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Estados Unidos

- Publicada em 21h00min, 25/08/2020. Atualizada em 20h07min, 26/08/2020.

Eleição presidencial de novembro nos EUA é vista como divisora de águas

Estados conservadores, como o Texas, podem ser surpresa na eleição

Estados conservadores, como o Texas, podem ser surpresa na eleição


/DARREN MCCOLLESTER/AFP/JC
Yasmim Girardi
No dia 3 de novembro, os Estados Unidos passarão por mais uma eleição presidencial. Do lado dos republicanos, o atual presidente Donald Trump e seu vice, Mike Pence, buscam a reeleição. Do outro lado, Joe Biden (ex-vice de Barack Obama) e Kamala Harris representam os democratas. Mas como está o cenário eleitoral dos EUA em meio à pandemia e de que forma o pleito pode impactar o Brasil e o mundo? O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) reuniu especialistas e debateu alguns aspectos em torno da eleição norte-americana.
No dia 3 de novembro, os Estados Unidos passarão por mais uma eleição presidencial. Do lado dos republicanos, o atual presidente Donald Trump e seu vice, Mike Pence, buscam a reeleição. Do outro lado, Joe Biden (ex-vice de Barack Obama) e Kamala Harris representam os democratas. Mas como está o cenário eleitoral dos EUA em meio à pandemia e de que forma o pleito pode impactar o Brasil e o mundo? O Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) reuniu especialistas e debateu alguns aspectos em torno da eleição norte-americana.
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Hussein Kalout, Demétrio Magnoli e Sergio Amaral debateram as eleições 2020 nos EUA. FOTO: Palácio do Planalto/Claiton Dornelles/Reprodução Cebri/JC
O sistema eleitoral dos EUA funciona por meio de colégios eleitorais e vence a disputa quem alcançar a maioria absoluta de votos dos delegados, ou seja, 270 dos 538. Cada estado tem direito a um determinado número de delegados, proporcional à representatividade no Congresso. Trump venceu facilmente em estados conservadores em 2016, como Texas - desde 1976 não elege um democrata -, Mississipi e Lousiana. Porém, de acordo com as pesquisas eleitorais mais recentes, Biden venceria Trump facilmente se as eleições ocorressem hoje, inclusive em estados que pendem mais para o lado republicano.
"Alguns dos estados historicamente republicanos como Texas, Arizona e Georgia, serão competitivos neste ano. É possível até que Trump perca em alguns deles", afirmou Demétrio Magnoli, sociólogo e conselheiro do Cebri. Em 2016, Trump obteve mais de 52% dos votos do Texas, enquanto Hillary Clinton, sua oponente, ficou com 43%. Agora, segundo levantamento do Real Clear Politics, divulgado em 17 de agosto, o republicano conta com 46,8% dos votos e Biden com 43,3%.
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Levantamento do Real Clear Politics, de 17 de agosto, mostra Trump com 46,8% dos votos e Biden com 43,3%. Foto: Saul Loeb e Ronda Churchill/AFP/JC
De acordo com dados da Real Clear Politics e da Financial Times da última semana, Biden tem 298 dos 538 votos no colégio eleitoral. Trump totaliza 119. Apesar dos números, os especialistas acreditam que há chances de o cenário mudar. "Eleição se ganha ao criar uma onda a favor, e Biden está criando uma onda a favor. Resta a Trump conseguir um escorregão de Biden nos debates eleitorais. Essa é a única vulnerabilidade que vejo", afirmou o conselheiro do Cebri e ex-embaixador do Brasil em Washington, Sergio Amaral. Os debates estão previstos para acontecer entre 29 de setembro e 22 de outubro.
Para Amaral, os níveis de aprovação de Trump durante o mandato também demonstram que ele pode ter poucas chances de vencer. Em março, alcançou 49%, maior percentual de aprovação desde que assumiu o controle da Casa Branca, segundo pesquisa da Gallup. Em seguida, porém, os números voltaram ao normal, para próximo dos 40%.
"Trump passou quatro anos com o mesmo nível de aprovação. Ele não conseguiu mudar e dificilmente vai mudar agora. O único momento diferente foi em março, quando conseguiu apresentar bons resultados na economia. Mas o declínio da economia e a pandemia de coronavírus foram dois ataques dos quais ele não conseguiu se recuperar até agora", pontuou Amaral.
A disputa acirrada e os números enfatizam a importância dessas eleições. Segundo o cientista político, Senior Fellow do Cebri e ex-Secretário de Assuntos Estratégicos do governo Michel Temer (2016-2018) Hussein Kalout, essa eleição presidencial é histórica. "É um divisor de águas para a nação norte-americana que irá emergir após a eleição. Nunca dois candidatos tiveram visões tão discrepantes e tão distantes um do outro na história dos EUA."

Eleições buscam mostrar o lugar dos EUA no mundo

Questões raciais nunca tiveram tanto destaque em uma eleição quanto em 2020
Questões raciais nunca tiveram tanto destaque em uma eleição quanto em 2020
Kerem Yucel/AFP/JC
Ainda que os EUA já tenham passado por outras eleições históricas, como as de Abraham Lincoln (1861-1865) e Barack Obama (2009-2017), os debatedores do Cebri acreditam que o pleito 2020 busca responder à pergunta: "quem somos nós?". "Uma resposta é os EUA afirmarem que são colonos brancos que falam inglês. A visão oposta é dizerem que são uma nação de cidadãos norte-americanos com igualdade de direitos, não distinguidos pela cor da pele ou língua nativa", enfatizou Magnoli.
Para Amaral, o país demonstra alguns sinais de enfermidade que precisam ser resolvidos. "Não é normal a maior economia do mundo não ter cobertura de saúde para toda a população. Também não é normal que uma sociedade que esteve em lutas raciais nos anos 1960 ainda não tenha enfrentado o racismo sistêmico." Nas pesquisas eleitorais, é a primeira vez que a questão racial ganha tanto destaque.
O ex-embaixador argumentou que a busca por mudança que está ocorrendo nos EUA, também ocorre no resto do mundo. "Será que os EUA vão continuar com a política de sanções? Vão apoiar um movimento que hostiliza aliados? Continuarão na beira de um conflito com a Coreia do Norte? Existe toda uma revisão no plano das ideias e das visões internas e externas. É isso que Biden terá como objetivo dos seus programas."
Para Kalout, algumas das enfermidades citadas por Amaral são feridas que os EUA precisam curar e, antes de Trump, isso estava sendo feito. Dessa forma, pautas de Obama deverão ser retomadas por Biden. "Olhando hoje, quem está mais interessado na eleição de Trump é a Rússia e a China, porque, com ele no poder, cria-se um vácuo no sistema internacional, o qual esses países irão preencher pouco a pouco. Biden, assim como Obama, tem a consciência de que os EUA deveriam alterar seu engajamento internacional." Entre os avanços de Obama paralisados quando Trump assumiu, Kalout citou o acordo nuclear (Irã), o Acordo de Paris (clima) e a abertura de diálogo com Cuba.
Esses aspectos abrem espaço para novas questões. "Os EUA voltarão a ser como eram antes de Trump, uma nação engajada no internacionalismo e na arquitetura política criada depois da II Guerra Mundial? Ou se fecharão na concha do nacionalismo e do isolacionismo, que são tendências antigas dos EUA, de antes da II Guerra Mundial?", questionou Magnoli.

Se Joe Biden sair vencedor, Brasil perde "referência ideológica"

Se o vencedor da eleição de novembro for o democrata Joe Biden, o governo do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, muito provavelmente terá de rever sua relação com a nação norte-americana. "Os EUA é um país pragmático. Eles sabem o que querem do Brasil, mas não sei se o Brasil sabe o que quer deles", ressaltou Kalout.
Caso a vitória seja dos democratas, o ex-Secretário de Assuntos Estratégicos de Temer acredita que Bolsonaro precisará mudar o discurso, já que a relação é entre os países e não entre os presidentes. "O Brasil vai ter que mudar a sua estratégia. Penso que o nosso País descobrirá que perdeu quase 18 meses e, depois de Biden, terá que correr atrás do prejuízo, inclusive com a China."
Amaral acredita que a vitória de Biden fará com que o Brasil perca a referência ideológica. "Cometemos a imprudência de alinhar nossa agenda com a dos EUA. Se Biden ganhar, significa que os norte-americanos rejeitam a agenda com a qual nós nos identificamos. Quem seriam nossos amigos?" Com isso, o ex-embaixador atenta para o perigo de isolamento diplomático. Uma das lições que o Brasil aprenderá, para Magnoli, será a de que "política externa é baseada no interesse nacional e não no ideológico".
 
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