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Relações Internacionais

- Publicada em 11h05min, 24/10/2020.

Notícias falsas podem afetar diretamente a política externa do Brasil e de outros países

Brasil não sofre tanto com a tentativa de influência de países estrangeiros no que diz respeito às fake news

Brasil não sofre tanto com a tentativa de influência de países estrangeiros no que diz respeito às fake news


Pedro França/Agência Senado/JC
Yasmim Girardi
De acordo com o ex-ministro de Relações Exteriores dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, Celso Lafer, é impossível falar de política externa sem incluir a agenda da opinião pública no debate. É evidente que as notícias contribuem para a formação da opinião pública e, sendo assim, as fake news também fazem parte do processo. Diante disso, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) mediou uma discussão sobre as fake news e o impacto na política externa.
De acordo com o ex-ministro de Relações Exteriores dos governos Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, Celso Lafer, é impossível falar de política externa sem incluir a agenda da opinião pública no debate. É evidente que as notícias contribuem para a formação da opinião pública e, sendo assim, as fake news também fazem parte do processo. Diante disso, o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) mediou uma discussão sobre as fake news e o impacto na política externa.
Além de Lafer, a webinar também contou com a presença do professor associado e fundador da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Matias Spektor; da jornalista da Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello; e da diretora-presidente do Cebri, Julia Dias Leite.
Ainda que as fake news tenham ganhado força com a ajuda da internet, essa não é uma prática nova. Segundo Patrícia, o uso da desinformação na política externa pode acontecer de diferentes formas, como quando agentes externos fazem campanhas lançando mão de informações que não condizem com a realidade para influenciar em eleições ou em decisões importantes, por exemplo. “Não temos estudos que mostram que uma campanha de desinformação consegue mudar um voto, mas esse tipo de movimentação aumenta a polarização e isso pode beneficiar candidatos”, acrescenta.
Ela também lembra do uso dos bots, que são contas automatizadas nas redes sociais. No Twitter, onde são mais comuns, esses robôs são responsáveis por divulgar as mesmas informações em grande escala. “Causa essa ilusão de que há consenso na opinião pública. O objetivo de subir hashtags no Twitter e fazer várias contas falarem a mesma coisa é dar essa impressão de consenso”, explica a jornalista.
O Brasil não sofre tanto com a tentativa de influência de países estrangeiros no que diz respeito às fake news, mas os bots e algumas outras formas de propagar desinformação são bastante utilizadas por aqui. Lafer e Patrícia também atentam para a mudança de narrativa. Ainda que não propague fake news, é uma forma de alterar o foco de questões importantes. A jornalista cita o exemplo do Placar da Vida, divulgado pelo Ministério da Saúde diariamente desde abril nas redes sociais. Apesar de publicar o número de mortos por Covid-19, o governo dá um enfoque maior para quantos brasileiros se recuperaram da doença, para mudar a narrativa.
Isso contribui para a criação de bolhas informacionais. “Se eu sou uma pessoa que acredita nessa campanha contra a imprensa e decido me informar apenas pelas redes sociais do governo e blogs bolsonaristas (de apoio ao presidente Jair Bolsonaro), tenho uma visão de política externa e realidade doméstica diversa do que é real”, defende a jornalista. Diante disso, Patrícia, Spektor e Lafer concordam que o sistema de fake news é extremamente eficiente.

Quando uma sociedade é pouco polarizada, uma informação de qualidade tem capacidade de varrer a notícia falsa

Apesar de reconhecerem a eficiência desse fenômeno em todos os campos da política internacional, os participantes chamam atenção para a efetividade das fake news no campo do meio ambiente. Para o ex-ministro, esse é um dos maiores problemas da condução da política externa brasileira. “É um assunto que é, compreensivelmente, do interesse de muitos, afeta a percepção pela qual o Brasil é visto no mundo e no qual os componentes da fake news comprometem a nossa credibilidade”, defende Lafer.
“O que as pesquisas feitas com opinião pública nos Estados Unidos mostram é que aqueles indivíduos que são expostos a notícias falsas na área ambiental de fato passam a ter dúvidas sobre o consenso científico”, comenta Spektor. De acordo com o professor, esse problema é amplificado em sociedades polarizadas, como é o caso dos EUA e do Brasil. “A literatura internacional mostra que, quando a sociedade é polarizada, a informação de qualidade não tem efeito. Quando é pouco polarizada, uma informação de qualidade tem capacidade de varrer a notícia falsa”, acrescenta o professor da FGV.
Nesse caso, a pergunta que precisa ser respondida é: o que fazer? Com base em estudos recentes, Spektor afirma que o Direito Internacional e a mídia são duas ferramentas capazes de combater as fake news sobre o meio ambiente. O primeiro porque, segundo ele, tem capacidade de comunicar e esclarecer a opinião pública; o segundo porque é responsável por informar, sobretudo quando comunica críticas externas.
Uma pesquisa inédita de opinião pública da FGV, que está sendo conduzida por Spektor e outros colegas das relações internacionais, busca indicar a eficácia das críticas internacionais para combater os boatos sobre o meio ambiente. A ideia surgiu a partir da crítica do presidente da França, Emmanuel Macron, às queimadas na Amazônia no ano passado. De acordo com os resultados, a opinião pública pode reagir de quatro formas diferentes diante de uma crítica como essa: com sentimento de arrependimento; com rejeição; com posição desafiadora; ou com silêncio até que a ameaça passe.
Spektor aponta que a preocupação é que a crítica seja utilizada para mobilizar uma base no Brasil para desafiar a França. “Descobrimos com a pesquisa que, em uma situação de crise ambiental amplamente divulgada pela imprensa, o líder não consegue mobilizar a população em uma chave nacionalista.” O resultado indica, portanto, que a vasta maioria dos entrevistados optou por reagir com sentimento de arrependimento, querendo consertar o erro. A pesquisa busca agora investigar o porquê disso.

Combate as fake News passa por três ramos: Direito Internacional, mídia e críticas externas

Apesar da gravidade do cenário, as fake news ainda são um fenômeno possível de ser combatido - ou, pelo menos, enfraquecido. Ainda que as três grandes potências mundiais (Estados Unidos, Rússia e China) usem e abusem das notícias falsas, Spektor acredita que há um caminho. “E esse caminho tem três ramos: o Direito Internacional, a mídia e as críticas externas.”
Para Lafer, há uma série de equívocos diplomáticos na maneira que o Brasil conduz o tema do meio ambiente diante do cenário das notícias falsas, mas esses equívocos também podem servir de oportunidade. “Não há problema ambiental internacional que possa ser resolvido sem a participação do Brasil. Não dá para ignorar as queimadas no Pantanal ou essa história da garimpagem ilegal. Essas realidades atuam na percepção que dela têm as pessoas e são sempre uma fonte de esperança.”
Segundo os especialistas, o negacionismo simbólico e essa distorção da realidade dos problemas ambientais são os principais problemas a serem resolvidos. Ainda assim, eles avaliam o cenário como passível de mudança, apesar das dificuldades. “Há um provérbio judaico que diz que a verdade nunca morre, mas tem uma vida miserável. Acredito que as fake news tornaram a vida da verdade mais miserável do que já era”, brinca o ex-ministro.
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