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Rússia

- Publicada em 10h57min, 21/08/2020. Atualizada em 10h58min, 21/08/2020.

Médicos russos negam transferência de opositor de Putin e descartam envenenamento

Em 2018, Navalny foi atingido com uma substância tóxica verde que o cegou por um tempo

Em 2018, Navalny foi atingido com uma substância tóxica verde que o cegou por um tempo


KIRILL KUDRYAVTSEV/AFP/JC
Os médicos russos responsáveis pelo atendimento a Alexei Navalny, internado nesta quinta-feira (20) sob suspeita de envenenamento, disseram que não encontraram traços de veneno nos exames do ativista anti-Kremlin.
Os médicos russos responsáveis pelo atendimento a Alexei Navalny, internado nesta quinta-feira (20) sob suspeita de envenenamento, disseram que não encontraram traços de veneno nos exames do ativista anti-Kremlin.
O diagnóstico, segundo o chefe do hospital na Sibéria onde Navalny segue internado nesta sexta-feira (21), é uma doença metabólica causada por um baixo nível de açúcar no sangue. Vestígios de uma substância química industrial, entretanto, foram encontrados nas roupas e nos dedos de Navalny.
Aliados de Navalny acusam o governo russo de tentativa de assassinato em decorrência de suas atividades políticas. O advogado de 44 anos é um dos principais nomes da oposição ao presidente da Rússia, Vladimir Putin, e seu trabalho como blogueiro anticorrupção tem destaque nacional.
Além disso, os opositores temem pela vida de Navalny e querem permissão para removê-lo para um tratamento no exterior. Nesta sexta, a esposa do ativista, Yulia Navalnaia, escreveu uma carta com um pedido formal a Putin para que Navalny fosse transferido para a Alemanha.
"Acredito que Alexei Navalny precise de assistência médica qualificada na Alemanha. Me dirijo diretamente a você (Putin) para pedir permissão para levá-lo."
Navalnaia também tem usado as redes sociais para apontar problemas de infraestrutura no hospital russo e para questionar o quadro clínico apresentado pelos médicos. Segundo ela, o distúrbio metabólico é uma condição, não um diagnóstico válido.yuliMais uma vez, eles acham que somos idiotas: falam palavras difíceis, mas não conseguem estabelecer a causa do coma e o diagnóstico."
A Comissão Europeia também reforçou o pedido por uma transferência, expresso na quinta-feira pela chanceler alemã, Angela Merkel, e pelo presidente francês, Emmanuel Macron.
Durante uma entrevista coletiva, a porta-voz da Comissão disse que espera que "as autoridades russas cumpram suas promessas de permitir que Navalny seja transferido com segurança e rapidez para o exterior, a fim de receber tratamento médico de acordo com os desejos da família".
O Kremlin afirmou que as autoridades estariam prontas para considerar essa demanda, mas que a decisão cabe aos médicos responsáveis pelo tratamento. Estes, por sua vez, disseram que o estado de saúde de Navalny ainda é "muito instável" para uma transferência.
"É uma decisão puramente médica", afirmou Dmitri Peskov, porta-voz de Putin, acrescentando que a equipe do hospital convidou médicos alemães que desembarcaram no país nesta sexta "a participarem de uma reunião e obterem todas as informações sobre os exames".
A equipe alemã chegou à cidade de Omsk, onde Navalny está internado, em um voo fretado pela ONG alemã Cinema for Peace, dirigida pelo ativista de direitos humanos Jaka Bizilj, que já ofereceu o mesmo tratamento a outros adversários do Kremlin.
O braço direito do opositor, Leonid Volkov, denunciou por sua vez "uma decisão política e não médica". "Eles esperam que as toxinas se dissolvam no corpo e não possam ser detectadas. Não há diagnóstico ou análise. A vida de Alexei está em perigo."
Em uma rede social, a assessora de imprensa de Navalny confirmou que os médicos alemães chegaram ao hospital.
"Onde estão agora e com quem se comunicam, não sabemos. Todos os médicos locais desapareceram em algum lugar", escreveu Kira Iarmich, que acusa a equipe russa de tentar "ganhar tempo".
Depois de se reunir em Tomsk, na Sibéria, com candidatos oposicionistas que concorrerão nas eleições regionais russas em setembro, Navalny passou mal durante um voo quando voltava para Moscou. Segundo a porta-voz, a principal suspeita é que ele tenha tomado uma xícara de chá envenenado.
De acordo com relatos de testemunhas em redes sociais, ele foi ao banheiro do avião e estava gritando de dor. A aeronave fez um pouso de emergência em Omsk e Navalny foi levado inconsciente para um hospital. Nesta sexta, ele permanece em coma na UTI e respira com a ajuda de aparelhos.
A escassez de informações e as divergências entre elas reforçam o discurso dos aliados de Navalny de que o suposto envenenamento tenha sido uma ação do governo de Putin.
A atenção que Navalny atrai e as circunstâncias de sua internação levam inevitavelmente à memória do destino de outros opositores e desafetos do governo russo.
Ele mesmo foi vítima anteriormente. Em 2018, durante um protesto, ele foi atingido com uma substância tóxica verde que o deixou parcialmente cego de um olho por um tempo.
O Kremlin sempre negou qualquer associação a ataques contra opositores. A lista, contudo, acumula casos -com um mórbido destaque à modalidade envenenamento.
Outros desafetos de Putin alvos de envenenamento
  • Iuri Shchekochikhin, 2003 - Jornalista investigativo, teve sintomas de forte alergia e morreu dias antes de se encontrar com investigadores do FBI.
  • Anna Politkovskaia, 2004 - Jornalista investigativa, passou mal após tomar chá em um voo. Ela sobreviveu, mas foi assassinada a tiros dois anos depois, em frente de casa.
  • Viktor Yushchenko, 2004 - Candidato à presidência da Ucrânia contra um rival apoiado por Moscou, foi envenenado em meio à campanha. Ele sobreviveu, venceu a eleição e assumiu o cargo, mas ficou com cicatrizes no rosto.
  • Alexander Litvinenko, 2006 - Ex-espião russo, se tornou crítico de Putin. Passou mal após tomar um chá com outro ex-agente russo em Londres, e morreu três dias depois, em novembro de 2006.
  • Serguei Skripal, 2018 - Ex-agente duplo russo, foi encontrado caído em um banco na praia no Reino Unido, junto com a filha. A polícia suspeita que veneno foi colocado na porta de sua casa. Recuperou-se após semanas no hospital.
  • Pyotr Verzilov, 2018 - Ativista e porta-voz do grupo Pussy Riot, foi levado a um hospital de Moscou depois de perder subitamente a visão, audição e movimentos. Ele foi levado depois para a Alemanha, onde os médicos apontaram que os sintomas eram indicativos de envenenamento. Ele sobreviveu.
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