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reportagem cultural

Notícia da edição impressa de 26/06/2020. Alterada em 26/06 às 21h20min

O papel das lendas no mosaico cultural que constitui a identidade gaúcha

Negrinho do Pastoreio rompeu fronteiras no imaginário popular para além do Estado, sendo considerada uma das narrativas mais propagadas do Brasil

Negrinho do Pastoreio rompeu fronteiras no imaginário popular para além do Estado, sendo considerada uma das narrativas mais propagadas do Brasil


Rodrigo Rosa-Dana Social/DIVULGAÇÃO/JC
Thaís Seganfredo, especial para o JC
Certa vez, nas charqueadas gaúchas, um menino negro escravizado perdeu um dos cavalos de que deveria cuidar, segundo ordem do estancieiro. Como punição, sofreu centenas de chibatadas e foi deixado em cima de um formigueiro. O menino, porém, não pereceu, como esperava o algoz. No dia seguinte, estava intacto, com o cavalo perdido ao lado. Até hoje, ajuda aqueles que acendem uma vela para ele a encontrar objetos perdidos.
Certa vez, nas charqueadas gaúchas, um menino negro escravizado perdeu um dos cavalos de que deveria cuidar, segundo ordem do estancieiro. Como punição, sofreu centenas de chibatadas e foi deixado em cima de um formigueiro. O menino, porém, não pereceu, como esperava o algoz. No dia seguinte, estava intacto, com o cavalo perdido ao lado. Até hoje, ajuda aqueles que acendem uma vela para ele a encontrar objetos perdidos.
Com mais ou menos variações conforme a imaginação do orador, a história é bastante divulgada. O destino do Negrinho do Pastoreio, que rompeu fronteiras no imaginário popular para além do Rio Grande do Sul, é considerado uma das lendas mais propagadas do Brasil. Mas onde foi que surgiu essa narrativa? Há como rastrear o local e a data do nascimento de uma lenda? É possível caracterizar o conjunto de lendas que circulam pelo Rio Grande do Sul?
Desde meados do século XIX, autores e folcloristas como Cezimbra Jaques, Simões Lopes Neto e Barbosa Lessa se dedicaram a registrar e a sistematizar essas histórias, com o objetivo em comum de construção de uma identidade regional, ainda que cada um a seu modo, na qual o resgate da cultura popular foi um dos pilares.
Ainda que lendas como a Salamanca do Jarau, do Sepé Tiaraju e a do próprio Negrinho do Pastoreio já estejam internalizadas como narrativas genuinamente gaúchas, os estudos sobre essas origens foram pautados por debates acadêmicos ao longo do século 20. Nos anos 1950, enquanto o historiador e folclorista Dante de Laytano chegou a identificar cerca de 80 lendas diferentes que existiram e circularam pelo estado, outros autores, como Darcy Azambuja, consideravam haver pouquíssimas lendas verdadeiramente populares no RS, entre elas a do Negrinho do Pastoreio.
O escritor e professor da Ufrgs Luís Augusto Fischer pondera que os primeiros registros dessas lendas foram realizados por autores que geralmente não as ouviam diretamente de quem as propagava. "Ocorre que as lendas nascem e prosperam, ao menos até a virada do século XIX para o XX, em ambiente rural e na maior parte das vezes ágrafo, sem escrita regular. Daí que seja muito difícil acreditar em certidões de nascimento muito firmes", observa.
Simões Lopes Neto, por exemplo, criou sua própria versão da lenda da cobra gigante de fogo Boitatá, na qual traz uma história de origem, além de um Saci Pererê um quanto peculiar, vestindo um barrete feito de flores de corticeira. Um dos maiores debates acadêmicos em relação à autoria das lendas do Estado tem como pivô o Negrinho do Pastoreio. Isso porque, em meados do século XX, alguns autores do Centro do País lançaram a tese de que o "negrinho" seria uma adaptação do Saci. Para o folclorista e doutor em Comunicação pela Ufrgs Andriolli Costa, "a única semelhança entre os dois é que os dois são negros. Me parece que é uma leitura rasteira e racista, que tenta deixá-los semelhantes."
Nesse processo de construção, os autores consideraram fundamental inserir elementos simbólicos, sobretudo que remetessem a um resgate histórico e cultural das etnias formadoras do estado, com destaque para elementos ameríndios e indígenas. Segundo Paula Simon, integrante do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Fundação Santos Herrmann, "as lendas representam fator identitário, ao se referirem a fatos e acontecimento regionais ligados ao imaginário popular, reforçam o sentimento de pertencimento".
Na avaliação de Costa, a religião é um elo que caracterizaria o conjunto de lendas nascidas no Rio Grande do Sul. "Encontramos lendas com histórias cristãs pelo Brasil inteiro, mas aqui elas são muito fortes. A lenda é muito local, então ela vai se transformar muito de acordo com as características daquele espaço. Mesmo quando essas lendas têm elementos indígenas, elas foram cristianizadas, inclusive pela presença forte dos jesuítas", explica.

Entenda os termos

FOLCLORE: termo cunhado pelo inglês William John Thompson em 1846 para designar "a cultura do povo". Abrange áreas como medicina popular, mitos e lendas, cantigas e danças típicas.
LENDA: narrativa de caráter fantástico transmitida de forma oral, fundamentada em um determinado ponto no tempo e no espaço.

Primeiros registros por autores e intelectuais

Escultura de Vasco Prado, em São Francisco de Paula, retrata o personagem da lenda Negrinho do Pastoreio
Escultura de Vasco Prado, em São Francisco de Paula, retrata o personagem da lenda Negrinho do Pastoreio
/ANA CAROLINA OLIVEIRA/PREFEITURA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA/DIVULGAÇÃO/JC
Foi a partir das últimas décadas do século XIX que essas lendas começaram a ser registradas por autores e intelectuais gaúchos. Alinhados ao Romantismo, Apolinário Porto Alegre e outros membros da Sociedade Partenon Literário se dedicaram a pensar uma literatura sul-rio-grandense, buscando na identidade do gaúcho o cerne dessa representação. Assim, a valorização do indígena - e, consequentemente, o resgate de suas lendas - como um herói e da figura do gaúcho farrapo passaram a ser foco de atenção desses autores.
Para o escritor Paulo Bocca Nunes, autor da dissertação Lendas do Rio Grande do Sul: A literatura regional folclórica e a atualidade da tradição, foi por volta de 1880, com Cezimbra Jaques, considerado o patrono do tradicionalismo gaúcho, que as lendas ganharam maior destaque na literatura. Nunes conta que Jaques foi o primeiro a se preocupar em registrar essas histórias que teriam se originado no Estado. "Ele nunca disse de onde coletou essas lendas, basicamente (de temáticas) indígenas do povo charrua, e quais as suas fontes. No livro Assuntos do Rio Grande do Sul, ele apresenta o índio charrua e minuano como constituinte da matriz étnica regional formadora do gaúcho", diz.
Um dos contos publicados no livro, Ymembuy, acabou ganhando status de lenda. O autor, no entanto, deixou claro que o objetivo era o de, segundo suas próprias palavras, dar "iniciativa da formação de uma literatura do nosso caro torrão sul-rio-grandense, com elementos puramente genuínos'", pondera Nunes.
Em artigo publicado pela Academia Rio-Grandense de Letras, o historiador Moacyr Flores destaca a falta de metodologia científica de Jaques e outros folcloristas amadores da época. "A narrativa de João Cezimbra Jacques é discursiva, com muitos adjetivos, pois o autor pretende convencer que somos uma super raça, por influência mesológica. Não apresenta documentação, seus dados são baseados na experiência pessoal e no uso da teoria de Augusto Comte. Sua preocupação maior é despertar o orgulho de ser gaúcho", afirmou.
O professor Luís Augusto Fischer destaca que esses escritores ouviam essas lendas de forma mediada, não diretamente das pessoas informalmente responsáveis por sua salvaguarda, através da oralidade. "Quem as criava, desenvolvia e propagava era, para usar uma imagem aqui do Estado, o pessoal do galpão, não o pessoal proprietário, que vivia nas casas de fazenda, mas os que viviam nas casas de fazenda é que sabiam escrever".

Das vozes para os livros

Dana Social distribuiu ilustrações como a Boitatá, de Rodrigo Rosa
Dana Social distribuiu ilustrações como a Boitatá, de Rodrigo Rosa
Rodrigo Rosa-Dana Social/DIVULGAÇÃO/JC
No início do século XX, já havia registros de uma boa quantidade de lendas gaúchas, como A Mãe do Ouro e Boitatá na Revista do Partenon, além de Generoso e Negrinho do Pastoreio, entre outras, nas obras de Cezimbra Jaques (patrono do tradicionalismo). Esse trabalho fundou as bases para as próximas gerações de folcloristas, que propuseram a organização dessas lendas pelos elementos temáticos.
Simões Lopes Neto foi o primeiro a trazer uma sistematização das narrativas, classificando-as em lendas do sul, lendas missioneiras e lendas do Centro e Norte do Brasil, além de inserir, através do poema O Lunar de Sepé, o indígena guarani missioneiro no mosaico étnico-cultural registrado por essas narrativas. Luís Augusto Fischer, que organizou e apresentou Contos Gauchescos e Lendas do Sul (L&PM Pocket, 2011), afirma que Lopes Neto foi "o primeiro escritor de talento e tino para dar uma forma escrita ao mesmo tempo sofisticada e acessível".
Segundo o professor, as três lendas abordadas trazem como pilares elementos da história popular do Estado: em Mboitatá, o ameríndio; em Negrinho do Pastoreio, uma "visão aguda sobre a escravidão"; e, em Salamanca do Jarau, um entrelaçamento de uma princesa moura com a cultura missioneira, "num conjunto sensacional em seu poder narrativo".
Inegável também foi sua contribuição para a popularização dessas histórias na sociedade gaúcha, com o lançamento de Lendas do Sul (1913). "No texto, elas são apresentadas em uma forma oral, ou seja, como se o autor tivesse transcrito a história tal como um contador. Dessa forma, o autor pelotense dá às lendas um status e um reconhecimento popular", analisa Paulo Bocca Nunes.
Sua Salamanca do Jarau tem tanta presença autoral que levantou um debate entre autores como Augusto Meyer e Darcy Azambuja se a estória seria mesmo uma lenda ou um conto de Lopes Neto, como aborda o pesquisador em sua dissertação. A partir do final dos anos 1950, com Barbosa Lessa, Paixão Côrtes e o grupo dos Oito, esse projeto de sistematização passou por uma reelaboração, com uma catalogação completa dos elementos identitários do Estado. "O grupo dos oito amigos do colégio Julinho bebeu nas fontes de Cezimbra e Simões. De cada um, foram assimiladas contribuições que foram usadas para a criação do Movimento Tradicionalista Gaúcho", explica Nunes. Foi nessa época que nasceu a toada Negrinho do Pastoreio, composta por Lessa, que se tornaria um clássico nativista.
Nos anos 1970, com a criação do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore, o Estado deu início à política de salvaguarda e preservação dessa cultura, reunindo um acervo de livros, áudios, vídeos, fotografias e documentos. Com a extinção do Instituto, em 2017, o acervo foi dividido entre os equipamentos culturais do Rio Grande do Sul. Boa parte, principalmente filmes e fotografias, está no Museu da Comunicação Hipólito José da Costa, que deverá integrar um repositório digital em setembro de 2020, conforme o diretor Wellington Silva.

Tessituras identitárias

Negrinho do Pastoreio foi tema de mural de Aldo Locatelli no Palácio Piratini
Negrinho do Pastoreio foi tema de mural de Aldo Locatelli no Palácio Piratini
/ALDO LOCATELLI/REPRODUÇÃO/JC
Na busca pelas raízes de uma identidade que constituísse o gaúcho, muitos autores identificaram diferentes elementos formadores desse mosaico cultural, que se reflete na cultura popular sul-rio-grandense. Na década de 1970, Dante de Laytano escreveu sobre a origem das lendas do estado para a Revista Brasileira de Folclore, enquanto conselheiro do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular. Para o pesquisador, algumas personas compõem a história do RS: o estancieiro, o militar, o açoriano, o índio, o negro e o rio-platense.
Especificamente quanto às lendas, que Laytano sistematizou conforme ciclos temáticos (ciclo do cavalo, ciclo do ouro, ciclo da natureza, etc.), para o historiador, o indígena sempre foi elemento central. "As lendas do rio grande do sul estão recheadas de temas indígenas e elas passam por todos os ciclos do folclore das lendas do gaúcho", escreveu.
Nunes alerta para o fato de que esse indígena não deve ser entendido como uma só identidade, na medida em que diversas são as etnias representadas nessas lendas. "Com relação a esse tema, há muitos debates controversos e fortes. Primeiro, pelo fato de não haver um consenso quanto ao povo indígena que remete à representação simbólica do gaúcho", afirma. Cezimbra Jacques, por exemplo, traz o charrua e o minuano como protagonistas, inclusive exaltando sua forma de montar a cavalo e sua bravura ao lutar. "Sobre esses dois povos pouco se conhece, pois foram se integrando e se miscigenando com o português, dando origem, segundo alguns autores, ao peão de estância", explica Nunes.
Outros autores, como Simões Lopes Neto, trazem a cultura do guarani das Missões, principalmente na figura de Sepé Tiaraju, o que acabou gerando outros debates acadêmicos acerca da consideração ou não da história do herói das missões jesuíticas no conjunto de lendas gaúchas. Seja devido à presença jesuítica, seja devido à época de prosperidade das Missões, fato é que várias lendas gaúchas são originárias da região e são propagadas até hoje, entre elas A Casa de MBororé, Anguera (ou Generoso) e a lenda do Erva-Mate.
Como explica Andriolli Costa, a formação do imaginário popular brasileiro vem do encontro entre o indígena, o negro e o branco, que, embora marcado pela violência e pela subjugação na história, foi de certa forma pacificado nessas representações simbólicas. Atualmente, diferentes povos indígenas buscam resgatar a origem dessas lendas como forma de reconhecimento sua própria cultura. "Só que, ao longo dos séculos, essa lenda já foi tão transformada que é muito difícil falar que elas são só pertencentes a um povo", avalia Costa.
Para o pesquisador, no entanto, essas histórias continuam até hoje refletindo o panorama sociocultural do Brasil. "Quando vemos negros sendo espancados na rua, estamos vendo uma atualização no mito do Negrinho do Pastoreio. Quando falamos desta lenda, estamos falando de uma história sobre racismo e sobre violência", observa.
 

Inspiração para a arte

Zoravia Bettiol ilustrou em xilogravuras e desenhos a lápis a Salamanca do Jarau nos anos 1950
Zoravia Bettiol ilustrou em xilogravuras e desenhos a lápis a Salamanca do Jarau nos anos 1950
ZORAVIA BETTIOL/REPRODUÇÃO/JC
Desde o século XX, as lendas gaúchas são fonte de inspiração recorrente para os artistas do brasileiros. Vasco Prado é autor de diversas esculturas nos quais retrata um negrinho do pastoreio magro e em sofrimento, para municípios como Alegrete e São Francisco de Paula. A lenda do menino escravizado também foi tema de mural de Aldo Locatelli, que pintou 18 painéis no Palácio Piratini, em uma representação criada a partir da versão de Simões Lopes Neto e que resgata a herança africana na cultura gaúcha. Nos anos 1950, Zoravia Bettiol ilustrou em xilogravuras e desenhos a lápis a Salamanca do Jarau, obras que chegaram a ser exibidas 10 anos mais tarde na Alemanha.
Na literatura, a temática pautou escritores de diferentes escolas, como Erico Verissimo, que incluiu lendas como A Salamanca do Jarau em O tempo e o vento, e Olavo Bilac em palestra realizada na Academia de Letras do Rio Grande do Sul em 1916, como aponta Paulo Bocca Nunes. Na ocasião, Bilac descreveu o protagonista: "escravo humilde, o pobre pequeno era propriedade de um estancieiro rico e avaro".
 

Atores Tarcísio Filho, como Bento, e Lu Adams, como Rebeca, no filme Cerro do Jarau, de Beto Souza
Atores Tarcísio Filho, como Bento, e Lu Adams, como Rebeca, no filme Cerro do Jarau, de Beto Souza
RODRIGO BALEIA/DIVULGAÇÃO/JC
No final do século, as lendas ganharam forte tendência infantojuvenil nas mãos de autores como Carlos Urbim e Walcyr Carrasco. Nesse sentido, também foram apropriadas para projetos de caráter pedagógico, como o projeto da Dana Social, que distribuiu ilustrações de autoria de Rodrigo Rosa. "Nosso objetivo foi resgatar e registrar histórias populares que se passavam de geração em geração e em tempos de pokemons e outros personagens, vai se perdendo", comenta Luis Ferreira, diretor de Relações Institucionais da Dana Social. Atualmente, são inúmeros os títulos que abordam as lendas do estado para as crianças e adolescentes.
Para o folclorista Andriolli Costa, essa tendência ao infantil tem se modificado na última década, na medida em que o fantástico ganha destaque em produções audiovisuais contemporâneas. "Tem muita gente tentando reimaginar os mitos. Quando se vai criar uma proposta artística, o primeiro passo é romper imediatamente com essa tendência infantil. Então os autores vão para o terror, para criaturas mais monstruosas e para referências de fora do Brasil", avalia.
Um marco na produção audiovisual no Estado foi o longa-metragem O Cerro do Jarau, de Beto Souza, lançado em 2005. O cineasta conta que partiu da história e da cultura do estado para criar um filme que englobasse diferentes gêneros, do road movie ao policial. "O cinema, pela dimensão que tem e pelo envolvimento na sociedade, é um poderoso divulgador da cultura. O Estado tem um arcabouço que nos dá uma personalidade, então acho que de certa maneira o filme ajuda a perpetuar esse imaginário que se tem sobre nós", diz.

Inspirada nas lendas, Cia Armazém, de Santa Maria, desenvolve espetáculos para a família
Inspirada nas lendas, Cia Armazém, de Santa Maria, desenvolve espetáculos para a família
LEONARDO LIMA/DIVULGAÇÃO/JC
Nas artes cênicas, as lendas carregam uma potencialidade para a experimentação de linguagens. A Cia Armazém, de Santa Maria, desenvolve espetáculos com a temática há mais de uma década. "Lá em 2009, começamos a perceber o interesse que existia não só das crianças como também dos pais pelas lendas e costumes gaúchos. Partindo dessa experimentação, começamos a pesquisar e a pensar como levar isso para um contexto mais moderno", explica a atriz e produtora Patrícia Garcia.
O resultado foi um espetáculo musical para a família, que se somou aos outros projetos da companhia, que já foram objeto de turnê pelo estado, para públicos de diferentes faixas-etárias. A Cia de Teatro Lumbra, que completa duas décadas de atividade em 2020, levou a temática para o teatro de sombras. "A nossa cultura gaúcha, essa sul brasileira, ainda é pouco entendida, não é aceita como uma hibridação, como uma mescla casual que nos faz autênticos vira-latas de raça. Há muito mais material para pesquisar e descartar do que a nossa capacidade de entender os valores quantitativos e qualitativos desse conteúdo", opina o diretor Alexandre Fávero.
Para os próximos anos, produções de outras linguagens já estão em desenvolvimento, incluindo o jogo de videogame Pago, inspirado na obra de Simões Lopes Neto, que traz figuras como a Salamanca e a Boitatá. A iniciativa da produtora Epopeia acaba de vencer um edital de financiamento para custear a finalização do game.

Folclore e tradição na literatura regional

Para o professor Paulo Bocca Nunes, O Negrinho do Pastoreio é uma lenda originária do Rio Grande do Sul
Para o professor Paulo Bocca Nunes, O Negrinho do Pastoreio é uma lenda originária do Rio Grande do Sul
Rodrigo Rosa-Dana Social/DIVULGAÇÃO/JC
Entrevista com Paulo Bocca Nunes, escritor, professor de Língua Portuguesa e autor da dissertação de mestrado Lendas do Rio Grande do Sul: A literatura regional folclórica e a atualidade da tradição.
JC - Viver: Qual foi papel de Cezimbra Jacques na sistematização dessas lendas. Ele foi o primeiro ou um dos primeiros autores a contribuir para esses registros?
Paulo Bocca Nunes - Cezimbra Jacques não fez uma sistematização das lendas. Como sistematização entende-se dividir as lendas por assuntos. Isso ficou para outros pesquisadores, como Barbosa Lessa. Por exemplo, no livro Estórias e lendas do Rio Grande do Sul (1959), Lessa coloca a lenda O sacristão e a Teiniaguá (que faz parte do conto A Salamanca do Jarau, de Lopes Neto) como sendo uma lenda das Missões Jesuíticas. Ele também colocou as lendas O cervo dourado do Caverá e O cavalo encantado da Lagoa do Parobé, de Cezimbra Jacques, como sendo Estórias dos índios do Pampa.
Cezimbra Jacques foi o primeiro a se preocupar em fazer registros de lendas que circulavam pelo Rio Grande do Sul. Ele nunca disse de onde coletou as lendas, basicamente indígenas do povo charrua, e quais as suas fontes. Como ele era militar e conhecia muitos estancieiros, é provável (não estou afirmando!) que ele tenha tido conhecimento através das histórias de peões que, já na sua época, eram mestiços. No entanto, nada se pode afirmar. Em contraponto, o Partenon Literário buscou criar uma literatura regional, mas não se concentrou em fazer coletas de lendas e as sistematizarem.
O autor santa-mariense buscou trazer elementos que contribuíssem para a criação de uma identidade regional que estivesse em sintonia com o nacional, com a ideia de brasilidade. Em seu livro Ensaios sobre os costumes do Rio Grande do Sul (1883), o autor santa-mariense faz uma explanação dos aspectos geográficos e climáticos, bem como da fauna e da flora sul-rio-grandense. Faz isso de forma a exaltar as coisas do Estado. Também ele faz uma breve apresentação da população, do tipo regional e da história de ocupação do território. Cezimbra fala sucintamente sobre o gaúcho, o tipo regional identificado com o Pampa, mas que busca ser o representante simbólico de todo o Estado. Complementando essa abordagem, o autor traz algumas lendas, cantorias, poemas e explica como eram algumas danças que disse ser comuns nas estâncias. Outro ponto bastante interessante que Cezimbra traz nesse livro é um capítulo intitulado Vocabulário e, como o nome já diz, traz expressões que diz ser bastante comum entre as pessoas do Pampa. Dessa forma, ele mostra que o tipo regional possui uma linguagem específica que o diferencia de outros povos.
Em outro livro, Assuntos do Rio Grande do Sul, Cezimbra aprofunda tudo o que falou em seu primeiro livro, trazendo mais lendas, poemas e explicações de danças. Nesse livro, ele apresenta o índio charrua e minuano como constituinte da matriz étnica regional formadora do gaúcho. As lendas indígenas que ele traz no livro são, segundo ele, provenientes desses povos, especialmente o charrua.
Cezimbra exalta o charrua na sua forma de montar a cavalo, a sua bravura ao lutar, os manejos com as armas e os seus valores. Dessa forma, o autor busca apresentar um ancestral que transmitiu ao gaúcho todos os aspectos do povo charrua. O santa-mariense criou um conto que, mais tarde, recebeu status de lenda: Ymembuy. O autor, no entanto, deixou claro que o objetivo era o de, segundo suas próprias palavras, dar “iniciativa da formação de uma literatura do nosso caro torrão sul-rio-grandense, com elementos puramente genuínos.”
Há uma possibilidade de Cezimbra Jacques ter dado uma resposta em Ensaios sobre os costumes do Rio Grande do Sul (1883) ao romance de José de Alencar, O gaúcho (1870). Os literatos da época, e mesmo depois, criticaram o escritor cearense por ter caracterizado o gaúcho de forma equivocada. Pela forma como Cezimbra apresenta o gaúcho em seu livro, destoa muito do personagem Manuel Canho.
Viver - Simões Lopes Neto é um dos autores mais associados às lendas do RS. Quais foram as contribuições do autor na tua avaliação?
Nunes - O escritor pelotense, autor de Contos gauchescos (1912) e Lendas do Sul (1913), trouxe grandes contribuições em relação às lendas do Rio Grande do Sul, e diferente de tudo o que apresentado por Cezimbra Jacques.
Uma de suas contribuições foi, primeiro, trazer a lenda de Sepé Tiaraju, índio guarani e missioneiro, não pertencendo a nenhum povo do Pampa. Foi algo novo e contrário de Cezimbra que apresentou o índio charrua. Em Sepé, Lopes Neto mostra aspectos encontrados na representação simbólica do gaúcho.
Sobre o poema Lunar de Sepé, Lopes Neto afirma tê-lo coletado de uma velha mestiça em 1902, porém não há provas concretas de isso tenha ocorrido. O fato é que esse poema serviu de base para uma representação simbólica muito usada, inicialmente para servir como elemento de uma representação simbólica de um espaço cultural e histórico. Mais tarde, foi assimilado por movimentos religiosos e campesinos como uma representação de defesa da terra e contrários à propriedade privada.
Em segundo lugar, criar uma literatura regional em que traz um personagem identificado com a região do Pampa, o vaqueano Blau Nunes, com seu vocabulário específico da região, vivendo alguns momentos históricos importantes do Estado.
Em Lendas do Sul, as lendas são apresentadas em um formato de texto que busca ser uma forma oral, ou seja, como se o autor tivesse transcrito a história tal como um contador de histórias a contou. Dessa forma, o autor pelotense dá às lendas um status e um reconhecimento popular.
Um de seus contos mais impressionantes, A Salamanca do Jarau, Lopes Neto traz novamente Blau Nunes. Nesse conto, que certamente foi inspirado em breves contos do livro Supersticiones del Rio de la Plata (1896), do espanhol radicado em Buenos Aires, Daniel Granada, o autor apresenta o vaqueano como sendo descendente de índia charrua, ou seja, aqui ele resgata a proposta de Cezimbra com relação à formação étnica do gaúcho.
Viver - Como essas lendas aparecem nas obras de Erico Verissimo? Qual é o tom utilizado para associar as lendas à história?
Nunes - Erico Verissimo não teve o propósito de um projeto identitário regional. No entanto, ele usou elementos da cultura regional para criar a sua obra maior, O tempo e o vento.
As lendas aparecem em partes diferentes e dentro de contextos que justificam o seu próprio uso. A primeira é de Sepé Tiaraju, em O continente. Nesse romance, Érico faz a sua leitura da ocupação do território através das Missões Jesuíticas. Um dos personagens, o garoto Pedro, vive em uma das Missões e tem visões que mostram o lado místico de Sepé Tiaraju. Inclusive, é esse menino que, através de visões, vem a saber da morte do chefe guarani no campo de batalha. No mesmo livro, no capítulo A Teiniaguá, a lenda é relacionada à personagem Luzia, filha de um homem muito rico que veio de algum lugar do Norte do País e se instalara na cidade de Santa Fé, onde ocorre toda a história. A personagem Luzia era dominadora e usava os seus atrativos para alcançar seus objetivos. A Teiniaguá da lenda era uma princesa moura enfeitiçada em forma de salamandra com a cabeça ostentando uma pedra que brilhava muito e, ao se tornar mulher, ela seduzia os homens. Foi essa a relação atribuída também à Luzia. No romance, o médico alemão, Carl Winter, foi quem percebeu essa relação, principalmente pelo brilho sedutor dos olhos da moça.
Em outro romance, O retrato, também da saga O tempo e o vento (que gira em torno das famílias Terra e Cambará), no capítulo Uma vela para o Negrinho do Pastoreio, a família Cambará está dividida por causa da política. Assim, a velha Maria Valéria Terra, com um castiçal e velas acesas, convida Floriano para ambos irem ao quintal acender uma vela ao Negrinho para que fosse encontrado o que a família perdeu. A lenda diz que se acendermos uma vela e a oferecermos ao Negrinho, ele encontrará o que o perdemos. Isso se refere mais aos objetos físicos, porém, no romance se trata de coisas subjetivas, como os próprios laços familiares.
Viver - Há uma centralidade de culturas indígenas entre as lendas do RS? Por que existem tantas lendas aqui com origem missioneira?
Nunes - Quanto à primeira pergunta, a resposta é não. Dependendo do autor, muda o tipo indígena. Cezimbra Jacques se referia ao charrua e ao minuano. Outros se referiam a Sepé, um guarani das Missões espanholas. De qualquer forma, são culturas totalmente diferentes que não têm um aspecto que as integre como um todo homogêneo.
Com relação ao tema dos povos indígenas do Rio Grande do Sul há muitos debates controversos e muito fortes. Primeiro, pelo fato de não haver um consenso quanto ao povo indígena que remete à representação simbólica do gaúcho. Cezimbra Jacques, por exemplo, destacou os povos charrua e minuano sendo seguido por outros autores regionalistas. Sobre esses dois povos pouco se conhece, pois foram se integrando e se miscigenando com o português, dando origem, segundo alguns autores, ao peão de estância. Daí vem a referência sobre a metáfora “centauro dos pampas” numa relação do gaúcho com o cavalo.
Por outro lado, a bravura guerreira está relacionada com Sepé, índio guarani das Missões espanholas. Só esse fato gerou fortes debates que resultaram em confrontos verbais muito graves entre os favoráveis e os contra a inclusão de Sepé Tiaraju na história do Rio Grande do Sul.
As lendas de Cezimbra Jacques eram basicamente charrua e minuano, porém ele nunca disse como, quando e onde as coletou. Nunca se buscou fazer registros dessas lendas antes de Cezimbra. As lendas missioneiras, por outro lado, podem ter explicação de serem mais frequentes, primeiro pelo fato de envolver o índio guarani. Suas lendas de origem são mais conhecidas que as dos charrua e minuano. Segundo, pelo fato de as Missões terem sido centros relativamente ricos na sua época. Os padres jesuítas organizaram as reduções em vários aspectos: a distribuição dos prédios, a produção de bens de consumo e agrícolas que geravam renda. Chegou um momento que a Coroa Espanhola temia o poder das Reduções. Finalmente, as Missões foram os primeiros povoamentos no Rio Grande do Sul. Os padres jesuítas já mantinham contato com o povo guarani desde muito antes da ocupação pelo português. Esse, por sua vez, nunca se preocupou em conhecer o índio do Pampa. Esse era simplesmente escravizado para trabalhar na lavoura e manter o sustento das cidades portuguesas da época. Importante lembrar que muitas lendas missioneiras falam de riquezas e tesouros enterrados, como é o caso de A Salamanca do Jarau.
Viver - Há pontos em comum entre essas lendas gaúchas que poderiam caracterizar o conjunto como um todo?
Nunes - Com relação às lendas que eu pesquisei, sim! Há um ponto em comum: a religião!
Em A Salamanca do Jarau, a religião está presente pela presença do sacristão seduzido pela teiniaguá. Esse mesmo sacristão recebe Blau Nunes na entrada da caverna onde está a teiniaguá. A própria descida de Blau à caverna está repleta de religiosidade.
Em Sepé Tiaraju, a religiosidade está fortemente presente. Em todas as referências a Sepé, a religião é o elemento fundamental para a própria lenda. Até por esse aspecto, Sepé recebe status de mito. Finalmente, o Negrinho do pastoreio tem por base a religiosidade.
Em outras lendas que não essas estudadas, pode haver algum aspecto de religiosidade, mas isso não necessariamente. Uma delas é a lenda das torres da igreja. Tudo isso, no entanto, não acontece com Cezimbra Jacques, à exceção de O Negrinho do Pastoreio.
Viver - Existe um debate, como tu apontas, se apenas a lenda do Negrinho do Pastoreio seria autóctone. Como tu avalias esta questão?
Nunes - Aqui podemos dizer que há uma disputa simbólica pela lenda. Durante o meu mestrado, um professor falou em um artigo que levantava a questão de que a lenda do Negrinho do Pastoreio não ser originária do Rio Grande do Sul, mas de outras regiões do País. Isso, no meu entender, está fora de questão!
A primeira ocorrência da lenda é de 1857, num artigo de Antônio Maria do Amaral Ribeiro, vice-cônsul português em Porto Alegre, para o Almanach de Lembranças Luso-brasileiro, de Portugal. Esse artigo está digitalizado e disponível na internet. O autor é bastante cético e considera a lenda uma superstição da plebe da província do Rio Grande do Sul. Em outras obras antigas de origem espanhola, há a referência a essa lenda que relaciona o Negrinho a um estancieiro. Ainda no século XIX, há várias citações dessa lenda como sendo originária do Rio Grande do Sul.
O que leva ao debate são referências a um negrinho em várias lendas, porém todas elas trazem os traços de um menino que se assemelha ao Saci Pererê. Autores como Teshauer e Basílio Magalhães apresentam estudos nesse sentido e alguns querem relacionar com o Negrinho do Pastoreio.
O que diferencia um do outro? Para o Negrinho do Pastoreio, basta acender uma vela e fazer um pedido. Além do mais, ele tem uma personalidade e índole totalmente diferente do Saci, que necessita até de uma oferta de fumo. Como disse Roque Callage, a única coisa semelhante entre os dois é o fato de serem afrodescendentes. Não há outra ligação.

* Thaís Seganfredo é jornalista formada pela Ufrgs, editora do site Nonada - Jornalismo Travessia e sócia-diretora da agência Riobaldo Conteúdo Cultural.
 
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