A maior enchente que Porto Alegre já viu

De 22 de abril a 14 de maio de 1941, chuva bateu recorde, alagando a Capital por 23 dias


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Reportagem:
Marcus Meneghetti*
Imagens:
Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa
Acervo do Museu da BM
Mariana Alves/JC
Luiza Prado/JC
Edição:
Guilherme Kolling
Caroline Zatt da Silva
Editor-chefe:
Guilherme Kolling
Armazéns do Cais do Porto e área junto ao Guaíba, no Centro, ficaram alagadas em maio de 1941

Armazéns do Cais do Porto e área junto ao Guaíba, no Centro, ficaram alagadas em maio de 1941

Acervo fotográfico/Museu de Comunicação Hipólito José da Costa/Antônio Nunes/JC

Porto Alegre. Madrugada de 6 de maio de 1941. Os linotipistas do Diário de Notícias, um dos principais jornais da Capital, se apressam para imprimir a edição que será vendida ao amanhecer.
Eles têm pressa porque as águas do Guaíba – cujo leito transbordou há alguns dias – estão prestes a atingir a sede do veículo, instalada em um edifício de dois andares na Rua dos Andradas, nº 1.137 (onde hoje fica a Galeria Di Primio Beck). Enquanto os gráficos operam as três máquinas linotipos e a rotativa no andar térreo, os repórteres se posicionam na sacada do segundo andar, de onde enxergam boquiabertos a Praça da Alfândega submersa.
Naquela noite, ao final do trabalho na redação, um jornalista testemunhou o avanço da cheia: “à hora que encerramos o serviço, as águas começavam a vencer o fio do cordão da calçada do edifício do Diário de Notícias”. Apesar do avanço das águas, a edição saiu antes que inundasse a oficina. A matéria de capa começava assim: “Já não há mais dúvida: estamos em face da maior enchente que até hoje conheceram Porto Alegre e o Rio Grande do Sul”.
De fato, a enchente de 1941 – que completa 80 anos em 2021 – foi a maior da história de Porto Alegre. De 10 de abril a 14 de maio, os jornais noticiaram a maior quantidade de chuva registrada neste período do ano: 629,4mm. Ao mesmo tempo, informavam que chovia aos cântaros em praticamente todo o Estado, inclusive nas regiões onde ficam os principais rios que desaguam no Guaíba: Taquari, Jacuí, Caí, Gravataí e do Sinos.
Como se não bastasse, o vento sul, vindo da Lagoa dos Patos, empurrava a enchente contra a cidade. Em 8 de maio, a combinação desses fatores elevou o Guaíba ao maior nível já registrado: 4,76m. A Capital permaneceu inundada por 22 dias, de 22 de abril a 14 de maio.
Muitos fotógrafos – como Sioma Breitman, Lauro Porto e Carlos Contursi – registraram diariamente o avanço das águas sobre a cidade. Chegaram de barco aos locais mais afetados, como as ilhas do Delta do Jacuí e os bairros São João, Navegantes, Centro, Cidade Baixa, Menino Deus e Praia de Belas.
Se não tivessem tirado tantas fotos, talvez fosse difícil acreditar que os principais cartões postais da cidade ficaram submersos: o Cais do Porto ficou sob 2m de água; o Mercado Público, sob 1,7m; a Praça da Alfândega, sob 1,5m; e a Usina do Gasômetro, sob mais de 1m. A Rua dos Andradas ficou alagada do Gasômetro até a esquina com a General Câmara.

A Rua dos Andradas ficou alagada do Gasômetro até a esquina com a General Câmara

A Rua dos Andradas ficou alagada do Gasômetro até a esquina com a General Câmara

Acervo do Museu de Comunicação Hipólito José da Costa/JC

Mais de 40 mil cidadãos – 14,6% da população – tiveram que abandonar seus lares, quando, repentinamente, a água começou a invadir a cozinha, sala, quarto etc. Parte dessas pessoas foi para a casa de algum parente; parte foi acolhida por famílias não atingidas pela cheia; e parte foi para os abrigos improvisados pelo governo do Estado e a prefeitura.
Conforme os balanços divulgados pela imprensa da época, quase 18 mil flagelados, como eram chamados os desabrigados, passaram a viver em 84 albergues espalhados pela cidade. Mais ou menos 500 deles permaneceram lá até meados de junho.
Além das residências, mais de 600 estabelecimentos comerciais e industriais foram atingidos. Conforme o escritor Rafael Guimaraens – que, em 2009, escreveu o livro A Enchente de 41 – o prejuízo chegou a 60 mil contos de réis. Hoje esse valor significaria mais de US$ 30 milhões.
No momento mais drástico da enchente – a primeira semana de maio –, os principais serviços públicos foram interrompidos. O transporte em bondes, automóveis e carroças foi substituído por embarcações. O transporte intermunicipal só foi retomado na segunda semana de maio, em um modelo híbrido, com viagens feitas em barcos, ônibus e trens, dependendo do trecho.
Boa parte dos serviços de comunicação foi prejudicada, porque o prédio dos Correios e Telégrafos (onde hoje funciona o Memorial do Rio Grande do Sul) foi um dos primeiros a ser inundado. O fornecimento de gás e energia elétrica foi cortado por alguns dias, visto que a Companhia de Energia Elétrica – que operava na Usina do Gasômetro – também foi alagada. Por fim, o fornecimento de água potável foi suspenso também.
Esse cenário caótico foi largamente documentado por fotógrafos, jornalistas e autoridades – apesar das dificuldades impostas pela enchente. Por exemplo, embora o Diário de Notícias tenha conseguido imprimir a edição de 6 de maio, a oficina acabou alagada naquela madrugada. A sala de máquinas ficou sob uma lâmina de 30cm d’água.
Como se não bastasse, no dia seguinte, a inundação na Usina do Gasômetro interrompeu o fornecimento de energia elétrica por alguns dias. O jornal só retomou as edições em 10 de maio, quando a prefeitura emprestou um gerador para o veículo.
O Correio do Povo, Revista do Globo e outros veículos também passaram por alagamentos. O Jornal do Comércio – na época Consultor do Comércio – tinha sede no Palácio do Comércio, prédio cujas portas de entrada ficaram completamente embaixo d’água.
Mesmo assim, o material produzido pela imprensa da época, a bibliografia sobre o episódio e as entrevistas com especialistas permitiram reconstruir a trajetória de personagens que desempenharam um papel importante durante a cheia. Entre eles, o coronel Osvaldo Cordeiro de Farias, interventor federal nomeado pelo presidente Getúlio Vargas para governar o Rio Grande do Sul, entre 1937 e 1943; a primeira-dama do Estado, Avani Cordeiro de Farias; o editor da Revista do Globo, Justino Martins; e o repórter Abdias Silva. O itinerário dessas pessoas revela, hoje, 80 anos depois, novos aspectos sobre a maior enchente que Porto Alegre já viu.

Linha do tempo da Enchente de 1941

Sioma Breitman foi um dos fotógrafos que registrou o fato histórico na Capital

Sioma Breitman foi um dos fotógrafos que registrou o fato histórico na Capital

Acervo fotográfico/Museu de Comunicação Hipólito José da Costa/Sioma Breitman/JC

- Em 10 de abril de 1941, começa a chover em Porto Alegre. Entretanto, a chuva é intermitente e não chega a causar transtornos significativos. No interior do Estado, já chovia há mais tempo.
- A partir de 22 de abril, as chuvas intermitentes se transformam em temporais. Surgem os primeiros alagamentos ao redor do Arroio Dilúvio, em especial na Ilhota. Quase simultaneamente, ocorrem inundações no Delta do Jacuí e Quarto Distrito (sobretudo os bairros São João e Navegantes).
- Na última semana de abril, os desabrigados buscam auxílio em algumas repartições públicas de Porto Alegre e em barracas instaladas pelo governo na Praça da Harmonia (hoje Praça Brigadeiro Sampaio). Os flagelados que não conseguem auxílio começam a se abrigar embaixo do Viaduto Otávio Rocha.
- Em 30 de abril, com o avanço das águas sobre o Centro de Porto Alegre, o governo do Estado e a prefeitura de Porto Alegre criam a Comissão de Auxílio aos Flagelados e a Comissão de Tabelamento e Abastecimento. Os serviços de telégrafos e transporte ferroviário são suspensos.
- No início de maio, a Praça da Harmonia é alagada e o número de desvalidos se torna grande demais para caber embaixo do viaduto. A Comissão de Auxílio aos Flagelados acomoda os sem-teto em 84 abrigos, que vão sendo criados em escolas, clubes, sindicatos, igrejas e repartições públicas.
- Em 4 de maio, o nível do Guaíba alcança 3,9m. A Comissão de Tabelamento e Abastecimento congela o preço de alimentos e gêneros básicos, sob pena de prisão dos comerciantes que praticarem preços acima dos fixados.
- Em 5 de maio, as águas do Guaíba atingem a marca de 4,13m e invadem a Rua da Praia. Operários erguem um muro de tijolos ao redor da Usina do Gasômetro, na tentativa de preservá-la da iminente inundação.
- Em 7 de maio, a cheia supera o muro de tijolos e enche o andar térreo da Usina do Gasômetro com 1,5m de água. O carvão e as caldeiras ficam encharcadas, de modo que a termelétrica é obrigada a interromper o fornecimento de eletricidade. A hidráulica que capta água no Guaíba também fica submersa, impedindo o abastecimento de água potável.
- Apesar de 8 de maio ser um dia ensolarado, a enchente atinge o ápice. O nível do Guaíba atinge o maior nível já registrado: 4,76m. O vento sul empurra a enchente contra a cidade e impede o escoamento da água. Cerca de 190 operários conseguem isolar duas das oito bombas da Usina de Gasômetro, o que garante a volta da energia elétrica apenas para o Centro da Cidade.
- Em 9 de maio, o governo do Estado cria a Comissão Verificadora de Danos, para começar a avaliar o prejuízo causado pela enchente.
- Em 10 de maio, a Fiscalização dos Portos do Rio Grande do Sul constata que a água do Guaíba baixa 1cm por hora. Entretanto, algumas pancadas de chuva retardam ainda mais a diminuição do nível do lago.
- Em 11 de maio, a energia elétrica é religada em mais bairros. O transporte intermunicipal começa a ser reestabelecido com os municípios do interior. Entretanto, ocorrem de maneira “anfíbia”: parte ocorre em barcos; parte, em trens; e parte, em ônibus.
- Em 13 de maio, a água potável é reestabelecida. O governo cria a Comissão Consultiva de Restauração Econômica, através da qual empresários sugerem ações ao governo.
- No dia 14 de maio, a Fiscalização dos Portos do Rio Grande do Sul constata que o nível do Guaíba gira em torno de 3,5m (ocorrem variações por causa das pancadas de chuva). Os principais pontos de alagamento em Porto Alegre já diminuíram consideravelmente.
- Em 15 de maio, as águas baixam mais e a vida começa a voltar à normalidade. Naquele dia, a Comissão Verificadora de Danos já havia vistoriado 330 estabelecimentos comerciais. Ela contabilizava mais de 15 mil residências atingidas e mais de 600 estabelecimentos comerciais e industriais alagados. A Comissão de Auxílio aos Flagelados cuidava de 17.681 desabrigados instalados nos albergues da Capital. No entanto, o número de pessoas que tiveram que deixar suas casas passava 40 mil. O número de atingidos superava 70 mil.
- Em 20 de maio, embora a vida na cidade já voltasse ao normal, 540 estabelecimentos comerciais e industriais permaneciam fechados.

Os primeiros alagamentos atingem a Ilhota, Delta do Jacuí e Quarto Distrito

Placa fixada no prédio da Secretaria Estadual da Fazenda, indicando até onde subiu a água em 1941

Placa fixada no prédio da Secretaria Estadual da Fazenda, indicando até onde subiu a água em 1941

MARIANA ALVES/JC

Na enchente de 1941, a maior da história de Porto Alegre, três regiões da cidade alagaram primeiro: os bairros às margens do Arroio Dilúvio, as ilhas do Delta do Jacuí e o Quarto Distrito.
Embora chovesse desde 10 de abril, as inundações se agravaram em 22 de abril. Nesse dia, a chuva intermitente se transformou em um temporal. O aguaceiro fez transbordar o Arroio Dilúvio – que, naquela época, nascia no Morro Sant’Ana e serpenteava pelos bairros Partenon, Santana, Azenha, Cidade Baixa, Centro, até desaguar no Guaíba.
Uma das curvas do riacho, próximo à região do Areal da Baronesa, era conhecida pelos alagamentos frequentes. Ali havia um bairro pobre, conhecido como Ilhota, justamente pelo fato de ficar ilhado durante os extravasamentos do córrego. Esse foi um dos primeiros locais a ser alagado.
Naquele dia, os homens e mulheres que viviam nos casebres de madeira ficaram com água pela cintura. Rafael Guimaraens registra que, nessa ocasião, em uma casa na rua Marcílio Dias, ocorreu a primeira morte decorrente da enchente.
Enquanto a Ilhota foi invadida pelas águas do Arroio Dilúvio, a região do Delta do Jacuí foi inundada pelas águas do Rio Jacuí e Lago Guaíba. Os moradores das ilhas – na maioria, modestos pescadores – assistiram apreensivos as águas subirem ao longo de abril.
No ápice da enchente, em 8 de maio, quando o Guaíba subiu a 4,76m, a Ilha da Pintada chegou a ficar completamente submersa. Em um primeiro momento, os próprios pescadores organizaram o resgate dos 400 habitantes do local.
Tudo funcionava em torno de uma embarcação de maior porte, a lancha 13 de Maio, que ancorou em frente à sede da Colônia de Pescadores: as famílias eram levadas a bordo da lancha, onde aguardavam a chegada das canoas que as conduziriam a Porto Alegre. O transporte dos desabrigados era feito por pessoas, como Augusto Vogt, um dos líderes comunitários da Colônia de Pescadores.
O jornalista que melhor documentou o estrago causado pela enchente na região do delta foi o repórter da Revista do Globo Abdias Silva. No dia 10 de maio, quando as águas já haviam baixado um pouco, ele pegou um barco para a Ilha da Pintada. Ironicamente, o dia estava ensolarado quando se aproximou da ilha.
Antes mesmo de descer à terra firme, enxergou fogões, cadeiras e outros móveis espalhados pelos campos. Também viu colchões pendurados nas copas das árvores. Alguns objetos, retirados da água pelos moradores, secavam ao sol. Era o caso, por exemplo, de uma imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, corroída pela enchente.
Ao colocar os pés na ilha, o repórter se aproximou de um homem que remexia em um monte de escombros. Antes da catástrofe, aquela pilha de madeiras, telhas e vidros formava a casa onde funcionava o pequeno bar e salão de danças do senhor Ventura Inácio da Costa. Ao conversar com o jornalista, Inácio da Costa explicou que o seu estabelecimento havia sucumbido à força da correnteza, de modo que, naquele momento, só lhe restava resgatar os objetos que poderiam ser reaproveitados.
Enquanto Abdias Silva falava com o proprietário do bolicho destruído, o vizinho Procópio Vieira de Araújo – um dos habitantes mais antigos do local – retirava os móveis encharcados de dentro do casebre onde morava com a família. Vieira de Araújo teve sorte, por assim dizer. Sua casa não despencou, apenas ficou completamente desconjuntada.
Enquanto o pai de família trazia ao sol cadeiras, mesas e até um carro de mão, o repórter conversava com o filho de Procópio, Newton Araújo. O menino, que cursava a terceira série em uma das duas escolas da ilha, relatou que o mobiliário do colégio foi carregado pelas águas. Sem as carteiras, quadro negro e tudo o mais, os 50 alunos do estabelecimento não tinham a menor previsão de volta às aulas.
A partir das suas impressões e entrevistas com os moradores, Abdias Silva escreveu uma reportagem publicada na edição especial sobre a Enchente de 1941, da Revista do Globo. Na matéria, ele resume assim o que viu: “os prejuízos decorrentes da inundação não foram avultados, mas foram mais graves, porque foram totais. A Ilha da Pintada, que já era uma colônia pobre, ficou reduzida a destroços”.

No Caminho Novo (Voluntários da Pátria), se concentrava maior parte do comércio atacadista

No Caminho Novo (Voluntários da Pátria), se concentrava maior parte do comércio atacadista

Acervo fotográfico/Museu de Comunicação Hipólito José da Costa/Antônio Nunes/JC

A mesma edição da Revista do Globo continha algumas páginas descrevendo o prejuízo no Quarto Distrito. A região – que concentrava as principais indústrias da cidade e as residências humildes dos operários – era margeada pelo Rio Jacuí, que alcançava a rua Voluntários da Pátria. No Caminho Novo (como também era conhecida a Voluntários), também se concentrava a maior parte do comércio atacadista da cidade.
A partir da intensificação das chuvas, as águas do Jacuí invadiram esses estabelecimentos comerciais. Também foram afetadas as casas dos trabalhadores, no bairro Navegantes; e as pequenas chácaras e residências, no bairro São João. “Não ficaram mais que alguns arbustos e cumeeiras das casas para fora d’água”, relata uma matéria da Revista do Globo. As edificações do Quarto Distrito ficaram submersas por mais de 15 dias. O aeroporto, que também ficava naquela localidade, ficou imerso em 1m d’água. Os voos só não foram cancelados, porque os aviões passaram a utilizar o campo da empresa Air France, em Cachoeirinha.
No auge da enchente, a inundação avançou sobre a avenida Farrapos e chegou até a Cristóvão Colombo. As principais fábricas da indústria têxtil foram atingidas. A Companhia Fiação e Tecidos Porto-alegrense ficou sob 2m de água, o que danificou seriamente o maquinário. O edifício da empresa ainda está de pé, na esquina da rua Voluntários da Pátria com a avenida São Pedro. A Fábrica da A. J. Renner (cujo prédio ainda existe, entre a Farrapos e a rua São Carlos) perdeu 100 mil quilos de lã. Contudo, aquele era apenas o começo da maior enchente de Porto Alegre. Nos primeiros oito dias de maio, a cheia chegaria ao ápice, alterando completamente a paisagem no Centro da cidade.

Como era a vida nos abrigos para flagelados na Enchente de 1941

Justino Martins, da Revista do Globo, passou noite em um dos 84 abrigos para os mais de 18 mil desabrigados

Justino Martins, da Revista do Globo, passou noite em um dos 84 abrigos para os mais de 18 mil desabrigados

AUTOR NÃO IDENTIFICADO/ACERVO MUSEU BM/DIVULGAÇÃO/JC

Em 7 de maio de 1941, um dia antes de a maior enchente de Porto Alegre atingir o nível máximo (4,76m), a Capital estava imersa no caos. Não havia transporte ferroviário para entrar ou sair da cidade, porque as linhas férreas estavam submersas. Também não tinha comunicação com outros municípios, porque o edifício dos Correios e Telégrafos estava imerso em mais de 1,5m de água.
Tampouco havia luz elétrica, porque o Guaíba tinha transbordado para dentro da Usina do Gasômetro, o que encharcou o carvão e as caldeiras, impedindo a termelétrica de gerar eletricidade. Não obstante, o fornecimento de água potável foi interrompido, porque a cheia havia contaminado a água tratada nas hidráulicas. Foi nesse cenário que o editor da Revista do Globo, Justino Martins, deu entrada em um abrigo para flagelados (como eram chamados os desabrigados pela cheia).
No final da tarde, o jornalista chegou a um dos 84 albergues instalados na cidade. Cerca de 70 mil pessoas foram afetadas pela cheia - a população de Porto Alegre na época era de 272.232 pessoas. Mais de 40 mil tiveram que deixar seus lares, para irem para a casa de parentes ou amigos. Quase 18 mil não tiveram outro lugar para ir, além dos postos de socorro. O acolhimento dado a essas pessoas também foi dispensado a Justino Martins.
Ao entrar no abrigo, o jornalista recebeu uma vacina contra a febre tifoide. A vacinação nos albergues foi determinada pelo diretor interino do Departamento Estadual da Saúde (atual Secretaria Estadual da Saúde), Dr. Francisco Salzano. O objetivo era evitar que o contato com a água contaminada da enchente causasse epidemias de tifo, difteria, varíola etc. Conforme levantamento do Diário de Notícias, até 10 de maio, os médicos e enfermeiros haviam aplicado 55.235 vacinas contra tifo; 14.430, contra varíola; e 600, contra difteria. Deu certo. Não houve nenhum surto dessas doenças. Por outro lado, houve mortes por leptospirose e espiroquetose, doenças para as quais ninguém havia sido imunizado.
Depois de ser vacinado, Justino Martins se acomodou no chão, em cima de colchões e cobertores, onde descansavam os outros flagelados. Muitos ainda vestiam as roupas úmidas. Aliás, não paravam de chegar novos desabrigados, que entravam no recinto com os vestidos, calças, camisas e casacos gotejando pelo chão.
A maioria dessas pessoas vinha dos bairros Navegantes e São João. Inclusive, uma moradora do São João, Almerinda Mateus Corrêa, contou ao jornalista como ela e a filha de 16 anos foram resgatadas.
O relato foi transcrito pelo jornalista na matéria que escreveu para a edição especial da Revista do Globo, sobre a Enchente de 1941. “Fomos acordadas pelas águas às 2h da madrugada e ficamos na árvore por mais de duas horas e meia, à espera de uma canoa, nas trevas, vendo apenas as luzes distantes dos barcos de socorro. Mas nenhum deles se aproximava de nós. Nossa casa estava com água pelo teto e, ficando isolada das outras, os gritos que dávamos se perdiam no ruído da chuva. Finalmente, ao raiar do dia, fomos socorridas, mas como o senhor está vendo...”, disse Almerinda – mostrando ao jornalista as roupas molhadas.
Por volta das 20h, um caminhão do governo trouxe para o abrigo velas, alimentos e roupas secas. O primeiro item a ser distribuído foram as vestimentas, doadas pelos porto-alegrenses que não foram atingidos pela cheia. Após receberem peças secas em um balcão arranjado às pressas, os flagelados seguravam em pé cobertores e colchões, com os quais improvisavam biombos onde as pessoas conseguiam se trocar com alguma privacidade.
A carga do caminhão também tinha alguns pacotes com velas e dois lampiões a querosene. A luz das chamas bruxuleava pelo recinto, mas era o suficiente para iluminar a mesa, onde seria servido o jantar. O cardápio enviado ao albergue naquela noite continha o seguinte: feijão, arroz, carne cozida e pão. Os flagelados comeram rapidamente a refeição.
Justino Martins relatou que, depois da janta, todos ficaram com sede, porque a carne havia sido salgada demais. Por conta disso, os administradores do abrigo tiveram que servir boa parte da água potável que vinha sendo racionada. Além de três refeições diárias – café da manhã, almoço e janta –, as mulheres que estavam amamentando seus bebês recebiam leite puro a cada três horas.
Depois da janta, o editor da Revista do Globo relatou que os flagelados tentaram descansar. Embora exaustos, a maioria conseguiu apenas cochilar. Os gemidos de uma senhora enferma e o choro de um bebê doente atrapalharam o sono. Além disso, todos estavam apreensivos com a situação calamitosa da cidade, do seu bairro, da sua casa... da sua vida.
Ao despertar na manhã seguinte, Justino Martins enxergou pelas janelas um céu ensolarado. Com a autorização dos médicos, caminhou em direção à porta, com a intenção de sair do albergue. Mas, assim que colocou os pés na rua, constatou estarrecido que a água da enchente estava a um quarteirão do abrigo. Diante do seu assombro, os médicos lhe informaram que, apesar do bom tempo, o Guaíba havia atingido o nível máximo já registrado – 4,76m. Isso aconteceu por conta do vento sul, que empurrava a enchente contra a cidade. O jornalista perguntou, então, se os flagelados teriam que deixar aquele local. Não, não precisariam. Embora a enchente de 1941 tivesse atingido o ápice naquele dia – 8 de maio –, as águas haviam parado de subir. Contudo, por conta do vento, que represou o escoamento da cheia, o nível do lago levaria mais de uma semana para baixar.

* Marcus Meneghetti, jornalista formado pela Ufrgs, é repórter de Política do Jornal do Comércio.

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Reportagem publicada em 22/04/2021 pelo

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