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Porto Alegre, segunda-feira, 31 de dezembro de 2018.
Dia de São Silvestre.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista especial

Edição impressa de 31/12/2018. Alterada em 31/12 às 00h42min

Novos governos retomam confiança do setor empresarial, diz Fernandez

'O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade', explica Fernandez

'O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade', explica Fernandez


CLAITON DORNELLES /JC
Bruna Suptitz
O setor empresarial está otimista com os novos governos Federal e Estadual. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais, comentada nesta entrevista pelo presidente da entidade no Rio Grande do Sul, o empresário Eduardo Fernandez. “O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade”, explica. Para ele, a escolha de nomes técnicos para compor a equipe do presidente Jair Bolsonaro (PSL) é racional, o que reflete em maior confiança do investidor.
No caso do Rio Grande do Sul, embora o governador eleito Eduardo Leite (PSDB) tenha conseguido aprovar a manutenção do aumento das alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) por mais dois anos, Fernandez entende que existem “outras alternativas que o governo pode se pautar para melhorar e trazer os investimentos”, citando como exemplo a melhora na segurança pública. Trabalhando políticas que não são econômicas, acredita que em dois anos não será mais preciso pedir aumento de impostos.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o empresário se posiciona a favor da venda do Banrisul, desde que o recurso seja utilizado para investimentos, e não para custeio. “Existem funções que o Estado tem feito de forma ineficiente, como segurança, saúde e educação, que são prioridades”, defende.
Jornal do Comércio – Quais as perspectivas do Lide e do setor empresarial para os novos governos?
Eduardo Fernandez – É feita uma pesquisa a cada trimestre com todos os associados, grandes empresas de todo o país, e a mais recente, sobre o clima empresarial, mostrou uma retomada muito forte da confiança dos empresários em relação ao novo governo federal. São feitos questionamentos em três pontos: se vai se melhorar o ambiente empresarial; se vai se manter; ou se vai piorar. E 78% desses empresários colocaram que vai melhorar o ambiente de negócios a partir de 2019. O otimismo e a confiança estão grandes, o que não se tinha há muito tempo no cenário nacional. E, quando se fala em cenário nacional, implica diretamente no Rio Grande do Sul, com as empresas multinacionais e as que têm atuação em vários estados. Por números econômicos, a gente espera um crescimento de 2,5% a 3% no cenário nacional; e entre 2% e 2,2% no cenário estadual. Mas o que mais chama a atenção é a relação de confiança. Existia muita coisa que estava estagnada, que estava presa pela questão da confiança.
JC – A melhora do ambiente é baseada em quê? Nos nomes anunciados pelo novo governo para comandar a economia?
Fernandez – Há uma racionalidade na decisão do governo federal em colocar nomes técnicos à frente das pastas, todos imbuídos pela melhoria na gestão e nos processos. O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade. Quando se tem um momento com insegurança jurídica, essa previsibilidade é menor, então ele quer um retorno a mais curto prazo. No momento que se tem uma previsibilidade do cenário, com mais segurança para se investir – que vem com essas políticas de governança – eles podem investir a longo prazo, com um retorno menor, mas com um capital mais longo. Se tira aquele capital especulativo do setor financeiro e traz mais para um capital produtivo, de produção, melhoria do processo produtivo, indústria, geração de emprego. Se olha para a indicação do Paulo Guedes (Ministério da Economia), ou das secretarias, mas tem que olhar também essas outras prerrogativas. Se criou um Estado muito grande, muito burocrático e ficou muito difícil de empreender no Brasil, de se gerar emprego e investimento. É uma nova época da política, os novos governos entenderam que o Estado precisa ter um papel mais eficiente e que deixe um ambiente mais saudável e menos burocrático.
JC – Acaba refletindo também no Rio Grande do Sul. Mas além disso, tem algumas ações pontuais do futuro governador que possam ser definidas como importante para se retomar o crescimento no Estado?
Fernandez – Principalmente a eficiência na gestão. Estamos gastando muito no custeio e pouco gasto com investimento e infraestrutura. O Estado já tem uma localização geograficamente ruim na comparação com alguns outros estados do centro do país. Então o investimento em infraestrutura para o escoamento de safra, do agronegócio, na questão de logística é fundamental. Qual é o modelo? Parcerias público-privadas (PPPs), concessões e privatizações. A infraestrutura é fundamental para o crescimento e o Estado e não tem dinheiro para investir. Isso não pode ser feito através do governo. O governo vai ter que desenhar um modelo muito bem feito de PPPs, concessões, privatizações para colocar isso em pratica e fazer com que o Rio Grande do Sul volte a crescer. Aqui no Estado foi feito muito ao contrário, se aumentou muito o custeio do funcionalismo e se deixou os processos de infraestrutura muito atrasados.
VÍDEOS JC: Confira algumas das ideias de Eduardo Fernandez:
JC – No rol das privatizações e das empresas estatais, uma discussão recente envolve o Banrisul. Como o setor empresarial enxerga isso? Acreditam que é um ativo importante para colocar na mesa de negociação ou é mais interessante manter público?
Fernandez – O Banrisul não é uma função do estado. Existem funções que o Estado tem feito de forma ineficiente, como segurança, saúde e educação, que são prioridades. Quando o governo tem um banco e começa a ir para outras esferas, acaba perdendo suas prioridades. O Banrisul deveria sim entrar na mesa de negociação, é um ativo muito importante. Só não se pode vender o Banrisul para pagar dívida, pagar custeio. Isso seria um grande tiro no pé. Esse dinheiro tem que ser para investimento. Vai deixar de entrar dinheiro do lucro, então vamos usar esse capital (da venda) para fomentar investimento e para drenar outras alternativas, para se trazer muito mais dinheiro para o Estado através desses investimentos que foram criados por este ativo que foi vendido. Todos os outros estados já não têm mais bancos estatais, e aqui ainda tem essa amarra. Seria mais produtivo e mais eficiente na mão da iniciativa (privada) e acredito que o governo teria um capital para investir muito importante. Teria que saber a melhor forma de investir o dinheiro que entrasse.
JC – Como o setor empresarial pode contribuir para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e do próprio país?
Fernandez – Estamos vivendo uma nova era da política, de engajamento e participação. Existe uma diferenciação, o setor público estava muito afastado da sociedade, do setor da livre iniciativa, dos empresários, também por os próprios empresários e entidades não terem uma participação muito ativa. Esse ano, devido a uma crise profunda e uma série de problemas na gestão pública, se sentiu que deveria ter uma participação maior da sociedade, do indivíduo, das entidades e dos empresários na política. O Flávio Rocha, (dono) da Riachuelo, é nosso associado e fala que se acabou a era do “empresário moita”, aquele que se escondia atrás do seu negócio. Pelo conhecimento que temos, devemos participar cada vez mais, levar alternativas, blindar às vezes, e não só na esfera executiva, mas principalmente no Legislativo, que faz as leis, que vota coisas muito importantes. Ser participativo. Não só sentar ali em questões pontuais, brigando por alguns incentivos pontuais, mas sim pensando em uma forma de melhorar o ambiente de negócios para o Estado como um todo.
JC – A Reforma Tributária interessa ao setor empresarial. Se fala na criação de um imposto único, mais simples. Vocês trabalham com alguma proposta para aplicação a nível federal?
Fernandez – Sim, o Lide tem trabalhado nisso, nos estados e dentro do governo federal, de se criar um modelo para até 2026 termos um imposto único de circulação, o famoso IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Mas com uma transição. Tem a questão do ICMS ser diferente nos estados, as de arrecadações municipais. Já tem alguns fóruns de governadores se reunindo, os estados vão ter que conversar entre si. Essa é uma iniciativa que apoiamos. Às vezes os estados viraram competidores, um quer buscar o investimento do outro, e essa guerra tributária acaba dificultando essa simplificação dos impostos. Acredito que, se já for colocado em 2019 algumas prerrogativas, se consegue nos próximos dois mandatos ter uma definição de modelo simples e praticamente um imposto único, que é utilizado em países desenvolvidos e deixa o ambiente de negócios mais saudável e eficiente, para que se possa melhorar essa questão que é tão difícil e tão hostil para o empreendedor.
JC – O Rio Grande do Sul aprovou a prorrogação da elevação das alíquotas do ICMS por mais dois anos, com a proposta de que, passado esse período, se apresente uma reforma tributária do Estado. Como enxergam isso?
Fernandez – O que que acreditamos, dentro do Lide, e outras entidades também já colocaram, é que não se tem mais cheque em branco para governo aumentar imposto. Tem que mostrar exatamente quais contrapartidas serão dadas. Se vier algumas políticas de contrapartida, em dois anos vamos ter investimento em infraestrutura, licenciamento ambiental mais ágil, processo de desburocratização de forma geral, investimento em educação. Para que esse aumento de um ponto percentual realmente seja utilizado para eficiência da máquina pública. É o mesmo caso da venda do Banrisul, para que esses ativos de aumento de imposto ou de venda de empresas estatais não sejam utilizados para bancar custeio, e sim para eficiência da máquina pública e para investimentos em infraestrutura. Se o governo tiver esse entendimento, o Estado pode voltar a crescer, retomar o desenvolvimento e ser protagonista no cenário nacional. Perdemos muitos talentos, bons profissionais que foram para Santa Catarina, Paraná, São Paulo, outros lugares que tenham mais oportunidades. Isso muito impactado por políticas públicas malfeitas. E um pouco também pela cabeça do empresário, que tem que mudar, ser menos fechada e mais aberta a tudo isso que tem acontecido no mundo.
JC – Em que sentido?
Fernandez – Inovação. Quais são as boas práticas que estão sendo feitas em muitos estados? Por que que Santa Catarina cresceu? Aonde se investiu? Polos tecnológicos. Antes se dizia que Santa Catarina era nossa praia, e hoje tem polo cerâmico, polo metalomecânico, polo de tecnologia, setor de aves. Eles tinham uma economia muito menor que a nossa. Aqui temos pastos vinhos, vinhedos, calçados, polo metalomecânico, joias, agronegócio, uma série de coisas que ficaram estagnadas por essa linha. Então o mundo é global, o conhecimento é global, e aqui no Estado somos muito bairristas. Um voto de confiança para o próximo governador é que ele tem uma postura bem inovadora, de ir buscar conhecimento em outros lugares, ver o que que está sendo feito. A questão de trazer um secretário da Fazenda de outro Estado (Marco Aurélio Santos) talvez seja uma coisa interessante, que está dentro das amarras já políticas e possa fazer algumas negociações de forma mais eficiente, e nesse sentido eu acho que tem que mudar a cabeça do empresário, das entidades empresariais, dos políticos e de toda a sociedade.
JC – Os últimos três anos já foram com esses mesmo valores de ICMS. Acredita que, mesmo com os valores majorados, um governo com proposta de eficiência é suficiente para atrais os investidores?
Fernandez – Acredito que sim. Apesar de ter alíquotas altas, é um Estado que tem oportunidades de negócios. Vejo que o Rio Grande do Sul ficou (para trás) por duas questões: por ser caro e por ser um pouco hostil estar aqui. Está difícil em segurança, com níveis de insegurança muito alto. O comercio foi muito impactado. Isso não é por causa dos impostos, e sim pela questão da insegurança. A pessoa não está na rua, não janta fora, não consome na rua. Tem outras alternativas que o governo pode se pautar para melhorar e trazer os investimentos. Existem políticas que não precisam ser só econômicas. Tem que se fazer modelos de política em que se possa ter um ambiente mais saudável para o cidadão viver. Aí o maior papel do Estado é prover o cidadão o direito de ir e vir. Quando se tem um ambiente de segurança, ele traz investimento, traz as pessoas consumindo. Nessa linha, questões de tecnologia, de segurança, de mobilidade, esses conceitos já podem ajudar, mesmo mantendo uma alíquota (de ICMS) de 18%. A alíquota é importante, impacta de forma negativa na competitividade, mas tem outras formas de o governo criar esse ambiente mais saudável. E nesses pontos, o governo se colocando nesses dois anos com políticas nesse sentido, acredito que consegue não precisar mais pedir aumento de imposto.

Perfil

Eduardo Krawetz Olivela Fernandez tem 39 anos e é natural de Porto Alegre. É formado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) e pósgraduado em Gestão e Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Sul. Já foi vice-presidente da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul); diretor do Instituto de Estudos Empresariais (IEE); membro do Conselho de Economia da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio); e integrante do Conselho da Fundação Piratini. É presidente do Grupo de Líderes Empresariais (Lide-RS) desde o ano de 2016. É sócio-diretor da Galva Indústria e Comércio, que atua no ramo de tratamento de superfície e galvanização; e sócio-fundador da empresa EKF Participações. Antes, atuou na Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica – Eletrobras (CGTEE) e no marketing da área de automação industrial da Siemens. Ministra palestras sobre empreendedorismo e cenário econômico e político.
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Novos governos retomam confiança do setor empresarial, diz Fernandez

'O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade', explica Fernandez

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CLAITON DORNELLES /JC
Bruna Suptitz
O setor empresarial está otimista com os novos governos Federal e Estadual. É o que aponta uma pesquisa realizada pelo Lide – Grupo de Líderes Empresariais, comentada nesta entrevista pelo presidente da entidade no Rio Grande do Sul, o empresário Eduardo Fernandez. “O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade”, explica. Para ele, a escolha de nomes técnicos para compor a equipe do presidente Jair Bolsonaro (PSL) é racional, o que reflete em maior confiança do investidor.
No caso do Rio Grande do Sul, embora o governador eleito Eduardo Leite (PSDB) tenha conseguido aprovar a manutenção do aumento das alíquotas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) por mais dois anos, Fernandez entende que existem “outras alternativas que o governo pode se pautar para melhorar e trazer os investimentos”, citando como exemplo a melhora na segurança pública. Trabalhando políticas que não são econômicas, acredita que em dois anos não será mais preciso pedir aumento de impostos.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, o empresário se posiciona a favor da venda do Banrisul, desde que o recurso seja utilizado para investimentos, e não para custeio. “Existem funções que o Estado tem feito de forma ineficiente, como segurança, saúde e educação, que são prioridades”, defende.
Jornal do Comércio – Quais as perspectivas do Lide e do setor empresarial para os novos governos?
Eduardo Fernandez – É feita uma pesquisa a cada trimestre com todos os associados, grandes empresas de todo o país, e a mais recente, sobre o clima empresarial, mostrou uma retomada muito forte da confiança dos empresários em relação ao novo governo federal. São feitos questionamentos em três pontos: se vai se melhorar o ambiente empresarial; se vai se manter; ou se vai piorar. E 78% desses empresários colocaram que vai melhorar o ambiente de negócios a partir de 2019. O otimismo e a confiança estão grandes, o que não se tinha há muito tempo no cenário nacional. E, quando se fala em cenário nacional, implica diretamente no Rio Grande do Sul, com as empresas multinacionais e as que têm atuação em vários estados. Por números econômicos, a gente espera um crescimento de 2,5% a 3% no cenário nacional; e entre 2% e 2,2% no cenário estadual. Mas o que mais chama a atenção é a relação de confiança. Existia muita coisa que estava estagnada, que estava presa pela questão da confiança.
JC – A melhora do ambiente é baseada em quê? Nos nomes anunciados pelo novo governo para comandar a economia?
Fernandez – Há uma racionalidade na decisão do governo federal em colocar nomes técnicos à frente das pastas, todos imbuídos pela melhoria na gestão e nos processos. O investidor sempre olha dois pontos: o retorno e a previsibilidade. Quando se tem um momento com insegurança jurídica, essa previsibilidade é menor, então ele quer um retorno a mais curto prazo. No momento que se tem uma previsibilidade do cenário, com mais segurança para se investir – que vem com essas políticas de governança – eles podem investir a longo prazo, com um retorno menor, mas com um capital mais longo. Se tira aquele capital especulativo do setor financeiro e traz mais para um capital produtivo, de produção, melhoria do processo produtivo, indústria, geração de emprego. Se olha para a indicação do Paulo Guedes (Ministério da Economia), ou das secretarias, mas tem que olhar também essas outras prerrogativas. Se criou um Estado muito grande, muito burocrático e ficou muito difícil de empreender no Brasil, de se gerar emprego e investimento. É uma nova época da política, os novos governos entenderam que o Estado precisa ter um papel mais eficiente e que deixe um ambiente mais saudável e menos burocrático.
JC – Acaba refletindo também no Rio Grande do Sul. Mas além disso, tem algumas ações pontuais do futuro governador que possam ser definidas como importante para se retomar o crescimento no Estado?
Fernandez – Principalmente a eficiência na gestão. Estamos gastando muito no custeio e pouco gasto com investimento e infraestrutura. O Estado já tem uma localização geograficamente ruim na comparação com alguns outros estados do centro do país. Então o investimento em infraestrutura para o escoamento de safra, do agronegócio, na questão de logística é fundamental. Qual é o modelo? Parcerias público-privadas (PPPs), concessões e privatizações. A infraestrutura é fundamental para o crescimento e o Estado e não tem dinheiro para investir. Isso não pode ser feito através do governo. O governo vai ter que desenhar um modelo muito bem feito de PPPs, concessões, privatizações para colocar isso em pratica e fazer com que o Rio Grande do Sul volte a crescer. Aqui no Estado foi feito muito ao contrário, se aumentou muito o custeio do funcionalismo e se deixou os processos de infraestrutura muito atrasados.
VÍDEOS JC: Confira algumas das ideias de Eduardo Fernandez:
JC – No rol das privatizações e das empresas estatais, uma discussão recente envolve o Banrisul. Como o setor empresarial enxerga isso? Acreditam que é um ativo importante para colocar na mesa de negociação ou é mais interessante manter público?
Fernandez – O Banrisul não é uma função do estado. Existem funções que o Estado tem feito de forma ineficiente, como segurança, saúde e educação, que são prioridades. Quando o governo tem um banco e começa a ir para outras esferas, acaba perdendo suas prioridades. O Banrisul deveria sim entrar na mesa de negociação, é um ativo muito importante. Só não se pode vender o Banrisul para pagar dívida, pagar custeio. Isso seria um grande tiro no pé. Esse dinheiro tem que ser para investimento. Vai deixar de entrar dinheiro do lucro, então vamos usar esse capital (da venda) para fomentar investimento e para drenar outras alternativas, para se trazer muito mais dinheiro para o Estado através desses investimentos que foram criados por este ativo que foi vendido. Todos os outros estados já não têm mais bancos estatais, e aqui ainda tem essa amarra. Seria mais produtivo e mais eficiente na mão da iniciativa (privada) e acredito que o governo teria um capital para investir muito importante. Teria que saber a melhor forma de investir o dinheiro que entrasse.
JC – Como o setor empresarial pode contribuir para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul e do próprio país?
Fernandez – Estamos vivendo uma nova era da política, de engajamento e participação. Existe uma diferenciação, o setor público estava muito afastado da sociedade, do setor da livre iniciativa, dos empresários, também por os próprios empresários e entidades não terem uma participação muito ativa. Esse ano, devido a uma crise profunda e uma série de problemas na gestão pública, se sentiu que deveria ter uma participação maior da sociedade, do indivíduo, das entidades e dos empresários na política. O Flávio Rocha, (dono) da Riachuelo, é nosso associado e fala que se acabou a era do “empresário moita”, aquele que se escondia atrás do seu negócio. Pelo conhecimento que temos, devemos participar cada vez mais, levar alternativas, blindar às vezes, e não só na esfera executiva, mas principalmente no Legislativo, que faz as leis, que vota coisas muito importantes. Ser participativo. Não só sentar ali em questões pontuais, brigando por alguns incentivos pontuais, mas sim pensando em uma forma de melhorar o ambiente de negócios para o Estado como um todo.
JC – A Reforma Tributária interessa ao setor empresarial. Se fala na criação de um imposto único, mais simples. Vocês trabalham com alguma proposta para aplicação a nível federal?
Fernandez – Sim, o Lide tem trabalhado nisso, nos estados e dentro do governo federal, de se criar um modelo para até 2026 termos um imposto único de circulação, o famoso IVA (Imposto sobre Valor Agregado). Mas com uma transição. Tem a questão do ICMS ser diferente nos estados, as de arrecadações municipais. Já tem alguns fóruns de governadores se reunindo, os estados vão ter que conversar entre si. Essa é uma iniciativa que apoiamos. Às vezes os estados viraram competidores, um quer buscar o investimento do outro, e essa guerra tributária acaba dificultando essa simplificação dos impostos. Acredito que, se já for colocado em 2019 algumas prerrogativas, se consegue nos próximos dois mandatos ter uma definição de modelo simples e praticamente um imposto único, que é utilizado em países desenvolvidos e deixa o ambiente de negócios mais saudável e eficiente, para que se possa melhorar essa questão que é tão difícil e tão hostil para o empreendedor.
JC – O Rio Grande do Sul aprovou a prorrogação da elevação das alíquotas do ICMS por mais dois anos, com a proposta de que, passado esse período, se apresente uma reforma tributária do Estado. Como enxergam isso?
Fernandez – O que que acreditamos, dentro do Lide, e outras entidades também já colocaram, é que não se tem mais cheque em branco para governo aumentar imposto. Tem que mostrar exatamente quais contrapartidas serão dadas. Se vier algumas políticas de contrapartida, em dois anos vamos ter investimento em infraestrutura, licenciamento ambiental mais ágil, processo de desburocratização de forma geral, investimento em educação. Para que esse aumento de um ponto percentual realmente seja utilizado para eficiência da máquina pública. É o mesmo caso da venda do Banrisul, para que esses ativos de aumento de imposto ou de venda de empresas estatais não sejam utilizados para bancar custeio, e sim para eficiência da máquina pública e para investimentos em infraestrutura. Se o governo tiver esse entendimento, o Estado pode voltar a crescer, retomar o desenvolvimento e ser protagonista no cenário nacional. Perdemos muitos talentos, bons profissionais que foram para Santa Catarina, Paraná, São Paulo, outros lugares que tenham mais oportunidades. Isso muito impactado por políticas públicas malfeitas. E um pouco também pela cabeça do empresário, que tem que mudar, ser menos fechada e mais aberta a tudo isso que tem acontecido no mundo.
JC – Em que sentido?
Fernandez – Inovação. Quais são as boas práticas que estão sendo feitas em muitos estados? Por que que Santa Catarina cresceu? Aonde se investiu? Polos tecnológicos. Antes se dizia que Santa Catarina era nossa praia, e hoje tem polo cerâmico, polo metalomecânico, polo de tecnologia, setor de aves. Eles tinham uma economia muito menor que a nossa. Aqui temos pastos vinhos, vinhedos, calçados, polo metalomecânico, joias, agronegócio, uma série de coisas que ficaram estagnadas por essa linha. Então o mundo é global, o conhecimento é global, e aqui no Estado somos muito bairristas. Um voto de confiança para o próximo governador é que ele tem uma postura bem inovadora, de ir buscar conhecimento em outros lugares, ver o que que está sendo feito. A questão de trazer um secretário da Fazenda de outro Estado (Marco Aurélio Santos) talvez seja uma coisa interessante, que está dentro das amarras já políticas e possa fazer algumas negociações de forma mais eficiente, e nesse sentido eu acho que tem que mudar a cabeça do empresário, das entidades empresariais, dos políticos e de toda a sociedade.
JC – Os últimos três anos já foram com esses mesmo valores de ICMS. Acredita que, mesmo com os valores majorados, um governo com proposta de eficiência é suficiente para atrais os investidores?
Fernandez – Acredito que sim. Apesar de ter alíquotas altas, é um Estado que tem oportunidades de negócios. Vejo que o Rio Grande do Sul ficou (para trás) por duas questões: por ser caro e por ser um pouco hostil estar aqui. Está difícil em segurança, com níveis de insegurança muito alto. O comercio foi muito impactado. Isso não é por causa dos impostos, e sim pela questão da insegurança. A pessoa não está na rua, não janta fora, não consome na rua. Tem outras alternativas que o governo pode se pautar para melhorar e trazer os investimentos. Existem políticas que não precisam ser só econômicas. Tem que se fazer modelos de política em que se possa ter um ambiente mais saudável para o cidadão viver. Aí o maior papel do Estado é prover o cidadão o direito de ir e vir. Quando se tem um ambiente de segurança, ele traz investimento, traz as pessoas consumindo. Nessa linha, questões de tecnologia, de segurança, de mobilidade, esses conceitos já podem ajudar, mesmo mantendo uma alíquota (de ICMS) de 18%. A alíquota é importante, impacta de forma negativa na competitividade, mas tem outras formas de o governo criar esse ambiente mais saudável. E nesses pontos, o governo se colocando nesses dois anos com políticas nesse sentido, acredito que consegue não precisar mais pedir aumento de imposto.

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Eduardo Krawetz Olivela Fernandez tem 39 anos e é natural de Porto Alegre. É formado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) e pósgraduado em Gestão e Marketing pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Sul. Já foi vice-presidente da Federação de Entidades Empresariais do Rio Grande do Sul (Federasul); diretor do Instituto de Estudos Empresariais (IEE); membro do Conselho de Economia da Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio); e integrante do Conselho da Fundação Piratini. É presidente do Grupo de Líderes Empresariais (Lide-RS) desde o ano de 2016. É sócio-diretor da Galva Indústria e Comércio, que atua no ramo de tratamento de superfície e galvanização; e sócio-fundador da empresa EKF Participações. Antes, atuou na Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica – Eletrobras (CGTEE) e no marketing da área de automação industrial da Siemens. Ministra palestras sobre empreendedorismo e cenário econômico e político.
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