A figura era inconfundível. Alto, gordo, imenso. Um andar arrastado, quase sempre com as mãos grandes ajeitando os óculos de armação vermelha. Alguns livros debaixo do braço e também algumas anotações rabiscadas que deveriam servir apenas como guia - já que a aula completa estava pronta na sua cabeça. Voltaire Schilling chegava às palestras ou às aulas quase sempre acompanhado por um pequeno séquito. Eram fiéis seguidores que se deslumbravam com seu conhecimento e - mais ainda - com a capacidade clara e objetiva de transmiti-los. "Sua maneira de transferir seu enciclopédico conhecimento era muito vívida, sedutora e com acentos irônicos. Sua voz tonitruante dominava um recinto, e a mescla de seriedade e humor com que tratava os fatos históricos mantinha os alunos permanentemente interessados em sua exposição", destaca o professor de Literatura Sergius Gonzaga, colega e amigo de Voltaire por mais de cinco décadas.
Fui testemunha do sucesso de suas palestras. Durante o tempo que estive à frente da Coordenação do Livro da Secretaria Municipal da Cultura, Voltaire foi dos mais constantes e ativos palestrantes dos seminários e debates organizados no Centro Municipal de Cultura. Suas aulas eram garantias de lotação esgotada e público interessado, a tal ponto que, de brincadeira, criamos o troféu Voltaire de Ouro, que deveria ser dado ao palestrante que tivesse a maior audiência. Nunca ninguém superou o homenageado.
Morto no último dia 2 de janeiro, vítima de uma embolia pulmonar - a última etapa de uma longa agonia hospitalar que se arrastava há muito tempo e que vinha acompanhada de problemas renais, cardíacos e de diabetes - Voltaire foi um dos mais ativos professores e intelectuais de Porto Alegre. Era uma referência entre seus contemporâneos.
Em seus 77 anos de vida, ele se mostrou múltiplo em múltiplas atividades. Deixou uma extensa coletânea de livros publicados ao longo da carreira, com títulos de destaque como O Nazismo: Breve História Ilustrada (1988), Estados Unidos versus América Latina: as Etapas da Dominação (1991), Tempos da História (1995), O Conflito das Ideias (1999), Ocidente x Islã (2003), Holocausto - Das Origens do Povo Judeu ao Genocídio Nazista (2016), Ascensão e Queda de Adolf Hitler (2018) e Modernismo e Antimodernismo (2019). Foi ainda palestrante e colaborou com jornais, revistas e portais de todo Brasil. No site Terra, durante um longo período, chegou a comandar uma seção focada em assuntos históricos e, em Zero Hora, foi articulista da página de Opinião e colaborador do caderno Cultura. Na televisão, atuou como comentarista de assuntos internacionais, culturais e políticos na TV Guaíba, participando com frequência dos programas comandados pelo comunicador Clóvis Duarte.
Sergius, definindo o amigo, finaliza: "Talvez tenha sido um dos últimos dos grandes intelectuais do País a buscar um saber universal, a se preocupar em transformar o vasto conhecimento que possuía em matéria viva para os milhares de estudantes e admiradores de suas palestras, sem jamais esquecer que uma exposição de ideias precisa ser múltipla e vibrátil. Valorizo nele, sobremodo, sua madura desconfiança aos que bramem palavras de ordem, aos fanáticos de todos os lados, aos simplificadores do mundo. Não vociferava contra eles. A exemplo do grande pensador iluminista cujo nome lhe serviu de batismo, usava uma arma mais contundente e demolidora: a ironia".
Entre a lenda e a realidade
Além de professor reconhecido, Voltaire atraía a atenção do público em palestras
CESAR LOPES/PMPA/JC
Quando a lenda é maior do que o fato, então publique-se a lenda, ensinava John Ford no filme O Homem que Matou o Facínora (The Man who Shot Liberty Valance, de 1961). Voltaire era quase uma lenda. "Tudo o que foi dito a respeito dele era verdade", atesta Sergius. "Esplêndido dançarino, uma capacidade pantagruélica de comer e beber, sem que seu estado de espírito sofresse alterações face a tal intemperança. Foi também um sedutor que fascinava as mulheres por sua cultura, seu humor e pelos gestos cavalheirescos à moda antiga", completa.
O professor Cláudio Moreno, outro contemporâneo, desconfia de alguns exageros e folclores: "Acontece que o Voltaire que conheci não foi esse personagem literário que nossa roda de amigos foi construindo com depoimentos". Moreno lembra que foi conhecê-lo, há uns 20 anos, na mesa do Restaurante Copacabana, local onde Voltaire, Moreno, Sergius e mais uma dezena de amigos encontravam-se às quintas-feiras para uma animada confraria comandada pelos professores Luiz Osvaldo Leite e Joaquim José Felizardo, este último já falecido. "Na época", lembra Moreno, "Voltaire já estava com o primeiro transplante vencendo. Ele enfrentava corajosamente a hemodiálise". E acrescenta: "Depois desse encontro, voltamos a nos ver no dia seguinte. Fui jantar com o Sergius, com o Décio Freitas e com ele na churrascaria Santo Antônio, e bingo - brotou uma amizade que durou até sua morte".
Voltaire se destacava pelo estilo. Conseguia aliar ao extraordinário conhecimento histórico que possuía uma poderosa memória. Sabia se expressar com clareza. Quem presenciava suas aulas saía com a impressão de que ele havia lido todos os livros do mundo e sabia todos de cor. À amplitude da História propriamente dita, ele anexava informações ricas e variadas sobre Arte, Literatura, Arquitetura, Ciência, Filosofia e Música. A erudição vinha acompanhada da objetividade, com Voltaire descobrindo inúmeras relações entre os diversos períodos históricos, os fatos culturais e certos acontecimentos pitorescos que ajudavam a criar a atmosfera de uma época. "Muitos alunos se referiam a suas aulas como um mergulho profundo em um tempo já desaparecido ou como uma fascinante viagem aos acontecimentos marcantes da humanidade", destaca Sergius.
A apresentadora Tânia Carvalho ficou próxima de Voltaire por laços de família. "Em dezembro de 1963, eu me casava com Geraldo D'el Rey na Capela Nossa Senhora da Conceição. E, dias depois, minha mãe, Maria Carvalho, então viúva há muitos anos, casava-se com Carlos Londero Schilling. Carlos, pai de Voltaire, era um militar orgulhoso de sua farda e de ser coronel do Exército. Assim, já adulta eu ganhei Voltaire como irmão". Tânia segue lembrando: "Logo depois, minhas vindas de São Paulo para visitar a família eram sempre esperadas com lautos, pantagruélicos almoços com um menu que só minha mãe sabia preparar. Eram momentos de grandes papos com toda a família: amigáveis discussões políticas, aulas de cultura, histórias das guerras mundiais. Eram magnificas conversas. Tivemos esta convivência familiar e agradável durante muito tempo. Inesquecíveis domingos de almoços familiares".
Pedro Gonzaga, filho de Sergius e como o pai também professor de Literatura, é herdeiro da amizade de Voltaire e Sergius. E ele também ajuda a aumentar o folclore: "Segundo o pai, o Voltaire podia ter acabado com meus dias, pois certa vez quase sentou-se em cima de mim sem perceber o bebê que estava acomodado no sofá". Porém, Pedro pondera: "Há que dar o desconto, claro, dos aumentos que o meu pai sempre faz".
Pedro tem na memória a presença constante de Voltaire na sua família. "Ele já era amigo do meu pai e do meu tio (o professor Régis Gonzaga, também recentemente falecido) desde antes de eu ter nascido, mas minha aproximação do Tio Voltie, como ele mesmo se denominava, se deu bem mais para frente, quando eu já era adulto e professor". Desta amizade surgiu um almoço semanal em que Pedro era convidado a ir ao sobrado numa rua próxima ao Beira-Rio onde Voltaire vivia cercado por livros. Lá, Pedro garante ter testemunhado várias vezes o historiador devorar potes de sorvetes nas sobremesas enquanto teorizava sobre os mais diversos assuntos. Sobre a vida boêmia de Voltaire, Pedro fica num meio-termo entre seu pai e Moreno: "Quando convivi mais de perto com o Voltaire ele já havia deposto as armas. Parecia mais caseiro e cansado. Mas o vi saracotear uma ou outra vez em eventos públicos ou restaurantes, sem chegar a dançar, mas fazendo movimentos e requebros com os braços. Mas de um bom chope acompanhado de pastéis o vi aproveitar muitas vezes. Gostava também de espumante demi-sec, o que talvez seja um pouco exótico".
Nessas ocasiões, Pedro recorda, seu humor era imbatível. Voltaire vivia sempre citando um ou outro lançamento que estava lendo. "Havia tantos livros naquela casa que nem o banheiro e a cozinha eram poupados. Uma vez, sentado na poltrona junto a uma das gigantescas estantes, disse que seu sonho de menino era viver numa biblioteca, e que de algum modo o tinha conseguido".
Um polemista com humor
Erudição de Voltaire Schilling era acompanhada por bom humor e tiradas de refinada ironia
/ACERVO PESSOAL LÍBIA GORELIK/REPRODUÇÃO/JC
Voltaire Schilling era um intelectual prolífico. Além das dezenas de livros, aulas e palestras, ele durante anos foi assíduo colaborador de jornais, revistas e sites. Quase sempre seus artigos tratavam de análises de momentos históricos, personagens importantes ao redor do mundo, além de comentários sobre a cena cultural do Estado e também de Porto Alegre.
Com a cidade, Voltaire se destacava como observador. Cinco anos atrás, ele lançou uma polêmica ao escrever um artigo para um jornal em que classificava boa parte dos monumentos da capital gaúcha como "abominações". Elogiado e atacado por todos os lados, Voltaire esteve no centro do debate que misturava patrimônio histórico, estética e arquitetura. A polêmica se arrastou por alguns dias e logo foi diminuindo. Sobre o episódio, Sergius observa com prudência: "Não creio que ele fosse um polemista nato. Alguma dessas polêmicas - como neste caso dos monumentos públicos de Porto Alegre - resultaram mais de uma boutade do que do desejo de criar um debate cultural."
Para Sergius, Voltaire expressou a sua opinião de forma humorística, apenas usufruindo o direito de qualquer cidadão de uma cidade. "Mas estou seguro de que ele não pretendia cancelar aquelas obras que atacava, e sim apenas satirizar o que ele julgava expressão de mau gosto". E completa: "Talvez Voltaire tivesse o defeito de alguns historiadores que escrevem sobre arte: valorizava apenas as obras já consolidadas por grandes estudiosos. Mas creio que aquele debate não deixou de ser positivo: a beleza ou a feiura de uma obra contemporânea é uma questão em aberto, só o tempo assinala o que fica e o que se dissipa".
Voltaire e a memória
Voltaire se orgulhava dos incontáveis livros que tinha em sua casa, dando ao ambiente ares de biblioteca
ACERVO PESSOAL LÍBIA GORELIK/REPRODUÇÃO/JC
Ao longo de quase cinco décadas, Voltaire lecionou em diferentes instituições do Estado. Em 2008, foi eleito membro da Academia Rio-Grandense de Letras. Antes já havia sido agraciado com a Medalha Cidade de Porto Alegre e, em 2013, recebeu a insígnia de cavaleiro da Ordem Nacional do Mérito, que é uma das principais honrarias civis francesas.
Paralelamente à atividade, o historiador também se dedicou a trabalhos políticos - foi assessor parlamentar na Assembleia Legislativa entre os anos 1970 e 80 - e institucionais, atuando como diretor do Memorial do Rio Grande do Sul. O Memorial foi, ao mesmo tempo, uma alegria e também uma incomodação na trajetória de Voltaire. "O local tornou-se um centro de palestras, exposições e distribuição de farto material didático que o Voltaire imprimia para entregar aos escolares. Creio que foram mais de 50 publicações sintéticas, didáticas, que além de ajudar os estudantes, eram muito úteis para os leitores em geral. A verdade é que nunca houve tanta gente frequentando aquele espaço", destaca Sergius, que lamenta a maneira pela qual o historiador teve de deixar o cargo. "Sua saída, sob a acusação de malversação do dinheiro público, foi um terrível erro do governo do Estado. Voltaire foi declarado inocente por unanimidade em todas as instâncias. Mas nunca quis processar os responsáveis pela falsa denúncia. Insisti para que processasse. Não quis. O Estado, por seu turno, jamais fez o reconhecimento público da irresponsabilidade de seus agentes na época".
Sobre a formação intelectual e humanística do historiador, Sergius lembra: "Voltaire formou-se tardiamente em História sob pressão dos amigos, entre os quais eu me incluía. Consegui que a Sandra Pesavento o aceitasse no Mestrado, mas a ênfase teórica marxista das aulas o irritou profundamente, com razão, e ele largou o mestrado ainda no primeiro semestre. Se tivesse o concluído, seria difícil impedi-lo de ingressar como professor na Ufrgs". A base de Voltaire era sólida. Ele tinha muitos livros, artigos e palestras em seu currículo e, durante um período, chegou a dar aulas de História para integrantes do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, a convite da ministra Ellen Gracie Northfleet.
Por fim, ressalta Sergius, finda a ditadura no país e após visita a países do Leste europeu, Voltaire rompeu definitivamente com todo o tipo de pensamento utópico totalitário, articulado em torno de certezas absolutas e sectarismo, adotando uma postura cética para entender a História. "Nos últimos anos, ele combateu as explicações simplistas e puramente ideológicas dos fenômenos sociais, tentando vê-los em sua complexidade e em suas forças obscuras, atribuindo valor significativo ao papel dos indivíduos nos avanços e recuos do fluxo das civilizações".
Pedro reforça o legado do "tio" que a vida lhe deu: "Nunca conheci ninguém tão lido, em história e cultura. Nem creio que vá conhecer. Talvez a academia pudesse tê-lo ajudado a ter mais método, mas isso é só uma especulação. Não sei o que o tempo há de preservar. Seguramente enquanto viverem seus amigos haverá lembrança de seu humor maravilhoso e de sua cultura infinita".
Doze livros de Voltaire Schilling
Intelectual faleceu no começo de 2022, em decorrência de uma embolia pulmonar
ACERVO PESSOAL LÍBIA GORELIK/REPRODUÇÃO/JC
- A Revolução Chinesa: colonialismo, maoísmo, revisionismo (1984)
- O Nazismo: breve história ilustrada (1988)
- Momentos da História: a função da História na conjuntura social (1988)
- Estados Unidos versus América Latina: as etapas da dominação (1991)
- Tempos da História (1995)
- O Conflito das Ideias (1999)
- Nietzsche: Em Busca do Super-Homem (2001)
- Ocidente x Islã (2003)
- América — A História e as Contradições do Império (2004)
- Holocausto - Das Origens do Povo Judeu ao Genocídio Nazista (2016)
- Ascensão e Queda de Adolf Hitler (2018)
- Modernismo e Antimodernismo (2019).
* Márcio Pinheiro é jornalista com passagens pela Zero Hora, Gazeta Mercantil, Jornal do Brasil e o Estado de S. Paulo. Escreveu os livros 'Esse Tal de Borghettinho' e 'Rato de Redação - Sig e a História do Pasquim'


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