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reportagem cultural

Notícia da edição impressa de 12/06/2020. Alterada em 12/06 às 16h54min

Diários em textos e imagens ressurgem com força em tempos de isolamento social

Fotojornalista Jonathan Heckler usou técnica da câmara escura para levar 
a rua para dentro de casa

Fotojornalista Jonathan Heckler usou técnica da câmara escura para levar a rua para dentro de casa


JONATHAN HECKLER/DIVULGAÇÃO/JC
Priscila Pasko*, especial para o JC
Contar os dias durante a quarentena, por vezes, não basta. É preciso narrá-los, dar sentido às semanas que se empilham umas sobre as outras. Aos que podem manter o isolamento social em casa, fica o desejo de dar corpo à saudade, às tarefas que se acumulam ou às reflexões que invadem os pensamentos. Antes da pandemia, a impressão de que eram as pessoas que passavam pelo tempo, com toda a sua urgência. Agora, é o tempo que passa por elas. E muito devagar.
Contar os dias durante a quarentena, por vezes, não basta. É preciso narrá-los, dar sentido às semanas que se empilham umas sobre as outras. Aos que podem manter o isolamento social em casa, fica o desejo de dar corpo à saudade, às tarefas que se acumulam ou às reflexões que invadem os pensamentos. Antes da pandemia, a impressão de que eram as pessoas que passavam pelo tempo, com toda a sua urgência. Agora, é o tempo que passa por elas. E muito devagar.
Os diários têm proporcionado esta possibilidade de ser e de estar no mundo. Iniciativas surgiram nas redes sociais propondo o compartilhamento de relatos durante a pandemia, sejam eles escritos, desenhados ou fotografados. O Diário da pandemia é um deles. Criado pela escritora Julia Dantas, o blog conta com depoimentos desde 18 de março, dia inaugurado por Julia. Na sequência, ela passou a convidar amigos e conhecidos para também contribuírem com o blog.
Dos primeiros textos até os mais recentes, a escritora observou mudança nas narrativas. Após o começo de caráter incrédulo, houve uma sutil tendência à melancolização dos relatos, que ganharam tons de bom humor: "O que talvez mostre que as pessoas estão aprendendo a lidar com a nova rotina e conseguindo retomar práticas de sobrevivência e de manutenção de vínculos afetivos, como a capacidade de rir de si mesmo".
Para a escritora, essa postura é uma demonstração de que as pessoas estão ganhando autonomia subjetiva dentro de um contexto com pouca autonomia prática. "Não podemos fazer muito pelo mundo neste momento, mas podemos criar um mundinho próprio dentro das nossas cabeças."

10 VIV REPORTAGEM CULTURAL DIÁRIOS - diário fotográfico com filha - Crédito JONATHAN HECKLER DVG
Profissional das imagens está em quarentena com a família desde a segunda semana de março
JONATHAN HECKLER/DIVULGAÇÃO/JC
Foi o que Olívia, de cinco anos de idade, pôde vivenciar dentro de casa: árvores, residências e carros sendo projetados sobre a cama, nas paredes e nos móveis. Estava ali o mundo que ela já conhece, mas do qual precisa se manter distante. Foi o pai da menina, o fotojornalista Jonathan Heckler, que, em uma ocasião, levou a rua para passear no quarto. Ele usou câmara escura, técnica usada nos primórdios da fotografia. A luz do cômodo é isolada com um pedaço de papelão. Do pequeno furo que ele faz, passa a luz, que, após atingir a rua, penetra no orifício e se projeta na superfície do ambiente.
Essa foi uma das maneiras que ele encontrou para narrar os dias. Através das imagens que capta com a sua câmera, o fotógrafo compartilha algumas em seu perfil pessoal do Instagram, como uma espécie de diário.

11 VIV REPORTAGEM CULTURAL DIÁRIOS - diário fotográfico com filha - Crédito JONATHAN HECKLER DVG
Pai produziu para o Instagram uma espécie de diário fotográfico com a filha de cinco anos
JONATHAN HECKLER/DIVULGAÇÃO/JC
Jonathan, Olívia e a esposa, Fernanda, estão de quarentena desde a segunda quinzena de março. A vontade de registrar este período surgiu quando o fotojornalista percebeu a dimensão da quarentena.
Nas imagens, além da rotina da filha em casa, estão cenas dos trabalhadores dos serviços essenciais ou, ainda, a história de quem está desempregado e aguarda pelo auxílio emergencial. "Queria ter este registro para mim, para o futuro. Decidi que faria isso em casa, imerso e trabalhando de maneira documental, como eu não tive a oportunidade antes", explica. São novos ângulos e pontos de vista. Agora, como Jonathan mesmo fala, ele não sabe quando nem como a sua pauta vai acabar.

Criar um lugar para si

Diários de anotações do acervo de Marília Kosby
Cadernos de anotações de informações, contatos, endereços, apontamentos sistemáticos e objetivos da autora Marília Kosby
ARQUIVO PESSOAL MARÍLIA KOSBY/DIVULGAÇÃO/JC
Ainda que pareça uma novidade, sabe-se que o hábito de disseminar narrativas já existia nos e-mails e nas redes sociais. A psicóloga Gislei Domingas Lazzarotto comenta que, no contexto da quarentena, a prática do diário ocupa a função de encontrar-se consigo: "Uma tentativa de compreensão, percorrendo o que se vive a cada dia na mutação da existência que a pandemia traz".
Basta ler os diários que estão na rede para perceber semelhanças: o medo de morrer, a sensação de culpa por não ter se cuidado como devia, a angústia do retorno ao trabalho, a incerteza em relação à própria saúde e de seus familiares ou, ainda, a impossibilidade de estar com quem se ama.
Gislei acredita ser importante perceber que, entre medos e incertezas, existe um exercício ético a respeito do cotidiano vivido. "Somos inventoras dessa vida, tanto a que nos ameaça como a que está por vir, com necessárias mudanças. Talvez essa seja a grande pergunta que paira sobre nós e que os diários possibilitam explicitar: como chegamos até aqui?"

A casa que nos habita

Projeto Habitar a quarentena, da arquiteta Camila Thiesen, aborda a relação das pessoas com suas moradias
Projeto Habitar a quarentena, de Camila Thiesen, aborda relação das pessoas com suas moradias
NATÁLIA HENKIN/DIVULGAÇÃO/JC
"Não sei se habitamos a quarentena ou é ela que nos habita - sinto que houve uma fusão do meu corpo com a casa." Esse é um dos depoimentos do projeto Habitar a quarentena, uma espécie de diário fotográfico compartilhado no Instagram. Ali são reunidos, diariamente, registros dos cômodos de casas e apartamentos, dos instantes de intimidade, dos espaços que passaram a ganhar outro significado de seus moradores.
A arquiteta e urbanista Camila Thiesen, idealizadora de Habitar a quarentena, quis buscar respostas por meio do projeto, para saber a relação das pessoas com as suas moradias, e compreender como os atributos espaciais dos lares interferem no convívio dos moradores.
Apesar de ocupar uma rede social que privilegia as imagens, o elemento principal para participação no projeto é o relato. Já as fotografias servem de apoio, ajudando a ilustrar o que foi narrado.
Foi uma forma que Camila encontrou de escutar o que os colaboradores têm para compartilhar, como se estivessem falando com um amigo. Esses moradores relatam as dificuldades e os pontos positivos encontrados no período de quarentena em relação ao habitar - seja sozinho ou acompanhado.
Ainda é cedo para chegar a conclusões, porém Camila acredita que as pessoas começaram a perceber que morar bem é uma questão de qualidade de vida. Ela observa que, assim como os sujeitos devem ser resilientes a diferentes situações, as moradias precisarão acompanhar esse processo: "Será necessário saber ler e interpretar a rotina da família para situações usuais e para as atípicas. Só nos basta saber o que será o 'novo normal' daqui para frente, para poder prever soluções para os distintos cenários possíveis".
Não são apenas as experiências do dia que fornecem suporte às narrativas diárias, mas também as da noite, durante os sonhos. Considerado o criador da psicanálise, Sigmund Freud (1856-1939) já deixava explícita, na obra A interpretação dos sonhos (1900), a relevância deste universo onírico. Ali estão desejos, medos e traumas carregados, nem sempre assimilados pelo consciente.
Em razão do momento conturbado da quarentena, os sonhos - ou os pesadelos - têm recebido maior atenção. Para registrar o que o inconsciente coletivo está captando em época de pandemia, projetos estão coletando on-line relatos de sonhos, que podem ou não ser compartilhados - uma reprodução dos sonhários pessoais.

Sonhos durante a quarentena ganham o Instagram

Pesquisadora do imaginário, fotógrafa Anelise de Carli lançou perfil na rede social
Pesquisadora do imaginário, fotógrafa Anelise De Carli lançou perfil na rede social
ANELISE DE CARLI/DIVULGAÇÃO/JC
Uma das iniciativas é Sonhos da quarentena, idealizado pela pesquisadora e artista visual Anelise De Carli. O projeto tem como objetivo "elaborar um cenário do mundo interno e estimular a prática do pensamento por imagens".
O tema faz parte de uma pesquisa pessoal de investigação de imagens e do imaginário feita por ela. O link do formulário está disponível na biografia do perfil da artista no Instagram. Interessados podem responder de forma anônima e mais de uma vez.
Foram mais de 500 depoimentos recebidos em português, inglês e francês. Anelise conta que, por enquanto, entre as imagens recorrentes estão águas volumosas, ambientes fechados e escuros, bestas-feras e animais viperinos, paisagens distantes e abismos.
Relatar os próprios sonhos não é uma novidade para Anelise, que, desde 2012, anotava os seus. Escrevia eventualmente sobre os mais marcantes. "O sonho não precisa ser lembrado para cumprir a sua 'função'. Assim com o presente cumpre sua função quando é dado ao presenteado - que, depois, pode fazer o que quiser com ele -, o sonho cumpre sua função quando é sonhado", pontua a artista.
O cenário que a pandemia apresenta por si só explicita a sua gravidade. Mas os relatos que surgem nos mais diversos diários acabam expressando também os sentimentos, as observações e as reflexões de quem passa pela quarentena, oferecendo um recorte rico para futuras análises.
A professora do Programa de Pós-Graduação em História da Unisinos Maíra Ines Vendrame adverte que, mesmo sendo difícil, historiadores e cientistas sociais devem tentar manter distanciamento na hora de analisar. "Ainda que os diários possam trazer reflexões e observações, serão os sentimentos, como privações, medos, expectativas, dores e perdas - sejam elas financeiras ou, o mais grave, pessoais -, as marcas desses relatos."
Indagada sobre o contexto da pandemia no Brasil, a docente acredita que os diários são fontes de pesquisas alternativas na construção de uma narrativa extraoficial. "Não necessariamente será uma narrativa que se oporá à oficial, mas será confrontada com ela, produzindo um tipo de conhecimento histórico mais completo", ressalta.
Não existiria, segundo Maíra, uma única narrativa oficial, mas várias: a do governo Bolsonaro e seus aliados, a dos governos estaduais que seguem as orientações científicas, a dos ministros do Ministério da Saúde, que seguiam as recomendações da Organização Mundial da Saúde.
Além dessas narrativas oficiais, há as narrativas de jornais, cientistas políticos e sociais, historiadores e médicos de várias especialidades. Portanto, para ela, narrativas dos diários não devem ser tomadas isoladamente, sob o risco de tornar tais pontos de vista como sendo a expressão de uma realidade geral.

Descoberta do eu

Blog de escritoras, Os dias e as noites publica diários compartilhados
Blog de escritoras, Os dias e as noites publica diários compartilhados
/REPRODUÇÃO/JC
A expansão do diário e da escrita de si está ligada à época moderna, que é, também, a do individualismo. A professora do Programa de Pós-Graduação em História da Unisinos Maíra Ines Vendrame explica que o humanismo aparece como uma das características do Renascimento, no século XV. Ele acaba marcando o surgimento de uma nova percepção de valorização do ser humano e de suas capacidades. É esse movimento que se manifesta nas produções artísticas, propondo um retorno à arte clássica greco-romana, com representações que exaltam as qualidades dos indivíduos.
Apesar de a escrita de si estar ligada a esse período do Renascimento humanista, a professora atenta para o consenso entre os estudiosos de que a divulgação da prática se relaciona com o século XVIII. É quando os indivíduos "comuns" começaram a produzir uma memória de si.
Maíra comenta que cada contexto histórico apresenta motivações específicas. Mas, "atualmente, devido à presença das redes sociais pela internet, a escrita de si deixou de ser uma prática privada e solitária para se tornar pública, sendo disponibilizada nas redes para quem quiser ler".
É justamente essa a proposta de Os dias e as noites, rede de diários compartilhados que são publicados na internet. No site, qualquer pessoa pode pesquisar ou contribuir com o seu relato, seja qual for a temática. O envio se dá de duas maneiras. Uma delas é por meio de um registro feito diretamente na plataforma. Assim, adquire-se autonomia para o envio das publicações. Já do outro modo, os interessados podem encaminhar os seus relatos por e-mail.
Os dias e as noites foi idealizado pela escritora e professora do curso de Escrita Criativa e de Letras da Pucrs Moema Vilela. Ressaltando o caráter coletivo da proposta, ela trabalha em parceria com a jornalista Sheila Uberti, responsável técnica do site, e a escritora Julia Dantas, encarregada da curadoria dos textos. A identidade visual ficou por conta de Maria Williane.
A proposta surgiu, inicialmente, como exercício de produção textual para os alunos de Moema. A professora conta que o material a que teve acesso foi comovente e de qualidade literária. Foi neste período que ela mesma experimentou escrever diários, justamente para observar em si o que propunha às turmas. "Eu tive vontade de que houvesse um lugar em que qualquer pessoa pudesse se sentir convidada a contar sua história, o seu dia", comenta.
Já que a participação dos colaboradores é espontânea e o site não exige periodicidade, Moema sabe que o ritmo das postagens tende a ser menos dinâmico. E tudo bem, pois, para ela, o projeto aceita o tempo que as pessoas quiserem habitar os diários.

Escrita do movimento

Bailarina Vanessa de Ivanoff mantém, desde a adolescência, um diário de dança
Bailarina Vanessa de Ivanoff mantém, desde a adolescência, um diário de dança
CLAUDIO ETGES/DIVULGAÇÃO/JC

Os diários pessoais podem assumir muitas facetas, desaguando reflexões em vivências específicas: diários de sonhos, de desenho, de classe, de leitura ou de viagem. A bailarina Vanessa de Ivanoff mantém, desde a adolescência, um diário de bordo - diário de dança ou do corpo. Ali estão os registros de reflexões, questionamentos pessoais, sensações, orientações de professores, manifestações de alunos, textos que lê. Além disso, Vanessa descreve coreografias nos seus diários, ideias que surgem, estudos, exercícios e autoavaliações.

Aos 13 anos de idade, a bailarina já fazia anotações em seus diários sem saber exatamente o significado do gesto. "Escrever sobre o que a dança me proporcionava e sobre o meu corpo foi natural e intuitivo. Só mais tarde é que fui compreender a importância daqueles materiais. Eles contribuíam para o meu desempenho - tanto como professora quanto como bailarina." O tempo foi passando, e o hábito permanece até hoje, 26 anos depois.

Vanessa lembra que as notações de dança são remotas. Na Grécia Antiga, já se pintava o movimento humano. Também o coreógrafo francês Raoul Feuillet (1653-1709) costumava desenhar o que depois viria a se chamar "coreografia". Tal escrita, portanto, torna-se um método de registro fundamental para a preservação da dança, de seu estudo e aperfeiçoamento.

A literatura que nasce dos dias

Marília Kosby integrou equipe do Inventário de Referências Culturais da lida campeira na região de Bagé
Marília Kosby integrou equipe do Inventário de Referências Culturais da lida campeira na região de Bagé
/Acervo INRC-Bagé/MAURO BRUSCHI/DIVULGAÇÃO/JC
Em algumas áreas de atuação, como a Antropologia, a escrita do diário de campo é uma técnica metodológica valiosa, até mesmo fundamental, para o exercício da profissão. Muitos deles tornam-se livros. "Considero muito bonito o ato de publicar diários. É mais um jeito de a gente se reconhecer como comunidade científica. De aprender a ser antropóloga com as diferenças que existem no que fazemos, não só com o cânone e com as teorias já estabelecidas", comenta a antropóloga e poeta Marília Kosby.
Ela cita uma passagem da obra Família, fofoca e honra (Ufrgs, 2000, 245 páginas), da professora e antropóloga Claudia Fonseca, dizendo que quem não escreve diários de campo só vive uma vez. A depender dessa analogia, a poeta revisita suas vivências continuamente. No caderno de Marília, ela toma nota de informações, contatos, endereços, apontamentos mais sistemáticos e objetivos. Mas também narra, para ela mesma, acontecimentos extraordinários e os fatos mais banais das saídas de campo das quais participa.
A partir dessas experiências, um diário deu origem a outro. É o caso de Mugido - Diário de uma doula (Garupa, 117 páginas), publicado em 2017 por Marília. De forma sucinta - como se fosse justo resumir a profundidade e as reflexões acerca da opressão sofrida pela mulher do campo contidas nesta obra -, o livro traz poemas que falam da relação das mulheres com os animais do campo, principalmente as fêmeas. Na pesquisa que deu origem ao livro, Marília compunha a equipe de pesquisadoras do Inventário Nacional de Referências Culturais - Lida campeira na região de Bagé. O objetivo era registrar os ofícios de trabalhadores campeiros da região do Pampa brasileiro e suas fronteiras como patrimônio imaterial do Brasil.
Foi então que Marília voltou a Arroio Grande, na fronteira com o Uruguai, cidade onde nasceu e cresceu, para acompanhar o seu pai, veterinário, nos atendimentos pelas propriedades rurais do município. Era algo que ela costumava fazer quando mais jovem: acompanhar partos de vacas ou atendimentos individualizados. "Eu já não era mais uma guria ajudando o pai e a dona da vaca. Eu era uma mulher vendo outra mulher tentando salvar um animal de ser abatido pelo marido porque acabara de ficar estéril."
Assim, a antropóloga passou a narrar tais eventos ao seu diário. Começaram a surgir textos mais curtos, como poemas, intercalando as narrativas. Os eventos do passado ganharam uma carga nova e mais densa de significados, dando origem a Mugido.
 

Dicas de leitura sobre o tema

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Três obras de autoras mulheres tiveram origem em diários
/REPRODUÇÃO/JC
São incontáveis os exemplos de diários que escaparam das linhas íntimas dos cadernos e acabaram publicados mais tarde, sendo lidos até como romances. No entanto, o que é literatura, enquanto arte literária e das palavras, também depende do tempo histórico. É o que pondera a coordenadora do curso de Licenciatura em Letras da Uergs, Ana Maria Accorsi.
A professora reforça o tratamento importante que as escritas diaristas têm recebido. Algumas, inclusive, entrando em listas para concursos, inclusive no vestibular. Entre os exemplos, ela cita Minha vida de menina, de Helena Morley (pseudônimo de Alice Dayrell Caldeira Brant), escrito em Diamantina no final do século XIX. O diário foi mantido pela jovem entre seus 13 e 15 anos de idade, e publicado pela primeira vez em 1942.
 

Carolina Maria de Jesus (1914-1977) registrou vivência na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo
Carolina Maria de Jesus (1914-1977) registrou vivência na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo
IMS/DIVULGAÇÃO/JC
Outro caso é Quarto de despejo - Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). Nele, a escritora registra parte de sua vivência na favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, entre 1955 e 1958, e os seus esforços em criar os três filhos, em um cenário de pobreza, racismo e descaso político, mas também de muito lirismo.
A tiragem inicial de Quarto de despejo, lançado em 1960, foi de 10 mil exemplares, que esgotaram em três semanas. O livro foi editado em mais de 14 idiomas e publicado em mais de 40 países.
O que torna o diário interessante para o leitor, enfatiza Ana, é o fato de poder se transformar também em personagem. "Buscamos, além de conhecimento da vida de alguém, o prazer de se tornar voyeur, ou mesmo confidente da intimidade do escritor."

* Priscila Pasko é jornalista e escritora, autora do livro de contos Como se mata uma ilha (Editora Zouk, 2019).
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