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Memória

- Publicada em 20h16min, 17/07/2020. Alterada em 20h16min, 17/07/2020.

Primeira explosão nuclear, início da Era Atômica, completa 75 anos

Experimento de Trinity foi realizado em um campo desértico no estado do Novo México, nos  EUA

Experimento de Trinity foi realizado em um campo desértico no estado do Novo México, nos EUA


United States Department of Energy/Divulgação/JC
"Agora eu me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos".
"Agora eu me tornei a Morte, a Destruidora de Mundos".
Em 1965, o físico americano Julius Robert Oppenheimer descreveu assim, com uma fala do deus Vishnu no épico hindu "Baghavad Gita", sua sensação após a primeira explosão nuclear do planeta, ocorrida 20 anos antes sob sua supervisão científica.
Ninguém sabe se ele estava floreando a história, já que os relatos disponíveis trazem um Oppenheimer introspectivo após o clarão que ninguém havia antecipado naquela manhã de 16 de julho de 1945, no campo desértico de testes próximo de Alamogordo (Novo México, EUA). Mas ele tinha inclinações filosóficas, tanto que chamou o experimento de Trinity, Trindade em inglês, em referência aos sonetos metafísicos do inglês John Donne, da virada do século 16 para o 17.
Seja como for, a Era Atômica começava ali, sob o signo da guerra. O manejo da radioatividade remontava ao fim do século 19, com a invenção do raio-X pelo alemão Wilhelm Röntgen e as experiências do francês Henri Becquerel e da franco-polonesa Marie Curie.
Como em inúmeras inovações tecnológicas ao longo da história, foi o conflito que acelerou sua aplicabilidade prática e expandiu suas fronteiras. Quando os alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann conseguiram em laboratório fazer a fissão nuclear, cunhando assim o termo, os alarmes soaram no mundo científico. Era 1938, e Adolf Hitler se preparava para tentar conquistar a Europa e a União Soviética, quiçá o mundo.
Fugitivo da barbárie nazista, o maior físico do século XX, o judeu alemão Albert Einstein, escreveu em 1939 com o colega húngaro Leó Szilárd uma carta ao presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt. O texto o exortava a fazer a bomba antes que Hitler a fizesse: a possibilidade de que a liberação imensa de energia a partir da divisão infindável de núcleos de átomos estivesse ao alcance do ditador em forma de uma arma era aterradora.
Em 1941, dois dias antes de entrar na Segunda Guerra Mundial, Roosevelt abraçou a ideia. No ano seguinte, estava de pé o Projeto Manhattan - empreitada com 100 mil pessoas para fazer a bomba. Deu certo.
Naquela madrugada de julho de 1945, tudo estava pronto para uma detonação às 2h. Só que a chuva na faixa de deserto adiou sucessivamente os planos, que de resto não eram infalíveis.
Dois testes preliminares haviam sido inconclusivos, e os físicos fizeram um bolão sobre qual seria a potência atingida caso o urânio colapsado pela explosão inicial realmente entrasse numa enorme reação em cadeia.
Por fim, aos 45 segundos das 5h29min, uma bola de fogo irrompeu no céu ainda escuro. "A força explosiva foi a prevista, mas a luz vívida foi muito mais impressionante do que poderíamos esperar", resumiu o gerente do Manhattan, general Leslie Groves.
Groves e os outros estavam espalhados por quatro bunkers a 9,1 km de distância do local da explosão. A "luz vívida" demorou 30 milionésimos de segundo para atingi-los; a onda de choque, 30 segundos. Dois bombardeiros B-29 circundando o local fracassaram em captar imagens aéreas.
Todos tinham pressa. A guerra na Europa havia acabado em 8 de maio, e o cerco norte-americano sobre o Japão se acentuava. O presidente Harry Truman, mais do que precisar de uma mítica arma que encerrasse o conflito, precisava mostrar os dentes para a vitoriosa União Soviética de Josef Stálin.
Por isso, ordenou que o teste fosse feito antes da grande conferência que definiu o retalhamento da Alemanha vencida, em Potsdam, que começaria no dia 17 de julho. Sob risco de fracasso, ele funcionou.
O resto é história. Vinte e um dias depois da explosão, a bomba Little Boy (menininho, em inglês) era jogada sobre Hiroshima, no Japão, auxiliando no esforço para o fim da guerra - a invasão do império de Hiroito pelos soviéticos é um fator mais palpável, mas o que vale no Ocidente é a versão.
Curiosamente, a Little Boy não foi o modelo de bomba testado em Alamogordo. Era um artefato mais rudimentar em que uma carga de urânio-235 era disparada sobre outra, para criar a reação em cadeia. Perigosa de manejar, ela era, contudo, mais certeira no quesito "vai funcionar". Os EUA haviam testado em seu solo uma bomba do tipo Fat Man (homem gordo), mais sofisticada e na qual havia uma implosão compressiva sobre seu núcleo de plutônio-239.
Anda assim, os militares preferiram apostar na Little Boy. Hiroshima foi vaporizada em 6 de agosto, e três dias depois, uma Fat Man foi jogada sobre Nagasaki. Ao todo, mais de 200 mil pessoas pereceram.
Oppenheimer caiu em desgraça relativa após visitar Truman e dizer que se sentia "com sangue nas mãos".
O que se seguiu foram quatro décadas de uma corrida insana entre UUA E URSS, passando pela evolução da arma ao estágio de fusão de núcleos atômicos: a bomba de hidrogênio, muito mais poderosa.
A mais potente de todas, a chamada Bomba Czar, foi lançada pelos soviéticos nos confins do Ártico em 30 de outubro de 1961. Gerou 50 megatons, ou 3.300 a explosão de Hiroshima - que havia sido um pouco inferior à de Alamogordo.
Aí entrou a esperança. A energia nuclear, não poluente enquanto controlada, virou sinônimo de futuro. Os anos 1950 moldaram a imagem do átomo como mola de uma sociedade com fontes infindáveis para progredir, e logo faria funciona de submarinos (1954) a satélites (1961).
A Era Atômica trouxe consigo avanços impressionantes na medicina. Do seu antecessor raio-X, hoje há sofisticadas tomografias de qualquer pedaço do corpo humano, em 3D, tudo cortesia de radioisótopos.
Analistas apostam num ressurgimento, dadas as vantagens comparativas do nuclear. Enquanto isso não ocorre, o arco narrativo de Alamogordo vive uma repetição: é em torno da guerra que o tema atômico gira hoje.
Setenta e cinco anos depois, EUA e Rússia, o Estado sucessor da União Soviética, se digladiam sobre o controle de suas armas nucleares. Donald Trump se retirou de acordos importantes no setor, enquanto Vladimir Putin desenvolve novas armas para conter o que vê como ameaça norte-americana.
Já houve no mundo 70 mil ogivas nucleares, perto do fim da Guerra Fria. Hoje são 13,4 mil armas no mundo, 3,9 mil prontas para uso e 92% delas nas mãos de americanos e russos -apesar dos alertas de Washington sobre a ascensão chinesa, a realidade olha no retrovisor.
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