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Religião

19/06/2018 - 15h39min. Alterada em 19/06 às 15h49min

Diocese anglicana de Porto Alegre é a primeira do País a autorizar casamento homoafetivo

Bispo Maiztegui diz que aprovação representa reconhecimento teológico e eclesiástico da igualdade

Bispo Maiztegui diz que aprovação representa reconhecimento teológico e eclesiástico da igualdade


CLAITON DORNELLES /JC
Paulo Egídio
Em uma decisão histórica, a Diocese Meridional da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil (IEAB), sediada em Porto Alegre, autorizou a realização do casamento religioso igualitário. Com a decisão, aprovada por 46 votos, ante seis contrários e seis abstenções, em um colegiado formado por reverendos e representantes das paróquias, os clérigos anglicanos podem celebrar casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
A permissão à união homoafetiva foi ratificada durante o 126º concílio diocesano, realizado de 8 a 10 de junho, um final de semana depois que o 34º Sínodo Nacional da IEAB autorizou as dioceses, que funcionam de forma autônoma, a decidirem sobre a questão. Em Brasília, na assembleia de bispos, foram 57 votos a favor, 3 contrários e 2 abstenções à proposta, levada pelos religiosos da capital gaúcha.
Mesmo autorizado, o casamento entre pessoas do mesmo sexo precisa ser permitido pelo bispo responsável por cada diocese – a exemplo do que já acontece com pessoas divorciadas. Conforme o bispo da Diocese Meridional, Humberto Maiztegui Gonçalves, a exigência não tem teor discriminatório. “Não achamos (o casamento gay) pior ou menos digno, apenas queremos evitar o uso da igreja para algo que não se encaixe na dinâmica de evangelização. Não podemos ser uma agência de casamentos, somos uma igreja”, pondera Maiztegui. “Mas tem que ser algo muito terrível para o bispo não assinar”, acrescenta o religioso.
Maiztegui cita também que os anglicanos ordenados que não se sentirem confortáveis em realizar o casamento podem se recusar a conduzir a cerimônia. “Qualquer clérigo ou clériga pode se negar a fazer uma matrimônio, por questões de consciência, sem dar razões. Se não se sentir bem, ele vai me comunicar, e eu mesmo vou fazer (o casamento) ou vou encaminhar para outra pessoa fazer”.
Uruguaio de Montevidéu, o bispo está à frente da diocese da capital gaúcha desde 2013. Segundo ele, o tema é aprovado pela ampla maioria dos fiéis e as resistências têm diminuindo ao longo do tempo. Para o religioso, aqueles que atualmente se manifestam contra a união homoafetiva são movidos por uma “leitura fundamentalista” da Bíblia. “A Bíblia fala sobre Deus, mas não foi Ele quem escreveu. Foram pessoas, na sua época, na sua linguagem, com sua visão de mundo”.
Para Maiztegui, a interpretação do livro sagrado deve ser “conceitual”, e os mandamentos que pregam o amor a Deus e ao próximo superam os trechos contrários à homossexualidade. “Como alguém pode amar o próximo e negar-lhe a felicidade? Este é um pequeno passo de reconhecimento teológico e eclesiástico de que somos todos iguais”, declara o bispo.
Embora aprovada por larga margem, a proposta que autoriza a união entre pessoas do mesmo sexo havia sido derrotada, por ampla maioria, no último Sínodo Extraordinário da IEAB, em 2016. O principal argumento foi de que a discussão ainda não havia chegado às bases da igreja. Ficou acertado, então, que os bispos deveriam levar oi tema à discussão em suas áreas de atuação.
Depois a confirmação na assembleia nacional deste ano, no início de junho, as dioceses foram liberadas para avaliar de forma independente a aceitação ou não do casamento gay. Além de Porto Alegre, a diocese de Pelotas também apreciou o tema, mas decidiu por não autorizar o casamento igualitário. Outra diocese do Estado, a de Santa Maria, anda não realizou votação sobre o assunto.

Católica e reformista, igreja anglicana mantém tradição progressista

A autorização do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo reforça uma marca vanguardista da Igreja Anglicana. Embora mantenha tradições nas cerimônias e na liturgia, a instituição é conhecida pelo progressismo em temas como direitos individuais e igualdade entre gêneros. Além da abolição da obrigatoriedade do celibato, a instituição já permite o divórcio e a ordenação de mulheres e de pessoas LGBT.
Originada ainda dos antigos celtas e incorporada à Igreja Católica Romana no Século VI, a Igreja Anglicana separou-se definitivamente do Vaticano em 1534, quando o Rei da Inglaterra, Henrique VIII, tentou anular seu casamento com Catarina de Aragão. Não atendido pelo Papa, ele renunciou ao comando geral da Igreja par conseguir o divórcio, o que permitiu, com o tempo, a consolidação de um posicionamento católico e reformista naquele país.
O resultado foi uma igreja de autoridade dispersa, em que não há um comando central. No Brasil, são cerca de 80 mil adeptos. “As transformações já estão acontecendo e, talvez, agora venham com um pouco mais de velocidade”, diz o bispo Humberto Maiztegui. Para ele, um dos próximos passos é receber transexuais na IEAB. “Se há pessoas trans que tem fé e não tem onde vier essa fé, gostaria que minha igreja fosse um lugar onde isso fosse possível”.
A preocupação, no entanto, não é movida pela atração de mais fiéis aos bancos da igreja. “Vamos perder alguns e vamos ganhar alguns. Mas não estamos contabilizando e não é isso que nos interessa. Não queremos contar quanta gente vem, queremos servir a Deus e reforçar a presença de Jesus Cristo na sociedade, para todas as pessoas, sem distinção”, garante o religioso.

Homossexuais já fazem parte dos quadros da instituição

Para o reverendo Jerry, integridade esperada de um heterossexual é a mesma que a de um homossexual

Para o reverendo Jerry, integridade esperada de um heterossexual é a mesma que a de um homossexual


LUIZA PRADO/JC
Ordenado há 27 anos, o reverendo Jerry Andrei dos Santos é o deão (dirigente responsável) da Catedral da Santíssima Trindade, mais antigo templo anglicano do Brasil, que fica na Rua dos Andradas, no Centro Histórico de Porto Alegre. Líder de um conjunto de aproximadamente 300 fiéis, ele cumpre diariamente as funções de conduzir os sacramentos e servir de referência à paróquia.
Nascido em Pelotas, está há dois anos e meio nas funções de dirigente da catedral. Sua rotina é muito semelhante à da maioria dos líderes religiosos, a não ser por um detalhe: Jerry é casado há quatro anos com outro homem. Para ele, no entanto, esta é uma questão secundária. “Minha vida como cristão independe de minha orientação sexual. Tem a ver com minha postura enquanto cidadão.”
O reverendo conta que ele e o companheiro já estão em processo de adoção e que pretendem oficializar a união civil agora também sob os olhos de Deus. “Não estamos falando de dogmas. Estamos falando de vidas. Uma abertura como essa possibilita para inúmeras pessoas sem reconhecidas em sua plenitude de pessoa cristã”, declara.
Jerry reconhece que algumas citações da Bíblia coíbem o relacionamento entre pessoa do mesmo sexo, mas argumenta que, como outras restrições do livro sagrado, essa também pode ser reinterpretada. “Existem oitocentas outras passagens que falam de proibições que, ao longo do tempo, foram sendo revistas, reinterpretadas a luz dos avanços da sociedade”, explica. “Tenho uma vida como qualquer outra pessoa. A integridade que se espera de um heterossexual é a mesma que se espera de um homossexual”, conclui o religioso.
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