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Imigração

- Publicada em 10h09min, 03/10/2020.

Pesquisa revela perfil do empreendedorismo de refugiados e migrantes venezuelanos no Brasil

Trabalho de instituições que fazem atendimentos iniciais a imigrantes, como a Acnur, é importante

Trabalho de instituições que fazem atendimentos iniciais a imigrantes, como a Acnur, é importante


MARCO QUINTANA/JC
Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur), em parceria com a Delegação da União Europeia no Brasil, mapeou o perfil dos empreendedores refugiados e migrantes venezuelanos no País. Intitulado “Desafios, limites e potencialidades do empreendedorismo de refugiados (as), as solicitantes da condição de refugiado (a) e migrantes venezuelanos (as) no Brasil”, o estudo conduzido pela Universidade de Brasília (UnB) entrevistou 72 pessoas, sendo 12 em São Paulo (SP) e 60 em Boa Vista (RR), em janeiro deste ano.
Uma pesquisa divulgada nesta semana pela Agência da ONU para Refugiados (Acnur), em parceria com a Delegação da União Europeia no Brasil, mapeou o perfil dos empreendedores refugiados e migrantes venezuelanos no País. Intitulado “Desafios, limites e potencialidades do empreendedorismo de refugiados (as), as solicitantes da condição de refugiado (a) e migrantes venezuelanos (as) no Brasil”, o estudo conduzido pela Universidade de Brasília (UnB) entrevistou 72 pessoas, sendo 12 em São Paulo (SP) e 60 em Boa Vista (RR), em janeiro deste ano.
De acordo com os resultados da pesquisa, os empreendimentos de pessoas refugiadas, solicitantes da condição de refugiado e migrantes da Venezuela no Brasil estão concentrados nas áreas de alimentos e serviços pessoais (com destaque para salões de beleza e barbearias), informática, construção, saúde, vestuário e calçados, sendo que esses negócios se caracterizam por serem empresas pequenas e familiares, em endereços virtuais, fixos e de forma ambulante.
No lugar que é a porta de entrada desta população no País, em Roraima, a maioria dessas atividades são desenvolvidas por microempresários. Já em São Paulo, cidade que acolhe milhares de refugiados e migrantes, há negócios que contratam outros trabalhadores, muitas vezes da mesma nacionalidade dos empreendedores, com o objetivo de ajudar seus conterrâneos. Além disso, com a chegada da pandemia do novo coronavírus, vários desses negócios adotaram o sistema de entregas em domicílio, a fim de preservar a saúde dos clientes e manter as vendas do seu empreendimento.
O estudo apontou ainda que o faturamento das atividades desempenhadas por refugiados e migrantes venezuelanos é bastante diferenciado. Em Boa Vista, por exemplo, o valor geralmente fica abaixo do salário-mínimo (R$ 1.045,00), enquanto em São Paulo, o valor chega a uma variação entre R$ 4,5 mil e R$ 25 mil por mês.
Além do perfil desses empreendedores, a pesquisa revelou também os obstáculos para abertura de negócios no Brasil. Ainda que muitos dos entrevistados já tenham tido empreendimentos na Venezuela, eles tiveram dificuldades em encontrar informações sobre como abrir e manter um negócio e em acessar crédito (ou microcrédito) no sistema financeiro. Outras dificuldades elencadas pelo estudo dizem respeito ao alto custo de vida no Brasil (com destaque para o preço dos aluguéis), ao preconceito, às burocracias na revalidação de diplomas e à falta do domínio do idioma, além do abalo emocional gerado pelo deslocamento forçado e pela preocupação com familiares que permanecem na Venezuela.
Para Jose Egas, representante do Acnur no Brasil, os refugiados e migrantes representam papéis importantes na economia dos locais onde estão situados. “O empreendedorismo de pessoas refugiadas e migrantes movimenta a economia do local que os acolhem, gerando novas demandas, possibilidades de negócios e oportunidades de trabalho”, salientou. “Estes negócios são essenciais para esta população, e, mesmo sendo majoritariamente pequenos e familiares, representam importante fonte de renda para sua autonomia e integração socioeconômica”.
Já a chefe adjunta da Delegação da União Europeia no Brasil, Ana Beatriz Martins, elogiou a importância da pesquisa como um todo e defendeu o fluxo de refugiados e migrantes venezuelanos no Brasil. “A pesquisa ganha relevância ao auxiliar a formação de políticas públicas e mostra que a autossuficiência dos refugiados e migrantes cria oportunidades para outras pessoas e contribui com o desenvolvimento econômico, social e cultural do Brasil”.
Embora dificuldades tenham sido relatadas, as entrevistas revelaram aspectos que favoreceram a consolidação dos empreendimentos. Quatro fatores foram repetidamente reportados: o trabalho de instituições que fazem atendimentos iniciais a esta população, a atuação de serviços que promovem a ação empreendedora, o apoio familiar e de compatriotas e a força das comunidades virtuais e redes sociais no Brasil. “As pessoas refugiadas e migrantes são agentes ativos na economia do país de destino, e mostram que têm capacidade de transformar problemas em negócios. Também destacamos o papel da mulher empreendedora, que têm uma participação ativa no empreendedorismo”, apontou a pesquisadora da UnB, Miliana Ubiali Herrera.

Crise na Venezuela

Em 2016, iniciou-se um fluxo de refugiados e migrantes da Venezuela para o Brasil, o qual se intensificou com a deterioração social, política e econômica do país vizinho. As Nações Unidas estimam que mais de 5 milhões de venezuelanos já deixaram seu país em busca de proteção e assistência, sendo que a maioria se encontra na América Latina e no Caribe.
No Brasil, as principais autoridades do País estimam que aproximadamente 260 mil venezuelanos estejam em solo brasileiro. Até julho de 2020, mais de 130 mil solicitações de reconhecimento da condição de refugiado foram registradas – uma quantidade semelhante à dos pedidos de residência temporária. Entre elas, mais de 46 mil já foram reconhecidos como refugiadas pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare). “Políticas públicas só podem ser feitas com a devida identificação e diagnóstico de problemas, e esta pesquisa é uma contribuição efetiva neste sentido. Refugiados e migrantes estão pagando impostos, gerando empregos e movimentando a economia no Brasil, o que é muito importante”, reconheceu a Coordenadora de Políticas de Refúgio do Conare, Gabriella Oliveira.
Conforme os pesquisadores da UnB, a pesquisa mostra que é fundamental considerar o processo de deslocamento forçado de refugiados e migrantes venezuelanos para compreender e potencializar seus empreendimentos. Dos empreendedores entrevistados tanto em São Paulo quanto em Boa Vista, a maioria estão em fase de criação e consolidação de seus negócios e, justamente por isso, o estudo aponta a importância da estratégia de interiorização do Governo Federal em apoiar a realocação de venezuelanos para outras cidades brasileiras, onde tem mais possibilidades de empreender. “Ampliar os fatores facilitadores identificados e superar os obstáculos são ações imprescindíveis para a inserção desta população no mercado de trabalho brasileiro como empreendedores. Entre esses caminhos estão a facilitação do acesso ao crédito, o acesso à informação referente ao processo de empreender no Brasil e a valorização das pessoas refugiadas e migrantes – e de sua cultura – junto à sociedade brasileira”, disse a professora Tânia Tonhati, uma das coordenadoras da pesquisa.
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