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Itália

- Publicada em 03h13min, 21/08/2019. Atualizada em 03h00min, 21/08/2019.

Premiê renuncia, mas crise segue sem solução

Conte (e) acusa Salvini de agir por interesses pessoais

Conte (e) acusa Salvini de agir por interesses pessoais


ALBERTO PIZZOLI E MIGUEL MEDINA/AFP/JC
Após mais de dez dias de caos, o governo da Itália foi oficialmente encerrado na tarde de ontem, após um duro discurso no Parlamento do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, que anunciou sua demissão do cargo. A crise, contudo, ainda está longe do fim.
Após mais de dez dias de caos, o governo da Itália foi oficialmente encerrado na tarde de ontem, após um duro discurso no Parlamento do primeiro-ministro, Giuseppe Conte, que anunciou sua demissão do cargo. A crise, contudo, ainda está longe do fim.
O encerramento prematuro do governo, iniciado há 14 meses, foi provocado por um dos seus integrantes, o vice-premiê e ministro do Interior, Matteo Salvini. Líder da Liga, partido da ultradireita que compunha a aliança com o populista Movimento 5 Estrelas, Salvini detonou a crise no último dia 8, quando apresentou uma moção de desconfiança contra Conte.
A decisão surpreendeu a todos, sobretudo pelo momento - no início das férias de verão. Salvini, aliás, apresentou o documento após um tour pelas praias italianas, onde fez inúmeras selfies sem camisa com admiradores e dançarinas. Ao dar o passo para derrubar o governo, Salvini se dirigiu aos italianos citando uma famosa frase do ditador fascista Benito Mussolini proferida em 1922, quando o "Duce" chegou ao poder: "Peço aos italianos para me dar plenos poderes".
Seu objetivo é se tornar o próximo premiê. Se houver eleição até novembro, como deseja o líder da Liga, não parece haver outro adversário capaz de derrotá-lo nas urnas. Ele se transformou, no último ano, no político mais popular do país (tem cerca de 36% das intenções de voto). Contudo, a atual crise poderá ser resolvida no Parlamento, onde seu partido não tem maioria.
Ao discursar no Parlamento, ao lado de Salvini, Giuseppe Conte fez duras críticas a ele: "O ministro do Interior age por interesses pessoais e partidários, não se importando com as consequências da decisão, que coloca em risco o país do ponto de vista econômico, político e social". E ressaltou: "Preocupa que você peça plenos poderes e invoque o poder do povo".
Como a Itália é um regime parlamentarista, a convocação da próxima eleição ainda depende de uma série de fatores - até mesmo não é certo que ocorra. A decisão caberá ao presidente da República, Sergio Mattarella, espécie de árbitro que tem funções decorativas e não participa do governo.
Antes, Mattarella consultará os partidos com representação no Parlamento, e dessa consulta poderá sair um novo governo entre o Movimento 5 Estrelas (crítico à elite política) e o Partido Democrático (a centro-esquerda tradicional), adversários no passado que teriam maioria para um novo mandato.
O objetivo dessa manobra, como dizem os integrantes das duas siglas, seria barrar a ascensão do radicalismo de Salvini, cujas referências políticas - citadas por ele recentemente - são o russo Vladimir Putin, o norte-americano Donald Trump, o húngaro Viktor Orban e o brasileiro Jair Bolsonaro.
 

Matteo Salvini pode ter dado um passo em falso

Radical em temas como o casamento gay e a defesa da família, linha-dura em relação à segurança pública e com uma política anti-imigração, levando o governo italiano a fechar seus portos para embarcações que socorrem refugiados no Mediterrâneo, o vice-premiê, Matteo Salvini, pode ter dado um passo em falso ao provocar o fim do governo.

"Provavelmente, Salvini errou no tempo e não calculou as reações contrárias, mas não sabemos se essas reações contrárias vão prevalecer. A política na Itália é sempre maquiavélica e psicótica", afirmou o historiador e cientista político Giovanni Orsina, diretor da Escola de Governo da Luiss, uma universidade romana. Orsina admite ter enormes dificuldades para analisar o cenário e o que deverá acontecer.

Se não houver um acordo entre os partidos políticos, o presidente Sergio Mattarella poderá escolher um governo técnico até que sejam realizadas novas eleições e para tratar de temas urgentes, como a aprovação de um orçamento nacional que deverá ser apreciado pela União Europeia até o próximo mês. Há, ainda, o risco de a crise política deteriorar ainda mais a cambaleante economia do país. Não está descartado um aumento dos impostos.

Se a decisão for às urnas, o partido de Salvini, muito provavelmente, tentará uma aliança com o Força Itália, sigla de direita de Silvio Berlusconi, e o Irmãos da Itália, outro partido da direita radical e anti-imigrantes. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, há 74 anos, a Itália já teve 65 governos, caracterizando-se como um dos países mais instáveis do mundo.

O futuro do governo que agora se encerra estava comprometido pelo menos desde maio, após o resultado das eleições europeias, que confirmou a popularidade da Liga de Salvini. O resultado do pleito mudou a correlação de forças entre o partido e o Movimento 5 Estrelas. A Liga obteve o maior percentual de votos, 34%, enquanto o aliado ficou com 17% - praticamente uma inversão do resultado da eleição nacional de março de 2018.

O governo foi formado em junho de 2018, com um contrato assinado em cartório (outro ineditismo na confusa política italiana) entre a Liga e o 5 Estrelas. Mas, desde então, Salvini tornou-se o protagonista do governo, dominando a agenda política em temas como o combate à imigração e polemizando com líderes europeus como o presidente francês Emmanuel Macron.

Promotoria manda apreender navio e desembarcar migrantes

Open Arms pedia para levar os imigrantes africanos para a terra
Embarcação pedia para levar os imigrantes africanos para a terra
ALESSANDRO SERRANO/AFP/JC

A Promotoria de Agrigento, na ilha da Sicília, na Itália, ordenou ontem a apreensão do navio humanitário espanhol Open Arms e o desembarque imediato dos cerca de 90 migrantes a bordo da embarcação no porto de Lampedusa.

A tensão aumentou no navio de resgate, à deriva no Litoral Sul da Itália, quando nove imigrantes a bordo pularam no mar e tentaram nadar até a praia, segundo a instituição de caridade espanhola que opera a embarcação. O Open Arms, que está no mar há 19 dias, pedia para levar os imigrantes majoritariamente africanos para a terra, apesar da proibição italiana à atracação de navios de resgate particulares.

A Itália argumenta que assumiu responsabilidade demais com a imigração de africanos para a Europa, e seu ministro do Interior, Matteo Salviani, diz que navios de instituições de caridade se tornaram "táxis" de traficantes de pessoas.

"Nove pessoas se atiraram na água tentando desesperadamente chegar ao litoral de Lampedusa. Nossos salva-vidas e agentes da Guarda Costeira italiana estão tentando resgatá-los. A situação está fora de controle", informou a Open Arms.

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