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Direitos Humanos

- Publicada em 11h26min, 20/11/2019. Atualizada em 20h29min, 20/11/2019.

Grêmio vai adotar ação inédita para combater racismo no futebol

'Objetivo maior é que pessoas preconceituosas, racistas, sintam-se excluídas do ambiente da Arena", diz Bugin

'Objetivo maior é que pessoas preconceituosas, racistas, sintam-se excluídas do ambiente da Arena", diz Bugin


LUIZA PRADO/JC
Patrícia Comunello
Em meio a casos recentes de racismo no futebol, seja contra o ex-jogador colorado Taison na Ucrânia como nos estádios brasileiros, uma novidade vai entrar em campo em breve. O Grêmio vai implantar uma experiência inédita no Brasil de ações contra o racismo. Esta quarta-feira (20) é o Dia da Consciência Negra.
Em meio a casos recentes de racismo no futebol, seja contra o ex-jogador colorado Taison na Ucrânia como nos estádios brasileiros, uma novidade vai entrar em campo em breve. O Grêmio vai implantar uma experiência inédita no Brasil de ações contra o racismo. Esta quarta-feira (20) é o Dia da Consciência Negra.
Trata-se do laboratório experimental de práticas antirracistas no futebol que será oficializado em um protocolo de intenções entre o Tricolor com a Defensoria Pública da União (DPU). O Grêmio será o primeiro time no País a firmar um acordo nestes moldes com a instituição. O documento será assinado no começo de dezembro na sede do clube, na Arena Porto-Alegrense, entre a direção Tricolor e representantes do Grupo de Trabalho de Políticas Etnorraciais da DPU.
O Grêmio foi procurado pela coordenadora do grupo, Rita de Oliveira, na metade do ano, no intervalo do Campeonato Brasileiro para a realização da Copa América no Brasil. Rita apresentou a proposta de ações conjuntas. O clube topou na hora.
Um dos casos recentes que mais ruborizaram o futebol, que teve como palco a Arena, foi em 2014 e envolveu torcedores e o ex-goleiro do Santos Mário Lúcio Duarte da Costa, o Aranha. Na época da injúria racial, o Tricolor foi punido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) com a exclusão da Copa do Brasil. Este fato e também ações do clube para mudar este quadro suscitaram a ideia na DPU de propor a nova estratégia de abordagem ao Tricolor.
O divisor de águas ou de campos é que o Tricolor decidiu firmar uma lógica nas iniciativas para banir o preconceito. Em vez de seguir em campanhas mais efêmeras, que surgem no calor de novos fatos ou datas, o clube parte para ações mais permanentes que estão em um pacote mais farto, com mudanças "estruturais", como definem seus dirigentes.
O vice-presidente do Conselho Deliberativo do Grêmio, Alexandre Bugin, explica que a parceria com a DPU faz parte de mudanças mais profundas na forma como o clube está encarando este tema e outras faces da discriminação, não só de raça, mas gênero e outras dimensões. Além disso, o pacote gremista abrange um maior engajamento em temas de inclusão. O pacote sob o guarda-chuca do Clube de Todos será apresentado em sessão do Conselho Deliberativo na próxima segunda-feira (26). 
"O nosso entendimento é que o ambiente do estádio de futebol, de um jogo, da torcida, é indutor para este tipo de manifestação de quem já é preconceituoso, que é uma minoria, mas que, às vezes, prejudica a maioria", diagnostica Bugin, indicando que o episódio Aranha foi crucial para inserir as mudanças.
"Desenvolvemos uma série de campanhas, envolvendo diversas áreas do clube e com as torcidas organizadas. Este ano resolvemos que chegou o momento de fazer uma estruturação de todos estes trabalhos", amplia o vice-presidente. 
O projeto do Clube de Todos está sendo formatado desde maio por um grupo multidisciplinar, que vem se reunindo periodicamente e envolve conselhos (Administração e Deliberativo), área jurídica, comunicação, marketing e responsabilidade social e departamento de torcidas. "Esse grupo está pensando esses temas cotidianamente", resume Bugin.
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Defensora aposta que a iniciativa com o Grêmio coloque o racismo em campo e 'que não saia mais'. Foto: Arquivo Pessoal/JC
O Clube de Todos vai abranger o laboratório em parceria com a DPU. A coordenadora do grupo da defensoria da União, Rita de Oliveira, aponta a expectativa de que a experiência insira novas abordagens e condutas quando se trata de racismo. “Precisamos fazer um trabalho de base, abrangendo o universo de dinâmicas institucionais do clube e também o posicionamento em relação ao racismo estrutural”, pontua Rita.

Estatísticas advertem para ações

Dados do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, criado no Rio Grande do Sul em 2014 e tocado por dois voluntários, apontam que, até o começo de novembro deste ano, são 42 casos de racismo dentro dos estádios, desde partidas de campeonatos locais até a primeira divisão. Desse número, 13 foram em campos gaúchos, a maior estatística, segundo o observatório. Os registros são baseados em notícias da imprensa, explica o diretor da iniciativa de monitoramento, Marcelo Carvalho.
O Grêmio teve em 2019 um caso que chegou a ser avaliado como suposta injúria racial em jogo contra o Fluminense. O lateral do clube do Rio acusou torcedores gremistas de prática de racismo contra o jogador Yony González. A perícia do STJD descartou como racismo. "O tribunal reconheceu as ações que o Grêmio vem fazendo”, observou o dirigente.
A primeira atividade do protocolo a ser firmado será um fórum, com data que deve ser divulgada na assinatura do acordo e que deve ocorrer na largada de 2020. O fórum vai reunir especialistas em Direito e História do futebol, técnicos, jogadores, dirigentes de clubes e da Justiça Desportiva e ativistas.
O ex-técnico do Grêmio e hoje no Bahia, Roger Machado, deve ser um dos convidados, adianta a defensora. O termo terá um conjunto de intenções que vão desde formação em escolas de base, da torcida e de pessoas para fazer observação em jogos. O clube também vai analisar mudança no estatuto para inserir capítulo específico sobre racismo e outras discriminações. Proposta com esta linha deve ser levada em 2020 aos conselhos.
Bugin lembra que racismo e outras discriminações estão “implícitas” no artigo 48 que trata dos chamados crimes infames, punidos com exclusão do quadro de associado. Também o Código de Ética, de 2006, trata como dever do sócio não agir com preconceito ou distinção de raça, sexo, nacionalidade, idade, religião, cunho político e posição social. “A intenção é ter um capítulo que deixe mais explícita a conduta contra o preconceito”, adianta o vice-presidente.
O recado já é e vai ser mais contundente: “O objetivo maior é que pessoas preconceituosas, racistas, sintam-se, no curto e médio prazo, excluídas do ambiente da Arena”.
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'Iniciativa (laboratório) é muito importante, pois traz autoridade e clube para a luta”, valoriza Carvalho. Foto: Nicolas 
O observatório, que lidera a campanha #ChegadePreconceito, com ações envolvendo Grêmio e Inter como a entrada de jogadores e crianças com a camiseta da campanha em campo no Grenal 422 de 3 de novembro, será um dos apoiadores da cooperação com o DPU. “A iniciativa é muito importante, pois traz a autoridade e o clube para a luta”, valoriza Carvalho.
Além da educação, o integrante do observatório diz que “é preciso trabalhar com punição para inibir e evitar que outros torcedores se manifestem”. Entre as sugestões de medidas, está formar pessoas para monitorar os jogos, tentando identificar atitudes de discriminação.
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Grenal contra o preconceito

O Inter também acionou mais iniciativas na guerra contra o preconceito que são lideradas pela Diretoria de Inclusão, criada em junho deste ano. Os alvos são casos de racismo, homofobia e assédio a mulheres. As pessoas vão poder enviar pelo número de WhatsApp (51) 98117-7779 qualquer episódio "desconfortável vivenciado nas arquibancadas do Beira-Rio". O clube aproveitou o Dia da Consciência Negra para anunciar a ação.
O Inter garante que "profissionais conduzirão, da maneira mais ágil possível, a identificação da situação e solução dos problemas". O canal estreia no jogo do próximo domingo (24) contra o Fortaleza dentro de casa, pelo Campeonato Brasileiro. 
E as iniciativas Coloradas não vão parar por aí. Em dezembro, capítulos do estatuto do clube podem mudar em aspectos ligados à punição de atos de preconceito, além de inserir que a associação é livre, acrescentando que não pode haver distinção por religião, classe social, opção política, capacidades ou limitações individuais. Os associados vão votar sobre as mudanças. 
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