Porto Alegre, quarta-feira, 23 de setembro de 2020.

Jornal do Comércio

Porto Alegre,
quarta-feira, 23 de setembro de 2020.
Corrigir texto

Se você encontrou algum erro nesta notícia, por favor preencha o formulário abaixo e clique em enviar. Este formulário destina-se somente à comunicação de erros.

Saúde

- Publicada em 17h40min, 08/09/2020. Atualizada em 11h47min, 09/09/2020.

Testes da vacina da Covid-19 em Porto Alegre atingem 300 pessoas e quase não têm efeitos colaterais

Fabiana diz que colegas acompanham com expectativa os testes coordenados por Ramos

Fabiana diz que colegas acompanham com expectativa os testes coordenados por Ramos


MONTAGEM ARQUIVO PESSOAL/LUIZA PRADO/JC
Patrícia Comunello
Os testes da vacina chinesa contra a Covid-19 em Porto Alegre estão acelerados e com as primeiras percepções que reforçam a eficácia. Outro indicador animador é que quase nenhum efeito colateral foi observado em voluntários que já receberam as aplicações, afirma o coordenador do Centro de Pesquisa (CT) do Hospital São Lucas (HSL) da Pucrs, o médico infectologista Fabiano Ramos. A vacina chegou em agosto ao hospital (assista ao vídeo).
Os testes da vacina chinesa contra a Covid-19 em Porto Alegre estão acelerados e com as primeiras percepções que reforçam a eficácia. Outro indicador animador é que quase nenhum efeito colateral foi observado em voluntários que já receberam as aplicações, afirma o coordenador do Centro de Pesquisa (CT) do Hospital São Lucas (HSL) da Pucrs, o médico infectologista Fabiano Ramos. A vacina chegou em agosto ao hospital (assista ao vídeo).
O HSL está no pool de 12 instituições no Brasil que testa a coronavac, da farmacêutica Sinovac, que firmou parceria com o Instituto Butantan para a produção no Brasil. Ramos também confirma que a produção pelo instituto vai começar para que, até dezembro, tenha oferta para aplicação, após o sinal verde da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, prometeu vacina em janeiro. Outra vacina, a do laboratório AstraZeneca e Universidade de Oxford, em testes no Brasil, teve aplicações suspensas após efeitos detectados em um dos voluntários.
Nos testes em Porto Alegre, pelo menos 300 voluntários já receberam a aplicação, sendo que 70 já a segunda dose, até a sexta-feira passada (4). Todos vão tomar duas doses, sendo que parte é do imunizante verdadeiro e outra parte de placebo. O participante não sabe qual recebeu. O HSL vai testar 852 pessoas, todas profissionais de saúde que atuam com atendimento ligado à pandemia do novo coronavírus. 

VÍDEO: JC Explica conversa com médico e voluntária sobre os testes da vacina da Covid-19

Em bate-papo no quadro em vídeo do JC Explica, do Jornal do Comércio, Ramos e a técnica de enfermagem Fabiana Silva de Souza, a segunda voluntária a receber a vacina em agosto, contaram como está ocorrendo a pesquisa e ainda sobre as expectativas em relação à vacina.
"Com os 300 voluntários, praticamente nada se teve de efeito colateral. Os que têm são muito leves, como dor no local da aplicação, um pouco de dor no corpo ou dor de cabeça. Parece ser uma vacina realmente muito segura, o que se evidenciava nos estudos iniciais", observa o infectologista, citando que o Butantan recebe informações e avalia dos dados "em tempo real". "Estamos muito animados", entusiasma-se o médico.
A voluntária diz que a experiência de participar tem sido muito segura. Ela valida o que o coordenador do CT observou sobre o andamento da testagem:
"Não tive nenhum sintoma até agora. Apenas a dor no braço no primeiro dia. Nada mais. A gente faz a vacina às cegas, pois não sei se recebi o placebo ou a dose real. Recebi a segunda dose em 24 de agosto e tudo tranquilo", conta.
O desafio da voluntária é duplo. Como está na linha de frente de atendimento, a todo momento ela se expõe a riscos. Segundo Fabiana, até agora, ela não apresentou nenhum sintoma de eventual infecção por  Covid-19. Mas não é possível saber se a condição pode ser efeito da vacina, já que Fabiana pode ter recebido placebo.
Ao mesmo tempo, outro detalhe descrito pela voluntária é importante: "Continuo com toda a proteção que já tinha. Mas tive, neste tempo, colegas com sintomas leves ou até piores que precisaram ser internados".
"A gente espera que se ela (Fabiana) recebeu a vacina pode estar mais protegida, mas como não sabemos se foi a dose verdadeira, a orientação é manter os cuidados. Um dos objetivos da pesquisa é vacinar pessoas que estão expostas, na linha de frente porque uma das avaliações é ver quem ficou doente", esclarece Ramos.
O cuidado deve ser mantido para que a pessoa não caia na "falsa proteção" da vacina. "Mesmo quem recebeu a dose pode desenvolver a doença", adverte o coordenador do CT do hospital.
Os riscos da pandemia geram dificuldades até para os testes. Muitos dos voluntários inscritos estão sendo descartados porque contraíram o novo coronavírus. Hoje são quase 6 mil pessoas inscritos e a lista continuará aberta para atender à meta de participantes. O HSL participa da fase três, que é a etapa clínica, do desenvolvimento do estudo, último passo antes de levar a vacina para a população.

Pressão para ter a vacina

O infectologista conta que a equipe está trabalhando em ritmo frenético para vencer a meta de voluntários vacinados o quanto antes. Não tem fim de semana e nem feriado para a equipe, diz Ramos.
"A população quer uma vacina o mais rápido possível. A gente trabalha para incluir o máximo de pessoas e o mais rápido para enviar ao Butantan e para que a vacina chegue o quanto antes", garante o médico.
O coordenador do estudo atribui "a pressão" em parte a um esgotamento que as pessoas atravessam de ter de seguir medidas de distanciamento social, exigidas na pandemia. "Todos estão muito cansados e já não respeitando mais as regras, aí veem nas possibilidades da vacina a trajetória para voltar ao 'normal'", avalia.
No hospital, Fabiana já se acostumou com o acompanhamento atento dos colegas, que reforça a carga de ansiedade:
"Todo o dia me perguntam: 'E aí deu algum sintoma, como tu tá, o que tu acha, vai dar certo?'. A expectativa da população e a nossa é a mesma: que dê tudo certo e que esta ou outra vacina apareça como esperança para amenizar a pandemia", resume a voluntária.
Fabiana faz exames no HSL a cada retorno para verificação de informações pela equipe do Centro de Pesquisa. Serão quatro retornos em dois meses. A expectativa é que ela fique sabendo no fim do estudo se recebeu a dose real ou placebo. Caso a vacina seja liberada antes e ela tenha recebido o placebo, a enfermeira será chamada e poderá sofrer a aplicação do imunizante.

Oferta da vacina para a população está perto

A pergunta que não cansa de ser feita é quando a vacina estará disponível. Ramos lembrou que o contrato entre a Sinovac e o Butantan prevê a produção e disponibilidade de doses até dezembro. A liberação dependerá do aval da Anvisa.
"Vão produzir porque a farmacêutica confia que os resultados serão muito bons. A previsão é que as primeiras doses possam ser entregues em dezembro", cita o médico gaúcho. "A produção já vai estar acontecendo para quando a Anvisa liberar, possa chegar o mais rápido possível. A previsão é ter vacina em dezembro ou no máximo no começo do ano que vem", projetou o infectologista.
Os estudos iniciais da vacina do Sinovac indicam que 97% das pessoas produziram anticorpos depois da segunda dose, mas são pessoas muito exportas ao vírus, diz o coordenador. "Mesmo que seja 90%, 10% não desenvolvem anticorpos, são expostas e têm a doença. São dados importantes para entender o andamento da vacina e até quantas doses serão necessárias na aplicação para a população."

JC Explica: Médico detalha como serão os testes da vacina

Comentários CORRIGIR TEXTO