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Líbano

- Publicada em 18h23min, 04/08/2020. Atualizada em 09h20min, 05/08/2020.

Beirute contabiliza mais de 75 mortos após explosão na área portuária

Área em torno do porto, bastante destruída, está isolada pelo Exército

Área em torno do porto, bastante destruída, está isolada pelo Exército


STR/AFP/JC
Atualizada às 9h25min de quarta-feira (5)
Atualizada às 9h25min de quarta-feira (5)
A explosão que atingiu a área portuária de Beirute, no Líbano, na tarde desta terça-feira (4), não poderia ocorrer em pior momento. A nação libanesa atravessa sua pior crise econômica em décadas, marcada por depreciação monetária sem precedentes, hiperinflação, demissões em massa e restrições bancárias drásticas, que alimentam há vários meses o descontentamento social, e vive uma crise política. Além disso, está marcado para sexta-feira (7) a divulgação do veredito dos acusados pelo assassinato do ex-premiê libanês Rafik Hariri, em 2005, o que pode fazer ressurgir tensões no país.
Até a tarde dessa terça-feira, o país contabilizava deixando ao menos 78 mortos e mais de 4 mil feridos. O número subiu na manhã desta quarta (5): a tragédia soma mais de 100 mortos, 4 mil feridos e 100 desaparecidos, segundo estimativa da Cruz Vermelha libanesa.
Paredes de prédios foram destruídas, janelas quebraram, carros foram virados de cabeça para baixo e destroços bloquearam várias ruas, forçando feridos a caminhar em meio à fumaça até hospitais. Segundo testemunhas, o estampido da explosão, que levantou bolas de fogo e colunas de fumaça gigantescas, foi ouvido até na cidade costeira de Larnaca, no Chipre, a cerca de 200 km da costa libanesa.
Segundo o chefe de segurança interna do Líbano, Abbas Ibrahim, a origem do episódio é uma área do porto com materiais altamente explosivos, porém, afirmou que não iria especular sobre as causas para não atropelar as investigações. Em declaração dada na noite de terça-feira (horário do Brasil), o premiê do Líbano, Hassan Diab, afirmou que o incidente foi causado por 2.750 toneladas de nitrato de amônio, usado como fertilizante. "É inadmissível que um carregamento de nitrato de amônio, estimado em 2.750 toneladas, esteja em um armazém há seis anos, sem medidas preventivas. Isso é inaceitável e não podemos permanecer calados."
Diab decretou "um dia nacional de luto" nesta quarta-feira (5). Ele disse, em um discurso televisivo, que os responsáveis pela explosão vão pagar o preço. "Prometo a vocês que essa catástrofe não passará sem responsabilização. Os culpados vão pagar o preço", afirmou.

Hospitais estão sobrecarregados, com feridos precisando de cirurgias

Dezenas de pessoas feridas esperavam por atendimento em frente a hospitais
Dezenas de pessoas feridas esperavam por atendimento em frente a hospitais
IBRAHIM AMRO/AFP/JC
Georges Kettaneh, presidente da Cruz Vermelha Libanesa, citou "centenas de feridos" em um comunicado na televisão libanesa LBC e disse que muitas pessoas continuam presas em casas atingidas pelo fogo. Alguns estão sendo resgatados por barcos. "Estamos sobrecarregados pelos telefonemas", disse.
Segundo a TV libanesa LBCI, um dos hospitais da cidade está tratando mais de 500 feridos e não tem capacidade para receber mais ninguém. Dezenas deles precisam de cirurgias. Na frente de outro centro médico, dezenas de feridos, incluindo crianças, algumas cobertas de sangue, esperavam para serem atendidos, segundo a agência de notícias AFP.
A área portuária foi isolada pelas forças de segurança, que só permitem a passagem de agentes da defesa civil, ambulâncias e caminhões de bombeiros. Nas proximidades do porto, a destruição é enorme.
A mídia local transmitiu imagens de pessoas presas a escombros, algumas cobertas de sangue. "Os prédios estão tremendo", publicou no Twitter um morador da cidade, dizendo que "todas as janelas do apartamento explodiram".
"Vi uma bola de fogo e fumaça sobre a cidade. As pessoas gritavam e corriam, sangrando. Varandas foram arrancadas dos prédios. Vidros de prédios caíram nas ruas", disse outra testemunha à Reuters.
Até agora, não houve relato de brasileiros feridos. O Líbano tem uma grande comunidade com relação com o Brasil: há mais descendentes e parentes de libaneses em solo brasileiro (entre 7 e 10 milhões) do que libaneses no país de origem (7 milhões).
A fragata brasileira Independência, nau capitânia da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (Unifil), não estava no porto de Beirute na hora da explosão, mas no Mediterrâneo, patrulhando a região.
A embarcação leva cerca de 200 marinheiros. A Unifil foi criada em 2006 para verificar a retirada israelense do sul do Líbano e evitar o contrabando de armas por via marítima, após um dos inúmeros embates entre as duas partes nas últimas décadas.
 
 
 

Israel nega envolvimento e crê em incêndio acidental

Uma fonte do governo de Israel disse à agência de notícias Reuters que o país não tem relação com a explosão. O chanceler israelense, Gabi Ashkenazi, afirmou a uma TV local que a explosão foi provavelmente causada por um incêndio acidental. Já o ministro da Defesa israelense, Benny Gantz, afirmou que o país ofereceu ajuda humanitária ao governo libanês por meio de canais diplomáticos.
Já o Pentágono declarou que os EUA estão cientes do ocorrido e "preocupados com a perda potencial de vidas devido a essa explosão tão grande". O Departamento de Estado americano ofereceu "toda a assistência possível" aos libaneses. O ministro de Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, também afirmou que o país está pronto para ajudar como for necessário.


Veredito de assassinos de Hafiq Hariri será anunciado na sexta-feira

Hezbollah estaria por trás de atentado que matou ex-premiê em 2005
Hezbollah estaria por trás de atentado que matou ex-premiê em 2005
JOSEPH EID/AFP/JC
Em seguida da explosão na área portuária de Beirute, a TV Al Arabiya noticiou que haviam ocorrido ações semelhantes em outras partes da cidade, inclusive afirmou que uma delas teria ocorrido perto da residência do ex-premiê Saad Hariri. A informação não foi confirmada oficialmente e o próprio Saad postou uma foto em uma rede social logo após as explosões, indicando que está bem e que não ficou ferido.
Isso imediatamente levantou suspeitas de que a explosão inicial poderia estar ligada a divulgação do veredito de um tribunal apoiado pela Organização das Nações Unidas (ONU) contra quatro homens acusados de terem participado do assassinato do também ex-primeiro-ministro libanês Rafik Hariri - pai de Saad - em 2005. O resultado deve ser anunciado na sexta-feira (7). Ao longo do dia, porém, as suspeitas de ligação entre a explosão e o julgamento diminuíram.
Os réus, todos membros do movimento xiita Hezbollah, estão sendo julgados à revelia pelo Tribunal Especial do Líbano (TSL), com sede em Haia (Holanda), encarregado de ditar a sentença 15 anos após o atentado com um carro-bomba, em Beirute. O ataque matou o bilionário sunita e outras 21 pessoas, além de ter deixado 256 feridos.
O assassinato de Hariri, pelo qual quatro generais libaneses foram inicialmente acusados, desencadeou uma onda de protestos que forçou a retirada das tropas sírias do país, após 30 anos no Líbano.
O Hezbollah, que nega envolvimento no ataque, opõe-se a entregar os suspeitos, apesar de vários mandados de prisão do TSL. Hariri tem ligações históricas com a Arábia Saudita e era considerado um dos principais líderes políticos sunitas do Líbano, enquanto o Hezbollah, que tem apoio do Irã, representa parte da comunidade xiita.
O movimento não reconhece o TSL. Segundo analistas, o tribunal, estabelecido em 2007 após uma resolução do Conselho de Segurança da ONU a pedido do Líbano, tem sido questionado e representou um custo de vários milhões de dólares para o país.
O veredito do julgamento será divulgado na sexta-feira, às 11h (no horário local, 6h em Brasília), com "participação virtual parcial", devido à pandemia de coronavírus, informou o tribunal.
O assassinato de Hariri "tinha um objetivo político", afirmou a acusação durante o julgamento, lembrando que o ex-premiê "era visto como uma grave ameaça aos pró-sírios e aos partidários do Hezbollah". Se forem considerados culpados, os acusados poderão ser condenados à prisão perpétua. As sentenças serão divulgadas mais adiante.
Acusação e defesa poderão recorrer e, se um dos acusados finalmente comparecer diante do tribunal, poderá solicitar outro processo.
Saad Hariri, que renunciou ao cargo de premiê em 2019, disse em um comunicado divulgado na semana passada que "não havia perdido a esperança na Justiça internacional e na revelação da verdade".
O primeiro suspeito, Salim Ayyash, de 50 anos, é acusado de homicídio doloso e de ter liderado a equipe que cometeu o ataque. Outros dois homens - Hussein Oneisi, de 46 anos, e Asad Sabra, de 43 - estão sendo julgados por filmarem um vídeo que reivindicava a autoria do crime em nome de um grupo fictício.
O último acusado, Hassan Habib Merhi, de 52 anos, enfrenta várias acusações, incluindo cumplicidade em um ato terrorista e conspiração para cometê-lo. Mustafa Badreddin, o principal suspeito e apresentado como o "cérebro" do atentado, não pode ser julgado porque morreu alguns anos após os eventos.

Xiitas e sunitas dividem poder na política libanesa


Desde o fim da guerra civil, em 1990, o Líbano se equilibra em delicada partilha de poder que segue linhas sectárias - o presidente é cristão, o primeiro-ministro é muçulmano sunita e o presidente do Parlamento é xiita.
A origem da divisão entre xiitas e sunitas, duas grandes correntes da religião muçulmana, remonta à morte do profeta Maomé, em 632, que não deixou nenhum herdeiro.
Os dois grupos discordam sobre quem deveria ter dado continuidade à liderança dele: sunitas preferiram que o líder da comunidade fosse escolhido entre seus seguidores e xiitas, que fosse alguém com laços de sangue com Maomé (especificamente Ali, seu primo e genro). Os sunitas venceram a disputa e elegeram Abu Bakr, primeiro califa do Islã.
A predominância dos sunitas nas dinastias posteriores do império islâmico levou os xiitas a se identificarem permanentemente como oposição ao poder estabelecido, também fixando posição minoritária na comunidade muçulmana.
Atualmente, sunitas se concentram na Arábia Saudita, no Egito, e na Síria, entre outros países, e os xiitas, no Irã e no Iraque.
No Líbano, a população é bem dividida entre os dois ramos e os cristão: cerca de 30,6% são sunitas; 30,5%, xiitas e 33,7%, cristãos, de acordo com informações de 2018 registradas em um banco de dados da CIA (agência de inteligência do governo dos EUA).
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