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reportagem cultural

- Publicada em 21h12min, 19/11/2020.

Trajetória de Caco Velho, o 'sambista infernal' de Porto Alegre

Músico concedeu entrevista ao jornal Radiolândia em 1959 sobre 'Mãe Preta', seu maior sucesso

Músico concedeu entrevista ao jornal Radiolândia em 1959 sobre 'Mãe Preta', seu maior sucesso


BIBLIOTECA NACIONAL/DIVULGAÇÃO/JC
Thaís Seganfredo, especial para o JC*
Assim como Lupicínio Rodrigues e Túlio Piva, dos quais foi contemporâneo, Mateus Nunes, o Caco Velho, marcou época na cena nacional do samba. Conhecido como "o sambista infernal", o porto-alegrense foi um dos principais nomes das casas de show nas décadas de 1950 e 1960 no País, além de levar a cultura brasileira (e até mesmo a gaúcha) para países como França e Estados Unidos.
Assim como Lupicínio Rodrigues e Túlio Piva, dos quais foi contemporâneo, Mateus Nunes, o Caco Velho, marcou época na cena nacional do samba. Conhecido como "o sambista infernal", o porto-alegrense foi um dos principais nomes das casas de show nas décadas de 1950 e 1960 no País, além de levar a cultura brasileira (e até mesmo a gaúcha) para países como França e Estados Unidos.
Caco Velho começou a carreira tocando nas rádios gaúchas e logo se mudou para São Paulo, sem saber que sua música se eternizaria em outros continentes. Isso porque a toada Mãe Preta, composta em parceria com Piratini, foi regravada por inúmeros artistas, de Ney Matogrosso à cantora japonesa Kumico Tsumori, após virar um clássico do fado na voz de Amália Rodrigues em meados do século XX.
A obra de Caco Velho, contudo, não se resume ao hit português. Nos últimos anos, especialmente devido a seu centenário, que ocorreu em março de 2019, músicos como o porto-alegrense Rafa Rodrigues têm se dedicado a resgatar a história do sambista. "Quando eu ouvi os arranjos originais, eu me dei conta que a música dele era muito à frente do seu tempo, são super contemporâneas, tanto que quase não fiz adaptações", diz Rodrigues, que montou uma banda em Porto Alegre para se apresentar com um repertório só de músicas de Caco Velho.
Para o jornalista e pesquisador musical Arthur de Faria, "ele é um cara que foi muito mais de bastidor, um cara cultuado pelos conhecedores, além de um campeão do suingue". Seu jeito suingado de cantar, para Faria, o diferenciava dos outros intérpretes da época. Se hoje seu trabalho é reconhecido apenas entre os especialistas, no entanto, nas décadas de 1950 e 1960 o músico lotava as casas de show, especialmente no eixo Rio-São Paulo, onde se estabeleceu.
Administrador de sua própria trajetória e um "excelente comunicador", de acordo com Rodrigues, o sambista era inquieto, sempre buscando novos desafios e alcançando feitos na cena das boates e até na televisão. Caco Velho construiu carreira se apresentando para a elite paulistana, sempre com seu pandeiro, instrumento que ele ajudou a difundir. Circulando por amizades como a de Vinicius de Moraes e da cantora Maysa, o talento e a simpatia lhe renderam diversos apelidos, de "sambista infernal" a "mago do pandeiro". Os jornais da época são uma amostra da popularidade do músico. "Caco Velho não sabe o que fazer para atender a todos. Depois da meia-noite é muito difícil encontrar mesa. Mas o Caco dá um jeito. O samba Pourquoi ainda é um grande sucesso", dizia uma nota do Jornal do Brasil, em 1961.
Pourquoi (Essa nega sem sandália), regravada por mais de 10 artistas, entre eles Elza Soares em parceria com Miltinho, é uma das composições do sambista que acabou esquecida com o passar dos anos. O mesmo se passou com Não Bobeie Calamazu, interpretada pelos Demônios da Garoa. Sua obra é marcada por um samba sincopado, alegre, que mais tarde incorporou também elementos do jazz.
A partir do final dos anos 1950, período em que a bossa nova era tendência nos palcos internacionais, Caco Velho foi um dos principais nomes a levar a música brasileira - em especial a bossa mais tradicional do samba, acompanhado de pandeiro e cabrochas - para outras terras. Além de passar temporadas em Las Vegas, depois que sua toada Mãe Preta estourou na voz da fadista Amália Rodrigues, Caco foi para Paris, onde passou 10 anos estrelando as noites de boates como La Macumba, especializada em ritmos brasileiros.
Quando retornou ao Brasil, abriu sua própria casa de shows em São Paulo, a Brazilian's, que, segundo os jornais da época, "arrastava multidões", passando à frente de importantes boates da cena. Sempre buscando inovar na carreira, ele também foi o primeiro sambista a participar de um programa de televisão, ainda na fase experimental, em 1950. O músico morreu aos 52 anos, em 1971, vítima de câncer no intestino. No mesmo ano, foi homenageado por Elis Regina no programa Som Livre Exportação, da TV Globo.

O homem dos apelidos

Em novembro de 1955, Revista do Globo estampou nas páginas uma matéria especial sobre o performer
Em novembro de 1955, a Revista do Globo estampava nas suas páginas uma matéria especial sobre o performer
BIBLIOTECA NACIONAL/DIVULGAÇÃO/JC
Foi em 1932 que Mateus Nunes passou a ser para sempre o Caco Velho. Então um menino de 13 anos, ele havia saído de seu emprego na gráfica da Revista do Globo para trabalhar em uma casa de chás de Porto Alegre, quando Paulo Coelho, popular músico da época, o ouviu cantar a música homônima, que lhe daria o apelido, um samba de Ary Barroso. O talento nato do menino foi prontamente notado por Coelho, que o apadrinhou. E logo a caixa de fósforo em que ele costumava batucar foi substituída por um pandeiro, seu fiel escudeiro para o resto de sua travessia.
Nos anos seguintes, passou a trabalhar na rádio Difusora, integrando a dupla Tupinambá junto com Nino Martins. Nesta época, começou a divulgar suas primeiras composições, entre elas a marchinha Palhaço. Em 1936, foi convidado pelo músico Piratini, que tinha um dos principais conjuntos regionais da cena musical da cidade, a integrar seu grupo. "O Paulo Coelho era o músico mais famoso da cidade na época, viu o Mateus batucando e foi a primeira figura que incentivou ele. Quando o Piratini chega, ele já estava dando canja, já era um músico da cena", conta o pesquisador Rafa Rodrigues.
Caco Velho mostrou que aprendia rápido e tinha um senso musical que impressionava, ao tocar de surpresa também o contrabaixo. Logo foi convidado pelo maestro França a tocar em uma das casas de show mais elitizadas de São Paulo. Entre os shows, composições e apresentações nas rádios locais, ele rapidamente entendeu que, além de músico, teria que ser um promotor de sua própria carreira, estabelecendo para si mesmo novos desafios, álbuns e projetos.
Mais do que cantor, compositor e instrumentista, ele era um verdadeiro performer, o que geralmente fazia com que ele conquistasse com facilidade a plateia. "Caco Velho não era só uma pessoa de sentar no piano e cantar. Ele ia, brincava com a plateia. Ele, só com uma caixa de fósforo, fazia um show", comenta uma de suas quatro filhas, Izabel. Em novembro de 1955, a Revista do Globo estampava nas suas páginas uma matéria especial: "Caco Velho, um gaúcho que tem o Rio nas mãos".
Uma de suas marcas foi o samba sincopado, notado já a partir de seu primeiro álbum Vida noturna. Lançado em 1958, o LP trazia dois lados bem caracterizados: enquanto no Lado A ele apresentava de sua própria orquestra, estando à frente do contrabaixo, do bongo e da bateria; o Lado B era puro samba, com Caco nos vocais. Seu jeito de cantar acabou lhe rendendo mais um apelido: "O homem com a cuíca na Garganta", já que ele costumava mimetizar os sons dos instrumentos com a boca. Nessa época, chegou também a dividir o palco em apresentações musicais com nomes como Dorival Caymmi e Bola 7.
Além da convivência com grandes artistas da época, ele também tinha uma boa relação com a mídia, que frequentemente lhe atribuía os apelidos. Izabel, que cresceu vendo as reuniões musicais em casa, com grandes nomes da música brasileira, tem uma memória afetiva dos agitos do pai: "Ele era muito simpático, gostava de agregar as pessoas. Se fosse levantar toda a história de Caco Velho na música popular brasileira, teria muita coisa". A partir de meados dos anos 1950, o sambista foi fazer carreira da Europa, principalmente nas boates de Paris.

O sequestro de 'Mãe Preta'

Caco Velho chegou a dividir o palco em apresentações com Dorival Caymmi
Caco Velho chegou a dividir o palco em apresentações com Dorival Caymmi
ACERVO DA FAMÍLIA/DIVULGAÇÃO/JC
É consenso que o maior sucesso de Caco Velho foi Mãe Preta, com fama mundial. A letra, composta com Piratini em 1938, traz breve e certeira descrição de um dia cotidiano dos negros escravizados no Brasil: "Enquanto a chibata batia em seu amor, mãe preta embalava o filho branco do senhor". Catalogada como "batuque" ou "batucada" nas versões presentes no acervo da Biblioteca Nacional, Mãe Preta foi regravada por pelo menos 18 artistas, entre eles Ney Matogrosso. Uma das gravações mais antigas é a do Conjunto Tocantins (Continental, 1943). Mais de 10 anos depois, em 1954, a cantora de fado Maria da Conceição alcançou relativo sucesso com a canção em Portugal, atribuindo a si mesma a autoria. Embora seja incerto como a composição foi parar em terras portuguesas, as pesquisas existentes apontam que foi a própria fadista quem ouviu a composição quando viajou ao Brasil.
A regravação que se consagraria, contudo, trazia uma letra bem diferente. Em 1955, enquanto Caco Velho passava uma temporada na boate La Macumba em Paris, Mãe Preta, no calor do sucesso de Maria da Conceição, foi incluída na trilha sonora do filme português Os amantes do Tejo, desta vez na voz de Amália Rodrigues, e renomeada para Barco Negro. Apenas a música se manteve, já que título, letra e arranjo foram modificados. Nesta versão, a autoria da canção foi dada à época como "desconhecida".
Todo esse processo, ao contrário do que se difundiu, não ocorreu de forma pacífica. Esta reportagem encontrou registros em jornais que mostram como a canção era lançada em Portugal sem qualquer atribuição de direitos autorais. Em 1959, mesmo ano em que Caco Velho foi eleito como melhor sambista masculino pelo Clube dos Comentaristas de Discos do Rio de Janeiro, o jornal fluminense Correio da Manhã publicava uma nota bastante incisiva: "Num LP dedicado a Portugal, George Melachrino gravou a conhecida composição de Caco Velho Mãe Preta com o nome de Barco Negro. Como se não bastasse, a composição do conhecido sambista brasileiro aparece no selo da RCA como sendo de autoria Vilma (sic). É o caso de editora nacional de Mãe Preta se mexer incontinenti, na defesa de seus direitos pois em casos como este, o autor é praticamente um indefeso".
Já o Jornal do Dia, alguns dias mais tarde, publicou uma nota indicando que a apropriação indevida da composição foi recorrente no período: "Pela terceira vez a famosa toada de Caco Velho, Mãe Preta, sofreu a ação de falsos compositores. Caco Velho está tomando providências para obter a indenização devida, pelo aparecimento no mais recente LP de George Melachrino". Caco Velho, ao jornal Radiolândia, declarou que estava arrasado "por mais este furto musical", completando: "Montam em cima de possibilidades comerciais de Mãe Preta, enquanto eu aqui, o verdadeiro autor, quase nada ganhei com ela, em confronto com esses falsários de além-mar!".
Pesquisadores indicam que a letra original fora censurada pela ditadura salazarista e substituída pelo poema de David Mourão-Ferreira, sobre um casal separado por uma viagem. "A música lançada pela Maria da Conceição foi censurada, mas continuou fazendo sucesso de forma clandestina. Amália Rodrigues exigiu cantá-la no filme", diz Rafa Rodrigues.
Arthur de Faria analisa: "O fado nasceu no Brasil, na mesma época da modinha e do lundu, e trazia uma mistura da música dos negros com a dos brancos. E aí o fado foi para Portugal e lá virou a música nacional portuguesa. Tem ironia nisso, que um samba tenha virado fado, uma música composta por um negro brasileiro cantada por uma cantora portuguesa".
Ainda que o filme tenha se tornado obsoleto, Barco Negro acabou por se tornar um clássico português. Nos anos 1960, a música teve sua autoria devidamente atribuída a Piratini e Caco Velho, que foi a Portugal, fez shows e conheceu Amália Rodrigues. A letra original tem sido resgatada por cantoras portuguesas, mas até hoje sua história permanece pouco conhecida.

Toada gaúcha em Paris

Caco Velho com seu pandeiro em apresentação com dançarina
Caco Velho com seu pandeiro em apresentação com dançarina
ARQUIVO DA FAMÍLIA/DIVULGAÇÃO/JC
Acolhido pelo público e pela crítica da época como um verdadeiro sambista paulistano, Caco Velho voltou algumas vezes ao Rio Grande do Sul, principalmente no início de sua carreira, para participar de festivais de sambas e marchinhas de Carnaval. Nos concursos, seus maiores duelos eram travados com ninguém menos que Lupicínio Rodrigues (com quem o músico comporia o samba Que baixo, em 1945).
E, de acordo com o pesquisador musical Rafa Rodrigues, era Caco Velho quem levava a melhor na maioria das vezes, a ponto do jornal Folha da Tarde declarar, em agosto de 1940, que Caco "fazia sombra" a Lupi. "Enquanto as músicas do Lupi tinham um significado mais profundo, as do Caco eram mais focadas no ritmo. Diziam que as letras eram sem pé nem cabeça, mas as músicas caíam na boca do povo. Ele fazia um samba diferente desse que se estabeleceu como sendo de Porto Alegre", conta.
Antes de dedicar-se integralmente ao samba e suas vertentes, porém, Caco Velho começou compondo toadas regionais em conjunto com Piratini. Além da consagrada Mãe Preta, a mais conhecida delas é Carreteiro, que conta a história de um homem que deixou sua querência e migrou para a cidade.
Em 1956, já estabelecido na boate La Macumba, em Paris, o músico buscou nas suas origens gaúchas a inspiração para seu próximo show. "Eu nunca abandonei a toada", disse em entrevista a Justino Martins, correspondente da revista Manchete na Europa. Aproveitando o sucesso de Carreteiro, que era tocada por orquestras parisienses na época, ele idealizou, junto à atriz francês Anne-Marie Mersen, um novo número musical cujo principal atrativo era a toada gaúcha.
Radamés Gnatalli, que também era popular em Paris com sua Prenda minha, foi citado na entrevista por Caco como uma referência para a construção do musical. "No meu estado, os gaúchos dançavam a toada nas fazendas numa coreografia bem animada, batendo os compassos com os tacões das botas e as rosetas das esporas", explicou. Para fazer o som das esporas, Caco inovou as substituindo pelo som do velho pandeiro.
 

O Comendador da Bossa Nova

Músico porto-alegrense na sua própria casa de shows em São Paulo, a Brazilian's
Músico porto-alegrense na sua própria casa de shows em São Paulo, a Brazilian's
ARQUIVO DA FAMÍLIA/DIVULGAÇÃO/JC
Já com uma carreira consolidada nas boates da Europa, especialmente em Paris, Caco Velho decidiu que havia chegado a hora de requisitar seu lugar no panteão da bossa nova. Em 1963, saía pela Continental seu segundo LP, O Comendador da Bossa Nova, que reunia em 12 faixas, composições próprias e regravações de sucessos como O Pato e Samba de uma nota só.
Ele era, então, um dos principais nomes a levar a música brasileira para fora do País, com temporadas bem-sucedidas na Europa e em Las Vegas. Ao se auto nomear "comendador" do gênero, segundo o pesquisador Rafa Rodrigues, ele procurou ironizar o fato de ter sido escanteado no movimento. "Para mim, o Caco Velho anos antes já estava com a fórmula da bossa nova. Tem um disco que ele gravou em Paris, Une Soirée A La Macumba (1956), em que os arranjos são quase bossa nova, tem uma coisa meio de jazz e também referência dos conjuntos melódicos."
Rodrigues acredita que a contribuição dos artistas negros para a bossa nova, a exemplo de Codó, professor de violão de João Gilberto, foi pouco valorizada. "O Caco já estava com essa coisa de suavizar a melodia, o canto, o arranjo", completa. Conforme arquivos de jornais da época pesquisados pela reportagem, Caco Velho participava de reuniões na casa de Vinicius de Moraes em meados dos anos 1950, nas tardes de verão, somente para tocar samba, sempre com Vinicius no violão e Caco na percussão. Para o pesquisador Enrique Valarelli Menezes, do Departamento de Música da USP, o samba sincopado, também adotado por Caco Velho, foi uma das principais fontes onde bebeu Joao Gilberto.
Bem recebido pela crítica, O Comendador da Bossa Nova, além das interpretações próprias do músico para clássicos do gênero, trouxe uma faixa bem-humorada de autoria de Pacheco Vila: "Veja minha gente, que samba diferente/eu até cheguei a tirar patente/ já começou a desafinação/veja só, meu irmão". A letra de Tonalidade original é exclusivamente a descrição da fórmula de uma música qualquer da bossa nova. "Ele meio que debocha, parece que tá um pouco magoado. Nesta música, ele deu todas as dicas de como a bossa nova tinha a ver com o estilo dele", diz Rodrigues.
 

A tradição e o futuro do samba

Banda Rafa 16 & Caco Velho Ensemble formada em 2018, com 10 músicos instrumentistas
Banda Rafa 16 & Caco Velho Ensemble formada em 2018, com 10 músicos instrumentistas
ACERVO DA FAMÍLIA/DIVULGAÇÃO/JC
Foi ouvindo Saudades de Jackson do Pandeiro, dos suingueiros gaúchos Luis Vagner e Bedeu, que o músico Rafa Rodrigues ouviu falar em Caco Velho. Na letra, o sambista é citado como referência pelos compositores do samba-rock. A partir deste momento, Rafa passou a estudar a obra de Caco Velho e descobriu um mundo de composições que classifica como contemporâneas. Em 2018, montou a banda Rafa 16 & Caco Velho Ensemble, composta por 10 músicos instrumentistas, que vem realizando shows em tributo ao mestre. "A ideia é expandir o projeto, produzir musicais e tentar difundir isso para mais plataformas. A história dele merece ser melhor contada ser reinterpretada musicalmente".
Paralelamente, a família de Caco Velho também se dedica a resguardar sua memória e sua obra, que inspirou integrantes da próxima geração a seguir seu legado na MPB. "Passei a infância ouvindo os discos do meu avô. As músicas são muito ricas, melodia, arranjos, o 'swing' que ele tinha, e como ele brincava, fazendo o som da cuíca com a boca. Pode ser que, conviver com esse tipo de música em casa, tenha me ajudado a ter facilidade, a ter 'ouvido musical'", conta Adriana Nunes, neta de Caco. Uma das ideias da família é ampliar a presença das músicas de Caco Velho no streaming, que hoje estão dispostas em plataformas como o YouTube e também no acervo do Instituto Moreira Salles, disponível online. Desta forma, a proposta é fazer a salvaguarda de mais um entre tantos nomes que mantêm a tradição do samba de compositores e compositoras gaúchas.
Neste sentido, uma artista que vem trabalhando para visibilizar a história e a memória do samba feito no Rio Grande do Sul é Pamela Amaro: "Acredito que a tradição do samba aqui exista por conta da presença negra no Estado, que embora seja uma presença em minoria, é forte, historicamente muito marcada. Onde tem negros e negras, tem samba".
A compositora conta que na Capital há um cenário rico de sambistas, já que o gênero é cultivado tanto em escolas de samba, como em rodas e nas casas das famílias. "Cada sambista tem sua forma de compor, mas arrisco dizer que o nosso samba no RS traz a presença negra a partir dos orixás, da cultura banto e iorubá", explica, referindo-se às diferentes nações do batuque gaúcho.
Toda esta diversidade, no entanto, ainda é pouco visibilizada pela mídia nacional, observa Pamela, uma vez que a atenção normalmente recai sobre Lupicínio Rodrigues. "É preciso olhar para os outros compositores, tanto os mais velhos como os mais novos", aponta, citando como referência Zilah Machado, Wilson Nei, Nilo Feijó, Izolino nascimento, mestre Paraquedas e Paulo Romeu.
 


ARTE/JC

* Thaís Seganfredo é jornalista formada pela Ufrgs, editora do site Nonada - Jornalismo Travessia e sócia-diretora da agência Riobaldo Conteúdo Cultural.
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