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reportagem cultural

- Publicada em 16 de Dezembro de 2021 às 18:41

Conjunto Melódico Norberto Baldauf foi o cupido dos anos dourados na noite gaúcha

Soberano nos palcos gaúchos, grupo musical de Norberto Baldauf foi o mais duradouro do gênero no Estado

Soberano nos palcos gaúchos, grupo musical de Norberto Baldauf foi o mais duradouro do gênero no Estado


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
A metade do século 20 foi berço de um fenômeno musical no Rio Grande do Sul: os conjuntos melódicos. Com formações compactas, sonoridade mais suave e repertório que abraçava do samba às canções românticas, eles substituíram progressivamente as orquestras no papel de principais atrações de bailes, festas e casas noturnas. Dentre as dezenas de grupos com esse perfil na cidade, o de Norberto Baldauf foi o mais popular, bem-sucedido e longevo, permanecendo na ativa por 60 anos desde a sua estreia em uma reunião dançante na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1953.
A metade do século 20 foi berço de um fenômeno musical no Rio Grande do Sul: os conjuntos melódicos. Com formações compactas, sonoridade mais suave e repertório que abraçava do samba às canções românticas, eles substituíram progressivamente as orquestras no papel de principais atrações de bailes, festas e casas noturnas. Dentre as dezenas de grupos com esse perfil na cidade, o de Norberto Baldauf foi o mais popular, bem-sucedido e longevo, permanecendo na ativa por 60 anos desde a sua estreia em uma reunião dançante na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), em 1953.
Os protagonistas iniciais dessa trajetória eram cinco caras gente-fina, a maioria com profissões paralelas: o farmacêutico Norberto Baldauf (1928-2018) no piano, o funcionário público Raul Lima (1924-2015) na guitarra e o bancário Leo Velloso (1924-1979) no contrabaixo, mais Victor Canella (1929-2000) no acordeon e Gutemberg Porto Rico (1924-1973) na bateria. Apesar da tarimba como músicos, eles não faziam ideia do quanto chegaria longe a ideia de montar uma equipe compacta e adaptável a diferentes necessidades, tocando com desenvoltura os mais variados gêneros.
A turma seria posteriormente ampliada pela inclusão do ritmista e servidor federal Fausto Touguinha (1935-2006), junto com o cantor e representante de vendas Luiz Octávio Albuquerque (1938-2013), além da troca por Wilson Baraldo (1924-1994) nas baquetas. Estava formado o time que seria um dos mais eficientes cupidos dos Anos Dourados, embalando gerações com uma trilha sonora que encorajou convites à dança e até pedidos de casamento. Boa parte dessa produção eternizada em 20 ótimos discos e transmitida em programas de rádio e TV.
Embora a contabilidade geral nunca tenha sido feita, um levantamento básico e bem modesto permite deduzir que essa patota animou, no mínimo, uns 2 mil eventos - às vezes mais de um por noite - entre as décadas de 1950 e 2010. Aliás, se você ainda tem a sorte de contar com avós lúcidos (também pode ser o pai ou mãe, dependendo da idade), experimente mencionar a eles a senha mágica "Norberto Baldauf": é bastante provável que relembrem, emocionados, juras ao pé-do-ouvido - talvez até o primeiro beijo - ao som do grupo nos Bailes da Reitoria da Ufrgs ou em outra ocasião.
O grupo não foi o pioneiro no gênero. Tal status cabe ao quarteto de Aderbal D'Ávila, formado em 1948 e que contava com o líder no piano, o acordeon de Tasso Bangel (pouco antes de fundar o internacionalmente famoso conjunto vocal Farroupilha), mais Raul e Porto Rico, futuros colegas de Norberto em seu melódico. Mas foi o êxito de Baldauf que contribuiu de forma decisiva para que outros músicos montassem os seus próprios times com esse tipo de configuração - uns 50, sem levar em conta os escretes que não duravam o tempo de um cigarro.
"Baldauf é o cânone dessa cena tão incrível e particular na música do Rio Grande do Sul", salienta o jornalista e pesquisador porto-alegrense Arthur de Faria, 53 anos. "O seu melódico podia não ser tão arrojado quanto os de conterrâneos como Breno Sauer e Manfredo Fest, mas tinha uma sonoridade bem particular. Se esse pessoal surgisse em São Paulo ou Rio de Janeiro, possivelmente se consagraria como uma corrente paralela à onda nacional da bossa nova e do samba-jazz, mesmo que a estilização instrumental praticada pelo conjunto do Norberto praticamente não fosse jazz."

Ritmos na madrugada

Norberto Baldauf e seu Conjunto surgiram na "Pôrto Alegre" dos anos 1950, entre o provinciano e a metrópole

Norberto Baldauf e seu Conjunto surgiram na "Pôrto Alegre" dos anos 1950, entre o provinciano e a metrópole


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
Assim que a agulha repousa sobre a gravação do tango Mano a Mano, o toca-discos se transforma em uma espécie de máquina do tempo. O ouvinte é transportado para a tardinha de 17 de maio de 1953, quando cinco rapazes com seus inseparáveis cigarros e bigodinhos último-tipo se reuniram em uma festa no Centro Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs, na rua Sarmento Leite, para sua estreia como grupo musical. Com uma faixa etária média de 25 anos, ali estavam profissionais aprovados nas mais variadas e exigentes frentes da cena cultural na capital gaúcha.
E a seleção fez bonito, com repertório eclético e uma sonoridade particular, moldada em pouco mais de seis meses de ensaios informais em casas noturnas e emissoras de rádio onde batiam ponto. Referência estética: o jazz mais soft de artistas como o acordeonista norte-americano Art Van Damme (1920-2010) e o pianista inglês George Shearing (1919-2011). Norberto, Leo, Canella, Raul e Porto Rico entregavam uma massa sonora de uníssonos tão suaves que permitiam aos pés-de-valsa conversar enquanto rodopiavam pelo salão, o que nem sempre era possível com as orquestras, donas do campinho até então.
Do lado de fora, além dos candidatos a penetra havia uma pequena-cidade-grande de 500 mil habitantes, conservadora, ainda sem escadas-rolantes e que mantinha hábitos interioranos, como o de receber o leite na porta de casa ou conservar a virgindade feminina até o casamento. Essa mesma candidata a metrópole tinha o seu lado europeu, em um clima noir com carros importados, bondes, fachadas neoclássicas, postes art-nouveau, confeitarias com mesas de mármore, lojas de discos, dezenas de cinemas e uma vida noturna fervilhante, como se abrigasse uma Buenos Aires em miniatura.
A "Pôrto Alegre" com acento circunflexo respirava música, ainda sem distinção entre som de brotos ou coroas. Personagem-chave nesse cenário, Norberto começara a dedilhar o piano em casa muito cedo, aos 4 anos. Tornou-se íntimo do instrumento em aulas no Instituto Musical e aos 19 já participava da Orquestra de Ernani & Marino (então a melhor do Estado) na rádio Difusora, depois na Gaúcha. Logo acrescentou ao currículo apresentações na noite local e do Litoral Norte, bem como plantões vespertinos como intérprete de partituras na Casa Beethoven, na Galeria Chaves.
Tudo isso espremido nos intervalos de batente na farmácia do pai, um imigrante suíço que não dava moleza. Em 1951, tivera que deixar a música para se dedicar integralmente aos tubos-de-ensaio, mas as teclas falaram mais alto e, no ano seguinte, uma bolsa de estudos o levou de navio à Alemanha para aperfeiçoamento musical no Instituto Haydn de Munique. Hospedado na casa de parentes, acompanhou durante um ano a ebulição sonora no estrangeiro, onde despontavam grupos de jazz mais compactos - qualquer banda com seis elementos já era aglomeração.
Ao retornar, estava convencido de que a ideia dos grandes remédios em pequenos frascos poderia dar certo em Porto Alegre. Recontratado pela Rádio Gaúcha em 1952, passou a estrelar programas como Um Piano Dentro Da Noite, "cartaz" que trazia a reboque convites para um extra fora da emissora. E se nem sempre os escretes (pequenos grupos de ocasião) primavam pelo profissionalismo ou as orquestras eram acessíveis a qualquer contratante, ele tinha uma solução sintonizada com os novos tempos. Não faltariam parceiros de qualidade para a empreitada.
Para o acordeon, a escolha recaiu sobre o catarinense Victor Canella, um gênio autodidata já a circular pelos mesmos ambientes musicais de Baldauf, que o conhecia das temporadas de verão na praia de Torres. A guitarra (na verdade um violão amplificado) não podia ficar a cargo de outro que não Raul Lima, um gentleman de acordes elegantes e ex-aluno de Octávio Dutra (1884-1937). Ele e o cunhado Leo Velloso, um contrabaixista capaz de tocar até serrote, atuavam eventualmente com Norberto no acompanhamento de cantores da Gaúcha - todos os três, aliás, contemporâneos no Colégio Júlio Castilhos.
Faltava só completar a "cozinha", função que contou com um mandato-tampão do riograndino Guttemberg "Porto Rico", ex-colega de Raul no Conjunto de Aderbal D'Ávila e que chamava a atenção ao circular pela Rua da Praia de terno branco, gravata-borboleta, óculos fundo-de-garrafa e charuto. Apesar de sua competência, ele havia sido chamado só para esquentar o banquinho até a entrada da primeira opção do grupo, o versátil Wilson Baraldo, egresso de uma família de músicos e ainda preso a um contrato com a casa noturna American Boite, onde mostrava serviço em qualquer ritmo.

Segue o baile...

Apresentação profissional abriu muitas portas para o conjunto

Apresentação profissional abriu muitas portas para o conjunto


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
A apresentação do quinteto na reunião dançante da Arquitetura deflagrou uma agenda cada vez mais cheia, impulsionada pela divulgação boca-a-boca, a vitrine radiofônica e um diferencial no marketing: o profissionalismo, resumido no slogan estampado em seus cartões-de-visita: "Uma garantia para sua festa". Pontualidade, sobriedade e outros protocolos de disciplina logo levaram o conjunto a ser recebida na porta da frente pelos diretores dos clubes, em uma época na qual o desprestígio da classe junto a segmentos mais elitistas obrigava muitos artistas a acessar pelos fundos os locais de apresentação.
Para conciliar compromissos musicais com os empregos paralelos de Norberto, Raul e Leo, o grupo rebolava a ponto de combinar férias simultâneas em suas repartições. Situação que não mudaria muito com o acréscimo, em 1954-1955, do elétrico ritmista Fausto Touguinha - outro riograndino, crescido no IAPI - e do sofisticado crooner Luiz Octávio (ambos também com passagens pela Gaúcha), em uma gestão compartilhada na qual o nome de Norberto no bumbo não passava de mera formalidade - ter um pianista de band-leader, mesmo que só no papel, servia como atestado de qualidade.
O hepteto já excursionava pelo Interior gaúcho, Argentina e Uruguai quando surgiu o convite da gravadora Odeon para entrar em estúdio, no segundo semestre de 1955. Alvo de elogios na imprensa e com boas vendas nas lojas, a performance do conjunto no "microssulco" deu origem a uma discografia que chegaria a 20 títulos ao longo da carreira, incluindo registros em 78 rotações, compactos e LPs de 10 e 12 polegadas, sempre com o fino da música dançante: boleros, baiões, sambas, foxes, tangos, mambos, bossas, rocks, canções de filmes e, é claro, hits românticos para bailar de rosto-colado.
"Eu adoro a delicadeza da sonoridade das faixas desse lance dos conjuntos melódicos, principalmente o de Norberto Baldauf", conta o cantor, compositor e colecionador carioca Ed Motta, 50 anos e que conheceu o trabalho do grupo gaúcho por volta do ano 2000. "É incrível que isso seja atualmente ignorado pela grande maioria das pessoas. Talvez pela questão do que se entendia naquele momento como música para dançar e que depois passou a ser outra coisa, de qualquer forma eu acho que aí está um som que tem tudo para agradar a quem hoje gosta de gêneros como o lounge, em qualquer parte do mundo."

Herois de rádio e TV

Somando estilos como a bossa nova e a canção romântica italiana, Norberto e cia. seguiram na crista da onda

Somando estilos como a bossa nova e a canção romântica italiana, Norberto e cia. seguiram na crista da onda


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
Com êxito total em programas próprios ou como acompanhantes de estrelas visitantes na rádio Gaúcha, o Conjunto Melódico de Norberto Baldauf deu um de seus maiores saltos de popularidade à beira dos anos 1960. Não sem antes reconfigurar a sua escalação: com a saída de Luiz Octávio (que optara por uma carreira de comissário de bordo), entrava em cena o jovem cantor-galã Edgar Pozzer, nascido na serra gaúcha. Protagonista de atrações na rádio Farroupilha e segundo lugar no concurso nacional A Voz de Ouro, ele trazia na manga uma especialidade prestes a conquistar as paradas: a canção romântica italiana.
Pozzer, que aos 83 anos mantém a boa-pinta e ainda hoje brinda os fãs com sua voz em eventos dançantes, compartilha uma história saborosa que co-protagonizou nos seus tempos de Baldauf: “Lá pelos idos de 1960, uma caxumba me deixou afônico quando já tínhamos assinado para três ou quatro shows. Optamos por levar uma cantora de apenas de 15 anos mas que dava conta do recado. Ela se saiu muito bem, conforme esperado, o que não impediu um dos contratantes de reclamar ‘Pô, vocês me mandaram uma guria!’. A adolescente, no caso, era a Elis Regina...”.
A parte instrumental propunha seus desafios. Prensados entre a estratégia de manter a fórmula de sucesso consagrada na década anterior e a necessidade de inovar para não parecerem "quadrados", acrescentaram um vibrafone com o paulista Hélio Santos (1938-2012), além de substituir o baterista por Léo Belloni (1935-1977), um porto-alegrense criado no Rio de Janeiro e com um melhor domínio da batida da bossa nova. Com essa formação, foram contratados pelas Emissoras Associadas, dona da Rádio Farroupilha e de uma novidade total para os gaúchos: a TV Piratini, inaugurada em dezembro de 1959.
Tarefa difícil mesmo para profissionais experientes do entretenimento, a migração para a telinha foi tirada de letra por Norberto e sua gangue. A presença era diária na programação, fornecendo a trilha para atrações da casa e estrelando esquetes musicais noturnos às terças-feiras, com direito a brincadeiras de improviso e, não raro, com pouco ou nenhum ensaio. Uma amostra dessa fase permanece eternizada no LP Baldauf Retorna, lançado pela Philips em 1962, meses antes de serem dispensados da emissora - com a chegada do videotape, era hora de "dar o prefixo e sair do ar".
Fora da mídia mas sem perder o pique, o bando continuou o seu périplo, inspirando romances em palcos como o dos Bailes da Reitoria (1957-1970). A última grande aquisição na fase áurea seria o vibrafonista e organista Heitor Barbosa, outro produto de Rio Grande radicado na Capital e com ficha corrida em outros melódicos. A máquina estava tão azeitada que seguiria funcionando normalmente mesmo com a debandada de Leo Velloso (para São Paulo) e do próprio Norberto, por exigências acadêmicas como professor da Faculdade de Farmácia na mesma Ufrgs onde se apresentava como pianista.
A saída de Edgar Pozzer - já dono de um bar, o antológico Girasole (1970-2017) - foi a deixa para nova repaginação do lay-out no começo da década de 1970. Sob a batuta artística de Canella/Touguinha/Heitor porém mantendo a grife como "Norberto Baldauf e Seu Conjunto", a sonoridade abarcou órgão eletrônico, saxofone, trompete e flauta, conforme testemunhado por um LP lançado em 1977 pela Continental. Mesmo tocando por até cinco horas seguidas e quase sem descanso, a disputa por espaço se complicava, em meio à concorrência com a discoteca e outras mudanças de comportamento.
 

Despedida vira retorno

Após inesperado revival nos anos 1980, conjunto seguiu até 2013

Após inesperado revival nos anos 1980, conjunto seguiu até 2013


/ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
Com as coisas já devagar-quase-parando, em maio de 1983, o então mais antigo conjunto de bailes em atividade no Rio Grande do Sul decidiu pendurar as chuteiras. Não que faltassem fãs ou eventos, mas a logística andava complicada. Foi quando os fundadores fecharam questão em percorrer a imprensa avisando que a conta estava sendo fechada. Pois logo na primeira escala, a Rádio Guaíba, os apresentadores Paulo Deniz, Rogério Mendelski e José Fontella acenaram com uma retirada honrosa: "Que tal celebrar o aniversário de 30 anos do grupo, em maio, com um grande show de despedida?".
A própria companhia Caldas Júnior colocou toda sua estrutura jornalística e comercial a serviço do evento, não apenas na divulgação como também em sua produção, busca de patrocínios e garantia de cobertura completa em rádio, jornal e TV. Alguma semanas depois, uma grande fila ao redor da Sogipa (a Reitoria da Ufrgs não estava disponível) tratou de esgotar em menos de duas horas os ingressos para o jantar-dançante A Noite do 'Lembra?', em 17 de setembro - um sábado emblemático e que ficaria marcado na memória de muita gente, a começar pelo próprio conjunto.
Para os 400 casais presentes no salão do clube, a experiência não se resumiu ao saudosismo com gosto de cuba-libre. Houve o êxtase em conferir pela primeira vez no mesmo palco os crooners Luiz Octávio e Edgar Pozzer, além da reaparição do baterista Wilson Baraldo na primeira metade do espetáculo. A legião de sem-ingresso foi ao menos contemplada com a chance de acompanhar pela TV Guaíba (ao vivo e em pelo menos três reprises exibidas na íntegra a partir do dia seguinte) um show antológico e que acabou motivando registro em disco, o último da banda.
O êxito da iniciativa foi tamanho que acabou determinando uma mudança de planos: em vez da aposentadoria, os já cinquentões Norberto, Canella, Raul, Touguinha, Heitor e os dois cantores resolveram reativar os trabalhos, com uma energia que em nada ficava devendo aos velhos tempos. Essa reentré no circuito social desencadeou uma verdadeira tsunâmi de eventos dançantes até o final daquela década. E ainda forneceu ao conjunto uma sobrevida artística que perduraria por mais 30 anos. Quem seria capaz de imaginar, àquela altura do campeonato?
Foi bonito de se ver e ouvir. Faceiros e dividindo o palco com colegas mais jovens (Paulo Nelson, Celso Mosquito, Arlindo Baby, Luiz Pelizzari, Antoninho Klein, Juca Feijó, Douglas Ceccato, Zé Vidal, Daniel Lima, Vera Falcão, Marcelo Quadros, Zé Carlos, Carlos Calcanhotto) e com eventuais colaborações de Edgar e Heitor, os herois das madrugadas ganharam até um livro biográfico - Week-End No Rio (2006). Até que os veteranos foram apagando a luz do salão, um a um - primeiro Touguinha, depois Luiz Octávio, Raul e Norberto. Desde então, as madrugadas nunca mais foram as mesmas.
 

Outros melódicos

Formações semelhantes movimentaram a noite gaúcha dos anos 1950-1970, algumas chegando ao vinil

Formações semelhantes movimentaram a noite gaúcha dos anos 1950-1970, algumas chegando ao vinil


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
Com maior ou menor grau de semelhança entre si, os “melódicos” tiveram alta densidade demográfica no Rio Grande do Sul de 1950-1970, em um fenômeno talvez sem paralelo em outros Estados. Todos procurando seu espaço e alguns assumidamente inspirados no conjunto de Norberto Baldauf, cerca de 50 grupos do gênero atuaram regularmente, alguns também chegando ao disco, como Flamingo, Flamboyant e Renato & Seu Sexteto – sem contar gênios como Breno Sauer e Manfredo Fest, que construíram fama internacional depois de migrar para os Estados Unidos. Confira os expoentes:
 
– Aderbal D’Ávila
– Primo
– Flamingo
– Flamboyant
– Manfredo Fest
– Breno Sauer
– Renato & Seu Sexteto
– Herbert Gehr
– Nicolau Kersting
– Aristides Villas-Boas
– Mocambo
– Stardust
– Poposki
– Icaraí
– Noblesse
– Arpege

Discografia


ACERVO MARCELLO CAMPOS/DIVULGAÇÃO/JC
No período entre 1955 e 1983, o Conjunto Melódico de Norberto Baldauf lançou 20 discos pelos selos Odeon, Philips e Continental, a maioria gravados em estúdios de Rio de Janeiro e São Paulo. Todas as 157 faixas continuam inéditas em formatos digitais ou plataformas de streaming, enquanto os álbuns originais – cada vez mais difíceis de encontrar em boas condições nos sebos reais ou virtuais – permanecem cultuados por colecionadores atentos, inclusive fora do País. A exceção fica por conta do trabalho solo Dance com Norberto Baldauf (2009), CD independente produzido pelo pianista aos 81 anos.
Mano a Mano / Cerejeira Rosa (78rpm Odeon | 1955)
Ritmos da Madrugada (LP Odeon | 1955)
Duas Rotações / Copacabana (78rpm Odeon | 1956)
Brejeiro / Baião na Espanha (78rpm Odeon | 1956)
Love is a many splendored thing / Arrivederci Roma (78rpm Odeon | 1956)
Brejeiro / Baião na Espanha (78rpm Odeon | 1956)
Ritmos da Madrugada Nº 2 (LP Odeon | 1956)
Saudades da Bahia/Dança das Horas (78 rotações Odeon | 1957)
Em Tempo de Samba (Compacto duplo Odeon | 1957)
Week-End No Rio (LP Odeon | 1957)
Cocktail de Ritmos (Compacto duplo Odeon | 1958)
Ritmos da Madrugada Nº 3 (LP Odeon | 1958)
Week-End No Rio Nº 2 (LP Odeon | 1958)
Hora de Dançar (LP Odeon | 1958)
Rock On Big Hits (LP Odeon | 1959)
Encontro Dançante (LP Odeon | 1960)
Baldauf Retorna (LP Philips | 1962)
Parole (LP Philips | 1968)
Conjunto Norberto Baldauf (LP Continental | 1962)
A Noite do "Lembra?" - Ao Vivo (LP Continental | 1983)
Dance com Norberto Baldauf (CD independente | 2009)

* Marcello Campos, 49 anos, é formado em Jornalismo, Publicidade & Propaganda (ambas pela PUCRS) e Artes Plásticas (UFRGS). Tem seis livros publicados, incluindo a biografia de Lupicínio Rodrigues e do Conjunto Melódico Norberto Baldauf. Há mais de uma década, dedica-se ao resgate de fatos, lugares e personagens porto-alegrenses.