos. O Estado tem de articular essa conversa.
JC - O erro está um pouco em pensar a infraestrutura como um problema e não oportunidade?
Studart - Perfeito, é bem isso. Venho insistindo: o Brasil precisa de uma transformação e não tem melhor forma que através da infraestrutura. Isso mudará a produtividade dos fatores e a competitividade do País, que inclui maior capacidade do capital humano para crescer e criar a coesão social necessária para dar continuidade a esse processo. Mas não é só transformação. O investimento por si só gera crescimento, de forma rápida, gera empregos e pode mudar a história de curto e médio prazo do Brasil.
JC - O senhor vê disposição do novo governo federal em encarar esses desafios?
Studart - É muito cedo para dizer para onde vai o governo. As condições de recuperação do investimento em infraestrutura estão dadas. Foi criada uma estrutura de originação de projetos com os melhores para se relacionar com o setor privado. Alguém tem de organizar a equipe e começar a dar o chute. Como a atividade produtiva brasileira é muito baixa e há capacidade ociosa alta, o consumo está baixo. Se recomeçar a ter investimento, a bicicleta volta a andar, mas não ainda na velocidade que muitos gostariam.
JC - O presidente Bolsonaro colocou miliares em ministérios que lidam com infraestrutura, inovação e investimentos? Vai dar certo?
Studart - Também é cedo para entender qual é o propósito deles. Mas esse governo foi eleito e vivemos em uma democracia é sólida. Tradicionalmente, os militares são muito bons em planejamento e execução e têm visão de longo prazo. Talvez isso seja positivo ao Brasil na infraestrutura. A necessidade é tão significativa que os militares podem ajudar. Não interessa se é militar ou aposentado, basta que seja um grupo técnico bem preparado com visão de País. Também é importante que os estados tenham capacidade de desenvolver projetos tecnicamente sólidos e financeiramente sustentáveis.
JC - Como o senhor vê as perspectivas no Rio Grande do Sul? 
Studart - Ouvi o governador falando de reformas para resolver o problema das finanças públicas. Se ele conseguir algum crescimento em infraestrutura, a economia se mexe, gera receitas, inclusive tributárias, empregos etc. O Leite parece um camarada que pensa o futuro e está de olho no mundo, que vai atrás de oportunidades. É importante tirar os gargalos, mas também pensar no plano para o futuro e assumir a liderança. Isso facilitará na atração de recursos e falta no Brasil inteiro. Fiquei muito impressionado com o aeromóvel no aeroporto de Porto Alegre. É uma inovação inacreditável. Se o governador disser que quer fazer centros de mobilidade urbana e agricultura para exportar ao mundo, está definida a visão de longo prazo e depois é só convidar os jogadores. Se ele fizer isso, tem jogo.
JC - Buscar recursos junto a instituições como Bird e BID dá resultado?
Studart - Há uma gama de recursos que se pode usar, mas que precisa da bênção federal. Quando eu era diretor executivo do Bird, vi muito isso: governadores batendo à porta da União para pedir linhas do banco. Outra coisa é chegar com projetos e agentes privados e dizer que quer recursos do Bird ou de outras instituições. Participei direto desses movimentos, quando estados como o próprio Rio Grande do Sul buscaram linhas para reforma do Estado devido a problemas de caixa para acessar financiamento barato, mas sem uma visão de futuro. O importante é dizer qual é o futuro e quais são os atores que quer atrair.
JC - Na disputa global, como o Brasil se situa?
Studart - A situação internacional é cada vez mais complexa, tanto no comércio e investimentos. O Brasil é um dos poucos países que têm capacidade de avançar com os próprios recursos. Até na China a situação é mais complexa, pois criaram dependência ao exterior. O grau de internacionalização do Brasil é bem menor, que leva muitos a dizer que é um problema - em condições normais de temperatura e pressão-, mas na situação atual é vantagem. O Brasil pode crescer sem isso, pois tem capital humano, físico e natural para fazê-lo. 
JC - Os organismos internacionais de mediação estão em xeque? 
Studart - Nos períodos de tranquilidade, começa-se a olhar para instituições que seguram a onda como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e se diz que não são necessários. As instituições passaram 30 anos com o mesmo tamanho, ou seja, a capacidade de superar as crises perdeu a relevância. Em 2008, na crise financeira mundial, o Bird foi chamado, mas como fazer algo se não consegue financiar mais de US$ 40 bilhões? No FMI, também se discute aportes. Se acontecer uma nova crise, os organismos não têm capacidade que já tiveram e não dará tempo para ampliar. E hoje há um grau de vulnerabilidade do mercado muito grande, pois o nível de endividamento aumentou muito e as bolsas de valores batem recordes de valorização sem ter algo real que justifique.

Perfil

Rogério Studart é graduado e mestre em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Ufrj) e doutor em Economia pela Universidade de Londres. É especialista em desenvolvimento global com 30 anos de experiência em finanças internacionais, macroeconomia e financiamento do desenvolvimento. É atualmente pesquisador associado do Brookings Institutions e da Federação Global de Conselhos de Competitividade. Foi professor da Ufrj e da Universidade de Boston. Foi diretor executivo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de 2004 a 2007, e do Banco Mundial (Bird) de 2007 a 2014, representando o Brasil, seis países da América Latina e as Filipinas. Antes já havia ocupado cargos de economista no BID, nas Nações Unidas, no Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE) e no Banco Chase Manhattan do Brasil. Atua como consultor de companhias privadas, organismos multilaterais, de bancos de investimento, e setores públicos. Publicou livros e artigos sobre desenvolvimento sustentável e finanças. É casado com a advogada Sarah Fandell e pai de Rafaella, Camila, Javier, Isabel e Tiago.
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