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reportagem cultural

- Publicada em 20h31min, 30/07/2020. Atualizada em 22h45min, 03/08/2020.

Fotógrafos gaúchos de diferentes gerações mostram suas formas de retratar

Luiz Carlos Felizardo, Jaqueline Joner e Tiago Coelho relatam modos artísticos e documentais

Luiz Carlos Felizardo, Jaqueline Joner e Tiago Coelho relatam modos artísticos e documentais


ARTE/JC
João Vicente Ribas, especial para o JC*
Danilo Christidis e Vherá Poty permutam conhecimentos entre a cidade e a floresta, para fotografar comunidades Mbyá Guarani nos caminhos do Sul. Excursões ao campo levam Diogo Zanatta a registrar estrelas no Norte do Estado.
Danilo Christidis e Vherá Poty permutam conhecimentos entre a cidade e a floresta, para fotografar comunidades Mbyá Guarani nos caminhos do Sul. Excursões ao campo levam Diogo Zanatta a registrar estrelas no Norte do Estado.
Nativa digital, Francine Tobin utiliza objetos translúcidos reais e produz efeitos imaginários. Para produzir os seus, Fernando Bueno utiliza filmes vencidos e assim busca manter a fotografia viva.
De outra parte, Jacqueline Joner assume ter abandonado a fotografia, crendo que o ser humano falhou, e agora se dedica à botânica. Enquanto isso, Leo Caobelli dedica-se a recuperar HDs em lixos eletrônicos para construir narrativas a partir das imagens salvas.
O veterano Luiz Carlos Felizardo também tem se aventurado em composições que só são possíveis no mundo digital, depois que precisou deixar seu laboratório preto e branco após 40 anos. Aproveitando a possibilidade de cliques quase infinitos, Tiago Coelho não precisa mais trocar o filme e segue interagindo intensamente com as pessoas que retrata. Essa interação, e o pertencimento, levam Vic Macedo a criar um futuro utópico imagético para os jovens afrx-brasileirxs.
Tais práticas representam as de inúmeros fotógrafos que atuam no Rio Grande do Sul. Alguns mais nitidamente voltados à arte, outros investindo em documentar o seu tempo - se é que é possível fazer tal distinção. Em um contexto de revolução digital, os modos como nos vemos e nos representamos multiplicaram-se.
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Vherá Poty registra comunidades Mbyá Guarani nos caminhos do Sul. Foto VHERA POTY/DIVULGAÇÃO/JC
Essas questões refletem-se em um dos mais importantes eventos de fotografia no Estado, o FestFoto. Para a edição de 2020, lançou-se o título: Emergências do Sul Global. Com isso, a organização do festival procurou trazer para o debate uma "região sem limites geográficos precisos marcada pelo compartilhamento de uma condição da emergência de possibilidades". Com o evento presencial adiado em função da pandemia, a programação teve no final de junho leitura de portfólios via internet, com a participação de 25 autores.
Essa relação geográfica é relevante desde os primeiros momentos da fotografia gaúcha. O professor de história da arte e pesquisador de história da fotografia do Departamento de Artes Visuais da Ufrgs, Alexandre Santos, observa que "a fotografia vai ser instrumento para gerar identificações culturais de todo tipo". Desde os viajantes europeus que adentraram a região no século XIX pelo Porto de Rio Grande, passando pelo estabelecimento de estúdios que produziam retratos e vistas urbanas.
Após mais de um século, o Rio Grande do Sul tem uma imagem construída de si, relacionada à sua paisagem natural e sua constituição étnica. Santos ressalta que muito foi produzido em torno da ideia de patrimônio histórico-cultural, consolidando um viés imaginário ligado à beleza e às especificidades da região. "Mas esta visão não está presente em grupos que hoje trabalham com a fotografia ligada às artes", salienta. Contudo, recupera a máxima de que "toda a fotografia ajuda a criar imaginários".
Entendendo que as questões do imaginário regional e do fazer fotográfico estão longe de unanimidades, buscou-se nesta reportagem compor um caleidoscópio de perspectivas. Entrevistamos fotógrafos de diferentes gerações.
Com isso, foi possível contar histórias de práticas que se revolucionaram e objetos de interesse que se ampliaram. Também foi possível perceber tendências atuais, como as reflexões deslocadas sobre territórios, as abordagens relacionais com as comunidades fotografadas, releituras de arquivos, experimentações entre elementos físicos e digitais e organização de coletivos.

Vertentes documentais e artísticas na história da fotografia gaúcha

Exposição Nervo Óptico: 40 anos foi apresentada em 2017 na Fundação Vera Chaves Barcellos
Exposição Nervo Óptico: 40 anos foi apresentada em 2017 na Fundação Vera Chaves Barcellos
ACERVO FVCB/DIVULGAÇÃO/JC
Estabelecer um marco zero da fotografia no Rio Grande do Sul é tarefa difícil. Pouco tempo depois de patenteada em Paris em meados do século XIX, vários fotógrafos circularam por aqui. O professor da Ufrgs Alexandre Santos observa que boa parte veio e foi embora. Posteriormente, alguns europeus inauguraram estúdios em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, a exemplo de Luiz Terragno, um dos pioneiros.
Havia um processo de propagação da fotografia no mundo, que se tornou mais viável com o advento dos negativos em vidro e em película. Com isso, estabeleceram-se aqui outros estrangeiros, a exemplo do espanhol João Antônio Iglesias, o alemão Otto Schönwald, e, posteriormente, os italianos Virgílio Calegari e os irmãos Ferrari.
Seguindo a linha do tempo, Santos pontua na virada do século XIX pro XX o começo de uma coqueluche mundial, o fotoclubismo. Eram amadores que registravam aspectos pitorescos da paisagem e das pessoas, uma onda que provavelmente se estendeu por todo o Estado. Lunara foi o fotoclubista mais notável, do Sploro Photo Club. A fotografia começava a ser valorizada como arte. "Havia preocupação de uma fotografia próxima da pintura em alguns estúdios", destaca Santos. Vieram as vanguardas, e com elas a straight photography, a partir dos Estados Unidos.
Na história recente, o professor observa que há pelo menos duas vertentes: a dos herdeiros de uma fotografia tecnicamente bem-acabada e a dos artistas que trabalham com a linguagem fotográfica. Dessa última, destaca nos anos 1970 o grupo Nervo Óptico, com Vera Chaves Barcellos, Carlos Pasquetti, Mara Alvares, Telmo Lanes, Clóvis Dariano, entre outros. "Desenvolveram trabalhos críticos, seguindo uma tendência de arte conceitual e trabalharam a fotografia como linguagem a ser explorada", pontua.
A outra vertente, mais ligada ao documental, tem Luiz Carlos Felizardo e Leopoldo Plentz como ícones. Seu foco é a fotografia tecnicamente impecável, muito próxima da straight photography. "Registraram aspectos do cotidiano mas com caráter artístico profundo", assinala Santos.

Equipamentos analógicos e fotojornalismo

Especialista em retratos, Jacqueline Joner foi professora universitária e formou gerações
Especialista em retratos, Jaqueline Joner foi professora universitária e formou gerações
/JAQUELINE JONER/DIVULGAÇÃO/JC
Uma das vertentes documentais, a fotografia jornalística nos anos 1970 estava ligada à lente teleobjetiva. Ou seja, fotografava-se de longe. Mas iniciativas como a do coletivo Ponto de Vista começaram a mudar este paradigma, pois acreditavam que era preciso chegar perto e conversar. Então adotaram a lente grande angular. Dessa forma, viajaram por todo o Estado, buscando mostrar o agricultor como jamais havia sido visto. O grupo surgiu no Coojornal e publicou os primeiros livros de fotojornalismo no Rio Grande do Sul. Entre seus integrantes, estavam Jacqueline e Genaro Joner, Eneida Serrano, Luiz Abreu, Raul Sanvicente, Humberto Andreatta e André Pereira.
Jacqueline Joner (67 anos), nasceu em Santa Rosa e foi professora universitária, participando assim da formação de toda uma geração. Procurou manter uma relação vital com os alunos, que tiveram mais acesso ao conhecimento em comparação à sua geração. Mas observa que "se o fotógrafo não tiver olhar próprio, não vai adiantar todo esse conhecimento".
O retrato é sua especialidade, que exerceu nos anos 1980 no Diário do Sul, influenciando o fotojornalismo na época. Outra característica do trabalho de Jacqueline é isolar objetos de interesse em fundos neutros, a exemplo da série Retratos de casamento (2000), com casais de diversos locais.
Recentemente, passou a registrar flores em fundo infinito. Sua justificativa é de que "uma flor nunca está no melhor lugar para ser retratada". Ela começou há seis anos essa série, com o celular, aprimorou a técnica, vem publicando no Instagram os resultados, mas não revela como trabalha. No entanto, não acredita estar fazendo fotografia, mas se dedicando à arte botânica. "A fotografia acabou, era outro equipamento, outro processo", enfatiza.

Fernando Bueno integra grupo que organiza Canela Foto Workshops, mais longevo festival do Brasil
Fernando Bueno integra grupo que organiza Canela Foto Workshops, mais longevo festival do Brasil
FERNANDO BUENO/DIVULGAÇÃO/JC
Fernando Bueno (65 anos) compartilha de visão semelhante. "Por exigência de mercado, hoje fotografo até com celular, mas o digital não é fotografia, é outra linguagem", diz. Sua crítica também recai sobre trabalhos com muita justificativa: "Não é fotografia, tinha que inventar outro nome pra isso. A fotografia fala por si só".
Com essa convicção, utiliza uma variedade de câmeras analógicas, das mais simples, como Holga e Horizon, às mais sofisticadas, de grande e médio formato. Em uma de suas produções, chamada Memórias vencidas, exposta na Bienal de Bogotá em 2019, utilizou filmes guardados por 10 anos na geladeira, para produzir efeitos imprevistos.
Comentando as transformações no mercado, Bueno relembra quando foi contratado em 1978 pelo The Image Bank, atual Getty Images. Certa vez, vendeu uma foto que rodou o mundo, o que lhe rendeu em direitos autorais o suficiente para levar sua família de férias para os Estados Unidos durante um mês. Hoje, observa que o rendimento é de centavos, pois a tecnologia permitiu a proliferação dos bancos de imagens, boa parte deles gratuitos.
Ele integra, desde 2001, o grupo que organiza o Canela Foto Workshops, o mais longevo festival do Brasil. Mesmo com a pandemia e a perda de patrocínio, a movimentação em torno da fotografia seguiu em 2020 na cidade serrana, com exposições ao ar livre.

Diogo Zanatta pesquisa estrelas e meteoros há cinco anos
Diogo Zanatta pesquisa estrelas e meteoros há cinco anos
DIOGO ZANATTA/divulgação/jc
Já no Norte do Estado, em Passo Fundo, o Grupo da Foto é uma iniciativa que reúne desde 2010 amadores e profissionais para pensar a cidade com olhar fotográfico. Um dos integrantes, Diogo Zanatta (38 anos) observa que a região sempre teve bons fotógrafos, a exemplo do estúdio Foto Moderna, da família Czamanski.
Seu desejo é entrar para o rol dos que se dedicaram a documentar a história de sua cidade. Começou fotografando para publicidade, passou ao fotojornalismo e a convivência com o Grupo da Foto estimulou-o a focar sua Nikon D750 em trabalhos autorais. Um deles é a fotografia de estrelas e meteoros, que pesquisa há cinco anos.
Zanatta procura dialogar com os colegas da sua região. Uma de suas referências é Tadeu Vilani, de Santo Ângelo. Ao mesmo tempo, nas redes digitais, mantém interlocução com pares de outros lugares do mundo.

Olhar feminino em coletivo

 Ensaio Emovere, de Francine Tobin, que aposta em efeitos manuais
Ensaio Emovere, de Francine Tobin, que aposta em efeitos manuais
FRANCINE TOBIN/DIVULGAÇÃO/JC
O contato virtual gerou recentemente o coletivo Pixel Ladies, formado na pandemia por mulheres gaúchas que residem em diferentes países. Para amparar seus trabalhos autorais neste período, elas criaram uma campanha de financiamento coletivo na plataforma Catarse.
Francine Tobin (25 anos), que vive em Eldorado do Sul, é uma delas, ao lado de Suzana Pires, Denise Dietrich, Malu Baumgarten, Julia Pilati, Gabriela Radde e Ritiele Brasil. A prática profissional de Francine está calcada em ensaios e eventos sociais.
No fim do ano, irá formar-se na universidade, onde voltou sua câmera Canon EOS Rebel T5I para o campo artístico. "Na fotografia autoral é onde mais se tem liberdade", afirma.
A jovem já fez experiências com câmera analógica, mas sempre usou a digital: "Gosto de fazer efeitos manuais na hora do clique, inserindo pedras translúcidas, vidros ou tecidos nas bordas da lente, criando um clima mais onírico".

Tecnologia digital

Pelotense Leo Caobelli sempre teve trabalho pautado por coletivos
Pelotense Leo Caobelli sempre teve trabalho pautado por coletivos
/LEO CAOBELLI/DIVULGAÇÃO/JC
Para Leo Caobelli (40 anos) as fotos não falam por si: "Não que precise explicá-las, mas a arte contemporânea vem acompanhada de reflexão sobre o processo artístico e entra em um nível alto de apreciação". Entre a arte e o documental, acredita que produz em um entrecampo. Hoje, recupera HDs descartados em lixões eletrônicos para coletar imagens e construir narrativas. Conta com o apoio de um amigo que garimpa nos galpões da Nigéria: "As imagens recuperadas lá nunca são de negros. São sempre alemães, chineses, americanos, que exportaram seu lixo para o país".
Leo Caobelli é natural de Pelotas e estudou na Fábrica, fundada por Oliviero Toscani na Itália. Trabalhou como fotojornalista e difere a fotografia útil, feita para os outros, e a fotografia autoral, feita para si. "A minha fotografia é a do contexto. Não é a fotografia síntese, ícone, não é fácil de colocar à venda na galeria", conclui.
Há 12 anos, enquanto trabalhava na Folha de S.Paulo, fundou com Paulo Fehlauer e Rodrigo Marcondes a agência Garapa, dedicada à produção multimídia, com os primeiros recursos digitais. Os coletivos pautaram a organização do seu trabalho. Hoje, faz parte da Planta Baja, em Porto Alegre, ao lado de Cristiano SantAnna, Giordano Toldo, Marcelo Armesto e Vicente Carcuchinsk.
Observando a história local, Caobelli ressalta grandes fotógrafos que se dedicaram ao tema do Pampa, formando uma estética da fotografia no Estado: "Depois, chega uma leva que coloca esta imagem cristalizada em xeque". Para ele, as novas gerações tendem a deixar de lado o gaúcho como ícone. Cita Lorenzo Beust, que fotografa São Gabriel, e Ricardo Ara, que fotografa Garibaldi, ambos buscando um olhar regional "sem devoção, nem cuspir na tradição, mas encontrando outras imagens".

Para aprender da pedra, frequentá-la, obra de 2016 de Tiago Coelho
Para aprender da pedra, frequentá-la, obra de 2016 de Tiago Coelho
TIAGO COELHO/DIVULGAÇÃO/JC
Fotografar o seu entorno e ter uma autorrepresentação ligada à ideia de América Latina é o que conduz Tiago Coelho (34 anos), sócio da Galeria Mascate e professor na Unisinos. "Temos uma fotografia muito baseada naquela feita pelos colonizadores sobre nós", observa.
Por isso, procura evitar a prática do viajante que fotografa com um olhar peculiar. "Busco fotografar um microuniverso, mas representando um macrouniverso. Posso estar falando de alguém próximo, mas também de toda uma parcela da sociedade brasileira, ou do Rio Grande do Sul", conclui.
No início, Coelho usava filme preto e branco, e lembra de afirmar que jamais abandonaria o analógico, pois as primeiras câmeras digitais tinham qualidade inferior. Mas logo descobriu novos equipamentos e acabou migrando.
Aos 19 anos, teve uma imagem adquirida pela coleção Pirelli Masp. Formou-se em Cinema e sempre investiu na fotografia documental. Seus trabalhos transitam por uma variedade de temas sociais, incluindo ecológicos e LGBTQI.
Sua especialidade são os retratos, em que fica tão à vontade com as pessoas, que produz uma aparente espontaneidade. Atualmente, Coelho desenvolve "esculturas fotográficas", as quais imprime em tecido e molda em seu próprio corpo: "É um método para desenhar as emoções".

Anatomias ancestrais, de Danilo Christidis, que também troca conhecimentos entre cidade e floresta
Anatomias ancestrais, de Danilo Christidis, que também troca conhecimentos entre cidade e floresta
DANILO CHRISTIDIS/DIVULGAÇÃO/JC
A abordagem relacional move o trabalho realizado pelo citadino Danilo Christidis (36 anos) e o indígena Vherá Poty (32 anos). Durante sete anos, conviveram com comunidades da etnia Mbyá Guarani em toda região sul do Brasil, aprenderam e fotografaram juntos.
Em 2015, lançaram o primeiro livro fotográfico na história do país realizado em coautoria indígena. Até chegar a conhecer o colega Poty, Christidis fez seu primeiro trabalho nos Andes, em 2005, percebendo a diversidade geográfica e cultural: "No Sul, temos uma imagem muito branqueada da população destes territórios".
Na volta, procurou a galeria da Casa de Cultura Mario Quintana para expor e conheceu Sérgio Sakakibara e Amauri Fausto. Fez cursos, utilizou o laboratório público e levou sua Canon Ae1 outras vezes ao Peru.
Depois, aproximou-se dos Mbyá Guarani, povo que está aqui há pelo menos cinco mil anos. Conviver com os índios foi essencial: "Há formas de narrar a vida na fala deles que a nossa linguagem não alcança".
Enquanto Poty entendeu a técnica da fotografia muito rápido, Christidis revela que demorou a compreender os entendimentos dos indígenas sobre o belo, pois suas definições não são categóricas, mas carregadas de subjetividades. "Quando cheguei, Vherá Poty me disse que teria que aprender a ver as coisas", relata.

O olhar do fotógrafo

Baratinha Schuco, obra de Luiz Carlos Felizardo
Baratinha Schuco, obra de Luiz Carlos Felizardo
LUIZ CARLOS FELIZARDO/DIVULGAÇÃO/JC
Fosse com a câmera Leica M a tiracolo ou com a Toyo Field, posicionada em um tripé, Luiz Carlos Felizardo percorreu o Estado, gravando filmes Kodak Tri-X e Ilford HP5. Aos 71 anos, suas imagens compõem parte do nosso imaginário.
Mesmo quando maior parte dos profissionais já havia migrado para o digital, Felizardo seguiu com a fotografia analógica, até que o surgimento de uma ataxia lhe impôs dificuldades motoras, e precisou abandonar o laboratório tradicional. Então lançou-se a explorar a tecnologia digital na série A estranha xícara, em 2018.
Sua trajetória de mais de 40 anos de trabalho é contada em um documentário que o Margs acaba de lançar, dirigido por Gilberto Perin e Emerson Souza. O curta Luiz Carlos Felizardo, um fotógrafo na estrada está disponível no canal de YouTube do museu.
JC - Viver: Em relação ao mercado, a fotografia no Rio Grande do Sul possui boas possibilidades?
Luiz Carlos Felizardo - O mercado de trabalho para artistas no Estado é muito difícil, principalmente para a fotografia, em todos os seus segmentos. Para o fine arts, principalmente, o Brasil ainda está muitos anos atrás de outros países europeus e dos Estados Unidos. O eixo Rio-São Paulo sempre oferece mais possibilidades. Aqui são poucas as galerias que trabalham efetivamente com fotografia e o mercado não valoriza adequadamente. Quanto às novas gerações, temos excelentes jovens fotógrafos que vêm conseguindo mostrar seu trabalho não somente aqui, mas em outras cidades e países, graças aos festivais, editais, etc. Porém, esses, com nosso atual governo, estão sendo desmantelados, assim como as publicações especializadas.
Viver - Acredita que o "olhar do fotógrafo" nunca se perde?
Felizardo - O olhar do fotógrafo depende de uma série de coisas que rodeiam toda a nossa vida, que são os nossos prazeres, notadamente a música, a literatura, o cinema. E delimitam o que se possa considerar como qualidade. Através deles que o olhar do fotógrafo se forma e atinge, depois de certo tempo, a maturidade. Eu acho que não há modificações ao final da vida, acho que o olhar do fotógrafo continua sendo, num certo sentido, um olhar diferenciado.

A identidade da fotógrafa

Jovem porto-alegrense Vic Macedo foi premiada com residência artística do FestFoto
Jovem porto-alegrense Vic Macedo foi premiada com residência artística do FestFoto
/VIC MACEDO/DIVULGAÇÃO/JC
A porto-alegrense Vic Macedo (25 anos) começou a fotografar em 2014, formou-se em Fotografia e foi premiada com a residência artística do FestFoto. A partir desse momento, expôs em diversos espaços de arte na Capital. Neste mês, foi selecionada para o Salão Anapolino, um dos mais importantes do País. Com sua Canon T5i em punho, dedica-se à afirmação da identidade dxs jovens afro-brasileirxs. Sua estética, por mais que utilize equipamento e tratamento digitais, remete ao preto e branco analógico.
JC - Viver: Qual foi a inspiração para a série Todas as mulheres do mundo?
Vic Macedo - Minha inspiração foi o Afrofuturismo, que mistura elementos da ficção científica, arte e fantasia, e diversas fontes além da fotografia, como o cinema. Identifiquei-me muito com o filme Space is the place, de Sun Ra, onde ele argumenta que a luta por justiça racial é exaustiva e que negros teriam uma melhor qualidade de vida se criassem sua própria sociedade antirracista. Trouxe esse contexto para a minha própria realidade como mulher negra no Brasil. Vejo que a luta antirracista aqui é uma luta pelo básico: como o direito de caminhar na rua com um guarda-chuva ou ir à escola sem ser baleado pela polícia. Por isso, pensei em criar, mesmo que seja no campo da ilusão, uma sociedade preparada para acolher pessoas negras sem precisarmos pensar e lidar com todas essas questões no dia a dia.
Viver - Essa postura se aplica sempre na tua atuação como fotógrafa?
Vic - Com certeza. Tenho dever de usar a imagem para subverter a forma como o negro vê a si mesmo. Não me sentiria bem se fotografasse qualquer outro assunto banal, deixando essas questões de lado, como se a arte negra já estivesse bem representada. Meus projetos também são uma forma de me manter sempre estudando a história das lutas raciais, da formação do Brasil - essa parte da história que não é mencionada nas escolas. A melhor parte é quando alguém vê meu trabalho e diz que se interessou por aquele assunto e foi se informar mais. O meu maior objetivo como fotógrafa é esse.

* João Vicente Ribas é jornalista, doutor em Comunicação pela Pucrs e professor na Universidade de Passo Fundo.
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