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Coronavírus

- Publicada em 09h09min, 02/05/2021.

Especialistas notam aumento de casos de depressão infantil na pandemia

Crescimento no número de quadros da doença pode estar diretamente ligado a não interação social na pandemia

Crescimento no número de quadros da doença pode estar diretamente ligado a não interação social na pandemia


LUIS ROBAYO/AFP/JC
Yasmim Girardi
Maior irritabilidade, alteração no ciclo do sono ou no padrão alimentar podem ser sinais de depressão em crianças e adolescentes. A mudança nas rotinas familiares e escolares por conta da pandemia de Covid-19 fez com que muitas crianças no Brasil passassem a desenvolver quadros de transtornos depressivos. Especialistas pedem aos pais que fiquem atentos aos comportamentos dos filhos para que o diagnóstico da doença seja feito ainda em estágio inicial.
Maior irritabilidade, alteração no ciclo do sono ou no padrão alimentar podem ser sinais de depressão em crianças e adolescentes. A mudança nas rotinas familiares e escolares por conta da pandemia de Covid-19 fez com que muitas crianças no Brasil passassem a desenvolver quadros de transtornos depressivos. Especialistas pedem aos pais que fiquem atentos aos comportamentos dos filhos para que o diagnóstico da doença seja feito ainda em estágio inicial.
Segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, mais de 16,3 milhões de brasileiros acima de 18 anos sofrem com depressão. Agora, na pandemia, o número de crianças e adolescentes com a doença também está crescendo. “Tanto no ramo da pesquisa acadêmica quanto nos consultórios, temos visto, em geral, uma piora na saúde mental das crianças. E é fato que também temos visto um aumento nos casos de depressão na infância”, conta o psicólogo infantil Rodrigo Serra.
Serra explica que a baixa socialização, o aumento de conflitos na família e o fato de a maioria das interações acontecerem através de plataformas on-line são alguns dos principais motivos para esses quadros. O psiquiatra da infância e da adolescência do núcleo de psiquiatria da Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul (SPRS) Thiago Rocha acredita que o convívio com pais mais estressados e angustiados por conta da pandemia também contribui para agravamento da situação.
“Os principais sintomas estão nas modificações no jeito de ser da criança. Então, os pais podem considerar como sinais se a criança começa a ser mais retraída, não quer mais conversar, perde o interesse em atividades que costumava gostar de fazer, passa a ficar mais irritada ou mais reativa”, explica Rocha. Ele afirma, ainda, que é importante que os pais prestem atenção se a criança não está dormindo mais ou menos que o normal e se o apetite está em dia. “Também temos que ficar atentos se as crianças estão com uma visão negativa de si, fazendo comentários como se ela não tivesse valor ou qualidade nenhuma.”
Se os pais perceberem alguns desses sinais, a sugestão é que eles conversem com os filhos e busquem ajuda. “É importante que os pais deem abertura para os filhos poderem falar sobre o que estão sentindo e pensando, sem terem suas tristezas invalidadas. É legal falar para os filhos que é normal estar triste nesse momento e relembrar que a família está unida e está ali para ajudar”, pontua Serra.
Rocha acredita que é essencial que os pais, antes de tudo, se disponibilizem para escutar o que os filhos têm a dizer. “Os pais nos buscam querendo saber o que falar para ajudar. Mas, às vezes, o mais importante é ouvir e se mostrar aberto caso a criança queira conversar, para que ela possa se sentir compreendida e mais amparada pelos pais”, defende.
Os especialistas percebem que há uma dificuldade de detectar esses sinais e buscar ajuda psicológica ou psiquiátrica. Mas, segundo eles, é de suma importância que a criança seja diagnosticada e comece a ser atendida o mais rápido possível. Serra explica que, após uma avaliação profissional adequada, que pode envolver entrevistas com os pais, familiares e até professores, o caso da criança será formulado para que a melhor forma de tratamento seja encontrada. Segundo Rocha, o tratamento, em alguns casos, pode envolver apenas a psicoterapia e, em outros, a psicoterapia combinada com o uso de remédios.

Adolescentes podem estar mais suscetíveis a sofrer com depressão

A student waits to sit for remaining school exams ahead of its reopening for a new academic year amid the coronavirus pandemic in Sevilla on September 1, 2020. (Photo by CRISTINA QUICLER / AFP)
É difícil que um jovem peça aos pais ajuda para lidar com a tristeza nesse momento
CRISTINA QUICLER/AFP/JC
Serra explica que algumas faixas-etárias estão mais suscetíveis a desenvolver quadros da doença. “Em crianças de 0 a 6 e de 7 a 9 anos pode acontecer, mas é mais raro. Agora, devemos ficar mais atentos com crianças de 10, 11 e 12 anos e adolescentes, porque as mudanças que eles naturalmente passam nessa idade os tornam mais suscetíveis”, complementa.
A psiquiatra Gilmara Bueno acredita que os adolescentes estão sofrendo muito durante esse período de pandemia. “O jovem é afetado por não ter perspectiva de futuro. Não sabemos quando a pandemia vai terminar e os adolescentes têm planos, sonhos, querem trabalhar e produzir. Não que uma pessoa mais velha não tenha planos, mas ela já realizou algumas coisas e o jovem ainda não, então ele tem essa ânsia”, explica. Para ela, a falta de interação social com amigos é outro fator que contribui para esses quadros.
Em relação aos sinais, a psiquiatra acredita que os pais devem ficar atentos se os filhos passam muito tempo na internet ou se eles estão buscando algum tipo de suporte emocional em comida, drogas ou álcool. “Nosso cérebro tem circuitos de recompensa. Toda vez que faço algo, meu cérebro ativa esses circuitos. Se eu fizer exercícios, por exemplo, ele libera endorfina. Com a pandemia, isso ficou bloqueado porque têm coisas que não podemos fazer. Então o jovem procura outras recompensas. Alguns acabam abusando do álcool ou usando drogas porque isso também traz aquele prazer e bem-estar que ele está procurando.”
Ela explica que os adolescentes, em geral, se comunicam de uma forma não verbal com os pais. Por isso, é difícil que um jovem peça aos pais ajuda para lidar com a tristeza nesse momento. “A melhor maneira de estabelecer uma ponte para o diálogo é se aproximar de uma forma tranquila, que não seja autoritária. Tem que ser na base do diálogo, da conversa, dizendo que notou tal comportamento e perguntando se ele quer ajuda”, sugere. Gilmara defende que é importante que os pais respeitem o espaço dos adolescentes, mas que continuem atentos aos sinais.
"Eventualmente, se o pai e a mãe notam algo e o adolescente não quer procurar ajuda, os pais podem conversar com psicólogos para ter uma orientação de como lidar com essa situação e de como levar o adolescente para uma consulta”, aconselha. A psiquiatra enfatiza, ainda, a importância de dar perspectiva para os filhos nesse momento. “É importante dar esperança. E esperança não é esperar, é caminhar. Os pais podem se oferecer para caminhar junto com os adolescentes.”
 
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