Porto Alegre, domingo, 26 de julho de 2020.
Dia dos Avós.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
domingo, 26 de julho de 2020.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Argentina

- Publicada em 03h06min, 09/09/2019. Atualizada em 03h00min, 09/09/2019.

Parcial, mídia argentina se adapta à nova cena

Clarín e o La Nación são os principais conglomerados de mídia do país

Clarín e o La Nación são os principais conglomerados de mídia do país


JUAN MABROMATA/AFP/JC
Como acontece a cada ciclo de poder na Argentina, os principais veículos se encontram em um momento de reposicionar suas linhas editoriais e seus negócios. Em um país em que o jornalismo é tradicionalmente parcial, contra ou a favor do governo de turno, mudanças na Casa Rosada geralmente detonam grandes transformações nos comandos das redações e das emissoras de televisão.
Como acontece a cada ciclo de poder na Argentina, os principais veículos se encontram em um momento de reposicionar suas linhas editoriais e seus negócios. Em um país em que o jornalismo é tradicionalmente parcial, contra ou a favor do governo de turno, mudanças na Casa Rosada geralmente detonam grandes transformações nos comandos das redações e das emissoras de televisão.
A provável volta do kirchnerismo, anunciada pelo resultado das eleições primárias, em 11 de agosto, pegou de surpresa os dois conglomerados mais importantes, o Grupo Clarín e o La Nación. O Clarín é dono do jornal Clarín, de emissoras de sinal aberto e a cabo e do principal provedor de internet, entre outros. Já o La Nación, além do jornal de mesmo nome, possui rádios, uma emissora de TV e outros investimentos.
O Clarín teve dois momentos com o kirchnerismo. O primeiro, de aproximação. Na gestão de Néstor Kirchner (2003-2007), tomou partido dele e foi premiado com a aprovação de negócios como a fusão de serviços de cabo e o monopólio das transmissões de futebol, que precisavam da anuência do governo.
Já com Cristina foi o oposto. A mandatária avançou contra o Clarín e o La Nación quando os veículos decidiram tomar partido dos ruralistas, em 2008, após a implementação de um imposto para venda de produtos agrícolas. A briga foi tão feia que o governo expropriou a Papel Prensa, companhia da qual os dois grupos eram sócios e que produzia papel para os jornais, e conseguiu que o Congresso aprovasse uma Lei de Meios para obrigar o Clarín a abandonar investimentos - o que acabou não acontecendo.
Foi por isso que a mídia tradicional ficou de mãos dadas com o governo de Mauricio Macri desde sua posse, em 2015, até o último dia 11 de agosto, quando o presidente foi derrotado nas primárias. "Agora já está todo mundo olhando para a frente e pensando em como se adaptar, embora estejam sofrendo muita pressão dos setores pró-Macri para seguir apoiando-o", contou à Folha de S. Paulo o jornalista Jorge Lanata, que tem programas em canais do Clarín.
Alguns jornalistas que apoiavam Macri chegaram a passar vergonha. Um dos mais conhecidos, Luis Majul, que passou os últimos três anos atacando Cristina e fazendo entrevistas laudatórias com Macri, fez um "mea culpa" no ar: "Quero fazer uma autocrítica. Nos últimos tempos estive muito focado na corrupção kirchnerista e não me dei conta de que as pessoas estavam sem recursos para chegar até o fim do mês", disse.
Protestos como o da semana passada, em que pobres de Buenos Aires acamparam na avenida 9 de Julho pedindo que se acione a Lei de Emergência Alimentícia, talvez não ganhassem a projeção que ganharam se os veículos não estivessem sentindo a mudança dos ventos. Uma fonte do Grupo Clarín diz que agora quem manda é a audiência, e esse tipo de manifestação comove. Nos últimos três anos, os protestos contra o governo foram noticiados de forma breve, privilegiando os episódios de violência e minimizando sua seriedade. Agora, as câmeras do Clarín e de outros canais focam as famílias acampadas, os bebês sendo agasalhados na rua por suas mães.
Inclusive já estão ocorrendo conversas entre a equipe de Alberto Fernández, o candidato da oposição, e os donos desses veículos. Se isso se concretizar, o noticiário passará novamente a ser governista, com alguns poucos fazendo investigação contra a nova gestão.
Durante o kirchnerismo, quem fazia isso com intensidade era justamente a equipe de Jorge Lanata, que, em seu "Periodismo para Todos" (jornalismo para todos), expôs diversos casos pelos quais a agora candidata a vice-presidente, Cristina Kirchner, está sendo processada.
Já nos anos de Macri houve poucas investigações jornalísticas sobre os negócios ilícitos do governo. Quem revelou os principais escândalos foi o repórter Hugo Alconada Mon, que apurou o caso dos Correios, em que Macri teria perdoado uma dívida do Grupo Macri com o Estado ao comprar e levar à falência os Correios Argentinos.
Comentários CORRIGIR TEXTO