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Reportagem Cultural

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reportagem cultural

Notícia da edição impressa de 14/11/2019. Alterada em 14/11 às 17h58min

Artistas negros recontam a história da arte do Rio Grande do Sul

Pesquisadora Izis Abreu investiga a participação de artistas afrodescendentes no sistema gaúcho

Pesquisadora Izis Abreu investiga a participação de artistas afrodescendentes no sistema gaúcho


MARCELO G. RIBEIRO/JC
Priscila Pasko, especial para o JC
"A história da arte do Rio Grande do Sul, quanto à presença e à representação de sujeitos negros, está inteiramente por ser escrita. Ela praticamente não existe." A fala é do professor adjunto de História e Crítica da Arte e de Metodologia e Prática do Ensino, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Igor Simões. A entrevista é feita em uma sala da Fundação Bienal, no 12° andar de um prédio no Centro de Porto Alegre. A vista da janela bem que poderia ser contemplada, não fosse a chuva formando uma cortina cinza em frente ao Guaíba.
"A história da arte do Rio Grande do Sul, quanto à presença e à representação de sujeitos negros, está inteiramente por ser escrita. Ela praticamente não existe." A fala é do professor adjunto de História e Crítica da Arte e de Metodologia e Prática do Ensino, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Igor Simões. A entrevista é feita em uma sala da Fundação Bienal, no 12° andar de um prédio no Centro de Porto Alegre. A vista da janela bem que poderia ser contemplada, não fosse a chuva formando uma cortina cinza em frente ao Guaíba.
Para o professor, que também é o curador educativo da 12ª Bienal do Mercosul, a história não pode ser avaliada apenas sob o viés cronológico e sincrônico. "Ela tem que ser anacrônica. Tem que dar conta de diferentes tempos. Tanto deste quanto de outros, para que a gente possa resgatá-la.''
Do alto da cidade, as buzinas dos carros que trafegam pela avenida Mauá servem de trilha sonora. Enquanto isso, Simões inverte a lógica da entrevista e lança mais perguntas - retóricas, é bom destacar - do que respostas à reportagem. "Onde estão os negros nas universidades do Rio Grande do Sul? Onde estão nos espaços decisórios? Onde estão os negros que pensam a produção artística, as curadorias, a escrita da história e da crítica de arte?", indaga.
Encontrar tais respostas não é tarefa fácil ao se tratar do nosso Estado. Sabe-se que profissionais negros do circuito das artes se destacam no Brasil, mas timidamente, sobretudo nos espaços mais prestigiados. Mesmo assim, a reportagem optou em direcionar o olhar para as lacunas existentes nos espaços institucionais, mais precisamente, em Porto Alegre.
Um desses hiatos é revelado na coleta de dados feita pelo Mulheres nos acervos, projeto que analisa a presença de autoria feminina nas coleções públicas de arte. As informações que indicam recorte de raça contam com a colaboração da pesquisadora Izis Abreu, que investiga a participação de artistas afrodescendentes no sistema da arte gaúcho, tema de seu mestrado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).
Os números revelam que, nos quatro acervos públicos da Capital - Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MAC-RS), Pinacoteca Barão de Santo Ângelo/IA-Ufrgs, Pinacoteca Aldo Locatelli e Pinacoteca Ruben Berta (ambas do município), 2.143 artistas são brancos e 34 são negros (24 são de origem asiática).

Uma nova geração se aproxima

Atuando no circuito 
das artes desde a década de 
1970, Paulo Chimendes
se considera uma exceção
Atuando no circuito das artes desde a década de 1970, Paulo Chimendes se considera uma exceção
LUIZA PRADO/JC
Um dos poucos artistas visuais negros gaúchos que compõe o acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli é Paulo Chimendes. As paredes do corredor de seu apartamento, localizado nas bordas da Cidade Baixa, estão forradas de desenhos, gravuras, pinturas e assinaturas das mais diversas. Ele começou a desenhar cedo, aos 12 anos de idade, tendo, entre seus professores no decorrer da vida, Paulo Peres, Vasco Prado e Danúbio Gonçalves. Também participou de salões e mostras, sendo premiado em seis delas.
Chimendes diz estar ciente de que foge à regra por ter conseguido participar ativamente, desde a década de 1970, do circuito das artes. Para o artista, um dos vários entraves para a fraca participação de artistas negros no cenário do Estado são as instituições. "Quando é que vão se abrir para isso, né? Eu sou exceção. Mas sei que, para alguns, se torna mais difícil entrar neste espaço. Eu tive apoio. E as pessoas que não têm?", questiona.
Em Porto Alegre, quem for até o Museu do Trabalho irá encontrar, entre os mestres, Chimendes, que ministra oficinas de litografia. Ele observa que, nas artes visuais, ao contrário de outras expressões artísticas, a presença de jovens artistas negros é mais discreta. E comenta a respeito dos alunos que procuram por suas aulas. "Não são muitos (os jovens negros), eles não chegaram ainda, mas eles estão se aproximando."
Igor Simões compartilha do mesmo ponto de vista. O professor acredita que, dentro de poucos anos, outros pesquisadores negros estarão pensando e produzindo arte no Rio Grande do Sul. "Não significa que não exista uma geração anterior. Mas o trânsito da turma que entrou nas universidades a partir das cotas é completamente diferente das anteriores", avalia. É sobre parte deste novo grupo, tão plural na forma de se expressar e refletir a respeito da condição dos artistas negros, que esta reportagem trata.

Narrativas que combatem estereótipos

Exposição Otacílio Camilo: estética da rebeldia, no Margs, é a primeira sob a curadoria de Izis Abreu
Exposição Otacílio Camilo: estética da rebeldia, no Margs, é a primeira sob a curadoria de Izis Abreu
MARCELO G. RIBEIRO/ARQUIVO/JC
Nas Salas Negras do Museu de Arte do Rio Grande do Sul (Margs), a mestranda em Teoria, Crítica e História da Arte (Ufrgs) e integrante do Núcleo de Curadoria do Museu, Izis Abreu, faz comentários a respeito da figura que empresta nome ao título da exposição, Otacílio Camilo: estética da rebeldia. A mostra, que segue até o dia 1 de dezembro, abre o ciclo de exposições Histórias ausentes. A iniciativa procura dar maior visibilidade a manifestações artísticas invisibilizadas pelo discurso hegemônico da história oficial.
Otacílio (1959-1989), artista intermídia, atuou na música, no teatro e nas artes visuais na Porto Alegre dos anos 1980. Era adepto do movimento anarcopunk, desenvolvendo uma produção de caráter existencialista e de problematização política e social.
Na época, participou de exposições coletivas, mas não conseguiu realizar as individuais. "Ele precisava de grana. Era negro, pobre, não tinha como bancar. Porque, além do dinheiro para fazer a exposição, tu tens que ter o capital social. Normalmente acontece isso com os artistas negros, a dificuldade de se inserir nos espaços e de se manter produzindo", lamenta ela.
Izis é a primeira mulher negra a realizar uma curadoria no museu, e a segunda a trabalhar em um dos núcleos do Margs (2018) em 65 anos de história do museu. Antes dela, entre 2000 e 2001, passou por ali Giane Escobar, que, na época, exerceu o cargo de coordenadora do Núcleo Administrativo, responsável executiva de várias mostras.
A exposição de Otacílio, a primeira curadoria de Izis, é um desdobramento do seu projeto de pesquisa para a obtenção do título de bacharela de História da Arte (Ufrgs). E outra apuração está a caminho em seu mestrado. Ela investiga as visibilidades e invisibilidades de artistas afrodescendentes no sistema da arte gaúcho, além das representações de indivíduos negros na história da arte no Brasil. "Os acervos das instituições estão repletos de obras que representam estereótipos sobre a população negra", adverte.
A ideia é construir outras narrativas. A curadora aponta que as pessoas negras estão quase sempre na condição de subalternas; as cenas são de sujeitos escravizados ou de trabalhadores submissos. Para isso, é preciso construir uma nova narrativa, sugere Izis. "As pessoas precisam saber que houve a construção da racialização e da estereotipação do sujeito negro na arte. Não podemos simplesmente apagar isso", ressalta.
Tentativas neste sentido já estão sendo feitas. Basta um observador atento localizar a nota fixada discretamente ao lado de uma gravura, de autoria de Xico Stockinger (1919-2009), em uma das galerias da pinacoteca do Margs. É ali onde estão reunidas mais de 100 obras, que celebram o centenário de nascimento do artista. A mostra segue até o dia 24 de novembro.
O texto de mediação - intitulado Drama social e existencial - destaca o apreço e a compaixão de Stockinger pelos oprimidos e pelas classes menos favorecidas. Entretanto, adverte que, sob o ponto de vista do olhar crítico de hoje, algumas dessas imagens podem reiterar estereótipos, principalmente em relação a figuras de mulheres negras.
A iniciativa faz parte das discussões compartilhadas entre as instâncias do museu, sobretudo dos núcleos educativo e curadoria. "Quando eu, homem branco, diretor de museu, estou aberto a estas atividades e participo delas, também estou sujeito a críticas. Mas não posso colocar um conteúdo em um espaço expositivo e achar que ele é neutro, isento, porque não é", enfatiza o diretor do Margs, Francisco Dalcol.
A sua gestão propõe descolonizar narrativas eurocêntricas e tensionar os relatos canônicos e dominantes no espaço. Mesmo assim, Dalcol refuta ser refém de um slogan. Comenta que, por vezes, as instituições "são cínicas quando abrem espaço, para dizer que estão fazendo a sua parte ou para 'pegar bem', quando, na verdade, as práticas internas não mudam".

O nome e os registros da ausência

De volta às ausências de artistas negros nos espaços das artes visuais, pergunta-se onde estão esses profissionais. O professor adjunto de História e Crítica de Arte e de Metodologia e Prática do Ensino, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), Igor Simões, acredita que a autocrítica precisa chegar até a norma. "Se, ao afirmar que 98% ou 99% do programa das exposições dos museus locais foram de exposições de artistas brancos, então os museus locais expõem brancos, e não os negros. Se, nas galerias de arte do Estado, 99% de artistas são brancos, então elas expõem e comercializam obras de artistas brancos. A gente tem que começar a dar a essa situação o nome que ela tem."
Contatada pela reportagem, a diretora da galeria Mamute, de Porto Alegre, Niura Borges, informa que o procedimento para seleção dos artistas representados tem a ver com "a qualidade da obra, com o comprometimento e a pesquisa desenvolvida pelo artista". Ela acrescenta que os critérios são indiferentes quanto às questões de gênero ou cor. O artista negro que está entre os representados é Emanoel Monteiro, que abriu a exposição de pinturas Tinha textura o meu silêncio no espaço, e que segue até o dia 29 de novembro.
Iriz Medeiros, da galeria Hipotética, também na Capital, concorda que há poucas obras de artistas negros em galerias, museus e no sistema de artes em geral. "É um reflexo da sociedade falha e da qual fazemos parte. A galeria tem pouco mais de quatro anos, e não tivemos nenhuma exposição individual de algum artista negro", conta Iriz, complementando que ocorreram apenas participações em exposições coletivas, como a dos artistas Leandro Machado e Wagner Mello.
Outro aspecto costuma ser mencionado pelos entrevistados: a baixa circulação de visitantes negros nas galerias. Não se reconhecer nestes ambientes é um dos motivos apontados. Em São Paulo, o projeto A presença negra, por meio de uma performance, chama a atenção para o problema. Um grupo de cerca de 10 artistas elege previamente para a visitação as galerias de maior prestígio da cidade.
"A visitação ocorre pura e simplesmente, ou seja, sem qualquer manifestação de 'bandeiras'. Apenas com a nossa presença no espaço, processando a interação com os convidados, sendo que a apreciação é o mote da ação", explica o fotógrafo, curador, pesquisador de artes visuais e idealizador d'A presença negra, Peter de Brito. Desde 2014, quando o grupo foi criado, foram realizadas 15 ações.
Ele conta que, durante a interferência, não observou discriminação ostensiva nos espaços visitados. No entanto, lembra que houve quem se sentisse constrangido com certos olhares nas galerias. "Em uma dessas, foi criada a situação mais constrangedora, pois a fotógrafa foi orientada no sentido de não fazer o registro de nossa presença."
Além de ser gritante a diferença entre raça, se colocados lado a lado artistas brancos e negros, existe, também, a distinção entre mulheres e homens negros. Resgatar as suas histórias e buscar por seu reconhecimento exige muito mais do que paciência. Mas os passos que chegam são firmes, soam em coro.
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Memórias bordadas, trajetória refeita

Mitti Mendonça e Pâmela Zorn têm obras na mostra Mulheres artistas na Pinacoteca Ruben Berta
Mitti Mendonça e Pâmela Zorn têm obras na mostra Mulheres artistas na Pinacoteca Ruben Berta
PINACOTECA RUBEN BERTA/DIVULGAÇÃO/JC
A artista multimídia e produtora cultural Mitti Mendonça vem de uma família de bordadeiras que preparavam roupas para o Carnaval. "Esperavam todo o ano para desempenhar essa performance, como rainhas, passistas, porta-bandeiras, baianas. Eram aclamadas ali na escola de samba", conta. A tradição - que, atualmente, apenas Mitti segue - habita as suas obras, um dom herdado das mãos de antepassadas. Enquanto narra como, aos poucos, foi se tornando artista, ela olha para o quadro Irani. O retrato da tia benzedeira, que empresta nome à obra, é margeado por linhas coloridas, colagens e lembranças do aroma de arruda.
Logo quando iniciou suas criações, ao trabalhar com recortes de revistas, Mitti percebia não existir referência de pessoas negras nas páginas. Foi então que recorreu aos álbuns de fotografia da família, e os retratos passaram a ser fonte de seu trabalho. "Essas mulheres não se entendiam como artistas. Mas olho para elas e suas criações, e as enxergo como produtoras de arte", afirma.
Irani está na exposição Mulheres artistas: tensões e reminiscências, na Pinacoteca Ruben Berta, no Centro Histórico de Porto Alegre. A mostra é promovida pelo projeto Mulheres nos acervos, criado em 2018. A iniciativa questiona a assimetria de gênero nas instituições públicas de arte de Porto Alegre. Ele é idealizado por quatro curadoras brancas: Cristina Barros, Marina Roncatto, Mel Ferrari e Nina Sanmartin.
Foram identificados, até o momento, 31 artistas homens negros e três mulheres negras: Maria Lídia Magliani (1946-2012), Candida Lygia Hanssen (1920-1943) e Rosana Paulino (1967). As duas primeiras são gaúchas. Lygia foi a primeira negra a frequentar o Instituto de Artes da Ufrgs, em 1937, mas não chegou a concluir o curso. Lídia foi a primeira a se formar.
Na Pinacoteca Ruben Berta, integram a coleção três artistas negros: Emanoel Araújo (1940), João Alves de Oliveira (1906-1970) e José Antônio dos Santos (1921-1982). Mulher negra, não há nenhuma. O acervo da Pinacoteca é fechado - foi constituído apenas pelas obras doadas na ocasião de sua criação, nos anos 1960, e não realiza mais aquisições. A concepção foi idealizada pelo jornalista e colecionador de arte Assis Chateaubriand. Mel explica que a seleção acabou impondo um modelo de arte modernista que, muitas vezes, inviabiliza o protagonismo de determinados grupos. "Os números, quando falamos de artistas mulheres, são menores. Quando falamos de artistas negras, é um abismo", lamenta.

Uma história a ser resgatada

Com projeto Arqueologia do Caminho, Leandro Machado percorreu zonas periféricas de Porto Alegre
Com projeto Arqueologia do Caminho, Leandro Machado percorreu zonas periféricas de Porto Alegre
PAULO CORREA/DIVULGAÇÃO/JC
Foi diante desses números que a exposição Mulheres artistas convidou três artistas negras contemporâneas para dar visibilidade à questão. Além de Mitti, também foram chamadas Pâmela Zorn e Virgínia di Lauro. A intenção é explorar novas possibilidades de diálogos com o acervo fechado, mostrando outras temáticas, mídias e suportes de representação.
As obras de Pâmela tratam de questões sobre impermanência. Ela é estudante de Artes Visuais na Ufrgs e faz estágio no Núcleo Educativo do Margs. A artista evoca os vazios por meio de elementos que relaciona com a imagem de desertos e sombras, por exemplo. A forma escolhida por ela para tensionar o diálogo e se fazer presente entre as demais obras da exposição, composta por artistas mulheres brancas, foi a autorrepresentação.
Ali está sua obra Esse corpo não é sujo. "Tem a ver com a questão da identidade. Misturo pintura e desenho, que estão sempre num limiar entre a abstração e figuração." Para a pintura, Pâmela usou lápis sanguínea em barra e sangue menstrual. "Vejo o sangue como elemento simbólico, porque é um tabu. Penso na mulher negra, que é vista como 'suja', mas que também é hipersexualizada e objetificada, sendo tratada com repugnância."
Em uma das galerias da Pinacoteca está a videoinstalação de Virgínia, com Para uma tarde de tédio e Fragmento desértico. A artista cria projetos experimentais, lançando mão de desenho, pintura, fotografia, vídeo, escrita, intervenções manuais e digitais.
Virgínia opta pelos vídeos criando um desvio, mas que também se liga com as outras obras. "Isso causa um tensionamento dentro do tensionamento, as obras do acervo expostas são pinturas em sua maioria, é como se criasse um outro diálogo sem perder a sintonia", comenta.
Ressaltar a pluralidade das técnicas e das temáticas é um movimento recorrente entre os artistas negros. Isso porque se costuma limitar ou exigir que esses grupos abordem assuntos exclusivamente raciais.
Igor Simões rebate: "Se a arte produzida por negros é arte afro-brasileira, qual é o nome da outra? Se chama 'arte branco-brasileira?' 'Eurobrasileira'?". Para o professor, ao artista, ou a qualquer profissional da arte, deve ser dada a possibilidade de tratar sobre qualquer assunto.
Ser um sujeito negro, acrescenta, parece estabelecer os limites daquilo que se pode falar para existir no sistema das artes. "Isso é uma batalha: ser negro, circular no sistema das artes, que é completamente branco, e poder falar daquilo que me interessa, e não só anunciar constantemente o fato de que sou negro."
A posição do artista visual Leandro Machado vai ao encontro da de Simões. Ele diz se perceber como um negro artista - "um homem negro que é artista visual - entre dezenas de outras tantas coisas". Sente-se no direito de falar, tratar, pensar, ou não, sobre o que bem imagina. Livre e sem guetos.
Machado ressalta que, em geral, questionamentos de raça não são dirigidos aos artistas brancos. "Mas seria interessante se fossem confrontados, por exemplo, com perguntas do tipo: 'como você se vê dentro desse mundo de inúmeros privilégios?'", pondera.
O artista visual Rommulo Conceição é baiano e mora em Porto Alegre desde 2000. Acredita que ele e outros artistas negros que não abordam de forma direta as questões raciais ficam à deriva.
Conceição encara isso como uma espécie de "reserva de mercado" e acrescenta que, durante a sua trajetória, o mundo das artes lhe ofereceu não apenas um público branco, mas "artistas brancos, críticos brancos, curadores brancos. Só a partir de alguns anos para cá um público e atores negros começaram a aparecer no meu repertório".
Reconhecer a autoria de produtores de arte negros e de outros grupos marginalizados pela história ocidental começa a entrar na pauta das principais instituições de arte do mundo. Em São Paulo, desde 2004, o Museu Afro Brasil busca reconhecer, valorizar e preservar o patrimônio cultural africano e afro-brasileiro. Localizado no Parque do Ibirapuera, o espaço de 11 mil metros quadrados abriga mais de 6 mil obras de autores brasileiros e estrangeiros, produzidas entre o século XVIII e os dias de hoje.
No Rio Grande do Sul, a história de sujeitos negros ainda está sendo resgatada e construída. Para Simões, o desafio, diante do cenário nacional, é provar que existem negros no Estado. "Há uma experiência que é própria da região, que tem a ver com o imaginário acerca do Rio Grande do Sul, um imaginário branco e europeu. É um estado que se imagina branco."

Bienal Black é atração na Capital

Com tema Mulheres (in)visíveis, exposição fica no CCCEV e outros locais até fevereiro de 2020
Com tema Mulheres (in)visíveis, exposição fica no CCCEV e outros locais até fevereiro de 2020
ISIDORO GUGGIANA/DIVULGAÇÃO/JC
Buscando evidenciar o trabalho criativo de mulheres, sobretudo de artistas negras, Porto Alegre recebe, neste mês, a 1ª Bienal Black Brazil Art. O evento segue até fevereiro de 2020.
O tema desta edição é Mulheres (in)visíveis. Com entrada franca, a bienal reúne mais de 300 obras - de 150 artistas plásticos de todo o País - que serão apresentadas, também, em Florianópolis (SC).
O acervo exposto em museus e galerias da Capital inclui pinturas, esculturas, videoarte, instalações, entre outros trabalhos. Diversas mesas de debate, intervenções e performances também estão na agenda das duas cidades. A curadoria é da museóloga Patricia Brito. Mais informações no site https://bienal-black-brazil-art.webnode.com/.

Priscila Pasko é jornalista e escritora. Integrou a coletânea Novas contistas da literatura brasileira (Editora Zouk, 2018) e recentemente lançou seu primeiro livro, Como se mata uma ilha, também pela Zouk.
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