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Porto Alegre, segunda-feira, 25 de junho de 2018.

Jornal do Comércio

Política

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Entrevista Especial

Notícia da edição impressa de 25/06/2018. Alterada em 25/06 às 08h10min

'A Copa nos ajudaria a chegar até as eleições', diz Damo

'O futebol, a religião, a política e o amor, todos alienam, em certo sentido', afirma Damo

'O futebol, a religião, a política e o amor, todos alienam, em certo sentido', afirma Damo


LUIZA PRADO/JC
Patrícia Comunello
Em meio ao ambiente político pré-eleitoral brasileiro tenso e repleto de indefinições, que tal assistir aos jogos da Copa do Mundo de 2018 para dar um tempo? A sugestão é do professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e doutor em Antropologia Arlei Sander Damo, apostando numa aura que o futebol tem e que vai além do apelo meramente esportivo. "Ele consegue fazer com que pessoas de diferentes classes, idades, gêneros e interesses partidários consigam dialogar", atenta Damo.
O professor lançou esta proposta na coluna Entrevero, que mantém no site Ludopédio, um espaço do mundo acadêmico dedicado ao esporte mais popular do País. "Talvez jamais o Brasil tenha precisado tanto de uma Copa do Mundo. Não me refiro ao título, a esta altura irrelevante. Uma quarentena de amenidades nos faria bem e de quebra chegaríamos mais perto das eleições", escreveu o professor da Ufrgs.
Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Damo logo avisa que a atitude é uma alternativa em meio a dificuldades "de diálogo e mediação". "O debate travado neste momento não está sendo produtivo. É um debate entre grupos quase que de fanáticos."
Jornal do Comércio - Por que a Copa do Mundo faria bem ao Brasil neste momento?
Arlei Sander Damo - O clima político está muito tensionado e está faltando mediação. Sabemos que a política é um espaço de debate e tensionamento em um país, estado ou cidade, mas quando isso chega a um nível em que não tem possibilidade de diálogo fica complicado. E chegamos a este ponto. O debate travado neste momento não está sendo produtivo. É um debate entre grupos quase que de fanáticos, especialmente o que acontece em redes sociais na internet. As pessoas que têm muita convicção em suas opções não abrem mão e, por outro lado, temos pesquisas eleitorais mostrando que há muitos indecisos, apontando para a falta de perspectivas. Escrevi o artigo sobre a Copa e os brasileiros bem no meio da greve dos caminhoneiros em que se começou a discutir a possibilidade de uma intervenção militar. Quando se chega nesta situação, tem de dar uma parada estratégica, para recomeçar lá adiante em outro ponto. A Copa do Mundo nos ajudaria a chegar até as eleições.
JC - Qual seria o efeito desse distanciamento estratégico?
Damo - Ajudaria a deslocar o assunto. Desde 1994, os calendários da Copa e das eleições coincidem no Brasil. O que se diz é que a disputa eleitoral só começa após a conclusão da participação brasileira no Mundial. Em 1994 e 2002, o País foi campeão e aí o calendário se estendeu, pois teve a comemoração que durou mais de uma semana e ocupou a mídia. Só depois se começou a falar efetivamente das campanhas. Tentei brincar um pouco, mas falando sério sobre duas coisas: é preciso dar um tempo na política, pois as discussões não estão nos levando a lugar nenhum ou a um lugar promissor, e a segunda questão, que abordei em um artigo anterior, é que sentia saudades das polêmicas do futebol. 
JC - Parece que os brasileiros não estão muito empolgados com a seleção? Por quê?
Damo - Obviamente, que o 7x1 da Alemanha sobre o Brasil em 2014 deixou um clima de muita frustração em relação à seleção. Mas também temos a maneira como o Tite conduziu a preparação do time, sem polêmicas com jogadores e mostrando que teve muito critério na escolha do elenco. Foi uma preparação mais silenciosa sem gerar debates. O fato de ser na Rússia, distante geográfica e culturalmente, ajuda. Além disso, a imprensa teve mais dificuldades de trabalhar, pois não é um país seguro para transitar e mostrar problemas, como se fez no Brasil em 2014. Mas o que mais contribui (para este distanciamento) é uma certa apropriação dos símbolos nacionais por um segmento da população brasileira. A seleção é um símbolo laico e vinculado com a Nação, como a bandeira, o hino, um tipo de música e a culinária. Talvez seja o símbolo mais potente de brasilidade, pois consegue unir o Brasil como um todo.
JC - E ela não está conseguindo unir como antes? 
Damo - Em 2013, as manifestações começam mais ligadas à esquerda e com pautas como a dos transportes, mas em um segundo momento ocorre uma mistura maior de públicos e pautas, coincidindo com a Copa das Confederações. As pessoas saíam às ruas para protestar, mas parecia mais um evento festivo do que uma manifestação política. As pessoas estavam excitadas por estarem nas ruas, e os símbolos nacionais foram junto. Nas jornadas de junho, a coloração tradicional de movimentos e partidos de esquerda, em geral vermelha, já era verde e amarela. Após a eleição de Dilma Rousseff (PT) em 2014 e a campanha do impeachment em 2016, isso se acentua. Não estou culpando ninguém, mas hoje há uma parte da população que reluta em vestir verde e amarelo, pois as cores ficaram estigmatizadas. Havia muita sátira da esquerda apontando que os coxinhas protestavam contra a corrupção com a camisa da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). A mobilização para a Copa envolve, além do público habitual do futebol que é mais masculino, mulheres e crianças, e não vimos isso agora. Professores de Geografia e História que costumam usar o Mundial para trabalhar conteúdos não mexeram nisso na sala de aula, pois são de esquerda. As crianças acabaram não levando os símbolos da Nação às ruas.
JC - Dar um tempo vendo a Copa não aliena as pessoas dos reais problemas do País?
Damo - O futebol, a religião, a política e o amor, todos alienam, em certo sentido, pois podem sugar completamente o interesse de uma pessoa até um ponto de ficar alheia ao que está ao seu redor. Este seria o sentido original da alienação. Nos anos de 1970, em parte influenciada por uma leitura crítica da Escola de Frankfurt e, de outro lado, pelo uso que as ditaduras sul-americanas fizeram do futebol, criou-se um discurso arredio em relação ao esporte. Isso mudou, seja porque houve uma revisão de certos discursos acadêmicos, seja porque os governos não têm tido muito sucesso em usar o futebol com fins eleitoreiros.
JC - O senhor acredita que ganhar a Copa favoreceria algum campo político?
Damo - A relação entre eleições e Copa do Mundo tem sido citada, e todo mundo diz que não tem relação,  mas se pode pensar de duas formas. Primeiro a mais estrita, de que são dois eventos rituais que têm temporalidades e pautas distintas. A pauta da Copa é a festa, o divertimento, o encontro das famílias e a celebração cívica, e, de forma geral, não dá resultado político-eleitoral. Em 1994, diziam que a conquista do tetracampeonato ajudou Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a se eleger, mas não foi o Mundial que pesou, mas sim o êxito do Plano Real. Em 2002, pela lógica, o candidato de FHC, José Serra (PSDB), deveria ter vencido então, mas foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Até 2014, não tivemos taças e houve as reeleições de Lula e de Dilma, que a pau e corda, venceu. Em nenhuma das campanhas vi manipulação dos símbolos nacionais. Claro, que o presidente Michel Temer (MDB) vai tentar subir e descer a rampa do Palácio do Planalto com a seleção, caso o Brasil vença. Se pensarmos de forma mais ampla, precisamos avaliar mais e rever posições. Nas mobilizações de 2013, vimos repertórios mais individualizados, que são característicos no futebol. Nos caras pintadas, em 1992, que derrubaram Fernando Collor de Mello (na época PRN, hoje senador pelo PTC), a ação era mais organizada e uniforme.
JC - E onde podemos ver mais proximidade?
Damo - Na forma de protesto mais exacerbada, que é muito comum no futebol e ocorre cotidianamente. O time está perdendo, e os torcedores protestam nos vestiários onde estão os jogadores para pedir a saída do técnico, do dirigente. É um pouco do que está acontecendo no Brasil: 'Não gostamos do presidente, então, vamos tirá-lo'. Este tipo de relação direta é difícil de fazer, mas penso que ela mostra a conexão do futebol com a política. Analiso este esporte a partir da lógica das emoções e também da política, não a partidária, mas de uma política no sentido mais amplo, a da participação na vida pública da cidade. Manifestar um pertencimento clubístico é o equivalente à filiação partidária, por exemplo. Mesmo que os conteúdos em um e outro caso sejam diferentes, mas ambos são formas de manifestar publicamente um certo tipo de pertencimento, de exercício de cidadania. 
JC - Pesquisa recente do Datafolha mostrou menor interesse do brasileiro pelo futebol. O que explicaria isso?
Damo - Temos de esperar mais para saber o que explica isso. Tivemos um processo de elitização no futebol, e os estádios são um ponto de inflexão importante, mas isso já vinha acontecendo. Não digo que isso seja bom ou ruim, mas não vejo nas periferias dos grandes centros urbanos o mesmo interesse dos meninos pelo futebol que se via há 30 ou 50 anos, quando o esporte monopolizava a atenção nestas áreas urbanas. Hoje, temos outras modalidades, como o skate e os jogos eletrônicos, disputando espaço com o futebol. Também reduziram substantivamente os campos de várzea. Talvez tenhamos um País menos voltado ao futebol. Mas isso não define a relação com a política, mas sim que possamos ter menos pessoas interessadas em Copa do Mundo.
JC - Voltando à relação com algum candidato, vemos um Jair Bolsonaro (PSC-RJ) exacerbando o nacionalismo. A conquista do hexacampeonato poderia reacender o símbolo e ajudá-lo?
Damo - Por si só, não. A menos, numa hipótese, que um jogador como o Neymar que venha a se consagrar na Rússia resolva fazer um pronunciamento em favor do deputado, o que acho difícil (risos), ou mesmo que o técnico Tite se pronuncie exaltando a questão da gestão eficiente, favorecendo algum nome mais ligado à área de empreendedorismo, o que estaria mais próximo de João Amoêdo (Novo), o que também acho que não vai acontecer. Talvez essas situações pudessem atrair votos, mas não a ponto de serem decisivas para eleger alguém. Além disso, vemos uma CBF na surdina, já que seus ex-dirigentes estão imersos em processos acusados de corrupção. O Michel Temer até poderia querer muito que o Tite levasse seus jogadores para subir a rampa do Planalto, mas ele está completamente fora do jogo eleitoral.
JC - Qual é o seu palpite? Brasil pode levar a Copa?
Damo - O Brasil tem muita chance, pois o time está bem preparado. Mas não é só bola que conta. Futebol é muito mais que um jogo, especialmente porque os jogadores estão "fardados" com as cores de seu país. Na Copa, as emoções estão mais afloradas, o que torna as disputas mais imprevisíveis.
JC - Alguma chance de o futebol feminino chegar ao reconhecimento do masculino?
Damo - O que faz os esportes prosperarem é ter público. O futebol dos homens atingiu isso, após um longo percurso. O feminino é mais recente, está mais no registro de outros esportes, como vôlei, basquete etc. Para ter mais visibilidade, teria de constituir um público cativo, que assiste aos jogos e vai aos estádios. Nos últimos tempos, tem se tentado fazer algo diferente com o futebol das mulheres, que não seja apenas replicar o modelo do masculino, que acho que não funcionaria. Até porque as mulheres que militam nesta área não querem ser o outro lado, como um modelo de feminilidade que complementa a masculinidade do futebol dos homens, em geral bem tradicional. Há pressão para que o futebol das mulheres dê resultados em pouco tempo, o que pode frustar. Mas é bom lembrar que o futebol masculino levou décadas para criar clubes sólidos, perenes e com uma comunidade afetiva no entorno. O futebol das mulheres precisa sair da sombra dos clubes de grande porte. O que é mais urgente é formar mulheres para serem dirigentes e que possam buscar caminhos. Talvez o futebol das mulheres nunca chegue a ter tanta visibilidade e dinheiro quanto o dos homens. O que importa é superar preconceitos que impediam mulheres de jogar, treinar e dirigir clubes ou comentar jogos na TV. Avançamos bastante nesse aspecto, mas precisamos mais.

Perfil

Entrevista especial com o professor de Antropologia da Ufrgs, Arlei Damo, sobre Brasil, Copa e política.

Entrevista especial com o professor de Antropologia da Ufrgs, Arlei Damo, sobre Brasil, Copa e política.


/fotos LUIZA PRADO/JC
Arlei Sander Damo tem 47 anos, nasceu em Quilombo, em Santa Catarina, e é professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), onde fez mestrado e doutorado. Foi estagiário de pesquisa no Institut d'Ethnologie Méditerranéenne et Comparative (Université d'Aix-Marseille I & III) entre 2003 e 2004 e hoje é pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É autor de quatro livros: Futebol e identidade social; Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França; Fútbol y cultura (Buenos Aires, Argentina) e Megaeventos Esportivos no Brasil, os dois últimos em coautoria com Ruben Oliven, também professor da Ufrgs. Além de atuar na área de Antropologia do Esporte, Damo coordena o Grupo de Antropologia da Economia e da Política (Gaep) e colabora com o site Ludopédio.
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