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Porto Alegre, terça-feira, 14 de maio de 2019.

Jornal do Comércio

Geral

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Saúde

14/05/2019 - 17h30min. Alterada em 14/05 às 18h26min

Número de doadores de órgãos caiu quase 20% no Estado em 2018

Queda nos doadores resultou em um acréscimo na lista de espera de gaúchos por um transplante

Queda nos doadores resultou em um acréscimo na lista de espera de gaúchos por um transplante


USP IMAGENS /FOTOS PÚBLICAS/DIVULGAÇÃO/JC
Juliano Tatsch
A instalação da Frente Parlamentar de Estímulo à Doação de Órgãos, ocorrida na segunda-feira (13), na Assembleia Legislativa gaúcha, voltou a colocar o tema dos transplantes de órgãos na pauta de debate no Estado. Como o próprio nome sugere, a iniciativa objetiva conscientizar a sociedade sobre a importância da doação de órgãos.
O Brasil teve um crescimento modesto no número de doadores de órgãos no ano passado. Conforme dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), o acréscimo em relação à 2017 foi de 3,39%, passando de 3.415 para 3.531 doadores efetivos.
Se os números nacionais não são dos mais animadores, os estaduais são piores ainda. Em relação a 2017, o ano passado registrou uma queda de 19,4% no total de doadores – de 295 para 238, de acordo com a Secretaria Estadual de Saúde (SES).
A realização de transplantes no Estado variou positiva e negativamente dependendo do tipo de órgão. Houve aumento de transplantes de pulmão e coração, enquanto ocorreu redução nos procedimentos envolvendo rim, fígado e córnea (confira na tabela).
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A queda no número de doadores resultou em um acréscimo na lista de espera de gaúchos por um transplante. Ao fim de 2017, eram 1.329 pessoas aguardando pelo procedimento rim, fígado, pulmão, coração, córnea ou medula óssea. No final do ano passado, o total passou para 1.378, um aumento de 3,6%.
A negativa familiar segue sendo uma importante razão pela qual o número de transplantes não avança. Em torno de 42% dos familiares contatados pelas equipes responsáveis pelos procedimentos no Estado negaram a retirada dos órgãos dos entes falecidos.
O coordenador da Central de Transplantes da Secretaria Estadual da Saúde, Ricardo Klein Ruhling, aponta uma estagnação no quadro estadual de transplantes no ano passado em relação a 2017. “Não progredimos como gostaríamos”, afirma. A queda no número de doadores é uma das razões para isso. Conforme o gestor, a redução não se dá em razão de um motivo específico, tendo diversas razões. “É um tanto quanto difícil conseguirmos elencar um ou dois motivos, pois depende muito da região do Estado, da cultura de cada região. Mas a persistência da alta recusa familiar é uma das maiores dificuldades”, lamenta.
Diversas são as justificativas para a negativa em doar após a constatação da morte encefálica: o paciente falecido não se dizia doador quando em vida, o receio de que a doação incorrerá em demora para a liberação do corpo, o desconhecimento a respeito do processo de doação e de como é feita a cirurgia de retirada de órgãos, medo de que possa ocorrer tráfico de órgãos, questões religiosas, entre outras.
O médico salienta que a falta de comunicação dentro das famílias é um fator preponderante. “As pessoas não conversam em casa sobre doação, pois falar sobre doação é falar sobre morte. Mas é preciso entender que também é falar sobre vida”, diz.

Rede de saúde ainda carece de busca ativa

Para o diretor-médico do Hospital Dom Vicente Scherer, unidade especializada em transplantes da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, José Camargo, um outro fator, porém, precisa ser destacado quando se fala em baixo índice de doação de órgãos. Conforme ele, o sistema de transplantes só funciona adequadamente quando três fatores estão presentes: comunidade sensibilizada, hospitais disponíveis e serviço ativo de busca.
Pioneiro na América Latina em transplante de pulmão, Camargo refuta e ideia de que recai sobre a negativa familiar a principal razão do baixo número de procedimentos. “Eu acho muito fácil dizer que a comunidade está negando muito. E quantas vezes pediram? E quem pediu? Com que experiência essa abordagem foi feita? Vivemos uma realidade em que, muitas vezes, nem damos à família a chance de dizer que não quer doar, pois ninguém pediu”, afirma.
O médico exemplifica a necessidade de se ter equipes qualificadas em todos os hospitais com o modelo espanhol, no qual todos os hospitais têm um coordenador intra-hospitalar responsável pela captação de órgãos. “Quando temos uma oferta baixa em um país que tem um índice de morte encefálica altíssimo, significa que um grande número de casos não foi sequer comunicado.”, diz.

Problemas de logística ainda acarretam em perda de órgãos

Dados do Ministério da Saúde obtidos pelo jornal O Globo no início do ano passado indicavam que em 2017, até o mês de outubro, 959 órgãos haviam sido desperdiçados no País em razão de problemas não relacionados ao transporte, entre eles condições dos doadores, falta de exames ou indisponibilidade de equipes médicas.
No Rio Grande do Sul, o coordenador da Central de Transplantes da Secretaria Estadual da Saúde, Ricardo Klein Ruhling, aponta que dificuldades logísticas ainda resultam em órgãos disponíveis, mas não utilizados. “Às vezes, a logística atrapalha. Em um dia de instabilidade, chuvoso, se eu tivesse de disponibilizar uma equipe para fazer uma busca aérea teríamos dificuldade. Principalmente, se a família doadora não quer esperar muito. Tivemos algumas dificuldades no final do ano em relação à logística, tivemos de fazer adaptações no transporte que esperávamos que fossem mais rápidas, e acabaram não sendo”, observa.
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Outra problema é a carência de equipes de captação de alguns tipos de órgãos e tecidos, como a córnea. “No caso da córnea, os números flutuam bastante. Sobem, mas, depois, descem. Há outro fator: só temos uma equipe captadora em Porto Alegre. Então, se tenho uma distância muito grande, eles não conseguem ir buscar. Estão limitados, por uma questão de operacionalidade, a ir até Canoas. Se tem doador em Novo Hamburgo, São Leopoldo, Montenegro, já não conseguem ir”, afirma Ruhling.
Responsável por 52 dos 63 transplantes de pulmão realizados no ano passado no Estado, a Santa casa de Misericórdia de Porto Alegre poderia ter ajudado mais pessoas, mas esbarrou na falta de aeronave para fazer o transporte do órgão. “Tivemos cinco doadores que perdemos porque a secretaria de saúde daqui não conseguiu disponibilizar avião para buscar. Um avião estava em manutenção, o outro, que é terceirizado, estava em Brasília. Nós temos como oferta um avião da Força Aérea Brasileira e uma terceirização da Uniair (serviço de transporte aéreo da Unimed). Mas cinco vezes não conseguimos buscar, o que eu acho uma coisa trágica. Quando alguém disponibiliza um órgão e você não é capaz de buscar o órgão, é uma tristeza enorme”, lamenta o diretor-médico do Hospital Dom Vicente Scherer, José Camargo.

Mudança no cenário passa por transformação cultural

Divergências à parte, é consenso na comunidade médica que uma mudança no atual quadro de baixa disponibilidade de órgãos somente se dará por meio de uma transformação cultural baseada em educação e informação. De acordo com os dados mais atualizados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), relativos ao ano passado, o percentual de recusa por parte de familiares no País foi de 43%. Em alguns estados, porém, esse índice chegou a 80%, caso do Mato Grosso, e 74%, do Piauí. O Paraná teve o menor percentual de negativa (27%). Em 2017, do total de 6.441 entrevistas realizadas pelas equipes responsáveis pela captação dos órgãos em todo o Brasil, em 2.753 houve recusa em doar. 
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Para José Camargo, os índices de saúde não andam distantes da realidade socioeconômica do País. “Há muitos anos que o índice de doação de órgãos por milhão de habitantes é um marcador de desenvolvimento social. Ignorância e misticismo são irmãos gêmeos. Quanto menos você sabe, mais tem ideias místicas, de que o indivíduo pode ter a morte acelerada no hospital se ele for doador. Uma bobagem,” ressalta.
O especialista acredita que todos os meios de comunicação e informação precisam ser usados no processo de mudança cultural. Nesse contexto, os papéis da mídia e da escola crescem em importância. No caso da educação, Camargo defende uma legislação que torne obrigatória a abordagem do tema doação de órgãos nas escolas de ensino Fundamental e Médio. Segundo ele, seria uma maneira de a informação chegar no seio da família em um momento de saúde. “Esse é o momento de decidir. Quando alguém comunica que gostaria de ser doador, se inverte tudo. A família fará todo o possível para cumprir a vontade expressa em vida. Você retira da família o peso da decisão.”
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