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reportagem cultural

- Publicada em 19h55min, 08/10/2020. Atualizada em 17h09min, 09/10/2020.

O novo cenário das artes visuais no Rio Grande do Sul

Com um rigoroso protocolo de segurança sanitária, a Fundação Iberê reabriu em 19 de setembro, com a mostra O fio de Ariadne

Com um rigoroso protocolo de segurança sanitária, a Fundação Iberê reabriu em 19 de setembro, com a mostra O fio de Ariadne


MARCOS NAGELSTEIN/AGÊNCIA PREVIEW//DIVULGAÇÃO/JC
Higino Barros, especial para o JC*
"Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê/ Sei que nada será como antes amanhã". Os versos da música Nada será como antes, de Milton Nascimento e Fernando Brant, soam como previsão e certeza em um dos setores culturais mais atingidos pelos efeitos da crise do novo coronavírus: o das artes visuais. Dependente de exposições e, acima de tudo, de público formado por compradores e consumidores de arte, o mundo das artes terá que se reinventar sem a aglomeração de pessoas.
"Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê/ Sei que nada será como antes amanhã". Os versos da música Nada será como antes, de Milton Nascimento e Fernando Brant, soam como previsão e certeza em um dos setores culturais mais atingidos pelos efeitos da crise do novo coronavírus: o das artes visuais. Dependente de exposições e, acima de tudo, de público formado por compradores e consumidores de arte, o mundo das artes terá que se reinventar sem a aglomeração de pessoas.
O segmento no Rio Grande do Sul dá sustento a artistas, curadores, gestores de espaços culturais e um grande número de prestadores de serviços. Para esta reportagem, o JC entrevistou 32 artistas e oito curadores e gestores de espaços culturais, nomes consagrados ou emergentes no mundo das artes. A crença em mudanças é unânime e a expectativa é que a recuperação vai demorar - ninguém se atreve a prever quando ocorrerá a volta à normalidade, dependerá de vacina contra a Covid-19.
Enquanto isso, espaços públicos e privados de artes visuais ficaram fechados no Rio Grande do Sul - muitos seguem assim. Esse cenário está completando sete meses e agora vê os primeiros sinais de reabertura.
Depois de meio ano fechada, a Fundação Iberê reabriu as portas no dia 19 de setembro para uma mostra com presença de público controlada, 15 pessoas por grupo. A instituição adotou protocolos sanitários, reorganizou horários de visita, limitou o acesso e passou a cobrar ingresso do público, menos para profissionais da área de saúde.
A reabertura parcial do museu, com a exposição inédita O fio de Ariadne foi bem-sucedida. Com curadoria de Denise Mattar e Gustavo Possamai, a mostra engloba 37 tapeçarias e sete cerâmicas criadas por Iberê Camargo. As obras são de grandes dimensões, não expostas há 40 anos, e estão espalhadas em coleções públicas e particulares de Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
A combinação de exposição virtual e presencial, com controle de público, ao longo dos últimos seis meses, tem sido a alternativa para algumas galerias da Capital, como Bublitz, Bolsa de Arte e Gravura.
A Bublitz Galeria de Artes foi a primeira de grande porte que voltou com público presencial, no início de setembro. O proprietário, Nicholas Bublitz, considera a experiência desafiadora. "Sabíamos que o mundo seria cada vez mais virtual, o futuro foi antecipado com a pandemia e precisamos nos reinventar." Ele vê desvantagens no novo cenário. "Somente no ano passado, fizemos 35 eventos, exposições, palestras e leilões de arte presencial em várias cidades do Rio Grande do Sul, e nas cidades de Florianópolis e São Paulo. Vantagens, não há nenhuma", exclama.
Nicholas projeta um novo mundo no pós-pandemia: "O mercado será mais e mais virtual, por esta razão lançamos a primeira galeria virtual em 3D com realidade aumentada do Brasil." Segundo ele, há procura no virtual, "mas o presencial continua muito importante na hora do fechamento da venda".
A galeria Bolsa de Arte foi outra a reabrir portas para exposição presencial, com controle de acesso do público. Em 3 de outubro, o artista Gelson Radaelli, com curadoria de Eduardo Veras, inaugurou a mostra de pinturas No espelho não sou eu. A mostra vai até 24 de novembro.
Já a Gravura Galeria levou para o espaço do Hotel Radisson a exposição coletiva Check-in com Arte, que fica no local até fevereiro de 2021. A galeria mantém essa exposição de forma virtual também.
Nessa transição, em formato híbrido, artistas veteranos e novos convivem com a nova realidade do mundo virtual nas artes. Em meio a dúvidas sobre o futuro, essa é uma das poucas certezas: exibições artísticas virtuais vieram para ficar. E já foram integradas ao cotidiano tanto de nomes consagrados, como Zoravia Bettiol e Britto Velho, quanto da geração sem tanta visibilidade. Os jovens artistas têm visão otimista: acreditam que o isolamento social fez as pessoas recorrerem mais à arte como forma de preencher o tempo, necessidades de comunicação, expressão e outras carências da quarentena. Tendência ou não, o certo é que nada será como antes.

Pandemia desvelou fragilidades do sistema de arte

Curadora Ana Zavadil diz que os tempos serão mais difíceis ainda para os independentes
Curadora Ana Zavadil diz que os tempos serão mais difíceis ainda para os independentes
JONATHAN HECKLER/JC
O casal Ricardo Giugliani, 53 anos, e Marla Trevisan, 33 anos, gestores e proprietários da galeria Aberto Caminho de Artes, na Zona Sul de Porto Alegre, no início de agosto resolveu fechar o espaço físico que mantinha no bairro Tristeza. Giugliani considera que a "desprofissionalização" do setor ficou aparente com a pandemia e dificilmente voltará ao que era. "Talvez, devamos esperar um certo darwinismo. O que virá pela frente certamente será algo diferente", explica.
Marla Trevisan acredita que muitos artistas não retornarão. Para ela, o modelo voluntarista mostrou-se por completo, inexiste um sistema de arte, e provavelmente este não virá. Sobre o fechamento do espaço físico da galeria, Giugliani e Marla divulgaram nota em que explicam: "Refletimos muito durante os mais de cinco meses de isolamento social, sobre qual formato nosso espaço poderia adotar, para se encaixar nesta nova realidade de viver, para nós, totalmente anormal. O conceito do espaço cultural Aberto, a marca que virou credencial para um monte de gente legal que esteve conosco vai continuar, ainda não sabemos bem sob qual formato".
Ben Berardi, 59 anos, curador e gestor de entidade cultural, avalia que a área das artes visuais foi uma das mais atingidas na chamada Economia Criativa. Berardi, que tem experiência também no poder público, observa falta de investimentos públicos nas artes visuais, já antes da pandemia. Sem apoio governamental nem público, "o mercado desaqueceu e a grande maioria dos artistas que vive da venda de seus trabalhos a partir de exposições, ficou sem ter como traduzir seu valor trabalho em valor financeiro". Ele ressalta que o impacto ocorre em uma "cadeia produtiva, que estamos recém lutando para que seja mapeada em nosso Estado". Os números de pessoas e instituições que atuam no sistema de artes visuais no Rio Grande do Sul não estão computados - dados começaram a ser aferidos neste ano, mas não foram completados.
Conhecida no meio por trabalhar também com artistas visuais classificados como "independentes", a artista plástica e curadora Ana Zavadil, 63 anos, diz "que os tempos serão mais difíceis ainda para os independentes. Terão que criar novas alternativas de trabalho, pois não acredito que tudo volte ao normal tão brevemente". Ana considera que não há escapatória para as atividades artísticas fora da internet.
Vera Pelin, 69 anos, produtora cultural, curadora e designer gráfica, observa que os artistas já utilizavam meios eletrônicos para a venda de suas obras. Galerias particulares também disponibilizavam acervos pela internet. "Mas sem dúvida, ficou muito limitado e, com a crise econômica, comprar arte não é o principal interesse neste momento. No entanto, com mais divulgação e difusão, a fruição da arte despertou novos sentimentos e novos prazeres."

Prós e contras da arte virtual

Francisco Dalcol considera importante repensar interação com público
Diretor do Margs, Dalcol considera importante repensar processos de interação com público
RAUL HOLTZ/DIVULGAÇÃO/JC
Francisco Dalcol, 39 anos, dirige e é curador do principal equipamento de artes visuais do Estado, o Museu de Artes do Rio Grande do Sul (Margs). Se não fosse a pandemia, o local estaria em efervescência devido à realização da 12ª Bienal de Artes do Mercosul. O evento se deu em formato virtual, sem a mesma repercussão de quando era realizado ao vivo e a cores. "Do ponto de vista do Margs, tendo em conta o impedimento da experiência física e presencial com a arte no museu, essa atuação na internet e redes sociais ofereceu uma oportunidade importante, que é a possibilidade e mesmo exigência de se repensar processos de mediação e as interfaces de interação com nossos públicos", diz Dalcol.
Vinicius Vieira, 39 anos, curador e artista visual, tem uma visão otimista do mercado de artes visuais pós-pandemia: "A longo prazo, imagino que a valorização das artes visuais permaneça, embora não seja possível saber por quanto tempo nossas atividades estejam sendo adiadas. Nosso sucesso será fruto do potencial de organização do segmento e de sua capacidade de se comunicar com a sociedade".
Proprietária e curadora da Gravura Galeria de Arte, Regina Galbinski Teitelbaum, 62 anos, enumera perdas com a pandemia: "Nossos eventos sempre contaram com grande público de clientes apreciadores de arte, arquitetos e artistas com muito sucesso. Tínhamos a agenda de mostras 2020 toda ocupada, com exposições nas duas salas da galeria". Havia também exposições agendadas em abril, em Nova York, e em junho, em São Paulo. "Agora, estamos retomando as atividades em ritmo lento, com visitas presenciais controladas. Também criamos a exposição virtual ConfinArt, com a mensagem, 'tudo passa, a arte fica', frase que mais do um tema de exposição soa como premonição do futuro para o setor."
Paulo Leônidas, curador, e integrante do Conselho Estadual da Cultura considera que as perdas das artes visuais com a crise do coronavírus retiraram dessa expressão artística aspectos sensoriais e de muita fisicalidade. "A virtualidade retirou das artes visuais parte daquilo que seria sua força expressiva. A ampliação da virtualidade, por outro lado, abriu novas de formas de informação sobre o tema e autores", contrapõe.
Gaudêncio Fidelis, 55 anos, curador da exposição Queer, que entrou para a história da arte brasileira em 2018, pela polêmica que provocou, tem visão crítica em relação à arte visual praticada de forma virtual. "Não acredito em uma produção artística 'consumida' virtualmente. Arte requer o contato direto com o objeto e a presença física com ele. Além do mais, a produção artística precisa transformar-se em capital simbólico para ser comercializada e isso se faz com a circulação física em exposições. Circulação virtual é um componente adicional de divulgação somente", avalia. Fidelis usa o termo progressive catastrophe para descrever o futuro das instituições museológicas que não terão patrocínios, verbas ou financiamento. "Mas isso pela incapacidade de gerar programas de interesse da comunidade e de grande teor criativo. Todas as crises necessitam de soluções inovadoras", pontua o curador.
 

Momento é de reflexão

Cem fantasmas não valem um homem, dupla Ío, de Laura Cattani e Munir Klamt
Cem fantasmas não valem um homem, dupla Ío, de Laura Cattani e Munir Klamt
LAURA CATTANI/DIVULGAÇÃO/JC
Laura Cattani, 40 anos, e Munir Klamt, 50 anos, artistas, pesquisadores e curadores formam a dupla Ío. Embora acreditem que seja possível desenvolver formas de se relacionar com a arte no meio virtual, eles afirmam que as fórmulas ainda estão muito presas ao modelo presencial, apenas simulado para o ambiente das redes telemáticas. "As migrações generalistas para o online ainda são soluções apressadas, mas nos ajudam, de forma prática e constituída por tentativa e erro, a refletir e experimentar maneiras e meios, novas tecnologias, que terão relevância para pensar a difusão de conteúdos em artes visuais no futuro", argumenta a dupla.
Um dos mais ativos curadores independentes no cenário contemporâneo das artes visuais de Porto Alegre, Fábio André Rheinheimer, 51 anos, avalia o momento como de oportuna reflexão, que pode ser útil para se ampliar o entendimento de quão relevante é este segmento. "Antes, a dinâmica estabelecida incentivava um maior individualismo. Penso que agora, a partir deste hiato, haja espaço para refletirmos a respeito das artes visuais reconsiderando questões pertinentes a este segmento, bem como outras decorrentes da pandemia. Entre tantas que possam advir, eis que o momento apresenta uma questão maior que é tensionar certezas, horizontes estabelecidos, ou seja, estagnados.
Para Rheinheimer, embora se apresente como solução viável à prática e consumo de arte, o universo virtual sempre deixará a desejar. "Indiscutivelmente. Mas, apesar de tudo, acredito nessa iniciativa. E, se esta for a solução, que seja", conclui.
 

Veteranos em tempos modernos

Arlete Santarosa viu se multiplicaram os convites para exposições virtuais
Arlete Santarosa viu se multiplicaram os convites para exposições virtuais
/ARQUIVO PESSOAL/DIVULGAÇÃO/JC
Eles têm idade acima de 70 anos, no mínimo 50 anos de trajetória artística e são referências no meio das artes visuais gaúchas. Agora vivem os tempos de pandemia. Britto Velho, 74 anos; Arlete Santarosa, 75 anos; e Zoravia Bettiol, 85 anos, falam de como estão enfrentando os dias de isolamento.
Britto Velho:
"O que perdi e sinto mais falta é o acesso aos espaços expositivos já que eles estão fechados. Como meu ateliê é na minha residência, continuo trabalhando. Tenho mostrado meu trabalho na internet e de certa forma não fui muito atingido, pois o mercado continua me procurando. Como faço parte da direção da Bienal do Mercosul, participo dos encontros virtuais como estão acontecendo através da internet."
Arlete Santarosa:
"Como a maioria dos artistas não parou de criar, de uma hora para outra viu que teria que se adaptar a uma nova realidade, sob pena de ficar recluso com seu trabalho. Aprendeu ou intensificou o uso das redes sociais e outros meios de comunicação via internet. Comigo aconteceu isso. Ao mesmo tempo, se multiplicaram os convites para exposições virtuais. Exemplifico com convites que recebi para expor minhas obras no Facebook de diferentes lugares do País e do exterior, entre eles o de um xilogravador da Tailândia. Positivo em tempo de pandemia é a abertura do acesso online, gratuito, de acervos de todos os museus do mundo, criando novas oportunidades de ampliar conhecimentos aos amantes das artes visuais."
Zoravia Bettiol:
"Com a situação da Covid-19, a área artística parou, pois ela precisa de público para ser apreciada e fruída, mas os artistas já estão se reinventando e se apresentando em vídeos e lives, dos quais tive participação. Tenho ajuda de familiares e de um assistente nos assuntos que não domino na internet. Trabalho entre 12 e 14 horas por dia, sendo que a noite eu tenho mais concentração para criar. E, nesse período de confinamento, produzi a série Ícones, que são pinturas acrílicas sobre madeira. Uma hora isso vai ser mostrado de forma presencial. Enquanto isso não acontece, a solução é usar os meios virtuais."

"É hora de criar", ensina Paulo Amaral

Artista plástico, curador e diretor do Margs em três ocasiões tem visão pragmática para o momento
Artista plástico, curador e diretor do Margs em três ocasiões tem visão pragmática para o momento
MARCO QUINTANA/JC
Paulo Amaral, 70 anos, artista plástico, curador e diretor do Margs em três ocasiões, tem uma visão pragmática a respeito do momento de crise que afeta a área de artes visuais do Estado. "O mundo não acabou, o comércio menos ainda. É hora de criar, como se tudo fosse voltar ao normal logo e também como terapia. Artistas levam vantagem nesses tempos difíceis, pois encontram-se em uma situação introspectiva por natureza", observa.
Segundo ele, é hora de criação e de estocagem de obras para colocação futura no mercado. Como as exposições são vetadas, galerias abrem com restrições, e museus estão fechados, "é um momento diferente, do qual se deve saber tirar proveito", apregoa Amaral.
 

Tempo de aprendizado

Eduardo Vieira da Cunha conheceu novos recursos de comunicação
Eduardo Vieira da Cunha conheceu novos recursos de comunicação
/ANTONIO PAZ/arquivo/JC

O artista e professor do Instituto de Artes da Ufrgs Eduardo Vieira da Cunha, 64 anos, está encarando a pandemia de forma produtiva, já que continua pintando em seu atelier em casa e dando aulas online. Para ele, a arte depende do contato direto com seu objeto artístico, "mas nessa era de desmaterialização, podemos aproveitar as novas oportunidades dos recursos virtuais para se reinventar e encontrar outros caminhos que contornem esse face-a-face com a obra física", teoriza. Segundo Vieira da Cunha, os artistas estão descobrindo novas formas de estar diante do público. "Participei por teleconferência de um congresso em Lisboa sobre arte há um mês. A internet acaba unindo, sendo mais explorada. Aprendi outras ferramentas de comunicação", observa.

Quem também aproveita os tempos de isolamento para aprender e produzir intensamente é Graça Craidy. Conhecida entre os colegas de profissão por sua capacidade de trabalho diário, em um período de 90 dias pintou 14 novos quadros. A artista plástica viu serem suspensas quatro exposições em que estava envolvida, mas aproveitou para participar de cursos com artistas internacionais e dividiu essas experiências no Facebook. "Surpreendentemente, vendi mais nesse período do que o meu normal e tive, inclusive, encomendas. Para o artista, que de uma certa forma, já trabalha confinado, não me pareceu que tenha mudado muito. Aliás, não parei um dia de criar, de trabalhar, de pensar e executar novos projetos. Benditas redes sociais!"

Quatro mil desenhos

Graça Craidy não parouum dia de criar, trabalhar, pensar e executar novos projetos
Graça Craidy não parouum dia de criar, trabalhar, pensar e executar novos projetos
WANDERLEI OLIVEIRA/DIVULGAÇÃO/JC
Outra artista que vai em direção ao mesmo pensamento de Graça Craidy - de valorizar as redes sociais em tempos de pandemia - é Mônica Sofia, 50 anos, desenhista e professora de História da Arte. Desde 2009, quando começou sua atividade de artista visual, Mônica trabalha todos os dias, totalizando até agora cerca de 4 mil desenhos. Sua obra, circula atualmente com desenvoltura no Facebook e Instagram, atraindo muitos seguidores virtuais que não a conheciam:
"Minhas pesquisas e estudos continuam e minhas aulas, antes presenciais, estão em formato online, o que representa uma nova forma de comunicação e divulgação da arte; vendo pelo aspecto do contato pessoal se torna um pouco mais impessoal por conta da virtualidade, mas alcança locais mais distantes e mais pessoas - tenho dado aulas para pessoas de outros estados", relata Sofia.
Fora do circuito dos grandes centros urbanos, moradora em Campo Bom, Vera Reichert, 71 anos, é o exemplo de que estar afastado fisicamente das exposições não significa não ter acesso a público interessado em arte. Ela já realizou 32 exposições individuais no Brasil e exterior, sendo duas em São Paulo, quatro na França e dezenas de coletivas no Brasil, EUA, Áustria, Suíça, Canadá, Austrália, Holanda, Uruguai. "O momento é particularmente complexo. No entanto, para o artista, em tempos normais ou tempo de pandemia, o produzir é igual. A arte, a meu ver, é resultado do exercício do fazer, do trabalho constante. Eu estou sempre procurando novos desafios e experimentando novas técnicas".
Vera fala de como conviver com esse cenário: "Vou continuar com mostras online. Eu já participava de exposição virtual na plataforma Artsy, sendo representada pela Inn Gallery de São Paulo. Agora a Galeria intensificou esta prática com projeto de divulgação individual do artista por três meses, além de fazer mostras virtuais coletivas".
 

De Bagé ao Instagram

Para a pintora Graça Tirelli, radicada em Bagé, se não houvesse as redes virtuais, ela não estaria na posição bem-sucedida em que se encontra. A facilidade de transferir imagens para as galerias e a divulgação pelo Instagram abriram possibilidades que não havia antes: "Estou trabalhando como nunca, fui selecionada para a mostra Open in Case of Memory Loss: Covis - Capsule e também pela Galeria Handford and Sons (Londres). Tenho uma página na Plataforma dos Artistas Emergentes; Saatchi Gallery Londres e NY, estou com página também para vender pinturas. Meu trabalho foi divulgado em agosto na revista Artist Platform Magazine, virtual e também física. Várias galerias do mundo estão conhecendo meu trabalho, pelo Instagram. Isso representa uma enorme divulgação, porque sendo virtuais, galerias como estas que estou trabalhando, chegam atingir meio milhão de pessoas ou até mais. Me torno mais conhecida e meu trabalho vai encontrar representatividade. Da forma física, isso demoraria muito tempo ou talvez não acontecesse".
 

* Higino Barros é jornalista, editor de Cultura do JÁ Porto Alegre e autor da Antologia poética Gregório de Matos, da coleção Rebeldes e Malditos, da L&PM Editora.
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