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De Frente para o Guaíba

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DE FRENTE PARA O GUAÍBA

Notícia da edição impressa de 26/10/2018. Alterada em 26/03 às 14h24min

Reserva do Lami é sinônimo de diversidade ambiental em Porto Alegre

Unidade de Conservação foi criada em 1975

Unidade de Conservação foi criada em 1975


/fotos MARCELO G. RIBEIRO/JC
Daniel Sanes
Uma espécie de trepadeira motivou o surgimento da primeira reserva ambiental gerida por um município em todo o Brasil. Essa planta, característica de matas de restinga e uma das mais ameaçadas no Rio Grande do Sul, levou à criação, em 1975, da Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger, no Extremo-Sul de Porto Alegre.
A efedra (Ephedra tweediana) é apenas um dos 300 tipos de vegetais presentes na reserva. E essa diversidade não se restringe à flora: a região é habitat de diversas espécies de animais, muitas delas em extinção. Para se ter uma ideia, somente de aves são mais de 200.
A Unidade de Conservação tem uma ligação íntima com o Guaíba, a ponto de sua existência contribuir para a preservação do lago, que, em contrapartida, é garantia de sobrevivência da fauna e da flora locais. Os peixes, por exemplo, utilizam os banhados e os arroios Lami e Manecão como área de reprodução e crescimento, pois é um ambiente que serve de proteção contra os predadores e ainda fornece alimentação farta.
Mesmo sabendo que o Lami é um bairro de características rurais, quem vai à reserva pela primeira vez não deixa de se impressionar. Atrás da sede administrativa, se estende um grande "quintal" com mais de 200 hectares de matas, juncos, campos, banhados e outros ambientes. Dentro do prédio, em um pequeno museu, painéis e fósseis dão um indicativo das espécies que vivem ali. Avistar um animal em seu habitat, porém, é uma questão de sorte e paciência. "Aqui de vez em quando aparecem bugios, é um caminho deles", diz o funcionário Osmar Rocha, apontando para as árvores próximas a uma das janelas.
Uma espécie de "faz-tudo", Rocha é um dos poucos servidores da unidade. A equipe é reforçada por estudantes de biologia, como Anderson Nascimento e Paola Linck, que auxiliam em diversas atividades, como a captação de imagens por armadilhas fotográficas. Elas ficam gravadas em vídeo e, além de ajudar no monitoramento da fauna, são apresentadas aos grupos de alunos em dias de visitação no auditório da sede.
Ao percorrer a trilha em mata fechada, não é difícil detectar vestígios de animais, como ovos de cágado e pegadas de capivara. Ficamos na expectativa de ver um gato do mato flagrado dias antes em cima de uma grande figueira, mas ele não dá as caras. Pouco depois, guinchos que se assemelham a latidos indicam a presença de capivaras. Ariscas, elas logo se embrenham na mata.
Em um passeio de barco, é possível ter uma noção mais clara de onde estamos. Além da Ponta do Cego (uma encosta coberta por mata nativa), se vê a praia do Lami e uma parte do Parque Estadual de Itapuã, em Viamão. Bem mais perto, em uma rocha, uma lontra "lagarteia" ao sol. Segundos depois, ao ouvir o barulho de motor, já está dentro d'água.

Bióloga quer aproximar a comunidade do entorno

Às margens do banhado, placas advertem aos incautos: é proibido pescar. "É o nosso maior problema. Temos que monitorar o tempo todo", admite Rocha. No entorno da Unidade de Conservação, há propriedades privadas, por isso a preocupação com a pesca predatória é redobrada.

Apesar disso, a gestora da reserva, Maria Carmen Sestren-Bastos, é contrária à ideia de isolar a área da população. Pelo contrário; para a bióloga, é preciso que as pessoas tenham empatia pelo que existe ali para ter consciência ambiental. "Queremos nos aproximar da comunidade, especialmente a do Lami, que vive no entorno. Como alguém vai achar importante preservar algo que desconhece?", questiona.

O trajeto de barco feito pela equipe do Jornal do Comércio é reservado apenas a pesquisadores. Mesmo assim, Maria Carmen acredita que a trilha disponibilizada aos alunos de ensinos Fundamental e Médio pode ser um pouco maior do que a atual. "Estamos pleiteando isso, mas é preciso ter alguns cuidados e respeitar o plano de manejo da reserva", explica.

Mesmo com a trilha restrita, um passeio na Reserva Biológica do Lami é uma boa oportunidade de ter contato com a natureza e descobrir uma Porto Alegre que poucos conhecem. "Contamos com uma equipe pequena, por isso as visitas precisam ser agendadas conforme disponibilidade (mais informações no box). Mas todos são bem-vindos", avisa Maria Carmen.

Para visitar a Reserva do Lami

As visitas à Reserva Biológica do Lami José Lutzenberger estão disponíveis para, no máximo, 30 pessoas, divididas em dois grupos. O agendamento pode ser feito pelo e-mail reservalami@smam.prefpoa.com.br ou pelo telefone (51) 3263-1079.
A reserva fica na estrada Otaviano José Pinto, s/nº, bairro Lami. Há espaço para estacionar. Duas linhas de ônibus passam em frente ao local: R67 - Rápida Lami via Belém Novo e D67 - Lami via Belém Novo/Direta.
 

Sobre Lutzenberger

O nome da reserva é uma homenagem a seu idealizador, o ambientalista porto-alegrense José Antônio Kroeff Lutzenberger (1926-2002). Agrônomo de formação, Lutz, como era conhecido, foi um dos fundadores da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan) e o criador da Fundação Gaia. Seu trabalho na preservação ambiental foi reconhecido internacionalmente.

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Comentários
GENESIO PEDRO BONDAN 26/10/2018 16h39min
parabéns pela proteção da reserva, agora como mencionou o leitor existe a necessidade de maior fiscalização existem poucas capitais com tamanha reserva
Carlos Azevedo 26/10/2018 09h56min
Existe muita restrição ao acesso e pesca nas regiões do Lami e Itapuã. Por outro lado, esquecem as autoridades que logo ali ao lado, na Lagoa da Bonifácia, pescadores profissionais de Palmares e adjacências, colocam redes com até 1 km nos canais de acesso dessa lagoa com a Lagoa do Casamento, impedindo a piracema e a repovoação dessa lagoa interna. Resultado: Não há mais peixes na Lagoa da Bonifácia. Cadê a fiscalização?

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