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reportagem cultural

- Publicada em 21h08min, 25/02/2021. Atualizada em 19h35min, 11/03/2021.

Moacyr Scliar, o escritor imortal que cantou o Bom Fim e retratou o mundo

Médico gaúcho e autor da Academia Brasileira de Letras faleceu há uma década

Médico gaúcho e autor da Academia Brasileira de Letras faleceu há uma década


GILMAR LUÍS/ARQUIVO/JC
Lívia Guilhermano*
"Estou deitado sobre a mesa. Um bebê robusto, corado; choramingando, agitando as mãozinhas - uma criança normal, da cintura para cima. Da cintura para baixo: o pelo de cavalo. As patas de cavalo. A cauda, ainda ensopada de líquido amniótico, de cavalo. Da cintura para baixo, sou um cavalo. Sou - meu pai nem sabe da existência desta entidade - um centauro. Centauro". O trecho de O centauro no jardim, que descreve o momento em que Guedali nasce, no interior do Rio Grande do Sul, é representativo. Está carregado de imaginação e simplicidade. Assim era Moacyr Scliar, escritor e médico gaúcho, que faleceu em 27 de fevereiro de 2011, deixando saudade.
"Estou deitado sobre a mesa. Um bebê robusto, corado; choramingando, agitando as mãozinhas - uma criança normal, da cintura para cima. Da cintura para baixo: o pelo de cavalo. As patas de cavalo. A cauda, ainda ensopada de líquido amniótico, de cavalo. Da cintura para baixo, sou um cavalo. Sou - meu pai nem sabe da existência desta entidade - um centauro. Centauro". O trecho de O centauro no jardim, que descreve o momento em que Guedali nasce, no interior do Rio Grande do Sul, é representativo. Está carregado de imaginação e simplicidade. Assim era Moacyr Scliar, escritor e médico gaúcho, que faleceu em 27 de fevereiro de 2011, deixando saudade.
Passaram-se 10 anos, mas Scliar segue muito presente. A qualidade da escrita, a dedicação à literatura e à medicina e a personalidade acolhedora são características citadas por todos aqueles que acompanharam sua trajetória. "A lucidez do Moacyr é nítida e faz muita falta", diz Regina Zilberman, professora do Instituto de Letras da Ufrgs, amiga e grande conhecedora da obra de Scliar. Para ela, o trabalho deixado pelo autor é atemporal. Não foi à toa que recebeu o título de imortal.
Moacyr Scliar foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 2003, um reconhecimento digno da sua produção: foram mais de 100 obras publicadas (veja relação completa no site do Jornal do Comércio), entre os diversos gêneros - romances, contos, crônicas e ensaios. Escreveu para adultos, jovens e crianças, de ficção a textos sobre medicina. Foi colunista nos jornais Zero Hora e Folha de S. Paulo.
A herança literária deixada por Scliar ultrapassa os limites da sua própria obra, segundo o escritor, professor da Pucrs e amigo, Luiz Antonio de Assis Brasil: "Ele foi um escritor profissional e deixou, portanto, um exemplo para nós, escritores contemporâneos dele, e para os que vieram depois. Isso quer dizer que o legado dele é ainda maior".
Apesar de ter se notabilizado pela centralidade da temática judaica em sua obra, Scliar fez muito mais. "Nós temos que entender o Moacyr como o grande escritor que foi; e não evocar em primeiro lugar a questão judaica. Claro que ele tratou a questão com muito brilho, mas eu acho que a gente tem que ampliar a avaliação em relação a ele como grande fabulador, com grande domínio da língua literária", diz Assis Brasil, que completa: "Ele se foi muito cedo".
Scliar faleceu aos 73 anos de falência múltipla de órgãos, após ter um AVC. Regina conta que, pouco depois da morte, foi convidada para falar sobre ele em um festival literário na Serra da Mantiqueira, em São Paulo: "Eu pensei 'não é um evento gaúcho'. Cheguei lá e tinha um enorme público interessado, de faixas etárias e condições sociais diferentes. Isso me impressionou, porque tive uma prova cabal do impacto da obra dele, não apenas a popularidade".
Seus livros foram traduzidos no mundo inteiro e recebeu muitos prêmios ao longo da sua trajetória. O primeiro foi na adolescência, quando estudava no Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre. Ficou em segundo lugar no Concurso de Contos da União Internacional de Estudantes. "Ele foi retirar o prêmio, um par de sapatos, na sapataria do Bom Fim. Escolheu um par bonito, preto e envernizado. Só que na hora disseram para ele que o prêmio era um sapato do balaio", conta Judith Scliar, viúva do escritor. Moacyr precisou pagar a diferença para receber os sapatos que queria. Mal sabia que ainda ganharia inúmeros reconhecimentos. Recebeu cinco vezes o prêmio Jabuti, o mais tradicional da literatura brasileira, e muitos outros, como o Prêmio Casa de las Américas e o Prêmio José Lins do Rego, da ABL.
O centauro no jardim, seu livro mais conhecido, foi eleito, em 2002, um dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, pelo National Yiddish Book Center, nos Estados Unidos. A obra, que completou 40 anos em 2020, traz diferentes elementos presentes na própria história de Moacyr, como a vida no Rio Grande do Sul, o humor e a fabulação.
Familiares, amigos e acadêmicos estão dedicados a manter a memória de Scliar viva. Por isso, ao longo desses 10 anos, atividades têm sido realizadas para discutir as diferentes facetas do médico e escritor. O site moacyrscliar.com está atualizado e traz os detalhes da sua vida e obra.
O acervo do autor foi doado à Pucrs e pode ser visitado online no Delfos Digital. Lá, estão disponíveis originais das obras - textos feitos à mão e na máquina de escrever - cartas e notícias. É uma forma de tornar acessível ao mundo inteiro o trabalho de uma vida tão produtiva, que o tornou imortal.

O garoto que nunca parou de escrever

Pais Sara e José vieram da Europa pequenos em 1904 e se conheceram na Capital
Pais Sara e José vieram da Europa pequenos em 1904 e se conheceram na Capital
ACERVO JUDITH SCLIAR/DIVULGAÇÃO/JC
"Acho que todo escritor começa na infância, preserva dentro de si a criança que ele foi. A infância é o momento da vida em que nasce o ficcionista." Nessa fala, em entrevista à TVE-RS em 2003, Moacyr Scliar deixa claro de onde vem a matéria-prima da sua escrita.
Ele era filho de Sara e José, imigrantes judeus, que vieram, no início do século XX, da Bessarábia, na Europa Oriental, para o Rio Grande do Sul. Nasceu em 23 de março de 1937 e cresceu em uma casa na rua Fernandes Vieira, no bairro Bom Fim. O nome Moacyr foi escolhido pela sua mãe, inspirada pela obra de José de Alencar, Iracema.
Sara era professora e, mesmo que a família não tivesse muito dinheiro, dizia que livros não iriam lhe faltar. "Quando ele e o irmão eram pequenos, eles tinham que escrever uma composição por dia. Ela corrigia. Uma vez, no mês de dezembro, eles criaram coragem e tentaram se livrar da tarefa: 'Mãe, agora é período de férias'. Ela disse: 'Vocês têm razão. Agora vocês vão escrever duas por dia, porque têm mais tempo'", conta Judith Scliar.
José era comerciante, mas também um grande contador de histórias: "No verão, eles botavam as cadeiras na calçada. No inverno, sentavam em torno do samovar, que é aquele aparelho de chá que eles têm na Rússia. Contavam histórias de como era a vida por lá. Moacyr ficava fascinado com aquelas histórias".
O primeiro texto que Moacyr escreveu foi uma autobiografia, em um papel de pão - história que gostava de contar. "Era muito curto, afinal eu só tinha 5 anos", dizia. A escrita se tornou um hábito, que só cresceu.
Paralelamente à literatura, Scliar desenvolveu interesse pela Medicina, ingressando na graduação da Ufrgs, em 1955. Segundo ele, a escolha pela profissão foi motivada pelo medo de doenças: "Não de ficar doente. Isso até gostava, pois não precisava ir no colégio e ficava todo mundo ao meu redor. Mas quando minha mãe ou meu pai ficava doente, o que era raro, entrava em pânico", contou na entrevista à TVE.
Foi no último ano de faculdade, em 1962, que publicou seu primeiro livro, Histórias de médico em formação, ainda que, mais tarde, ele tenha renegado a obra. "Ele releu as crônicas e não gostou. Só que aí era tarde, porque a mãe dele já tinha andado por todo o Bom Fim e 'ai de quem não comprasse o livro'. Vendeu toda a edição em menos de uma semana", conta a viúva do escritor.
Judith, filha de imigrantes judeus alemães, conheceu Moacyr em 1963, por meio de amigos em comum. "Eu estava fazendo vestibular e o Moacyr apareceu na casa dos meus pais. Ele disse: 'Tu vai precisar de um atestado médico para fazer a inscrição no vestibular, então já vim aqui pra te dar'. Na verdade, ele foi lá para me ver, né?". Dois anos depois, casaram-se.
Moacyr Scliar nunca parou de escrever. No entanto, foi publicar novamente apenas em 1968. O Carnaval dos animais é a obra que ele considerava, de fato, sua primeira. Foi Carlos Appel, da Editora Movimento, que fez a publicação: "Me chamou atenção pela maturidade dele já. Como professor de Literatura, eu já tinha lido os grandes escritores do Estado e do Brasil e achava que o Scliar tinha, apesar de tematicamente muito diferente, uma aproximação nas estruturas dos contos com Machado de Assis".
Regina Zilberman ressalta a imaginação presente na obra: "Já aparecem ali personagens do mundo judaico. Tem um conto muito legal sobre Karl Marx vindo a Porto Alegre. Ele tinha uma imaginação fantástica. Em poucos minutos, já montava uma história. Isso é um dom".

Judaísmo, realismo mágico e literatura rio-grandense

Autor teve influência de Frantz Kafka, Sholem Aleichem e Marc Chagall
Autor teve influência de Frantz Kafka e outros artistas judeus, como o escritor Sholem Aleichem e o pintor Marc Chagall
LISETTE GUERRA/ACERVO JUDITH SCLIAR/DIVULGAÇÃO/JC
"Scliar é o autor que inaugura, na literatura brasileira, esse lugar de falar do povo judeu. Mas, ao falar do povo judeu, ele fala da humanidade inteira." O depoimento da escritora Cíntia Moscovich, também descendente de imigrantes judeus, ilustra o protagonismo de Moacyr Scliar dentro dessa temática. Em muitas de suas obras, o autor traz a história de judeus do Leste Europeu que vieram ao Brasil, na primeira metade do século XX, para tentar a sorte em uma sociedade muito diferente da que conheciam. Essa temática aparece no primeiro romance, A guerra no Bom Fim, de 1972, que trata da Segunda Guerra Mundial e os seus efeitos sobre o bairro judaico de Porto Alegre, sob o ponto de vista da infância.
Segundo Cíntia, a comunidade judaica, apesar de muito integrada à brasileira, tem particularidades: "A gente tem a figura da mãe judia, que o Scliar explorou tão bem, aquelas neuroses, como questões com doenças, questões bem folclóricas".
Para Luiz Antonio de Assis Brasil, é importante ressaltar que ele tinha um olhar bastante crítico da questão judaica: "Isso mostra a consciência do escritor". Scliar não era religioso, mas, sim, um grande estudioso da Bíblia, como demonstrou em Os vendilhões do templo e A mulher que escreveu a Bíblia.
Outra influência fundamental na obra do escritor é o realismo mágico, corrente literária caracterizada pela fantasia atrelada a aspectos da realidade.
Ele era um grande leitor de Frantz Kafka, conhecido, principalmente, por A metamorfose. Além do autor tcheco de língua alemã, outros artistas judeus também foram referências para ele, como o escritor Sholem Aleichem e o pintor Marc Chagall, que retratava seres mágicos em ambientes oníricos.
Não menos importante foi a influência da literatura gaúcha na sua obra. "Se o elemento mais fantástico, mágico, onírico vem desse meio Moacyr judeu, a outra parte vem do meio Moacyr gaúcho. Aí está a preocupação de primeiro escrever simples e de levar o leitor em conta", afirma a professora Regina Zilberman, que vê nele semelhanças com Erico Verissimo. "Ao mesmo tempo em que um camarada nasce meio homem e meio cavalo, o Bom Fim está ali. Não é um lugar imaginário. Isso é uma tradição da literatura do Rio Grande do Sul, que tem no Erico o grande nome", completa.
A autora Cíntia Moscovich conta que a releitura da obra de Scliar impactou a sua própria escrita, pois sentiu maior liberdade para se apropriar da cultura judaica: "Ele usou melhor do que ninguém o judaísmo e ele ajudou a minha geração inteira a fundar a nossa identidade, de judeus brasileiros e gaúchos, que parece uma coisa excludente, mas não é".
 

Imortalidade

Moacyr Scliar foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 31 de julho de 2003, para a cadeira de número 31, que pertencia a Geraldo França de Lima. "A academia responde a algumas necessidades regionais. Sempre tem um representante do Sul, outro do Nordeste, porque ela quer ser brasileira. Mas o Moacyr não entrou na vaga 'do Rio Grande do Sul', que foi do Vianna Moog e que hoje é o Carlos Nejar. O Moacyr entrou pelo Moacyr, foi convidado por ele mesmo", conta a professora Regina Zilberman.
A pesquisadora reforça que, inicialmente, Scliar estava relutante, fato confirmado por Judith Scliar: "Começou a haver uma pressão pra ter um gaúcho na Academia, porque o Mario Quintana tentou algumas vezes e não foi eleito. Começaram a pressionar e ele aceitou". A hesitação inicial vinha de algumas divergências que tinha em relação à ABL. Acreditava, por exemplo, que os acadêmicos tinham que ir a escolas e universidades, a fim de terem maior contato com o público.
A eleição de Scliar foi tomada como reparação. "Claro que foi uma justiça ao Rio Grande, mas foi, sobretudo, uma justiça a ele", diz Luiz Antonio de Assis Brasil, que ressalta o fato de Scliar nunca ter mudado, mesmo depois de se tornar imortal.

Empatia e dedicação

Judith e Moacyr com o filho Roberto, nascido em 1979
Judith e Moacyr com o filho Roberto, nascido em 1979
ACERVO JUDITH SCLIAR/DIVULGAÇÃO/JC
Um dos traços mais ressaltados por amigos, familiares e colegas de Moacyr é a disponibilidade dele para colaborar. Todos dizem que não importava se era para ser palestrante em um evento literário na Europa ou encontrar alunos em uma pequena cidade do Interior, ele sempre aceitava o convite. Da mesma forma, não se negava a ler obras de novos autores e escrever textos de apresentação. Colega de redação na Zero Hora, Tulio Milman lembra que Scliar lia todo o jornal e sempre comentava algo: "Algumas pessoas quando ganham o nível de reconhecimento que ele ganhou se descolam da realidade e se conectam com outros mundos. O Scliar, não. Ele foi ficando cada vez mais generoso, incentivando os colegas que estavam começando". Outra característica de Scliar era a rapidez para escrever. "Tinha até uma piada carinhosa na redação. Aconteceu algum fato e a gente precisava publicar um texto, diziam: 'Pede pro Scliar'. Em 15 minutos, estava pronto e era um baita texto", lembra.
Assis Brasil conta que Scliar era uma amigo interessado: "Ele perguntava o que a gente estava escrevendo. Também cuidava da nossa saúde. Eu encontrava ele fazendo caminhadas e ele dizia 'Já fizeste aquele exame que precisas fazer?'. Era uma pessoa encantadora".
O lado generoso também apareceu no episódio de plágio Yann Martel. Scliar decidiu não processar o autor do livro que deu origem ao filme As aventuras de Pi. O canadense admitiu ter copiado a ideia da obra Max e os felinos, a partir de uma resenha. Chegou, inclusive, a dizer que havia aproveitado uma boa ideia mal escrita de um escritor sul-americano. Depois, telefonou, pedindo desculpas a Scliar, que, por sua vez, deu o caso como encerrado.
Judith Scliar conta que o marido era simples: "Uma vez, uma pessoa disse 'Puxa vida, achei que o imortal ia estar usando um super relógio', enquanto ele andava com aqueles de pulseira de plástico. O status para ele era cultural".
Judith e Moacyr tiveram um filho. Roberto nasceu em 1979. Foi grande companheiro e fotógrafo oficial do pai. Ele faleceu em fevereiro de 2020, aos 40 anos, após ter um infarto fulminante sozinho em sua casa, na serra gaúcha. “Eles tinham uma relação muito bonita. O Beto admirava o Moacyr, era um modelo pra ele”, lembra Judith.

Uma referência em Saúde Pública

Médicos Germano Bonow, Rubem Rodrigues, Scliar, Iseu Gus e Airton Fischmann no Instituto de Cardiologia, nos anos 1980
Moacyr Scliar formou-se no curso de Medicina pela Ufrgs em 1962
ACERVO JUDITH SCLIAR/DIVULGAÇÃO/JC
Quando estudante de Medicina, Scliar participou ativamente do movimento para a conclusão do Hospital de Clínicas de Porto Alegre. Foi orador da turma e trouxe em seu discurso a atmosfera daquele período marcado pelo movimento da Legalidade.
Ainda na faculdade, fez concurso para o Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência. Foi quando atuou como plantonista em São Leopoldo, trabalho que impactou profundamente sua visão de mundo, conforme relatou em Cenas médicas: "A diarreia de uma criança repetia-se duas, três, quatro vezes, até o óbito pela desidratação. Ocorria-me que a solução do problema teria de ser coletiva; comecei a ir à rádio da cidade fazendo um rudimentar trabalho de educação para a saúde. Mas isso era pouco".
Formado, Scliar atuou como residente em clínica médica na enfermaria 29 da Santa Casa. Paralelamente, trabalhou no Sanatório Partenon, onde se dedicou ao estudo da tuberculose, trabalho que lhe levou à Unidade Sanitária São José Murialdo, entidade precursora da medicina comunitária. "Esse é o início da vinculação de Scliar com a Saúde Pública", afirma o médico Germano Bonow, que foi seu aluno na Santa Casa.
No início dos anos 1970, foi a Israel com uma bolsa de estudos da Organização dos Estados Americanos para ver da medicina comunitária do país. Nessa época, integrou um grupo de sanitaristas que fizeram mudanças importantes na Saúde Pública do Estado. Nomes como Clóvis Tigre, Waldyr Arcoverde e Germano Bonow faziam parte da equipe da Secretaria da Saúde. Lá, Scliar ocupou diversos cargos até a sua aposentadoria.
Participou de campanhas como a erradicação da varíola, enfrentamento ao sarampo e à paralisia infantil e implantação do Dia Nacional de Vacinação. Conforme Judith Scliar, "escolheu [a carreira de médico sanitarista] por razões ideológicas. Achava que a medicina era assim: ou as pessoas podiam pagar para serem atendidas em consultórios ou eram indigentes. Não existia o SUS. Moacyr achava que aquilo não era o mais adequado". Scliar também foi professor da Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, hoje Ufcspa. Recebeu o título de doutor em Saúde Pública pela Fiocruz, em 1999.

Time de basquete da ACM; Scliar está agachado à direita; Germano Bonow é o penúltimo em pé
Time de basquete da ACM; Scliar está agachado à direita; Germano Bonow é o penúltimo em pé
ACERVO JUDITH SCLIAR/DIVULGAÇÃO/JC
Paralelamente à medicina e à literatura, Scliar jogava basquete na ACM. Não era bom, segundo Bonow, que também praticava o esporte.
Ele próprio brincava que o basquete era uma paixão não correspondida. No entanto, era persistente. Uma estrela foi marcada na quadra do clube, no mesmo lugar onde, uma vez, fez uma cesta de 3 pontos.
Scliar enquadra-se em uma longa tradição de médicos escritores, no Rio Grande do Sul, da qual fazem parte nomes como Dyonélio Machado e Cyro Martins. O professor e escritor Waldomiro Manfroi, que pesquisa o tema, avalia que “médicos trabalham com o corpo e os sentimentos das pessoas. Registram suas queixas físicas e suas dores da alma. Nessa singular relação, eles convivem com milhares de pessoas, e com a desafiadora peculiaridade de que nenhuma é igual à outra”. Assim, o contato humano torna-se base para a literatura.

Sugestões de leitura


ARTE/JC
Confira abaixo a lista completa de publicações de Moacyr Scliar, separadas por gêneros literários e em ordem cronológica:
Romances:
1972 A guerra no Bom Fim
1973 O exército de um homem só
1975 O ciclo das águas
1975 Os deuses de Raquel
1977 Mês de cães danados
1978 Doutor Miragem
1980 O centauro no jardim
1980 Os Voluntários
1981 Max e os felinos
1983 A estranha nação de Rafael Mendes
1991 Cenas da vida minúscula
1992 Sonhos tropicais
1997 A majestade do Xingu
1999 A mulher que escreveu a Bíblia
2000 Os leopardos de Kafka
2004 Uma história Farroupilha
2005 Na noite do ventre, o diamante
2006 Os vendilhões do templo
2008 Manual da paixão solitária
2010 Eu vou abraço, milhões
Ficção infantojuvenil:
1981 Cavalos e Obeliscos
1982 A Festa no Castelo
1984 Memórias de um Aprendiz de Escritor
1988 No Caminho dos Sonhos
1988 O Tio que Flutuava
1989 Os Cavalos da República
1991 Pra Você Eu Conto
1994 Uma História Só pra Mim
1995 Introdução à prática amorosa
1995 O Rio Grande Farroupilha
1995 Um Sonho no Caroço do Abacate
1998 Câmera na Mão, o Guarani no Coração
1999 A Colina dos Suspiros
2000 O Livro da Medicina
2000 O Mistério da Casa Verde
2001 Ataque do Comando P.Q.
2002 Aquele Estranho Colega, o Meu Pai
2002 As pernas curtas da mentira
2002 Éden-Brasil
2002 O Irmão Que Veio de Longe
2002 O Sertão Vai Virar Mar
2003 Aprendendo a Amar - e a Curar
2003 Navio das Cores
2003 Nem Uma Coisa, Nem Outra
2004 Histórias de Aprendiz
2004 Um Menino Chamado Moisés
2005 Gota d'água
2005 O Amigo de Castro Alves
2005 Respirando Liberdade
2006 Ciumento de carteirinha
2007 A palavra mágica
2007 ABC do mundo judaico
2007 O menino e o bruxo
2008 A voz do poste
2008 Leituras de escritor
2009 Deu no jornal
2011 Contos e Crônicas para Ler na Escola (publicação póstuma; também da categoria “crônicas”)
Contos:
1962 Histórias de um médico em formação
1964 Tempo de espera (escrito com Carlos Stein)
1968 O Carnaval dos Animais
1976 A balada do falso Messias
1976 Histórias da terra trêmula
1976 Mistérios de Porto Alegre romance
1977 Pega pra Kaputt!
1979 O anão no televisor
1984 10 contos escolhidos
1984 Os melhores contos de Moacyr Scliar
1986 O olho enigmático
1989 A orelha de Van Gogh
1995 Contos reunidos
1997 O amante da Madonna & outras histórias
1997 Os contistas
1998 História para (quase) todos os gostos
2002 Pai e filho, filho e pai
2003 Pipocas
2007 Do jeito que nós vivemos
Crônicas:
1984 A massagista japonesa
1989 Um país chamado infância
1995 Dicionário do viajante insólito
1996 Minha mãe não dorme
enquanto eu não chegar
2000 Porto de histórias: Mistérios
e crepúsculos de Porto Alegre
2001 A língua de três pontas: crônicas
e citações sobre a arte de falar mal
2001 O imaginário cotidiano
2004 As melhores crônicas de Moacyr Scliar
2005 Histórias de Porto Alegre
2005 O olhar médico
2009 Histórias que os jornais não contam
2012 A poesia das coisas simples (publicação póstuma)
2013 Território da Emoção (publicação póstuma)
2014 A banda na garagem (publicação póstuma)
2017 A nossa frágil condição humana (publicação póstuma)
Ensaios:
1987 A condição judaica
1987 Do mágico ao social: a trajetória da saúde pública
1991 Do Éden ao Divã– Humor Judaico
1993 Se eu fosse Rothschild
1994 Judaísmo: Dispersão e Unidade
1996 A paixão transformada: história da medicina na literatura
2000 A face oculta: inusitadas e reveladoras histórias da medicina
2001 Meu filho, o doutor: medicina e judaísmo na história, na literatura e no humor
2002 A linguagem médica
2002 Cenas médicas
2002 Oswaldo Cruz & Carlos Chagas: o nascimento da ciência no Brasil
2003 Entre Moisés e Macunaíma
2003 Ilha deserta
2003 Saturno nos trópicos
2003 Um olhar sobre a saúde pública
2007 Enigmas da Culpa
2007 O texto, ou a vida
2009 Amor em texto, amor em contexto: Um diálogo entre escritores
2011 Rubem Alves e Moacyr conversam sobre o corpo e a alma (publicação póstuma)
Outras publicações médicas:
1996 Oswaldo Cruz: entre micróbios e barricadas
2002 Saúde Pública – Histórias, Políticas e Revolta
2008 A saúde pública no Rio de Dom João
2009 Série Essencial: Oswaldo Cruz

* Lívia Guilhermano é jornalista, com graduação e mestrado em Comunicação pela Ufrgs. Atua como repórter da TVE-RS.
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