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Opinião

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- Publicada em 14h45min, 19/04/2021.

Paternidade contemporânea. O pai tem um novo lugar na família?

Fernanda Trage
A contemporaneidade inscreve novas atribuições ao papel da mulher-mãe e do homem-pai. Com certeza, em algum momento você já deve ter ouvido "cuidar do filho é obrigação da mãe, enquanto o pai deve trazer o sustento para casa”, não é mesmo?
A contemporaneidade inscreve novas atribuições ao papel da mulher-mãe e do homem-pai. Com certeza, em algum momento você já deve ter ouvido "cuidar do filho é obrigação da mãe, enquanto o pai deve trazer o sustento para casa”, não é mesmo?
Essa visão descreve o modelo de família tradicional, onde havia uma hierarquia e uma divisão muito específica de funções para o homem e a mulher. Nesse modelo o homem era destacado como o responsável pela produção, ou seja, pelo sustento do lar, desempenhava uma função educadora e disciplinadora, sendo simbolicamente importante para as crianças como modelo de poder e autoridade enquanto a mulher era incumbida dos cuidados dos filhos e da casa, vindo dela a relação de afeto e carinho.
Sempre que formos pensar a respeito da evolução histórica do papel do pai, é necessário levar em conta os movimentos sociais que acompanham as discussões sobre o papel da mulher na sociedade. Tal abordagem conduz a um movimento coletivo em prol dos direitos femininos, os quais se perpetuam em diferentes esferas sociais e impactam diretamente no núcleo familiar.
O fato de a mulher começar a obter uma maior escolarização, a sua entrada no mercado de trabalho, trouxeram questionamentos e reformulações quanto ao lugar da mulher na sociedade. Isso contribuiu para a expansão do movimento feminista, o qual levou, inclusive, ao desenvolvimento de métodos anticoncepcionais, bem como passou a considerar a possibilidade do divórcio. Todos esses fatos repercutiram no arranjo familiar, permeando assim mudanças significativas, houve um remanejo das demandas do casal, a família contemporânea passou a dividir as tarefas de cuidados dos filhos e da casa.
Diferentemente do modelo tradicional de paternidade, o pai da atualidade, nessa estrutura familiar contemporânea, é demandado socialmente para que exerça uma paternidade mais implicada e ativa no que se refere à convivência e aos cuidados com os filhos. A ideia de que o homem tem um menor envolvimento com nos cuidados diários dos filhos está ficando para trás, o pai contemporâneo expressa interesse, sentimento e satisfação em poder cuidar dos filhos de forma igualitária com a parceira e de ter participação mais efetiva na vida da família.
Porém apesar dessa nova estruturação de papéis, muitos homens ainda não se envolvem tão ativamente em tarefas domésticas e de cuidado com os filhos. As evidências científicas indicam que isso está associado a crenças relacionadas ao fato de o cuidado estar vinculado ao gênero feminino. Além disso, é evidenciado o aspecto biológico da mulher, uma vez que a relação com os filhos se estabelece já no ventre materno e apenas sua fisiologia é apta a amamentar. Relaciona-se à gestação e à lactação, por serem exclusividade da mulher, à condição instintiva e natural de estar mais bem preparada para desempenhar a função do cuidar.
Apesar das especificidades fisiológicas femininas, o homem pode, sim, desempenhar um papel ativo nos cuidados com os filhos. Cabe, portanto, sustentar esse lugar de efetiva participação, o que implica na revisão de crenças e valores que pautam e permeiam nossa cultura.
Outro fato que a literatura aponta como forte influência na postura paterna é a sua experiência com seu progenitor, pais que tiveram relações mais afetivas, constantes e presentes com os seus pais tendem a tomar isso como modelo, estabelecendo uma relação pai-filho mais afetuosa, em que o carinho e o diálogo são base constituintes dessa. Em contrapartida, pais que vivenciaram uma relação mais distante, fria e autoritária tendem a exercer relação semelhante com seus filhos.
O fato de o homem envolver-se no período gestacional, sendo participativo, acompanhando a esposa em consultas de rotina, bem como nos cuidados iniciais da vida do bebê, auxiliando na amamentação, trocas de fraldas, cuidados de higiene, o tornam mais empático e responsivo. O homem tende a se solidarizar com o momento, entendendo de forma mais sensível a mulher-mãe-esposa, conseguindo assim compreender as dificuldades, os medos e angústias que o novo papel traz consigo.
Essa postura é bastante significativa para a mãe, ela tende a sentir-se mais segura, com uma sobrecarga menor, em consequência disso consegue desempenhar de forma mais eficaz os cuidados para com o bebê. Além de repercutir positivamente na convivência entre os pares, dinamizando a rotina e exercitando o diálogo.
Ressalta-se que a ausência paterna ou uma função paterna insuficiente trará sérias consequências ao desenvolvimento saudável das crianças e essas serão sentidas ao longo de todo o ciclo vital. A literatura aponta prejuízos no processo de ensino-aprendizagem, no desenvolvimento moral e na formação da identidade de gênero dos filhos.
Para que se realize um bom ajustamento quanto às tarefas e às funções familiares, é necessário que os cônjuges consigam compartilhar responsabilidades enquanto pais, implicando num envolvimento conjunto e de reciprocidade dos pais na educação dos filhos. A capacidade em dialogar e conseguir priorizar o bem-estar da criança deve estar acima de tudo. A saúde mental dos filhos está intimamente ligada à saúde mental dos pais.
Entretanto, para que possa haver um real compartilhamento de tarefas entre os casais contemporâneos, é necessário que questões sociais venham ao encontro desse novo molde familiar. Nesse sentido, faz-se necessário persistir na luta por uma educação não sexista, que permita a desconstrução de crenças e valores sobre o comportamento de homens e mulheres. Isso se estende ao mercado de trabalho e às leis que regem as diferenças de trato entre os sexos quando do nascimento de um filho. Destaca-se, nesse aspecto, a licença paternidade. O pouco tempo de dispensa do trabalho para vivenciar a fase inicial do filho não condiz com a necessidade da família contemporânea.
A literatura indica que o pai da atualidade, ou o novo pai, não apresenta, em geral, um modelo específico, mas, sim, há coexistência entre o modelo de pai tradicional e o modelo de pai contemporâneo. Tal característica é entendida como positiva, uma vez que o modelo tradicional, de pai provedor, o qual proporciona segurança e autoridade, se soma aos aspectos emocionais do pai contemporâneo, que se caracteriza pelo envolvimento afetivo com os filhos e com a esposa, assim como atua de forma mais ativa nas tarefas do lar.
Mestre em Psicologia, especialista em Infância e Família
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