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Coronavírus

- Publicada em 10h39min, 22/02/2021. Atualizada em 19h45min, 22/02/2021.

'Estamos achando normal uma pandemia durar um ano', alarma-se ex-reitor da UFPel

'Tem de parar com a história de quando a bandeira fica preta, a cidade decide não ser preta

'Tem de parar com a história de quando a bandeira fica preta, a cidade decide não ser preta


PEDRO HALLAL/ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Patrícia Comunello
Em junho de 2020, o epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal defendeu um "lockdown rigoroso de 15 dias no Brasil" para enfrentar a pandemia. Prestes a fechar um ano do primeiro caso confirmado com Covid-19 no Rio Grande do Sul, Hallal chega a uma conclusão desconcertante:
Em junho de 2020, o epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Pedro Hallal defendeu um "lockdown rigoroso de 15 dias no Brasil" para enfrentar a pandemia. Prestes a fechar um ano do primeiro caso confirmado com Covid-19 no Rio Grande do Sul, Hallal chega a uma conclusão desconcertante:
"Estamos achando normal uma pandemia durar um ano". 
Ao analisar a crise, o ex-reitor admite que nem ele e nem os colegas epidemiologistas esperavam um ciclo tão longo e aponta falhas no combate, que, se não tivessem ocorrido, teriam poupado vidas e limitado a onda atual interminável de crescimento de casos. Neste caso, três a cada quatro pessoas que morreram aré agora no País pelo novo coronavírus poderiam estar vivas, afirma o ex-reitor. O epidemiologista da Ufrgs Paulo Petry traçou uma "perspectiva sombria" para a crise sanitária
No momento mais agudo da crise sanitária no Estado, com lotação recorde em UTIs, leitos clínicos e emergências e prontos atendimentos abarrotados de caso, Hallal aponta medidas como testar e rastrear casos e isolar os positivos e de contato, até hoje feito de forma ineficiente, acabar com as aglomerações e resgatar o modelo do distanciamento controlado, que está no olho do furacão agora, prestes a ter 11 regiões em regime de risco altíssimo (bandeira preta). 
"Tem de parar com essa história de as regiões ou prefeituras recorrrerem ou, quando a bandeira fica preta, a cidade pode decidir não ficar preta", propõe o epidemiologista. Além disso, Hallal elogia os protocolos dos setores econômicos, da indústria ao comércio e hotéis. "O comércio não foi responsável pelo aumento de casos agora, mas este absurdo (das aglomerações)." 
Sobre o lockdown no Brasil, Hallal diz que não tem defendido a medida. "Não é viável, exceto em situações caóticas." Na Capital, hospitais se manfestaram pelas medidas de restrição, enquanto o setor empresarial não quer fechar de novo. Escolas infantis querem manter as atividades presenciais.   
Jornal do Comércio - Qual é a leitura sobre a pandemia quase um ano após o primeiro registro do vírus no Rio Grande do Sul, que foi em 29 de fevereiro de 2020?
Pedro Hallal - Primeira coisa é que o novo coronavírus não é restrito ao Brasil. Portanto, não é por culpa do governo federal, do Estado ou das prefeituras que o vírus existe. Ele chegou a todos os lugares praticamente, em locais com governos de direita, Centro e de esquerda. O novo coronavírus não tem partido político A gente pode discutir que a magnitude do problema teria sido menor se tivesse envolvido mais a ciência. 
JC - Quais foram os erros no enfrentamento da crise sanitária?
Hallal - O grande erro que eu e a maioria dos pesquisadores, se não todos, cometeram, e tem um pouco de autocrítica aqui: não imaginei que a pandemia fosse durar tanto tempo. Imaginei que ia ser uma pandemia mais cíclica, como vemos na Itália, em Nova Iorque e até em Manaus, mas não de uma onda que não acaba nunca. Se olhar o gráfico do País como um todo, o Brasil está na primeira onda. Essa é a grande surpresa do vírus: a capacidade de durar mais tempo do que seria previsto. 
JC - Mas o vírus está aí até hoje, com essa transmissão, por que não se agiu como deveria?
Hallal - Estamos achando normal uma pandemia durar um ano, o que não é. Na história das pandemias, ainda mais neste tipo respiratória-viral, a tendência é que tenha ciclos ou ondas. Como é isso? Tem uma onda, depois quase não se tem casos - como em Manaus -, e depois pode vir uma segunda. Mas esse ciclo contínuo de nunca baixar perto de zero, nos surpreendeu.
JC - O que deu errado e o que deu certo no enfrentamento da crise?
Hallal - Uma primeira coisa que erramos foi não valorizar a testagem como deveria. Sou repetitivo nisso, mas é só olhar países que valorizaram a testagem, como a Coreia do Sul. Nova Zelândia e Austrália, que conseguiram controlar a crise muito melhor do que nós. Testagem não é feita para contar casos, mas para identificar precocemente os casos e evitar que eles transmitam o vírus. Se detectar logo, pode evitar que o contaminado circule. Se demora em fazer isso, quando a pessoa ficar sabendo, já teve contato com mais gente. O Brasil nunca valorizou a testagem, e isso vem desde a gestão do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, que acertou mais que errou. Verdade que faltava testes, mas o desenho de uma política nacional de testagem podia ter sido feito. 
JC - E o Rio Grande do Sul?
Hallal - A testagem também foi um fracasso, um pouco menos pior do que o do Brasil, mas ruim, não é suficiente até hoje. 
JC - Mas o problema é a quantidade de testes ou o que se faz quando o teste dá positivo para Sars-Cov-2?
Hallal - O segundo fracasso é este. A gente nunca valorizou a testagem e nem o rastreamento de contato, que é uma consequência natural da testagem. Cito o meu próprio exemplo: tive Covid em dezembro. A Vigilância Sanitária (em Pelotas) nunca entrou em contato comigo para perguntar com quem tive contato com dias anteriores. Isso seria fundamental, pois pediria que fizessem o exame e já se isolassem devido ao risco de passar a alguém. 
JC - Qual teria sido o efeito do rastreamento adequado sobre a velocidade de transmissão do vírus?
Hallal - Teria sido muito menor, muito menor. O terceiro item a ser analisado é o distanciamento social ou físico. Aqui tem diferença entre a conduta do Brasil e a do Estado. O Ministério da Saúde nunca levou esta pauta a sério, nunca fez uma campanha séria sobre isso, e o Rio Grande do Sul fez. Especialmente até agosto, o modelo de Distanciamento Controlado gaúcho, além de ter sido um dos primeiros no País, funcionou muito bem. A gente sabe disso porque ouvíamos as pessoas nas ruas dizerem qual era a bandeira que a gente estava, sabia o que pode e o que não podia fazer. Infelizmente, depois de outubro principalmente, o modelo saturou e perdeu credibilidade. Com a possibilidade de as prefeituras e regiões poderem recorrer, as pessoas passaram a nunca saber qual é a cor que a cidade estava de verdade. Nos primeiros meses, o modelo ajudou a conter a expansão da pandemia no Rio Grande do Sul.
JC - Onde que essa estratégia perdeu o rumo no Estado?    
Hallal - Começou por setembro e outubro, teve a eleição, com campanhas fora dos protocolos, como as de vereadores. As campanhas políticas em si também pesaram. Os candidatos entenderam que defender a reabetura dava mais votos do que preservar vidas (com as retsrições). O discurso do distanciamento e do lockdown era menos popular do que o do "vamos reabrir a economia, vamos conseguir empregos". Além disso, os feriados de novembro, a chegada do verão e o cansaço das pessoas fizeram com que o Estado perdesse totalmente o controle na reta final de 2020. 
JC - Qual é a avaliação sobre o desempenho do Gabinete de Crise e prefeituras na coordenação das ações na pandemia? Temos uma reação tardia agora diante da piora do quadro? 
Hallal - A pandemia ainda está em um momento dramático. Parecia, nas últimas quatro a cinco semanas, que estava começando a declinar, mas infelizmente nos últimos dias voltou a aumentar a internação. A campanha de vacinação não avança, mas por culpa do governo federal, que não conseguiu a disponibilidade de doses que poderia ter conseguido no momento certo e agora tem de correr atrás do prejuízo. O coronavírus ainda vai ser um problemão no Rio Grande do Sul, pelo menos, no primeiro semestre. Sobre o Gabinete de Crise, onde acho que está o problema principal, os pesquisadores discutem a crise em um grupo, os empresários em outro e os políticos em outro. Falta um comitê único que discuta a pandemia com todos juntos. É difícil chegar a um consenso quando os grupos estão em salas separadas. Sem isso, fica uma disputa de forças entre grupos que não conversam entre si. 
JC - Isso aumenta a dificuldade em um período agudo da pandemia, quando as restrições mais abrangentes voltam à cena e a reação sobre o impacto nas atividades econômicas é forte? 
Hallal - Sobre essa discussão da economia, repito o que tenho dito desde o começo: as pandemias do passado nos mostraram que as regiões que se recuperam mais rápido e de forma mais pujante são aquelas onde têm menos mortes. Dizer que a economia é uma coisa e a saúde é outra, é uma bobagem. Hoje temos protocolos na indústria, no comércio, nos restaurantes e até nos hotéis e são muito melhores que os da noite. Era natural que os segmentos reabrissem e fizeram isso com cuidado. Quando se vê barzinho aberto, pessoas sem máscara e fazendo aglomeração, não tem justificativa para esse descontrole, nem econômica. Faltou, nestas situações, ações muito mais enérgicas dos gestores. Se não fica sempre a ação mais enérgica fechar o comércio, mas este setor, que reabriu desde meados do ano passado, não foi responsável pelo aumento dos casos. O responsável é esse descontrole, este absurdo que temos visto (aglomerações).
JC - O senhor defendeu em junho de 2020 um lockdown de 15 dias em todo o Brasil para enfrentar a pandemia. O senhor defenderia esta medida hoje diante do recrudescimento da crise?
Hallal - Não tenho falado sobre isso neste momento para o Brasil, até porque não é viável, exceto em situações caóticas. Manaus tinha de ter feito. O que tenho visto é um movimento de abrir o que é economicamente relevante, mas está abrindo tudo, o que custa vidas, muitas vidas.
JC - Quantas mortes poderiam ter sido evitadas?
Hallal - Se a gente tivesse tido um desempenho no enfrentamento da pandemia no mesmo nível da média mundial teriam morrido 65 mil a 67 mil pessoas no Brasil, mas morreram 246,5 mil até agora. Nessa conta, consideramos o total de infectados e quantos morreram no mundo. Aplicamos este percentual para todos e chegamos a esta diferença. Cada morte que temos a mais significa que fracassamos no combate. O Brasil é um dos que mais fracassaram. Representamos 2,7% da população mundial e 10% das mortes por Covid-19. O que se esperaria é que respondêssemos por 2,7% dos óbitos, ou seja, temos hoje quatro vezes mais. De cada quatro pessoas que morerram, três não precisariam perder a vida se o Brasil tivesse feito o minimo, ter seguido a média.
JC - A mortalidade menor no RS tem a ver com o sistema de saúde?  
Hallal - No começo da pandemia, o número diário de casos e de morte era muito menor que o do resto do País. De setembro para cá, estamos tendo resultados similares ou até piores. Se tivéssemos seguido o ritmo de março a agosto, o Estado seria um exemplo positivo no enfrentamento do novo coronavírus. 
JC - Quais as medidas devem ser adotadas diante da pior situação que já se enfrentou?
Hallal - Ampliar a vacinação o mais rápido possível, isso deve ser prioridade. Além disso, acabar com as aglomerações desnecessárias, fazer o rastreamento de contato e ter políticas de distanciamento que sejam mais respeitadas. Se a bandeira está vermelha, que seja respeitado o protocolo. Tem de parar com essa história de as regiões ou prefeituras recorrrerem ou, quando a bandeira fica preta, a cidade pode decidir não ficar preta. Ou seja, levar a sério o modelo de distanciamento controlado como foi originalmente concebido. E, por último, pode ser repetitivo dizer, as pessoas devem continuar a tomar os cuidados individuais, com uso de máscara e álcool em gel e mantendo o distanciamento.  
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