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Meio ambiente

- Publicada em 17h16min, 21/07/2020. Atualizada em 20h46min, 26/07/2020.

Lama no Litoral Norte gaúcho é resquício de lagoa de 6 mil anos atrás

Praia ficou marcada pelo rastro da lama preta que foi descoberta pelas ondas nas ressacas

Praia ficou marcada pelo rastro da lama preta que foi descoberta pelas ondas nas ressacas


EDUARDO BARBOZA/CECLIMAR/DIVULGAÇÃO/JC
Patrícia Comunello
Um material escuro e mole depositado em trechos da praia em Tramandaí, no Litoral Norte, despertou a curiosidade de moradores e 'veranistas de inverno' que dão uma fugidinha da pandemia nas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre para a costa. A lama preta, explica o Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), é resquício da lagoa que existia há 6 mil anos na área que hoje é faixa de areia. A ação de ciclones mais intensos e ressacas do mar ajudam a expor o barro na praia.
Um material escuro e mole depositado em trechos da praia em Tramandaí, no Litoral Norte, despertou a curiosidade de moradores e 'veranistas de inverno' que dão uma fugidinha da pandemia nas cidades da Região Metropolitana de Porto Alegre para a costa. A lama preta, explica o Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar), é resquício da lagoa que existia há 6 mil anos na área que hoje é faixa de areia. A ação de ciclones mais intensos e ressacas do mar ajudam a expor o barro na praia.
Os registros começaram há cerca de três semanas, que coincide, por exemplo, com o ciclone-bomba, que atingiu o Estado e Santa Catarina causando destruição. A lama aparece principalmente entre o antigo terminal turístico de Tramandaí e Nova Tramandaí, descreve o diretor-geral do Ceclimar, o geólogo Eduardo Barboza. Também fósseis de animais que habitaram a região na última era glacial estão sendo encontrados na praia.    
O barro preto, na verdade, forma uma camada sob a areia da praia, explica Barboza. As ondas que crescem em força e altura na ressaca acabaram removendo a areia, fazendo aflorar a lama, que está relacionada ao complexo lagunar que se estendia até a área que hoje é o limite do continente e o oceano.  
O complexo lagunar avançava mais dois quilômetros e foi sendo reduzido devido ao deslocamento da costa. Hoje se limita às lagoas do Gentil, Custódias e Manoel Nunes.
Outro material que também é exposto pelas ressacas é a turfa, que são componentes orgânicos, como folhas, que se depositavam no final do assoreamento da lagoa. A turfa é verificada mais em Nova Tramandaí e Balneário Pinhal. As formações chamam a atenção. A turfa se mistura à lama, gerando componentes que lembram rochas.
O diretor-geral do centro, com sede em Imbé, vizinha a Tramandaí, esclarece que se a areia for removida, a camada de lama vai aparecer na extensão. 
"Não é algo que aconteceu só agora. É histórico", observa Barboza. Os primeiros relatos da lama são dos anos de 1960 e 1970. Na época, o trecho da orla entre o antigo terminal turístico e Nova Tramandaí acabou sendo batizado de Barro Preto, em referência à lama que aflorou da areia.
No Litoral Norte, os registros deram uma trégua entre 2007 e 2016, quando voltaram a ocorrer, observa o especialista. 
Barboza fez imagens com drone no trecho que está com os rastros do material este ano. As manchas pretas tomam conta de um trecho da costa. Segundo o diretor-geral do Ceclimar, a lama vai desaparecer com o passar do tempo. "O material seca com o sol e vira pó".
Ciclones e ressacas também provocam outras ocorrências inusitadas. Barboza diz que chegam à praia fósseis de espécies de animais que viveram na última era glacial, de 15 mil anos atrás. "São vértebras, partes de ossos de patas e placas de carcaça, como de um tatu gigante que habitava a região", lista o geólogo. Os achados vão ficar expostos no museu do Ceclimar.
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